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Novelas definem a família brasileira
David

 
Ter TV em casa é um fator de redução no número de filhos, já dizia a máxima universal, mas, no Brasil, o efeito é maior quando a TV exibe novela da Globo. Principalmente nas famílias de menor renda.
 
A constatação é do estudo Soap Operas and Fertility: Evidence from Brazil, que cruzou dados de censosdemográficos com os do avanço da cobertura da rede de televisão pelo território nacional ao longo de três décadas.
 
Alberto Chong, Eliana La Ferrara e Suzanne Duryea, os autores, mostram evidências de que as famílias urbanas, pequenas e felizes retratadas nas tramas globais tiveram forte influência sobre a redução da taxa de fertilidade, que caiu de 6,3 crianças por mulher em 1960 para 2,3 em 2000.
 
Mais do que valorizar métodos contraceptivos - o que não foi muito encorajado em boa parte destas três décadas -, as novelas venderam um modelo, copiado até mesmo no nome dado aos filhos dos casais telespectadores.
 
Novelas importadas não tiveram a mesma influência. Isso mostra como as tramas bem ambientadas na cultura local têm um grande poder de mudança de hábitos. É um dado importante para quem trabalha com projetos de merchandising social.
 
Não se pode desprezar, por outro lado, o poder do telespectador em influenciar e modelar as tramas das novelas. "É a chamada causalidade reversa", explica Chong em sua resposta a uma questão que lhe fiz. "De fato, isso pode ter ocorrido."
 
O resultado do estudo pode lisonjear a Globo, mas um detalhe lá no meio reforça a tese de que as novelas são um fator de sexualização precoce e aumento de risco de gravidez na adolescência. A faixa etária de 15 a 24 anos foi a única em que as mulheres brasileiras tiveram um nítido aumento de fertilidade no período pesquisado.
 
Segundo Chong e seus parceiros, o impacto das novelas na redução da fertilidade para esta faixa etária "não é estatisticamente significante".
 
Outro estudo da equipe, feito também para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mostra que as novelas provocaram também um crescimento forte do número de divórcios no Brasil.
 

 
Comentário:
 
Esse estudo já foi noticiado, mas merece ser lembrado, para nos servir como referência em discussões. Ele foi extremamente bem feito do ponto de vista científico, pois estuda a queda de natalidade e o divórcio, acompanhando a chegada do sinal da Rede Globo, nas cidades mais remotas. Com isso ele elimina outros fatores que poderiam ter influenciado na mudança de comportamento, como a escola, o médico e o padre - a não ser na medida em que esses também assistissem às novelas! Para cúmulo do rigor acadêmico, eles cruzaram os dados da queda de natalidade e aumento do divórcio, com a frequência com que os nomes dos personagens das novelas do ano eram dadas às crianças que nasciam nessas cidades: encontraram uma incidência 20 vezes maior de tais nomes no decorrer das novelas, o que prova o apreço que os pais tinham por elas.
 
O mais incrível é que os pesquisadores são favoráveis a tudo isso: controle da natalidade, divórcio e influência da televisão nos comportamentos e, em consequência, apresentam seu estudo como uma solução em merchandising social, ou seja, como criar uma nova mentalidade de maneira rápida e eficiente!
 
Deus nos ajude!
 
Lucia Zucchi

    Para citar este texto:
"Novelas definem a família brasileira"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/mundo/20090317a/
Online, 20/09/2017 às 18:43:34h