Igreja e Religião

Entrevista com Mons. Nicola Bux
Dom Stefano Carusi

 
A redação de Disputationes Theologicae, no quadro de um aprofundamento do debate sobre a liturgia e sobre a assim chamada “reforma da reforma”, entrevistou um dos mais conhecidos liturgistas: Mons. Nicola Bux. Nascido em 1947, ordenado sacerdote em 1975, fez pesquisas no Ecumenical Institute, no Biblicum de Jerusalém e no Instituto Santo Anselmo de Roma. Professor de teologia sacramentária na Faculdade teológica de Bari é dos mais estimados colaboradores do Santo Padre Bento XVI. Autor de numerosíssimas publicações de Teologia Dogmática e liturgica publicou recentemente o conhecido texto “A Reforma de Bento XVI”. Mons. Bux é hoje Consultor das Congregações da Fé e dos Santos, além de ser do Ofício para as celebrações pontifícias. E’ consultor da revista “Communio” além de ser um especialista em liturgia oriental.
 
Na foto: Mons. Nicola Bux
 
  • Monsenhor, o senhor é professor de Teologia sacramentárla e é também apontado como um dos peritos de liturgia mais próximos do Papa; sinal de que não se pode falar de liturgia sem doutrina?
Notoriamente, a liturgia pertence ao dogma da Igreja. Todos sabem que da fé da Igreja se alcança à liturgia e da oração se sobe ao dogma. Todos conhecem o adágio lex orandi lex credendi. E’ do modo de rezar que se compreende em que cremos, mas é também do modo de crer que deriva o modo de rezar. E’ o que foi retomado e sabiamente desenvolvido pela encíclica Mediator Dei do venerável Servo de Deus Pio XII.
 
