Igreja e Religião

Entrevista com Pe. Navas: Igreja tenta recuperar tradição com missas em latim na França
JAMES CIMINO
17/11/2006

O Instituto Bom Pastor, órgão criado pelo papa Bento 16 com sede na Arquidiocese de Bordeaux, na França, tenta recuperar a tradição da Igreja Católica ao criar um órgão que pretende restituir a chamada missa tridentina --rito tradicional que é celebrado em latim.

O decreto de criação do instituto é de 6 de setembro deste ano, e permitirá que padres de todo o mundo não sejam mais subordinados ao Concílio Vaticano 2º, concluído pelo papa Paulo 6º (1963-1978), que instituiu o uso das chamadas línguas vulgares na liturgia católica.

A medida visava facilitar a compreensão dos ritos por parte dos fiéis.

A missa tridentina, também é conhecida como missa de Pio 5º (1566-1572), foi celebrada durante mais de 15 séculos. No entanto, o decreto papal não pretende excluir, a princípio, as missas nas línguas locais.

 
O padre Navas, que dirige o Instituto Bom Pastor na América Latina, durante celebração de missa
Como a América Latina tem as duas maiores comunidades católicas do mundo (Brasil e México), a igreja enviou o padre Rafael Navas Ortiz do Chile ao Brasil para discutir a instalação do instituto com lideranças católicas de São Paulo e, também, com fiéis simpatizantes à idéia.

Navas foi escolhido pelo padre Philippe Laguérie --superior geral do Bom Pastor nomeado pelo Vaticano-- para ser o superior distrital do instituto na América Latina.

Navas foi ordenado em 1984 pelo monsenhor Michel Lefebvre, cuja notoriedade se deve à insubordinação ao Concílio Vaticano 2º e que, em 1988, foi excomungado pelo papa João Paulo 2º ao ordenar quatro bispos sem sua autorização.

Em entrevista exclusiva à Folha Online, Navas discorreu sobre as razões do papa Bento 16 ao recuperar essa antiga tradição católica. Leia a íntegra da entrevista:

Folha Online - A Reforma Protestante se baseou, entre outros princípios, na tradução dos textos bíblicos para as chamadas línguas vulgares, pois seus idealistas consideravam os ritos católicos herméticos e inacessíveis ao povo. Ao restituir a missa em latim, a Igreja Católica não estaria afastando ainda mais os seus fiéis?

Padre Navas- Afastá-los mais é um pouco difícil, porque já estão bastante afastados. Ao mesmo tempo em que ocorria a Reforma Protestante, igual número pessoas se vinculavam à igreja, na América Latina, e não sabiam nem sequer o castelhano, como os indígenas, que massivamente, na mesma época, convertiam-se com esta missa. O latim dá garantia de identidade com o passar do tempo. As línguas vivas vão mudando. O latim não. No entanto, sempre existiram dentro da igreja os missários com a tradução para quem queria compreender a parte material. Mas o fundo do mistério da missa é incompreensível racionalmente. Por isso estava em presença nossa fé. Foi esta fé que os indígenas intuíram, compreenderam e aceitaram, e explicaram os grandes doutores da igreja. É esta fé que hoje falta ao mundo, que a compreensão material fez perder o sentido sobrenatural, espiritual, transcendente, que é o verdadeiro vínculo com Deus. Quando se tem uma visão puramente horizontal, pois se pode compreender todo o idioma, mas não se compreende o essencial. Daí deriva essa separação dos fiéis, que o próprio papa João Paulo 2º chamara de apostasia [afastamento dos caminhos de Deus] silenciosa. Um abandono da fé sem ruído, que leva a igreja a essas estatísticas de participação verdadeira dos fiéis nos últimos séculos. O latim dá garantia e identidade.

Folha Online - Então essa iniciativa do papa é de buscar uma aproximação de Deus com os homens mais pela via espiritual e menos pela racional?

Padre Navas - Sim, mas de uma maneira que a via racional seja iluminada pela via espiritual. Não se renuncia à razão, nunca. Ela deve ser iluminada pela luz sobrenatural da fé. Um reconhecimento da autoridade divina. O papa percebeu isso. O que está se perdendo no mundo é a necessidade do sagrado.

Folha Online - Afirma-se que o avanço das igrejas evangélicas se deve ao fato de elas estarem mais próximas das expectativas que as pessoas têm sobre Deus atualmente. Essa iniciativa da Igreja Católica tem como intenção conter esse avanço?

Padre Navas - As igrejas evangélicas avançam na medida em que a Igreja Católica retrocede. Não apenas em número de fiéis, mas também em número de igrejas, com subdivisões permanentes. Porque não têm unidade de fé. O papa quer restabelecer essa unidade de culto e corrigir todos os abusos. Por isso mesmo nos chamou. Para que nessa unidade de culto, manifeste-se essa unidade de fé, que não têm os protestantes, pois crêem no querem crer. Sua autoridade são eles mesmos. A preocupação do papa é a unidade da igreja em torno da fé. A criação do Instituto Bom Pastor é apenas um passo. O próximo passo será certamente a liberação de todos os sacerdotes que queiram celebrar o rito tradicional.

