Igreja e Religião

"Eu busco as ovelhas perdidas" - Entrevista com Pe. Krolikowski sobre o IBP
Marcim Wielicki

MARCIM WIELICKI – Padre, porque o senhor decidiu deixar a FSSPX?
 
PADRE LESZEK KROLIKOWSKI – O motivo direto que me fez deixar à Fraternidade foi a reeleição de Monsenhor Fellay, o Superior Geral, e a escolha do Padre Nicolas Pfluger com Primeiro-Assistente.
    Ambos representam uma ala que visa um fechamento cada vez maior da FSSPX.
    Monsenhor Marcel Lefebvre entendia a FSSPX como uma obra da Igreja e para a Igreja. É por isso que ele deu uma grande importância a ereção canônica da FSSPX no dia 01 de Novembro de 1970. Esta oficialização canônica, assim como a carta de elogios que se lhe seguiu da parte do Cardeal Wrigth, eram para ele o sinal de que ele se achava no bom caminho. Mas, atualmente, a FSSPX se torna um fim em si mesmo, e não quer mais servir a Igreja, o que devia ser sua missão segundo Monsenhor Lefebvre.
    A FSSPX colocou como condição de negociações com Roma a liberação da Missa Tradicional. Entretanto, quando se ouve o número dois da FSSPX na França, o Padre Durverger, dizer que a liberação da Missa Tridentina prejudicaria a FSSPX, porque desviaria os fiéis de suas capelas, pode-se por a pergunta: a condição colocado pela FSSPX é a expressão de um desejo sincero, ou um pretexto para não negociar com Roma?
 
MARCIM WIELICKI – Em quem base funcionará o Instituto do Bom Pastor?
 
PADRE LESZEK KROLIKOWSKI – O Instituto é uma Sociedade de Vida Apostólica como seriam só os Pallotinos, os Jesuítas ou a Fraternidade São Pedro. Ele depende diretamente da Santa Sé, que em seus contatos com o Instituto é representada pelo Cardeal Darío Castrillón Hoyos, enquanto presidente da comissão Ecclesia Dei.
    O Instituto tem o direito de fundar paróquias pessoais, funcionando com base num princípio semelhante ao do Ordinariato Militar.
    Coisa muito importante: a liturgia tradicional foi reconhecida como o rito próprio do Instituto, o que quer dizer, entre outras coisas, que os Padres do Instituto não podem celebrar a Missa posterior ao Concílio. Isto prepara o documento previsto para Novembro, que autorizará todo sacerdote do Rito latino celebrar publicamente a Missa Tradicional (Tridentina).
    O Instituto obteve o direito de criticar o Concílio Vaticano II de maneira construtiva, e mesmo, ele tem a missão de preparar sua interpretação autêntica pela instituição eclesiástica. Pode-se considerar, sem exagero, que esses direitos ultrapassam o que pedia Monsenhor Lefebvre que queria somente a liberdade para fazer "a experiência da Tradição".
 
MARCIM WIELICKI – Onde serão os priorados, os seminários do Instituto?
 
PADRE LESZEK KROLIKOWSKI – Já existe uma paróquia em Bordeaux, na Igreja de Santo Elói. Em Paris, existe o Centro São Paulo, que dá um ciclo de conferências, cursos de latim, filosofia, psicologia, línguas estrangeiras. É difícil dizer se ele vai ser transformado em paróquia, porque da Diocese de Paris existe a regra de que não se podem aprovar paróquias dirigidas por Institutos Religiosos. A única exceção, creio, são os Lazaristas. Ademais, a criação do Instituto, na França, provocou uma verdadeira fúria entre os católicos chamados progressistas, que começaram uma ofensiva através da mídia, contra o Instituto Bom Pastor. O Instituto funda também uma casa em Roma para os padres e seminaristas que estudam ai. É preciso acrescentar uma ou duas casas na América do Sul. É o estado do Instituto no dia de hoje. Penso que nos próximos meses isso possa mudar, e que teremos mais paróquias deste tipo. O seminário, dirigido pelo Padre Aulagnier, abrirá suas portas em Courtalain, perto de Chartres.
 
MARCIM WIELICKI – Como está a situação na Alemanha, visto que lá há lendas da luta pela Tradição Católica, como a dos padres irmãos Joseph e Stéphane Maessen, ou o cura Goesche?
 
