Igreja e Religião

A interpretação do Concílio Vaticano II - FSSPX - França



A propósito do discurso do papa Bento XVI,  22 de dezembro de 2005


 
 
Distrito de França – Suresnes,  21 janeiro 2006
 
No dia 22 de dezembro passado, o Papa Bento XVI pronunciava um discurso fundamental sobre a interpretação do Vaticano II. À primeira vista, este texto poderia parecer levar em conta as objeções dos tradicionalistas. Mas uma análise mais aprofundada revela no Papa atual uma forte ligação aos mais graves erros do Concílio, bem como uma vontade de enraizar o Vaticano II na Igreja, como um elemento chave de uma «nova tradição».
 
O discurso de 22 de dezembro, capital para o entendimento da evolução atual das mentallidades na Igreja, foi precedido por alguns fatos interessantes.
 
No dia 9 de novembro, por um Motu proprio, o Papa anulou as disposições estabelecidas em 1969 por Paulo VI, que concediam uma ampla autonomia aos franciscanos de Assis. Estes, dela muito se aproveitaram para dedicar à inovação litúrgica e pastoral. A partir daquela data, no entanto, eles se acham sob a direção do bispo do local, e deverão seguir as normas litúrgicas e canônicas.
 
No dia 1º de dezembro, foi uma carta da Congregação do Culto que, «em nome do Santo Padre», veio chamar às suas obrigações o «Caminho neocatecumenal», movimento até aqui fortemente sustentado por João-Paulo II. O fato mais notável é a ordem de  «não mais usar exclusivamente a Oração eucarística II, mas também as outras contidas no missal ».
 
No dia 8 de dezembro, quadragésimo aniversário do encerramento do Vaticano II, o Papa fez um significavo gesto...não fazendo nada. Ocasião em que João-Paulo II, sem dúvida alguma, teria reunido uma manifestação triunfalista para celebrar o sucesso do Concílio, Bento XVI dedicou o essencial do seu sermão à Nossa Senhora, ainda que fazendo uma introdução muito convencional relativa ao Concílio.
 
Mas todos estes atos, embora apresentem um grande interesse, são, no entanto, bem longe de ter a importância do discurso de 22 de dezembro.
Um discurso programa

A ocasião deste discurso é uma tradição iniciada por João-Paulo II: todo ano, pouco antes do Natal, o Papa recebe a Cúria para os votos de boas festas e aproveita para fazer um balanço do ano.

Um pouco menos da metade deste discurso é, portanto, consagrada a uma lembrança dos acontecimentos do ano que findou: a morte do papa João-Paulo II, aos JMJ, o Síynodo sobre a Eucaristia, e, evidentemente, a própria eleição de Bento XVI.

Pode-se salientar, neste panorama, a severa critica que o Papa faz sobre uma das teses essenciais dos promotores da Reforma Litúrgica:

«
Durante o período da Reforma Litúrgica, a missa e a adoração fora da missa eram geralmente consideradas como opostas: o Pão eucarístico não nos teria sido dado para ser contemplado, mas sim para ser comido, conforme uma objeção corrente na época. Na experiência da oração da Igreja, no entanto, manifestou-se a total falta de sentido de tal oposição.»

Bento XVI prossegue condenando esta crítica cheia de desprezo pela tradição eucarística católica.

