Igreja e Religião

Como se sabota a ordem do Papa sobre a liberalização da antiga Missa em latim
Marco Politti


Louis De Lestang, católico tradicionalista de Versalhes, fala assim: "Há o padre que lhe diz que a antiga Missa é um problema para a unidade da paróquia. Há o cura que afirma que não sabe celebrá-la. Há o pároco que  responde que já tem duas ou três missas no  domingo de manhã, e que não pode fazer mais do que isso". Depois, há as autoridades eclesiásticas que colocam à disposição apenas uma igrejinha no campo, ou então um edifício maior, mas somente uma vez por mês.

A diocese repele os pedidos de "tom aggressivo", mas Louis, 33 anos, agente de turismo, casado, tendo cinco filhos, sustenta que na zona de Versalhes os grupos que pedem a missa em latim estão presentes na metade das três mil paróquias. Por vezes, trata-se de trinta, quarenta pessoas, por vezes até de  seicentas pessoas.

Há  quem possa assistir a missa tridentina todo domingo, quem pode isso a cada quatro domingos, e quem em nenhum. Então, Louis e seus amigos tiveram a idéia de organizar, ao fim do mês, um encontro nacional para aviar a aplicação do
Motu Proprio Summorum Pontificum, que desde 14 de Setembro de 2007 autoriza grupos estáveis de tradicionalistas a exigir, na paróquia, a celebração da Missa pré-conciliar.

As adesões estão chovendo. Tem razão Louis, têm razão os párocos.

Acontece o mesmo na Itália e nas outras nações européias. Os tradicionalistas, uma vez mobilizados, não encontram espaços adequados às suas exigências, enquanto os párocos – extenuados pela falta de clero, pelo acúmulo de paróquias, pelo correr daqui para lá, a fim de atender  as exigências de milhares de fiéis que pertencem a seu território – têm dificuldade para organizar uma pastoral paralela para um punhado de pessoas.

«Dêm-me tempo para aprender a celebrar a antiga Missa », exclamou um pároco toscano quando os tradicionalistas apresentaram-se na casa paroquial para pedir-lhe a Missa pré-conciliar. Porque o mecanismo do documento papal tem sua lógica inexorável.

Com João Paulo II cabia aos Bispos autorizar o antigo rito. A ordem de Ratzinger, em vez disso, transforma a questão em um direito dos fiéis tradicionalists, aos quais as paróquias devem garantir esse serviço.

Os párocos não estão convencidos disso, estão acostumados à liturgia pós-conciliar muito mais comunicativa, mais participativa e mais rica na utilização dos textos sagrados. Mas, sobretudo, os Bispos não estão absolutamente de acordo com a bondade do Motu Proprio que, de fato, permite uma espécie de Igreja paralela.

Se há uma reforma que nem a maioria dos Bispos, nem a maioria dos Cardeais queria, era essa. O jesuíta Tom Reese, ex diretor da influente revista América, nota: «Foi uma bofetada no episcopado ».

Na Itália, personalidades como o Cardeal Carlo Maria Martini, ou o vice presidente da CEI (Conferência Episcopal Italiana), como Plotti e Corti não esconderam suas fortes reservas ao Motu Proprio. O Bispo Brandolini, membro da comissão litúrgica da CEI, exclamou ao saber da notícia: «É um dia de luto,  afunda-se uma das reformas mais importantes do Concílio».

Se a Igreja católica fosse governada como as ortodoxas pelo princípio de decisões coletivas dos Sínodos, a mudança não teria sido autorizada.

Tipico é o que aconteceu em 23 de Março de 2006 no Vaticano. Bento XVI reuniu o colégio cardinalício para discutir a Missa em latim, e as relações com o movimento cismático lefebvriano. Os cardeais não têm problemas, sob certas condições, quanto à missa tridentina, mas em que a Santa Sé deve pedir aos lefebvrianos não só obediência ao Pontífice, mas «leal adesão» ao Concílio Vaticano II.

No mês de Junho passado, a comissão Ecclesia Dei (encarregada das relações com os tradicionalistas) mandou aos lefebvrianos um ultimatum, exigindo por parte deles obediêcia ao Papa e a renúncia a um magistério alternativo ao do Papa. Nenhuma palavra foi dita sobre o Concílio. Como se o parecer dos Cardeais, largamente partilhado nessa matéria pelo episcopado mundial, não valesse nada. Quando, em vez disso, é sabido que os tradicionalistas querem a Missa tridentina, mais do que por causa do latim, mas mais por seu espírito pré-conciliar. «Com Papa Ratzinger estamos voltando a Trento e a Lepanto», comenta Giovanni Avena, diretor da agência de informação religiosa Adista.

Resultado, os Bispos fazem corpo mole, repetindo que tudo vai bem, e prostrando-se em atestações de respeito ao pontífice.