  • Agora até os mais tenazes fautores de uma “revolução permanente” na liturgia parecem ceder diante das sábias argumentações do Papa, das quais há um eco claríssimo em seu livro. Estamos diante de uma nova (ou antica se se preferir) visão da liturgia?
A liturgia é, por sua natureza de instituição divina, essa se fundamenta sobre partes imutáveis queridas por seu Divino Fundador. Justamente em razão deste seu fundamento se pode afirmar que a liturgia é de “direito divino”. Os orientais não por acaso usam a expressão  “Divina liturgia”, pois que ela é obra de Deus, “opus Dei” diz São Bento. A liturgia não é uma coisa humana. No documento conciliar sobre a liturgia, no n. 22 § 3, se diz claramente que ninguém, mesmo se for sacerdote, pode acrescentar, tirar, ou mudar nada na liturgia. O motivo? A liturgia pertence ao Senhor. Durante a Quaresma lemos as passagens do Deuteronômio nas quais o próprio Deus estabelece até mesmo os paramentos para o culto; no Novo Testamento é o próprio Jesus que diz aos discípulos onde preparar a ceia. Deus tem o direito de ser adorado como Ele quer e não como nós queremos. Doutro modo, caímos em um culto “idolátrico”, no sentido próprio do termo grego, isto é um culto feito à nossa imagem. Quando a liturgia espelha os gostos e as tendências criativas do sacerdote ou de um grupo de leigos ela se torna “idolátrica”. O culto católico é em espírito e verdade, porque é dirigido ao Pai, no Espírito Santo, mas deve passar por Jesus Cristo, deve passar pela Verdade. Por isso é preciso redescobrir que Deus tem o direito de ser adorado como Ele estabeleceu. As formas rituais não são algo que se possam “interpretar”, visto que elas são saídas da fé pensada e tornada em certo sentido cultura da Igreja. A Igreja sempre se  preocupou em que os ritos não fossem o produto de gostos subjetivos, mas justamente a expressão da Igreja inteira, isto é “católica”. A liturgia é católica, universal. Portanto, também por ocasião de uma celebração particular ou em um lugar particular, não se pode pensar em celebrar em contraste com a fisionomia “católica” da liturgia.
  • Infelizmente estamos diante de uma atitude do clero que, ainda que não negando abertamente a eficácia dos sacramentos, desleixa freqüentemente demais o aspecto assim chamado do “ex opere operato” do sacramento, que, fazendo assim é reduzido quase apenas a “símbolo”. A causa está talvez também na perda da “ritualidade” tradicional?
Causa disso é sobretudo o esquecimento que o culto é prestado a Deus presente, a Deus operante e não a um Deus imaginário, isto é, a Jesus Senhor. O n. 7 da Sacrosanctum Concilium nos explica também os modos dessa presença. Tal artigo é tomado quase na íntegra da Mediator Dei (com o acréscimo da presença na Palavra). Aí se explica claramente que a liturgia tem a sua razão de ser porque Deus está presente, senão ela se torna auto referencial, torna-se vazia.
O esquecimento, a sub-valorização da presença do Senhor, principalmente na Eucaristia, onde Ele está verdadeiramente presente, realmente e substancialmente, é causa do deslizamento do qual o senhor fala. Com esse desleixamento chega-se a definir a liturgia como conjunto de símbolos, sinais, como hoje se ouve dizer; nesse quadro, “sinal” é entendido só como “referência a outro”, não há a idéia que o sinal é uma  só coisa com aquilo que ele significa. Aqui se entra no sacramento. Quando esse aspecto se perde os sacramentos são reduzidos a puros símbolos, não se fala mais de “eficácia”, dos efeitos que produzem; não é mais o Senhor que “faz”, que “opera”, por meio dos sacramentos. Esse é o significado da expressão clássica “ex opere operato”, um pouco estranha, mas que significa a operatividade do sacramento a partir dAquele que nele opera. Darei o exemplo de um remédio: na aparência você vê um ampola ou uma pastilha ou um líquido, mas essas coisas não são só o símbolo da cura que querem trazer, porque se os tomamos nos curam, isto é, se vêem os efeitos deles. O autor desse efeito é o Senhor presente e operante no rito sacramental. S. Leão Magno, citado no Catecismo da Igreja Católica, diz que depois da Ascenção tudo o que do Senhor era visível sobre a terra passou para os sacramentos. Assim, hoje, para nós o Senhor continua a estar presente e visível. A essa luz é que é preciso compreender São Tomás quando se exprime falando de “matéria” do sacramento. Se não voltarmos a esse modo de expressão realista não compreendemos os sacramentos. A presença divina não é só algo a intuir “simbolicamente”, mas é algo que toca  o homem por meio do sacramento, é algo que age. Eu mesmo posso atestar e comigo tantos sacerdotes, da cura de enfermos após a  extrema unção, mas também a cura da alma depois da confissão ou graças à freqüência da eucaristia. Os sacramentos têm efeitos, têm conseqüências em razão da causa. São as conseqüências da presença divina, que é o que opera na divina liturgia. Disse o Papa aos parócos de Roma que o Sacramento introduz o nosso ser no ser de Cristo, no ser divino.
Para além de certos utópicos que, com escasso sentido pastoral, quereriam uma restauração de tudo e já, devemos perguntar-nos como se pode agir suave, mas firmemente, na melhoria com gradualidade certos aspectos da liturgia. Como agir nesse processo tão necessario quanto longo? Como adaptar-se à realidade sem mil compromissos?
 
É preciso ter em conta o momento histórico que vivemos, em que se registra uma crise geral da autoridade, seja padre, do Estado, da Igreja (e na Igreja); como dizíamos arrisca-se por acabar numa concepção “made yourself”. Estamos hoje numa difusa anomia (ausência de lei), se bem que todos recorram à lei quando os próprios direitos são pisoteados.
Dos direitos de Deus, em vez, esquecemo-nos deles sempre. Como se pode pedir a observância das normas litúrgicas se antes não se explica o que é o “ius divinum” da liturgia? Hoje ninguém  sabe mais isso. Antes de tudo é preciso fazer compreender o sentido das normas. E’ um pouco como na moral, a determinação de uma lei se fundamenta antes sobre a compreensão de seus princípios, e é sabido que quando se fala de liturgia e de sacramentos há os retorno a pontos morais. Antes, dizia eu, é preciso compreender que o sentido das normas deriva da convicção que a “primeira norma” é adorar Deus - Adorarás o Senhor teu Deus e não terás outro Deus fora de Mim – não se pode prestar um culto à própria imagem, doutro modo se deforma a Deus. Hoje, não só nos imaginamos um Deus e depois inventamos o culto para esse deus inventado, mas sem mais imaginamos um culto sobre o qual nos inventamos um Deus. A idolatria significa “idéia torcida de Deus”. Esta é a realidade que nos envolve.
O Papa Bento XVI, na Carta aos Bispos na qual explica o sentido da revogação das excomunhões dos Bispos consagrados por Mons. Lefebvre, queria fazer compreender a quem o criticava de ocupar-se com problemas secundários como os problemas relativos à liturgia, que num momento em que o sentido da fé e do sagrado se está apagando em toda a parte, é necessário que justamente na liturgia se encontre a forma privilegiada de encontrar Deus. A liturgia é e continua a ser o lugar mais idôneo para encontrar Deus, e por isso o Papa, ocupando-se dessa questão, não está tratando de problemas secundários, mas de questões primárias. Se a liturgia fala de coisas mundanas como se fará para ajudar o homem?
Aos “utópicos”, é preciso lembrar que é necessária aquela que Bento XVI chama: “a paciência do Amor”.
 
