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Cientista coreano forjou dados de estudo de células-tronco embrionárias humanas


Cientista coreano pede perdão e se demite depois de painel confirmar que dados de estudo pioneiro foram forjados

O maior escândalo científico do ano terminou ontem com um envergonhado Woo-Suk Hwang se curvando diante de jornalistas e pedindo perdão a seu país, a Coréia do Sul, por ter causado "tamanho choque e desapontamento".

Um painel constituído pela Universidade Nacional de Seul confirmou que o cientista, pioneiro da clonagem humana, forjou dados de um estudo seminal de células-tronco embrionárias humanas, publicado em maio.

O painel de nove especialistas acusou o professor Hwang, pioneiro da clonagem terapêutica e decretado pelo governo "o primeiro grande cientista da Coréia", de "má conduta grave, que fere os fundamentos da ciência".

Hwang anunciou ontem mesmo sua demissão do cargo, em meio a uma grande comoção na universidade.

Insistiu, no entanto, que a tecnologia para criar células-tronco sob encomenda para o perfil genético de cada paciente foi desenvolvida pela Coréia. "Vocês vão ver isso", disse.

O veterinário coreano, de 52 anos, era considerado um ídolo em seu país por ter promovido a Coréia do Sul à linha de frente da pesquisa com células-tronco embrionárias humanas.

Essas células são consideradas uma grande promessa da medicina, porque têm a capacidade de se transformar em virtualmente qualquer tipo de tecido no corpo, o que pode tanto ajudar a decifrar o mecanismo genético de doenças degenerativas como o diabetes e o mal de Alzheimer quanto produzir tratamentos para esses males, no futuro, sem risco de rejeição.

O inferno de Hwang teve início no mês passado, quando alguns de seus colaboradores começaram a denunciar problemas éticos na pesquisa e romperam a parceria.

Um deles, Sung-Il Roh, afirmou ter comprado óvulos para os estudos que levaram à produção do primeiro embrião humano clonado, em 2004, e de 11 linhagens de células-tronco embrionárias derivadas de clones humanos, neste ano.

Ambos os estudos foram publicados com grande destaque pela revista científica norte-americana "Science" (http://www.sciencemag.org), uma das mais importantes do mundo.

Hwang admitiu problemas éticos e pediu demissão do cargo de diretor do Centro Nacional de Células-Tronco, criado para ele pelo governo sul-coreano -que se declarou "entristecido" ontem, com o resultado da auditoria.

Mas então as suspeitas passaram a recair sobre seu artigo científico de 2005, do qual ele mesmo pediu cancelamento à "Science".

O milagre da multiplicação

O painel da universidade declarou ontem que "os dados do laboratório para as 11 linhagens de células-tronco que foram reportadas no artigo de 2005 foram feitos usando duas linhagens no total".

Das outras nove, quatro grupos de células morreram devido a um acidente de contaminação e não puderam ser analisados.

Não há registros que provem que dois outros grupos são de fato linhagens de células-tronco e três eram colônias de células cuja identidade como células-tronco ainda não estava estabelecida quando o artigo foi submetido à "Science".

O painel não concluiu se os resultados-chave do experimento -ou seja, a criação de células-tronco embrionárias específicas para cada paciente, a chamada clonagem terapêutica- são válidos. Mais testes serão feitos.

Para criar os falsos resultados de DNA, afirmou a universidade, o grupo simplesmente dividiu células de uma paciente em dois tubos de ensaio para análise, em vez de comparar as células-tronco supostamente obtidas com as células originais de cada paciente.

A pró-reitora de Pesquisa da universidade, Jung-Hye Roe, declarou numa entrevista coletiva ontem que os dados sobre as células específicas para cada paciente "foram intencionalmente fabricados, não resultado de um erro acidental".

Embora houvesse dezenas de pessoas na equipe e a responsabilidade direta de Hwang no escândalo não estivesse claro, Roe acrescentou: "Não há como imaginar que o professor Hwang não estivesse envolvido".

Midas do avesso

As dúvidas agora recaem sobre todos os outros artigos científicos de impacto que tenham tido o dedo de Hwang recentemente.

A "Science" já está apurando o trabalho de 2004 no qual o coreano descreve a obtenção do primeiro clone humano.

E amostras de sangue de Snuppy (acrônimo para "Seoul National University Puppy", ou cãozinho da Universidade Nacional de Seul), o primeiro clone de cachorro, apresentado ao mundo em agosto, foram retiradas para análise de DNA.

"Se o estudo de 2004 for contestado, vai ser um golpe devastador", disse à Folha a geneticista Lygia da Veiga Pereira, da Universidade de São Paulo, que pesquisa células-tronco e lidera um dos grupos que receberam verbas do governo para criar as primeiras linhagens de células-tronco embrionárias humanas no Brasil.

"A gente vai ter um retrocesso [nessa área de pesquisa] se o [estudo] de 2004 não for confirmado."

Pereira se disse "chocada" com o resultado da auditoria e alertou contra a pressa "das pessoas" em incorporar dados científicos novos "como verdade" sem uma confirmação independente. (Com agências internacionais e "The Independent") (Folha de SP, 24/12)

Testemunha desmente o sul-coreano

A equipe que investiga as práticas fraudulentas usadas pelo cientista Woo-Suk Hwang interrogou ontem uma testemunha-chave para saber como ele falsificou os resultados do trabalho em que afirma ter criado 11 linhagens de células-tronco a partir de embriões clonados.

Sun-Jong Kim, um dos três pesquisadores da equipe de Hwang que agora trabalham na Universidade de Pittsburgh, voou para a Coréia do Sul na noite de sábado. O interrogatório varou a madrugada e só terminou às 6h.

Kim afirmou que Hwang o instruiu a submeter várias fotos duplicadas de colônias de células-tronco para fazer com que parecessem 11 linhagens separadas.

Hwang havia dito que Kim tinha misturado suas células-tronco clonadas com outras criadas em outro hospital. Kim negou. (O Estado de SP, 26/12)



    Para citar este texto:
"Cientista coreano forjou dados de estudo de células-tronco embrionárias humanas"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/mundo/20051226/
Online, 20/09/2017 às 19:04:11h