Pergunto ao porta-voz do Cardeal Schönborn de Viena como vão as coisas, e o senhor Erich Leitenberger assegura que «nunca houve problemas », explicando que os pedidos de Missa antiga são limitados e, de todo modo, todo domingo pode-se assistir Missa no antigo rito numa igreja de Viena e numa capela de irmãs no décimo oitavo distrito. Também o Núncio do Vaticano, Monsenhor Farhat, a celebrou algumas vezes na igreja dos Agostinianos e dos Francescanos.

De Trier, o diretor do Instituto litúrgico, Monsenhor Eberhardt Hamon, faz saber que os «Bispos alemães não fizeram resistências », e que na próxima reunião plenária examinarão a situação. Monsenhor Hamon nota que os católicos alemães «estão satisfeitos» com o rito pós-conciliar, e que o rito antigo e o novo «não estão separados». Porque - sublinha - «o rito ordinario (de Paulo VI) é o ordinário».

Parece uma tautologia, mas não é. Vale como um sinal.

Os Bispos alemães, ademais, elaboraram linhas guias precisas para a aplicação da reforma papal.

Dias atrás, num congresso em  Roma, Monsenhor Camillo Perl, secretário da Comissão Ecclesia Dei, declarou, amargurado, que a «maioria dos Bispos italianos, com poucas admiráveis exceções, colocaram obstáculos ao Motu Proprio de Bento XVI». Depois, como se diz na pátria de Ratzinger, Monsenhor teve medo de sua coragem, e no jornal A República explicou que falara para um auditório «quase privado»,e que, quanto ao mérito da questão, «a Santa Sé nada declarou ».

Na CEI, não querem polemizar. Limitam-se a dizer que as decisões cabem aos Bispos e que o tradicionalismo é um «fenômeno de um pequeno núcleo». Além disso, para lembrar uma intervenção do Cardeal Bagnasco, em Setembro de 2007, que emana otimismo sobre a valorização do documento papal, mas previnia contra os que procuram o «próprio luxo estético, desligado da comunidade, e até em oposição aos outros».

Na Itália, depois das primeiras polêmicas do ano passado - na CEI, uma série de Bispos quis elaborar  linhas aplicativas como na Alemanha, mas os filo-papais impediram que fizessem isso. Então alguns padres anunciaram que «não voltariam ao passado». Um grupo de liturgistas publicou um manifesto de protesto – e se entrou então num tram tram soporífero.

Em Genova, a Missa tridentina é celebrada por Dom Baget Bozzo, em Milão há uma Missa em rito ambrosiano pré-conciliar, em Florença para os tradicionalistas há duas igrejas, em Palermo, em Napoli, em Bolonha, uma. Algum é  contentado na província. Um elenco provisório tradicionalista fala ainda de Missas pré-conciliares na diocese de Bolzano, em Turim, Legnano, Mantova, Gorizia, Pordenãoe, Trieste, Udine, Padova, Treviso, Venezia, Verona, Vittorio Veneto, Parma, Piacenza, Reggio Emilia, Rimini, Barberino, Filetto, Gricigliano, Piombino, Poggibonsi, Prato, Corigliano e Aulpi. Às quais se pode acrescentar uma outra duzia de iniciativas expontâneas. Mas, no total, no fundo, tem razão Monsenhor Perl. O presidente da associação tradicionalista Una Voce, o ex magistrado Riccardo Turrini Vida, nota: « uma modesta disponibilidade para aplicar as normas. Estamos bem longe de ter uma Missa, pelo menos, em cada diocese».

Em Roma, no passado mês de Junho, foi ianugurada com grande pompa na igreja da Trindade dos Peregrinos, uma «paróquia pessoal»  expressamente destinada aos tradicionalistas. No ano passado, puderam celebrar também em Santa Maria Maior. Porém, o apetite vem comendo. «São insaciáveis», disse o Cardeal Castrillon Hoyos, presidente da Ecclesia Dei, quando os tradicionalistas pediram que essa basílica ficasse exclusivamente à sua disposição.

Na diocese de Novara, o Bispo Corti removeu três sacerdotes que em suas paróquias haviam começado a celebrar apenas em latim, recusando o italiano com o brado «não somos juke-box».

A confusão -- o “pasticcio”—agora está feita.

Diz o Cardeal de Curia Herranz que o gesto do Papa Ratzinger tem o objetivo de «abrir os corações ao sentido de unidade da Igreja, para compreender que há muitos  espaços na casa de Deus ». Os críticos se entrincheiram  às costas do Cardeal Martini, que imediatamente anunciou que jamais celebraria a antiga Missa: «Não posso deixar de sentir aquele sentido de enclasuramento que emanava do conjunto daquele tipo de vida cristã assim como então se vivia».

MARCO POLITI


    Para citar este texto:
"Como se sabota a ordem do Papa sobre a liberalização da antiga Missa em latim"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/igreja/sabota-papa-missa-antiga/
Online, 25/05/2017 às 07:39:47h