Mas, « o núcleo » do discurso é um retorno ao Vaticano II. Este texto merece toda a nossa atenção, porque ele precisa o pensamento de Bento XVI sobre este tema crucial.
Um texto capital
A análise é muito ampla, com uma profunda densidade de pensamento. Percebe-se que Josef Ratzinger nela trabalhou muito e exprime uma reflexão do fundo do seu coração, que representa, sem dúvida alguma, o eixo maior do seu pensamento e da sua vida.
Comparativamente a João-Paulo II, difuso e muito complicado, Bento X VI é agradável de se ler, ainda que a nitidez do discurso requeirar atenção. As críticas geralmente feitas à filosofia alemã, de se tornar indecifrável por tantos neologismos obscuros, não cabem aqui.
O objetivo do papa se situa na continuidade do livro “Conversas sobre a fé (cf. Pe. Loïc Duverger, « Le retournement », Fideliter 169). Os dois pontos mais significativos do texto abaixo são sua característica sintética, e, em seguida e principalmente, o fato de não mais se tratar de um escrito do teólogo Ratzinger, mas de um ato do Papa Bento XVI.
Uma vontade de esclarecimento
O soberano pontífice, e aquí está todo o interesse da sua intervenção, aborda com determinaçõ a questão do estatuto exato do Concílio, que envenena a Igreja há quarenta anos.  Nota-se que ele desejaria, por esta tentativa de esclarecimento, livrar o caminho para a Igreja.
As questões que nos parecem essenciais para a solução da crise são abordadas de frente, e constata-se com interesse que o Papa conhece, pelo menos em parte, as objeções apresentadas pela corrente tradicional.
Além disto, pode-se salientar a intenção louvável do papa de se inscrever na tradição católica, de querer seguir nesta linha. Nós veremos, ele não chega a isto concretamente, mas o simples fato de desejá-lo já é um avanço.
Por outro lado ( e isto é algo adquirido), Bento XVI tem a coragem de condenar com vigor certos erros. Entretanto, nós não devemos tomar este texto por aquilo que ele não é: o fim da crise da Igreja. O Papa procede como um cirurgião que recebe um homem acidentado. Há sangue por todo o lado, a roupa está rasgada, etc...O médico procura abordar a chaga e a lavá-la para que ela possa ser mais visível. Tal é o trabalho feito por Bento XVI neswte discurso de 22 de dezembro.
Mas, neste momento a ferida se apresenta com toda a sua gravidade, e é então que começa o tempo mais longo e complexo, de tratar dela. Do mesmo modo, na segunda parte do seu discurso, como veremos mais adiante no nosso Anexo, Bento XVI se mostra preso a certos erros, os mais graves do Vaticano II.
O desejo de inscrever o Vaticano II na tradição
A vontade do Papa, neste texto, é muito clara: mostrar que o Concílio pode e deve ser entendido, apesar de certas aparências contrárias, no reto fio da tradição católica, que ele se inscreve na continuidade de todos os concílios.
Para tentar comprovar exaustivamente este fator, Bento XVI aborda diversos temas conexos. Alguns de forma muito breve; por exemplo, só um único elemento da frase lembra a «relação entre a Igreja e a fé de Israel», um assunto importante do Vayticano II e do pensamento de Beneto XVI.
Outros são apresentados de modo mais aprofundado: a liberdade religiosa, a relação entre a Igreja e o mundo. O centro da sua apresentação é uma distinção sobre o modo de interpretar os textos do Concílio.
Este texto de 22 de dezembro é de tal importância e de tal densidade que será preciso dedicar-lhe muitos estudos teológicos bem aprofundados.
Neste trabalho, nós vamos nos limitar ano tema da «má » interpretação do Concílio, que nos permite vislumbrar todo o interesse desta tentativa de Bento XVI    de resolver o problema do Vaticano II, mas também seus limites e suas incoerências.
Uma crise depois do Concílio
Na sua análise, o operador começa por confessar, de moido franco, a crise pósconciliar:
«Ninguém pode negar que em grandes setores da Igreja, a recepção ao Concílio se desenvolveu de forma muito difícil.»
Ele volta por diversas vezes a este tema, por exemplo, salientando o erro daqueles que pensam que a abertura ao mundo acabaria com todas as dificuldades: eles « subestimaram as tensões interiores e as contradições da época moderna»,bem como « a perigosa fragilidade da natureza humana».
Disso resulta que, ainda quando o papa quer atribuir bons frutos ao Concílio, ele é obrigado a usar de circunlóquios, de nuances e de subnuances
« Hoje nós vemos que a boa semente, ainda que ela se desenvolva lentamente, ela cresce apesar de tudo»
As duas hermenêuticas
Para explicar esta crise, Bento XVI opõe duas interpretações (ele usa uma palavra mais técnica, «hermenêutica ») deste acontecimento. Uma, a má interpretação ou a má hermenêutica,  «criou a confusão». A outra, a boa, « trouxe e traz frutos».
O orador faz uma crítica metódica desta «má» interpretação, na base da « discontinuidade e ruptura ». Apoiada «pela mídia e por uma parte da teologia moderna», este interpretação afirma que o verdadeiro concílio não se acha nos textos votados entre 1962 e 1965, mas nos «movimentos em direção da novidade que aparecem por trás os textos».
Esta interpretação defende que só se é fiel ao Concílio, indo além da sua letra, fruto de compromissos pontuais e que não refletem senão de modo imperfeito a realidade do acontecimento conciliar. Bento XVI conclui com toda a severidade: «A hermenêutica da discontinuidade corre o risco de terminar com uma ruptura entre a Igreja préconciliar e a Igreja pós conciliar.»
A constituição essencial da Igreja
Neste pontora dea sua explanação e dea sua crítica à « má » interpretação do Vaticano II, o Papa apresenta um argumento novo e de grande interesse. Esta interpretação, diz ele, considera o Concílio « como um tipo de Constituinte, que elimina uma velha Constituição e cria uma nova». Ora, refuta ele, « os Padres não tinham tal mandato, ninguém jamais lhes dera aquele mandato e ninguém, de resto, podia dar-lhes, porque a constituição essencial da Igreja vem do Senhor».
O argumento, repetimos, é surpreendente: uma mudança na constituiçãoi da Igreja pelo Concílio é impossível, primeiro porque os Padres não tinha este mandato; segundo, porque ninguém lhes havia dado; terceiro, poruque ninguém podia lhes dar. Em resumo, na Igreja a Revolução (ainda que ela seja« conciliar ») é por princípio ilícita e sem valor normativo.
A interpretação  « autorizsada»