Folha Online - O papa considera, então, que, na medida em que a igreja se adaptou aos avanços tecnológicos, culturais e sociais do mundo nestes últimos 40 anos, ela retrocedeu, ao invés de igualmente avançar?

Padre Navas - O papa encontra, neste momento, circunstâncias próprias para continuar ensinando a doutrina. Dizia-se que o século 21 seria a civilização do amor e, no entanto, é de conhecimento público que este é o século do terrorismo. Estamos diante de um desafio, que é o paganismo reinante no mundo, da descrença cultural acelerada, que tem como conseqüência a apostasia silenciosa, como disse o papa João Paulo 2º.

Folha Online - As igrejas teriam liturgias mistas, com a missa em latim e, no caso do Brasil, em português, ou isso será um processo gradativo até a total implantação da missa tridentina?

Padre Navas - São duas coisas distintas. Uma é a liberdade que todo sacerdote terá de celebrar o rito dos últimos anos, e outra coisa é o que o papa chamou de "a reforma da reforma". Como ficará, em termos práticos? Não sabemos ainda. O que sei é que o Instituto Bom Pastor tem como rito próprio e exclusivo o rito tradicional da igreja. Quer dizer que não será permitido a um sacerdote do instituto celebrar a missa nova, de Paulo 6º. Isso, obviamente, não impede que, em determinado momento, o papa dê ordens para que se vá impedindo os abusos que se vêem por aí, em que há padres que fazem sua própria liturgia, criando, modificando a seu bel prazer.

Folha Online - E outras cerimônias, como casamentos e batizados? Também seriam feitos em latim?

Padre Navas - Sim, porque é um seguimento da via paroquial. O Instituto Bom Pastor tem como objetivo criar paróquias personalizadas no ritual tradicional.

Folha Online - E o ensino religioso?

Padre Navas - Permaneceria como sempre foi. Orientar a inteligência pela fé.

Folha Online - Porque o latim é a língua própria do catolicismo, sendo que filmes como "A Paixão de Cristo", por exemplo, mostraram que Jesus falava aramaico?

Padre Navas - A língua da igreja se estabelece com sede em Roma, e latim era a língua do Império Romano, o que permitiu a expansão da igreja por todos os domínios romanos. Ela serve como veículo de identidade da fé. Se você vir escrituras do século 5º, do século 17, do século 19 e de hoje, é sempre a mesma expressão. Faz com que não haja essa mudança que há, por exemplo, nas obras de Santa Teresa em castelhano antigo, que hoje, traduzidas, não se entende. O próprio decreto do Instituto Bom Pastor é em latim, com uma tradução para o francês. Mas há, na missa tridentina, passagens em hebraico e, também, em grego.

Folha Online - Há um outro aspecto da missa tridentina, que determina que o padre esteja de costas para os fiéis...

Padre Navas - Eu preferia dizer que é de frente para Deus. O padre conduz uma procissão de frente para Deus. Muitos historiadores --e os liturgistas concordam-- que a missa sempre se celebrou com o altar oriental. Em todas as catedrais medievais o altar central está voltado para o oriente. Há uma explicação pedagógica. No oriente nasce o sol. Dele vem a luz, e Cristo é a luz do mundo.

Folha Online - O papa considera que o Concílio Vaticano 2º foi um equívoco?

Padre Navas - O papa considera que, naquele momento, ele foi feito com uma intenção pastoral. Mas ele sustenta que o objetivo do Instituto Bom Pastor é fazer uma crítica construtiva dos ensinamentos doutrinais daquele Concílio, para que a igreja manifeste uma interpretação autêntica.

Folha Online - A igreja se afastou do povo ou o povo se afastou da igreja?

Padre Navas - A igreja tem como missão sempre conduzir o povo. Agora, se os homens da igreja renunciam à condução do povo, cria-se um vazio. E é forçoso reconhecer, muito lamentavelmente, que esse vazio que se criou foi preenchido pelas seitas, especialmente na América Latina. É necessário que a igreja retome sua ação pastoral e doutrinária.

Folha Online - Qual a outra importância da América Latina para a Igreja Católica, além do número de fiéis que possui?

Padre Navas - Todos os países são importantes para a Igreja Católica, mas na América Latina se encontram mais recursos humanos e uma cultura que não foi tão deformada quanto a européia e a norte-americana. Há mais elementos da cultura católica, que nos dão mais recursos humanos para a conquista do mundo. A Igreja Católica não renuncia à conquista do mundo para Deus, que é sua missão

    Para citar este texto:
"Entrevista com Pe. Navas: Igreja tenta recuperar tradição com missas em latim na França"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/igreja/20061107/
Online, 23/03/2017 às 15:13:54h