Igreja e Religião

Papa Ratzinger readmite a ala direita anti-conciliar na comunhão eclesial

33545. ROMA-ADISTA. A tentativa de Bento XVI de recuperar em bloco os lefebvristas falhou (v. Adista n. 61/06) e o Pontífice reinante deve se contentar em fatiar os "tradicionalistas" acolhendo um pequeníssimo número deles na França, impondo aos Bispos de além dos Alpes a gerir as graves contradições que a escolha papal comporta, não o último risco de esvaziar de significado o Concílio Vaticano II.
No dia 11 de Setembro o quotidiano católico La Croix, junto com o Le Monde, noticiou que no dia 8 de Setembro o Cardeal Darío Castrillón Hoyos, como presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, publicara um decreto erigindo o Instituto do Bom Pastor, Sociedade de Vida Apostólica cuja sede será na igreja de Santo Elói, em Bordeaux, e que, enquanto de direito pontifício, dependerá diretamente de Roma.
O Instituto recebeu como "rito próprio em todos os seus atos litúrgicos", o missal de 1962, isto é, o Missal pré-conciliar, enquanto que "de um ponto de vista doutrinal", a sua "missão" será a de empenhar-se numa "critica seria e construtiva" do Concílio Vaticano II, "para permitir à Sé Apostólica de dar-lhe uma interpretação autêntica".
Neste novo Instituto se uniram cinco padres, um diácono e alguns seminaristas que, até há poucos meses, faziam parte da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, criada logo depois do Concílio por Monsenhor Marcel Lefèbvre para opor-se às "novidades" introduzidas pelo Vaticano II e manter viva “a tradição da Igreja de sempre". Em 1976, o "prelado rebelde" foi suspenso a divinis por Paulo VI; em 1988 ele foi excomungado por João Paulo II por ter, malgrado a proibição papal, consagrado – em 30 de Junho daquele ano – quatro Bispos (entre os quais Monsenhor Bernard Fellay, que em 1991, quando da morte de Monsenhor Lefebvre, tornar-se-á Superior Geral da Fraternidade).
Para enquadrar a recentíssima decisão vaticana é preciso lembrar que, desmentindo as decisões de Paulo VI e a reforma litúrgica por ele desejada (reforma que tinha abolido o uso do missal romano decretado por São Pio V em 1570 para aplicar o Concílio de Trento, missal cuja última edição típica era de 1962, antes da reforma litúrgica preconizada pelo Vaticano II), a Sagrada Congregação para culto divino, por vontade do Papa Wojtyla, em 3 de Outubro de 1984, com a carta Quattuor abhinc annos, havia atualizado o uso da Missa tridentina. Uma decisão que famosos liturgicistas católicos consideraram "grave" pelas suas perigosas conseqüências.
Pouquíssimos em número, os lefebvristas agora tornados à obediência de Roma são, porém, personalidades autorizadas no mundo do qual provém. Assim, o Superior do Instituto do Bom Pastor é o Padre Philippe Laguérie, um dos animadores da igreja parisiense de Saint-Nicolas-du-Chardonnet, centro dos "tradicionalistas". Em 1998 foi transferido à Bordeaux, onde tinha obtido da Prefeitura o uso da igreja de Santo Elói, numa decisão impugnada pelo Arcebispo da cidade, Monsenhor Jean-Pierre Ricard, que havia recorrido ao tribunal, que por fim lhe deu razão. Agora Laguérie volta à mesma igreja. Há ainda o Padre Paul Aulagnier, que foi, de 1970 até 2002, assistente geral da Fraternidade.
Como se chegou à escolha atual? Os lefebvristas tinham expressado a esperança que, uma vez tornado Papa, Joseph Ratzinger continuasse a obra por ele realizada como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e levasse adiante ainda com mais vigor a reordenação de uma Igreja abalada, segundo os sequazes do "Bispo rebelde", pelas"novidades conciliares". Tal esperança se fez mais forte depois que o novo Pontífice, em 29 agosto 2005, recebeu em audiência a Monsenhor Fellay. Guiadas, no fronte romano, pelo Cardeal Castrillón, prosseguiram então com mais intensidade as tratativas com Fellay, que tem seu centro em Ecône, na Suíça. Tratativas que chegaram às vésperas de uma conclusão que encontrava, porém, pareceres discordantes no Vaticano: por isso propositalmente Bento XVI, em 23 de Março de 2006 pediu o parecer dos Cardeais convocados para uma reunião plenária. No debate – se saberia depois – alguns purpurados mostraram-se favoráveis ao projeto de eminente "reconciliação"; outros, porém, mostraram-se perplexos, no temor que o preço a pagar fosse o sepultamento do Vaticano II.
Mas, em Julho, o capítulo geral da Fraternidade, exatamente pelas divergências sobre como relacionar-se com o Papa, afastou Laguérie e Aulagnier, [Nota do tradutor da notícia: Padre Laguérie e Padre Aulagnier foram excluídos há tempos já, e não no Capítulo Geral de Julho] pondo fim, assim, à lua de mel sonhada por Ratzinger que, portanto, decidia seguir a política de seu predecessor: tentar trazer de volta ao redil os setores distintos do mundo lefebvrista, na esperança de pouco a pouco erodi-lo. Com efeito, em 25 de Dezembro de 2001 o Papa Wojtyla, acolhera na comunhão o Bispo Monsenhor Licínio Rangel (consagrado em 1991 pelos Bispos lefebvristas excomungados em 1988) e um mês depois criou para ele, em Campos, Brasil, a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, na qual se tem o direito de usar somente o missal "tridentino".
Todavia, muitos se perguntaram o que resta, neste ponto, do princípio da liberdade religiosa proclamado pelo Vaticano II. Porquanto se tente dizer(e Papa Ratzinger o tentou no discurso de 22 de Dezembro) que o Vaticano II, colocado em seu tempo, concorda com o Magistério de Pio IX que negava aquele princípio no século XIX, poder-se-ia chegar ao fato que os lefebvristas "arrependidos" possam legalmente confrontar as afirmações capitais do Vaticano II.
Comentando o caso de Laguérie e de seus companheiros, Padre Rinaldo Falsini (que, no passado, já tinha criticado as motivações pelas quais se readmitiu a liturgia "tridentina": (v. Adista n. 53/03), declarou à nossa Agência:

"Não vi o texto recente mas, se os jornais bem reportam os acontecimentos, o fato de que se conceda ao Instituto Bom Pastor, como missão, o rito pré-conciliar, é verdadeiramente estranho e surpreendente. Um passo inesperado. Se este é o caminho seguido para buscar a reconciliação com os lefebvristas, trata-se seguramente de uma bofetada no Concílio, e também na interpretação dele dada até aqui, mesmo pelo próprio Papa. É inconcebível que o recém criado Instituto tenha como missão interpretar o Concílio sem nem mesmo aceitá-lo". 

            Entretanto Ricard – que é também presidente da Conferência episcopal francesa, e foi elevado à púrpura no dia 24 de Março passado – declarou ao jornal La Croix (11 Setembro) que a recente decisão "é uma decisão do próprio Papa, ele a quis. Quis fazer um gesto para aqueles que seguiram Monsenhor Lefebvre, para mostrar-lhes que podiam achar um lugar na Igreja". E, depois de ter atribuído ao Papa toda a responsabilidade, Ricard não teme colocar em evidência algumas"contradições" do acordo alcançado, enquanto esse permite ao Instituto Bom Pastor seguir somente o missal de São Pio V; e portanto, permite aos padres do Instituto recusar concelebrar a Missa do Crisma da Quinta-Feira Santa com todos os co-irmãos de Bordeaux, porque a Missa é celebrada conforme à liturgia reformada ("protestante", qualificam-na os lefebvristas).
A propósito o recém “reconciliado” Laguérie foi chicoteante:

"Vejo que hoje o Papa está se limitando em reconstruir um verdadeiro governo da Igreja para reintroduzir um pouco de seriedade na liturgia e na interpretação do Concílio. É uma mudança inexorável. Mas aquilo que é totalmente novo, é o dever do qual ele nos incumbe de celebrar segundo a liturgia tradicional da Igreja. Para nós não se trata de uma permissão, mas de uma obrigação. Isto significa que não será permitido aos nossos padres participar da concelebração, por exemplo da missa do Crisma. Isto constitui um problema teológico que, estou seguro disso, o Papa aplanará no futuro". 

            Sempre sobre o "não" à concelebração na Missa do Crisma no rito pós-conciliar, Nicolas Senèze comenta no La Croix

"Dado que este novo Instituto do Bom Pastor depende diretamente da Santa Sé, é real o risco de uma espécie de Igreja paralela
".

            E Henri Tincq, no Le Monde: 

"Os Bispos da França se arriscam a fazer triste figura diante daquela que parece ser uma curiosa concessão do Vaticano. Se o Padre Laguérie obteve do Papa a permissão de manter a antiga tradição litúrgica, nada indica que ele tenha aprovado o espírito e as reformas do Vaticano II, julgado diabólico pelos seus seguidores."

    Para citar este texto:
"Papa Ratzinger readmite a ala direita anti-conciliar na comunhão eclesial"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/igreja/20060918/
Online, 29/03/2017 às 23:40:30h