À esta doutrina da «descontinuidade», à esta revolução de capa e tiara, à esta « má » interpretação do Vaticano II, Bento XVI vai opor a «bonne» interpretação, a da «reforma».
Segundo o soberano pontífice, no processo da «reforma» (cujo exemplo pefeito é o Concílio), «os princípios,  colocados em segundo plano e motivando a decisão interior, exprimemo aspecto durável» da tradição, enquanto que « as formas concretas, os fatos contingentes », as decisões eclesiais pontuais, « podem ser sujeitas a mudanças em função da situação histórica».
Esta «boa interpretação», intelectualmente bem contestável (é o mínimo que se pode dizer), merecerá análises aprofundadas. Nós apresentamos um exemplo disto no nosso Anexo.. Mas, tentemos aqui aprofundar a questão da « má interpretação». O Papa, é verdade, não emprega as palavras «boa» » ou «má» interpretação.
No entanto eles traduzem sua intenção. Ora, esta distinção entre uma « boa » e uma « má » interpretação é a única pertinente na nossa situação?
Referindo-se a um concílio, a distinção pertinente não é entre interpretação «autorizsada» e interpretação «livre»? E os intérpretes «autorizados» do Vaticano, não são os Papas? Bento XVI tem consciência desta objeção pois ele cita, para apoiar a sua « boa » interpretação, um discurso de João XXIII e um de Paulo VI.
A interpretação de Paulo VI
Passemos sobre João XXIII, cujo pensamento sobre o Vaticano II não é muito claro. O texto citado pelo Papa atual prova que há, de fato, duas versões sobre este fragmento, uma italiana claramente mais progressista, a outra em latim, mais tradicional. Ora, em duas ocasiões diferentes, João XXIII empregou as duas versões.
Pelo contrário, de Paulo VI, nós temos uma abundância de discursos. Ora, pode-se isentar Paulo VI de uma interpretação do Vaticano II como de ruptura, no mínimo parcial, com o passado da Igreja?
Bento XVI vê esta dificuldade. Sobre o discurso de Paulo VI no encerramento do Concílio, ele diz que através dele, «uma hermenêutica da discontinuidade pode parecer convincente». Falando do Concílio, ele afirma que uma  «certa forma de discontinuidade podia aparecer e que, em certo sentido, ela efetivamente se manifestou», de modo que a continuidade é « um fato que escapa facilmente numa primeira análise », uma  «aparente descontinuidade» sendo mais visível.
Ora, muito mais do que o pontífice atual quer admitir, Paulo VI se situou na perspectiva de uma certa discontinuidade entre Igreja préconciliar e Igreja pósconciliar. Citemos três exemplos característicos disto.
Uma certa vontade de ruptura
Nós vimos que, conforme Bento XVI, um concílio não pode modificar a constituição da Igreja. Além disto, nós sabemos que Josef Ratzinger lamenta, na Reforma Litúrgica, a ruptura ocorrida.
Ora, como interpretar, senão em termos de ruptura constitucional e litúrgica, a afirmação de Paulo VI de 13 de janeiro de 1965:
« A nova pedagogia religiosa que quer instaurar a atual renovação litúrgica se insere, para quase tomar o lugar de motor central, no grande movimento inscrito nos princípios constitucionais da Igreja, e tornado mais fácil e mais imperioso pelo progresso da culttura humana » ?
Dez anosa mais tarde estoura «o caso Lefebvre». Ora, lá também, em duas grandes ocasiões, Paulo VI vai optar por uma forma de ruptura.
No dia 29 de junho de 1975, escrevendo ao Mons. Lefebvre, Paulo VI usa estas extraordinárias e significativas palavras:
 « O segundo Concílio do Vaticano não tem menos autoridade, ele é mesmo sob certos aspectos, mais importante que o Concílio de Nicea
Que um concílio pastoral seja mais importante que o concílio que definiu o dogma da divindade de Cristo, significa que este concílio é , na realidade, « fundador » de uma nova Igreja.
Esta nova forma de Igreja vai ser caracterizada um ano mais tarde por Mons. Benelli, Substituto da Secretaria de Estado numa carta em que ele nota que, para os seminaristas de Ecône, « não há nada de desesperador nos seus casos: se eles estão de boa vontade e seriamente preparados para um ministério presbiterial na fidelidade verdadeira à Igreja conciliar, nos incumbimos de encontrar  a melhor solução».
Cabe a Bento XVI nos dizer se esta visão do Vaticano II foi uma interpretação autorizada, ou se ela não foi senão uma interpretação livre do teólogo Montini.
À distinção autorizada / livre, é preciso juntar uma outra, ainda mais importante: aquela entre «verdadeira » e « falsa » interpretação..
Verdadeira e falsa interpretação
Isto porque, não tem sentido algum pretenderr que qualquer interpretação seja uma “criação de sentido” mas, pelo contrário, ela deve decorrer lógica e espontaneamente do próprio texto. A verdadeira interpretação do Vaticano II é aquela que «emerge » dos seus textos, lidos no seu sentido evidente.
Aliás, é sintoma típico dos problemas que o texto do Concílio apresenta o próprio fato de que, quarenta anos após a sua promulgação, um Papa deva consagrar tal esforço teológico para tentarr explicar o seu sentido.
Ora, basta citar bons observadores para se notar que a impresssão dominante do Concílio foi a de uma ruptura. Quer se trate do cardeal Suenens, afirmando que « o Vaticano II foi  1789 na Igreja», do padre Congar salientando que no Concílio «a Igreja fez a sua Revolução de outubro». Do cardeal Ratzinger confessando que «o Vaticano II foi um anti-Syllabus», a lista de testemunhas de primeiro plano que assim o entenderam é longa.
Mais uma vez, é preciso que o Papa atual nos diga claramente de onde pode vir a impressão tão dominante, senão dos próprios textos.
O Debate sobre o fundo está, enfim, aberto
Sem esquecer o fato mais fundamenal: a análise objetiva dos textos do Concílio mostra, sob certos pontos, uma discontinuidade com o ensino constante da Igreja.
O debate está aberto, e é bom agradecer ao Papa por tê-lo lançado com clareza. Neste debate, porém, que deve ser feito por conduzido dentro do amor à Igreja, será preciso afrontar audaciosamente o real.
Ora, nós achamos que, na realidade objetiva, a «hermenêutica da ruptura», não se limita exclusivamente à midia e a uma parte de teólogos, mas é antes, pelo menos sob certos aspectos, o próprio Vaticano II na sua letra e nos seus textos. O debate deverá necessariamente esclarecer este ponto crucial.
Suresnes, 21 de janeiro de 2006-01-26
Annexo : A questão da liberdade religiosa
 
