Igreja e Religião

«Bento XVI é movido por um conservadorismo profundamente arraigado»
Hans Küng

Um amigo da Montfort em Roma nos enviou esta interessante entrevista:
 

 
Assunto: Entrevista de hans Küng
 
‘Bento XVI é movido por um conservadorismo profundamente arraigado’, afirma Hans Küng
 
Hans Küng (Suíça, 1928) é um dos teólogos católicos mais importantes da atualidade. Ordenado sacerdote em 1954, contribuiu para elaborar a teologia orientada à reforma do Concílio Vaticano IIPor exigência de Roma, em 1980, a Faculdade Católica de Teologia o privou da venia docendi, mesmo mantendo-o como professor. (1962-1965) e ao diálogo ecumênico. Em 1966 convidou Joseph Ratzinger, o atual Papa, para ser professor na Universidade de Tübingen, onde Küng ensinava desde 1960. A ruptura entre os dois se deu em consequência da rebelião estudantil de 68. A publicação de seu best seller Christ Sein (Ser cristão) assim como a sua crítica à “infalibilidade” do Papa, lhe trouxeram problemas com o Vaticano.
 
Hans Küng concedeu uma entrevista a Joachim Frank  e que está publicada originalmente no jornal alemão Frankfurter Runschau. A versão espanhola da entrevista, a partir da qual foi feita esta tradução, está publicada no sítio Sin Permiso, 08-02-2009. A tradução é do Cepat.
 
Eis a entrevista.
 
Professor Küng, o Papa Bento XVI suspendeu a excomunhão de quatro bispos tradicionalistas. Entre eles há um notório negacionista do genocídio cometido contra os judeus europeus. Isso representa um ponto de inflexão no pontificado de Bento XVI?
Não. Constitui, antes, a provisória culminância de um movimento que, segundo se pode ver, vem de longe: o Papa Bento, infelizmente, embarca cada vez mais numa linha reacionária. Que, precisamente agora, quando se completam os 50 anos do anúncio do segundo Concílio Vaticano por parte de João XXIII, suspenda a excomunhão de pessoas que rechaçam os melhores resultados desse Concílio, é a gota que faltava.
 
Você disse que o Papa embarca cada vez mais. O Papa seguiu já outra linha ou isso era apenas uma ilusão de ótica?
Posso ilustrar isso com o meu próprio caso. Pouco depois de ser eleito em 2005, o Papa me convidou para a sua residência de verão de Castel Gandolfo, onde tivemos uma conversa de quatro horas. Foi um encontro muito amistoso. E isso, depois de 20 anos de total negação do diálogo por parte do Vaticano, inclusive o antigo Cardeal Ratzinger... Presumi que o convite que me fazia seria o primeiro de uma série de medidas inteligentes que o Papa se dispunha a tomar. Mas ele decepcionou o mundo. A partir de então, não mostrou o menor sinal de renovação; pelo contrário, não deixou de andar na contramão das conquistas do Concílio: na revalorização da velha missa em latim, na reintrodução da oração pela “conversão” dos judeus e, agora, até com a suspensão do castigo eclesiástico imposto aos inimigos do Concílio.
 
Assim que tiveram razão aqueles que nunca se fiaram nos novos modos moderados de Joseph Ratzinger?
Ele teve a oportunidade, como Papa, de imprimir uma nova linha, diferente daquela que imprimiu como Prefeito da Congregação para a Fé, encarregada de todos os procedimentos inquisitoriais. Mas não aproveitou consistentemente essa oportunidade, e agora volta a mostrar o seu velho rosto.
 
O que o move?
Um conservadorismo profundamente arraigado que, na atmosfera de mudança dos começos dos anos 60, chegou a superar por algum tempo. Mas, depois de três anos na Universidade de Tübingen, onde trabalhamos juntos de maneira construtiva, o choque que as revoltas estudantis de 68 produziram nele pôs fim a qualquer veleidade reformista. A partir de então, seguiu um curso estritamente reacionário, que perseguiu, primeiro, como arcebispo de Munique, depois como cardeal, e agora como Papa. Com grande prejuízo para a Igreja Católica.
 
E com a anuência de seu predecessor, o Papa João Paulo II.
Foi para ele que conduziu todos os procedimentos contra os teólogos rebeldes “de esquerda”. Nenhum deles conseguiu um trato tão excelente como este agora oferecido aos tradicionalistas. Além disso, Ratzinger contribuiu de maneira substancial para a elaboração dos documentos doutrinais mais reacionários de João Paulo II: pense, por exemplo, na posição doutrinal pretensamente “infalível”, segundo a qual o bom Deus não quer mulheres sacerdotes.
 
