Igreja e Religião

O Papa não vê a dor das pessoas, afirma Küng
Antonio Carlos Ribeiro

Essa é a opinião expressa pelo teólogo católico Hans Küng, presidente da entidade ecológica internacional Weltethos (Ética Mundial), na entrevista concedida no dia 20 de março ao repórter José Manuel Vidal, do sítio espanhol Religión Digital, por ocasião do lançamento do livro Verdad Controvertida , publicado pela Trotta Editorial.
 
Küng afirma que o Papa Bento XVI será julgado pela história como responsável pela maior propagação do vírus da Aids, por causa da condenação ao uso de preservativos, mesmo compreendendo que "a postura do Papa Ratzinger é consequência da Encíclica Humanae Vitae de Paulo VI . Uma Encíclica que excluiu todos os tipos de anticoncepcionais", especialmente em países com grandes maiorias ou minorias católicas, como na África, durante os últimos 30 anos, observa. "Mas agora se veem as consequências deste dogmatismo e deste moralismo rigorista do Vaticano".
 
O teólogo de Tübingen referiu-se ainda ao aborto, dizendo que lhe parece "verdadeiramente inútil que o Episcopado espanhol reinicie, novamente, velhas batalhas. Porque a do aborto é uma velha batalha, perdida de antemão". E insiste que "a hierarquia não tem por que abençoar todas as políticas do Governo. Os bispos podem criticar, mas não insuflar as massas. Se me permitissem dar um conselho, diria que não voltem às batalhas de ontem", mas sem se converter "num partido político. A Igreja não pode ser socialista, nem de direita, mas deve buscar a verdade", fazendo lembrar o caso recente da excomunhão, aplicada insensivelmente à família e aos médicos   a que interromperam a gravidez de uma criança de nove anos, vítima de estupro, gerando tal reação que a CNBB a deslegitimou e o L'Osservatore Romano a criticou.
 
Sobre o Papa, a quem recomendou como teólogo para ensinar em Tübingen, disse que é "daqueles teólogos que só querem conservar a tradição. Ele estudou muito bem Santo Agostinho , São Boaventura e outras teologias tradicionais e neoclássicas, mas sem propor ideias novas. Permanece no paradigma helenístico-romano- católico-medieval , com uma perspectiva muito restrita". Ao mesmo tempo, "não tem nenhuma simpatia pelos reformadores, é muito cético em relação ao Iluminismo e à modernidade. Neste sentido, ele tem uma visão muito restrita do mundo atual. Enquanto o mundo se move do paradigma moderno a um paradigma pós-moderno ou transmoderno, ele permanece romanista-cató lico, no sentido de promover uma Igreja medieval".
 
Para ajudar as pessoas a entenderem a diferença teológica entre ele o Papa, ele destaca que na década de 60, "eu, ao contrário de Joseph Ratzinger , tomei a decisão de não me comprometer com o sistema hierárquico romano nem colocar-me a serviço de uma Igreja clerical-centrista". A consequência dessa decisão é que "liberdade e verdade foram e seguem sendo dois valores centrais na minha existência intelectual. Nunca me considerei do número dos beati possidentes , aqueles que, cheios de felicidade e orgulho, acreditam estar de posse da verdade. Pelo contrário, me senti solidário com aqueles que buscam a verdade".
   
Sem meias palavras, Küng diz que o papado está "em crise total e sulcado por uma série de erros sumamente graves e que mudaram a posição do Papa na Igreja e no mundo. De tal forma que, pela primeira vez na História, o Papa teve que se defender escrevendo uma carta aos bispos, na qual reconhece que é um Papa falível". Fugindo à denúncia vazia, relaciona fatos. "Evidentemente, trata-se de erros de governo. E erros graves, que vão desde ofender os muçulmanos em Regensburg, os protestantes, os indígenas, e agora os judeus, com o caso dos bispos lefebvrianos" . Nesse caso, observa o mais respeitado teólogo católico, a situação é grave porque confirma o temor e a constatação de muitos fieis de que ele "quer relativizar o Concílio Vaticano II E a verdade é que iniciou uma clara política de restauração".
 
Na carta enviada aos bispos, o Papa "mostra somente uma dor pessoal, não vê a dor das pessoas. As dores de mais de 100.000 sacerdotes casados, que são excluídos do ministério. Não vê as dores dos divorciados. Não vê as dores das mulheres que têm que usar anticoncepcionais. Não vê a dor dos teólogos da Libertação, que ele, como cardeal, marginalizou e tratou de maneira não muito cristã" e, expressando a dor dos que sofrem sob esta orientação, constata: "Ele vê somente sua própria dor, seu próprio universo. Ele vê tudo desde o Palácio Pontifício, e praticamente não vê o mundo como é na realidade".
 
E conclui a entrevista apresentando propostas de reformulação a estalinha de ação. "A Igreja do presente e do futuro necessita aggiornamento e não tradicionalismo da fé e da doutrina moral; colegialidade do Papa com os bispos e não um centralismo romano autoritário; abertura ao mundo moderno e não de novo uma campanha antimodernista; diálogo também no interior da Igreja católica e não de novo a Inquisição e a negação da liberdade de consciência e de ensino; ecumenismo e não de novo a proclamação arrogante de uma única Igreja verdadeira", enfatizou Küng.
  
 
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"Immutemur habitu, in cinere et cilício: ieiunemus, et ploremus ante Dominum: quia multum misericors est dimittere peccata nostra Deus noster." Ioël. II, 13.
 
"Mudemos de vestido, cubramo-nos de cinza e de cilício: jejuemos e choremos diante do Senhor: porque é cheio de misericórdia para nos perdoar os pecados." Joel. II, 13.
 
Do blog de Sidney Rezende.

    Para citar este texto:
"O Papa não vê a dor das pessoas, afirma Küng"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/igreja/papa-nao-ve-dor-pessoas/
Online, 24/03/2017 às 18:56:56h