PADRE LESZEK KROLIKOWSKI – Quem viver, verá. A notícia da criação do Instituto é muito recente para que se possam prever todas as reações. O fato que o Padre Pfluger tenha sido, durante vários anos, o Superior do Distrito [da FSSPX] da Alemanha, oficialmente, ou de fato, e que ele ai seja bem conhecido, tem seu papel. Na Alemanha, como em outros países, há muitos padres críticos com relação aos dirigentes da FSSPX. Por outro lado, não se sabe o que eles vão fazer.
MARCIM WIELICKI – E o senhor, onde estará?
 
PADRE LESZEK KROLIKOWSKI – Em Roma, começarei estudos para um doutorado de Filosofia no Angelicum [A Universidade de São Tomás de Aquino]. Eu espero que esses estudos não me impeçam totalmente o trabalho apostólico na Itália, na França, ou na Polônia, se for necessário.
 
MARCIM WIELICKI – Pode-se considerar que o Instituto se instale na Polônia?
 
PADRE LESZEK KROLIKOWSKI – Certamente, isto é para ser considerado. Mas, apenas há duas semanas da criação da Instituto, é cedo demais para marcar uma data ou um local concreto. Isto depende muito da reação que a ereção do Instituto causará entre os católicos poloneses, assim como da atitude dos Bispos poloneses.
 
MARCIM WIELICKI – Exatamente. A criação do Instituto é largamente comentada no meio tradicionalista polonês. O senhor tem alguma repercussão? O senhor tem entrado em contado com padres ou fiéis?
 
PADRE LESZEK KROLIKOWSKI – Pelo momento, eu não tive ainda grande repercussão, mas penso que isso virá logo. A lista de contatos com o clero, assim como com os fiéis, cresce cada dia.
 
MARCIM WIELICKI – O senhor não tem medo que o Instituto comece a fazer concessões ao modernismo, como aconteceu no caso de Campos, que antes declarava também fidelidade à Tradição e acabou com concelebrar a Missa com os modernistas.
 
PADRE LESZEK KROLIKOWSKI – Como eu já disse, os estatutos que foram aprovados pela Santa Sé, prevêem como rito próprio do Instituto, as Missas, os sacramentos e os sacramentais [por exemplo: consagração de uma Igreja, as bênçãos de medalhas, do escapulário, do terço] conforme o rito tradicional.
    Em princípio, portanto, os membros do Instituto não têm o direito de celebrar a Santa Missa num outro rito. Cada um de nós pode cair tão baixo quando cada um se permita. Isto concerne todos os mortais. Não há uma garantia absoluta. A única garantia absoluta é aquela que Cristo deu a Igreja, que as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Creio firmemente que, com a ajuda da graça divina, o Instituto permanecerá sempre fiel à Fé Católica.
 
MARCIM WIELICKI – Como o senhor avalia a situação na Igreja, quando de um lado se tenta proibir que os fiéis se ajoelhem na Igreja, e de outro se caminha para a liturgia gregoriana?
 
PADRE LESZEK KROLIKOWSKI – São Pio X tinha notado que os inimigos da Igreja se acham também em seu seio. Porém, mesmo entre aqueles que amam a Igreja reinam diferentes opiniões sobre as causas da crise na Igreja, e sobre os remédios como resolvê-la. Penso que o Instituto do Bom Pastor tem ai um importante papel a desempenhar – levantar a discussão sobre o Concílio Vaticano II, tendo sempre em vista o bem da Igreja. Certamente não é um papel fácil. A Igreja não sairá da crise de um dia para o outro, mas isso será fruto de um combate de longa duração, combate no qual o instituto conta participar.
 
MARCIM WIELICKI – Para concluir, que se pode desejar para o senhor e para o Instituto?
 
PADRE LESZEK KROLIKOWSKI – Antes de tudo, a benção divina e a proteção da Mãe de Deus, como também a fidelidade nos serviço da Igreja e a observação do espírito missionário que quer se procurem as ovelhas perdidas, tal como fez o Bom Pastor. E que a gente não se feche por trás de um muro com arame farpado, de medo de ser contaminado pelo "mundo mau". 
     Eu lhe agradeço.
(destaques nossos)

    Para citar este texto:
""Eu busco as ovelhas perdidas" - Entrevista com Pe. Krolikowski sobre o IBP"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/igreja/20060927/
Online, 27/06/2017 às 16:14:47h