Por outro lado, no entanto, João Paulo II foi homem de grandes gestos reconciliatórios: oração das religiões pela paz em Assis, reconhecimento da culpa por parte da Igreja Católica...
E graças a esse sentido para os símbolos será lembrado. Ao contrário, o Papa Bento XVI corre grande risco de passar para a história como o Papa das brusquidões: primeiro, negou o caráter de Igreja aos protestantes, depois, em sua infeliz Conferência de Regensburg marcou o Islã com o estigma da desumanidade, e agora, ofende os judeus readmitindo na Igreja um negador do Holocausto.
 
É torpeza ou o faz propositadamente?
O faz de propósito. Ele é a favor da reconciliação com os judeus. Mas, teologicamente, sua relação com as outras religiões é confusa e espasmódica. E isso se manifesta particularmente na sua relação com o judaísmo.
 
Esta sua observação sobre o Papa vale também para a relação deste com os tradicionalistas? Dito de outra maneira: é algo mais que uma casualidade que um de seus bispos negue o Holocausto?
Desde já, sim. O antijudaísmo tem uma desastrosa tradição na Igreja Católica. E no aparelho burocrático vaticano há uma série de pessoas que pensam de maneira parecida com esses bispos apóstatas. Isso não quer dizer, claro, que discutam o assassinato de judeus, mas não têm sentimentos amistosos para com os judeus.
 
Que influência geral tem o staff da cúria romana na política do Papa?
Muita. Isso vem do fato de que o Papa não se preocupou em colocar pessoas novas e rodear-se dos melhores conselheiros. O que o faz de alguma maneira prisioneiro das pessoas que chegaram a ser o que são porque o Papa assim o permitiu. Mas eu creio que isso de modo algum lhe passa despercebido; acontece que não administra bem o aparelho.
 
O que nos aguarda?
Eu suspeito que o Papa Bento é suficientemente inteligente para dar-se conta da necessidade de corrigir o rumo. O que não é possível é que, por conta de um grupinho de católicos atrasados e reacionários, se afaste da simpatia de milhões e milhões de outros católicos que querem uma Igreja aberta, voltada à humanidade.
 
E se o que o move não é a “simpatia”, mas a “verdade”?
Então, tem que ater-se às resoluções do Concílio Vaticano II, sem ir constantemente na sua contramão. Um Papa que acredita poder ir contra um Concílio coloca em perigo sua própria autoridade doutrinal.
 
O que você, pessoalmente, sente quando o Papa, “por conta da unidade”, como ele mesmo disse, mima a ala direita da Igreja, ao passo que humilhou as forças orientadas à reforma, e para começar, a você mesmo?
É uma fraude readmitir bispos ilegalmente consagrados, sem prévio e claro reconhecimento por parte destes das doutrinas da Igreja católica. O velho Papa sempre havia exigido isso de maneira terminantemente clara. E, você sabe, eu sou um grande defensor da reconciliação. Mas, então, o Papa deveria oferecê-la, por exemplo, ao teólogo da libertação Jon Sobrino, de El Salvador, ou ao padre jesuíta norte-americano Roger Haight, que estão reduzidos ao silêncio com a proibição de publicar e manifestar doutrinas.
 
O que você aconselha aos católicos alemães?
Para a Igreja alemã é extremamente penoso que justamente um Papa alemão se comporte desta maneira em relação os judeus. Em todo o mundo se dirá: “claro, um alemão; não pode com os judeus”. Não é o que ele quis, mas essa é a impressão que, queira ou não, produz. Por isso, estou contente que os bispos alemães tenham se manifestado tão inequivocamente contra essas enormes besteiras do tradicionalista inglês. Mas não compete aos bispos alemães, mas sobretudo ao Papa, voltar a centrar finalmente um barquinho, a Igreja, que pende para a direita.
 
Considera a probabilidade de que isso ocorra.
No momento me limito a esperar. Talvez se deixe inspirar por Barack Obama, que em pouco tempo parece ter tirado os Estados Unidos da desmoralização e iniciado uma onda reformista, oferecendo às pessoas uma perspectiva esperançosa crível. Em abril passado, o Papa considerou conveniente celebrar o seu 81º aniversário em companhia de George W. Bush. Seria de esperar que agora o Papa não só celebre seu aniversário com o sucessor, mas que ele mesmo realize uma mudança, para que se possa, novamente, ser católico com alegria. Necessitamos de um Papa como Obama.

    Para citar este texto:
"«Bento XVI é movido por um conservadorismo profundamente arraigado»"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/igreja/conservadorismo-bento-xvi/
Online, 24/04/2017 às 18:11:37h