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Militares dos EUA tocam rap, pop e rock para torturar prisioneiros no Iraque e Afeganistão
Andy Robinson
"Te estrangulei até a morte ... depois quebrei tuas pernas", canta o "rapeiro" Eminem em seu CD "Slim Shady". É uma letra que ganhou relevância inesperada na última segunda-feira, quando se soube que esse disco, assim como raps de Doctor Dre, foi utilizado em técnicas de privação de sono, componente da tortura sistemática praticada em uma prisão militar dos EUA no Afeganistão.

Segundo um relatório da Human Rights Watch, "os detidos ficaram acorrentados à parede durante semanas, na escuridão" e às vezes eram "pendurados no ar". Durante todo esse tempo "foram submetidos a música rap e heavy-metal colocada no volume máximo".

É a nova música-tortura, que deixa os detidos desesperados, segundo os interrogadores. Na prisão de Guantánamo foram utilizados Eminem, Britney Spears, Limp Bizkit, Rage Against the Machine (simpatizante do regime de Fidel Castro), Metallica e até Bruce Springsteen, segundo Moustafa Bayoumi, pesquisador do Brooklyn College, em um artigo na revista "The Nation".

A canção "Bodies" (cadáveres), do conjunto de heavy-metal Drowning Pool, foi usada no Afeganistão e em Guantánamo. Haj Ali, o iraquiano torturado na prisão de Abu Ghraib no Iraque, que aparece na infame foto encapuzado e obrigado a ficar em posição de cruz, teve de escutar hora após hora, dia após dia, a canção "Babylon" de David Gray, executada a todo o volume em sua cela.

Já em liberdade, depois de seu calvário, o jornalista Donovan Webster lhe deixou seu iPod para ouvir de novo a música. Ali "arrancou os fones de ouvido e se desfez em soluços", lembra Webster. "Com a música-tortura, nossa cultura já não é um meio de expressão individual, mas uma arma", comenta Bayoumi.

Se os britânicos na Irlanda usaram o chamado "ruído branco" em seus interrogatórios aos republicanos irlandeses, os americanos preferem a música de seu país. "Essa gente nunca ouviu heavy-metal. Não o suporta", disse um interrogador de Guantánamo à revista "Newsweek". "Eminem para eles é tão estranho que enlouquecem", acrescentou outro no Afeganistão, citado pela ABC.

"É irônico, porque muitas canções de Eminem e Doctor Dre estimulam as vítimas de injustiças sociais a suportar e se rebelar", explicou a La Vanguardia Marcyliena Morgan, especialista em música hip-hop na Universidade Stanford.

Curiosamente, nenhum dos artistas americanos utilizados na tortura musical protestou. James Hetfield, vocalista da Metallica, até se mostrou "orgulhoso" de que sua música seja "culturalmente ofensiva" para os iraquianos.

Do niilismo patriótico do heavy-metal americano, as apologias à tortura chegam às faculdades de direito e filosofia de Harvard e Chicago.

Charles Krauthammer, colunista do jornal "The Washington Post" e prêmio Pulitzer, doutor por Harvard, eminente psiquiatra e ex-integrante do comitê presidencial sobre bioética, escreveu no semanário neoconservador "Weekly Standard" que "pendurar um homem pelos polegares não só é permissível como um dever moral", se assim se puder obter informações sobre um atentado com armas de destruição em massa.

Concordam com essa tese de sadismo utilitário outras eminências pardas como Alan Dershowitz, catedrático de direito em Harvard e autor de "The case for Israel" [A tese a favor de Israel], defensor de um quadro jurídico no qual se permita infligir "dor atroz" desde que não deixe seqüelas, ou de Fritz Allhoff, filósofo da Universidade Western Michigan. Allhoff sugere em seu artigo "Terrorism and torture" diferentes técnicas, "desde a banal --privação de comida-- até a criativa, por exemplo, arrancar as unhas". Inclui "cargas elétricas e asfixia por afogamento" entre os métodos de "tortura física e psicológica que devem ser permitidos".

É claro que muitos intelectuais americanos protestaram contra a normalização da tortura. No mês passado o Pen American Center em Nova York convocou 17 escritores --de Paul Auster e Salman Rushdie a David Eggers, Walter Mosley, Sandra Cisneros e Rick Moody-- para ler trechos literários em protesto contra a tortura.

"Fazia anos que lutávamos contra a tortura de escritores no estrangeiro, por isso estamos muito preocupados que os EUA também sejam culpados, porque enfraquece nosso argumento", disse Rushdie, que pediu apoio ao projeto de lei antitortura do senador John McCain, que reivindica os tempos anteriores ao 11-S, "quando éramos diferentes de nossos inimigos (...) jamais cometíamos abusos". No mesmo sentido, outro participante do ato no Pen Center, Phil Gourevitch, escritor do semanário "The New Yorker", leu um discurso de Lincoln de 1838.

Mas o passado sem tortura é outra falácia. Os EUA, como outros países ocidentais, colaboraram em torturas em várias ocasiões, desde El Salvador até o Vietnã. A diferença, explica Naomi Klein em "The Nation", é que este governo "exige o direito a torturar sem vergonha, de maneira legítima, com novas definições e leis". 

(destaques nossos)

    Para citar este texto:
"Militares dos EUA tocam rap, pop e rock para torturar prisioneiros no Iraque e Afeganistão"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/mundo/20051224_1/
Online, 24/04/2017 às 20:02:53h