  • O ofertório antigo, falava de Deus ao homem com a eloqüência de expressões profundas sobre o valor sacrifical, sobre a natureza da Missa, como sacrifício oferecido a Deus. Poder-se-ia pensar em uma correção do novo rito nesse sentido?
E’ importante que seja conhescida a Missa antiga, também chamada de Missa tridentina, mas que é mais oportuno chamar Missa “de São Gregório Magno”, como recentemente disse Martin Mosebach. Essa Missa tomou forma já sobo Papa Dâmaso e depois exatamente sob Gregorio, não com São Pio V, o qual procurou reordenar e codificar a Missa, tomando ato dos enriquecimentos dos séculos precedentes e abandonado o que tinha se tornado obsoleto. Com essa premissa vai conhecida antes de tudo essa Missa, da qual o ofertório é parte integrante. Houve muitos trabalhos de grandes estudiosos nesse sentido e muitos se interrogaram sobre a oportunidade de reintrodução do antigo ofertório, ao qual o senhor alude. Todavia somente a Sé Apostólica tem autoridade para atuar em tal sentido. E’ verdade que a lógica que foi seguida na reordenação da liturgia depois do Concílio Vaticano II levou a simplificar o ofertório, porque se considerava que  havia outras fórmulas de orações de oferta; assim agindo. Introduziram-se as duas fórmulas de bênção de sabor judaico, permaneceu a secreta tornada oração “sobre as ofertas” e o orate fratresfincado na tradição litúrgica romana, com a bizantina e com as outras liturgias orientais e ocidentais. A estrutura do ofertório era vista pelos grandes comentadores e teólogos da Idade Média como o ingresso triunfal de Jesus em Jerusalém, quando ia imolar-se em oferta sacrifical. Por isso as ofertas eram desde então ditas “santas”, e o ofertório tinha uma grande importância. A sucessiva simplificação da qual falei fez com que, hoje, muitos pedem o retorno das ricas e belas orações do “suscipe sancte Pater” e do “suscipe Sancta Trinitas”, só para citar algumas delas. Mas será através de uma mais larga difusão da Missa antiga que esse “contágio” do antigo sobre o novo será possível. Por isso reintroduzir a Missa “clássica”, que se me permita essa expressão, pode constituir um fator de grande enriquecimento. É preciso facilitar uma celebração festiva regular da Missa tradicional ao menos em cada Catedral do mundo, mas também em cada paróquia: isso ajudará os fiéis a conhecer o latim e a sentir-se parte da Igreja Católica, e praticamente os ajudará participar das Missas nas concentrações em Santuários internacionais. Nesse ínterim, é preciso também evitar reintroduções fora do contexto, quero dizer que há uma ritualidade ligada aos significados expressos, que não pode ser simplesmente reintroduzida inserindo uma oração,  trata-se de um trabalho mais complexo. e se as considerou mais que suficientes. Em verdade essa simplicidade, vista como um retorno à pureza antiga, está
A gestualidade e a orientação certamente têm uma grande importância, o que o fiel vê é reflexo de uma realidade invisível. A cruz no centro do altar pode ser o modo per recordare o que é a Missa?
 
Na foto: o Santo Padre celebra vltado para a Cruz
 
A cruz no centro do altar é a forma para ricordare o que é a Missa. Não falo de uma cruz “mínima”, mas de uma cruz tal que possa ser vista, a cruz deve ser de dimensões proporcionadas ao espaço eclesial. Ela deve voltar ao centro, no eixo com o altar, deve poder ser vista por  todos. Deve ser o ponto de cruzamento do olhar dos fiéis e do sacerdote, diz Joseph Ratzinger na “Introdução ao espírito da liturgia”frangente no qual a visão se tornou instrumento privilegiado por nossos contemporâneos, não se pode expor lateralmente uma pequena cruz ou um esboço incompreensível dela, mas é necessário que a cruz, com o crucifixo, seja bem visíveis sobre o altar, de qualquer ângulo que se a olhe.. Deve estar no centro em qualquer tipo de celebração, mesmo que ela ocorre voltada “em direção ao povo”. Insisto sobre uma cruz bem visível, doutro modo, a coisa oferece uma imagem que não é aproveitável adeqüadamente? As imagens se referem ao protótipo. Sabemos todos que houve também uma posição anti icônica, per exemplo, Epifânio de Salamina, como também  os cistercienses, mas  a ícone dulia prevaleceu depois com o Concílio Niceno II de 787, baseando-se no que dizia São João Damasceno: a imagem conduz ao protótipo. Isso vale ainda mais hoje naquela que se chama civilização da imagem. Num
 
  • Diante da redescoberta das exigências de que nos falou há, de todo modo, um passo difícil a dar que é o das escolhas práticas. Como agir?
Conforme minha submissa opinião a prioridade é fazer compreender o sentido do divino. O homem procura Deus, procura o sagrado e co que é sinal dele, na exigência natural de voltar-se para Deus e venerá-Lo, busca-se o encontro com Deus nas formas sagradas do rito. Quando se perde a verdadeira sacralidade do culto cristão, o homem continua a caminhar às apalpadelas, mas de modo torto porque está como perdido. Como pode então o  homem responder corretamente a essa exigência? Antes de tudo deve poder encontrar na Igreja o que é a definição por excelência do sagrado: Jesus Eucarístico. O Tabernáculo deve retornar ao centro. E’ historicamente verdade, que nas grandes basílicas ou nas Catedrais o tabernáculo estava em capelas laterais. Sabemos bem que com a reforma tridentina se preferiu recolocar o tabernáculo no centro, também mesmo para combater os erros protestantes sobre a presença verdadeira, real e substancial do Senhor. Mas é também verdade que hoje a mentalidade que nos envolve, não contesta apenas a presença real, mas também contesta a presença do divino. Na religião naturalmente homem busca o encontro com o divino, mas essa presença do divino, não pode ser reduzida a algo puramente espiritual. Essa presenáa deve ser “tocada” e isso não se faz com um livro, não se pode falar de presença do divino somente em termos relativos à leitura das Sagradas Escrituras. Certamente, quando a Palavra de Deus é proclamada se pode justamente falar de presença divina, mas é uma presença espiritual, não é a presença verdadeira, real e substancial da Eucaristia. Daí a importância do retorno à centralidade do tabernáculo e com ele à centralidade do Corpo de Cristo presente. O lugar central não pode ser a cadeira do celebrante, não é um homem que está no centro de nossa fé, mas é Jesus na Eucaristia. Doutro modo, acaba-se por comparar a Igreja a uma aula, a um tribunal deste mundo, em cujo centro sse assenta um homem.
 
O sacerdote é ministro não pode estar no centro, no centro está Cristo-Eucaristia, está o tabernáculo, está a cruz. Daí, se deve partir de novo. Doutro modo, se perde o sentido do divino. O tabernáculo é o que deve atrair como centro numa Igreja.
 
  • O Cardeal Castrillón na homilia de 24 de Setembro de 2007 em Saint Eloi dizia que a Igreja precisa de Institutos “especializados” na liturgia tradicional. O senhor também considera que os institutos hoje ligados  à Ecclesia Dei podem ter um papel na formação dos sacerdotes ou na redescoberta das riquezas da Tradição?
Certamente! Esses Institutos exercem um carisma, e um carisma é algo que, na Igreja, está a serviço da Igreja. Uma Diocese pode tirar grande fruto do fato ao valer-se da ajuda deles. Que teria sido do Franciscanismo, se o Papa não o tivesse reconhecido e posto a disposição para o bem de toda a Igreja?
 
aos cuidados de Dom Stefano Carusi
 
[Tradução: Montfort. Texto original em italiano em Disputationes-Theologicae ]

    Para citar este texto:
"Entrevista com Mons. Nicola Bux"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/igreja/entrevista-nicola-bux/
Online, 29/03/2017 às 23:47:39h