Para explicar e ilustrar a sua «hermenêutica da reforma», o Papa propõe diversos temas. A noção que ele mais desenvolve é a da liberdade religiosa ou, como ele diz, da « liberdade de religião ».Compreende-se melhor, por meio destes exemplo,como Bento XVI tenta justificar muitas das nossas objeções, sempre sustentando obstinadamente um dos mais graves erros do Vaticano II.
Raciocínio do Papa
Sua análise é a seguinte. No século XIX, « a liberdade de religião  foi considerada como uma expressão da incapacidade do homem de encontrar a verdade » e como « uma exaltação do relativismo», « elevado de modo impróprio ao nível metafísico». É o espírito da « fase radical da Revolução  francesa». Diante deste grave erro, que defende que o homem não é «capaz de conhecer a verdade sobre Deus», a Igreja , sob Pio IX, fulminou justamente com « condenações severas ».
Mas, prosseguindo, «a época moderna conheceu desenvolvimentos», houve uma maturação e, quanto ao metafísico, a liberdade de religião voltou ao seu justo lugar de necessidade social e histórica, ligada à coexistência humana no quadro de uma pluralidade de religões. É o « modelo da revolução americana».
Princípios do Vaticano II
Também o Vaticano II«reconhecendo e adotando pelo Decreto sobre a liberdade religiosa um princípio essencial do estado moderno, retomou novamente o patrimônio mais profundo da Igreja», de modo a se situar « em plena sintonia com o ensinamento de Jesus».
De fato, o Concílio entendeu mostrar que a liberdade religiosa, não só decorre de uma necessidade social e política, mas se enraiza na realidade «intrínseca da verdade, qua não pode ser imposta pelo exterior, mas que deve ser adotada pelo homem somente através do mecanismo da convicção».
«Exemplos» dos mártires
Para ilustrar e sustentar sua demonstração, o Papa utilisa o « exemplo » dos mártires. Segundo ele, Oo Império romano impunha uma religião de Estado. Os primeiros cristãos, adorando somente a Jesus, logicamente recusaram adorar os deuses pagãose , portanto, « desta forma, rejeitaram claramente a religião do Estado».
«Os mártires da Igreja primitiva morrerampela sua fé no Deus que se revelou em Jesus Cristo e, justamente assim, morreram igualmente pela sua liberdade de consciência e pela liberdade de professar sua fé, uma profissão que não pode ser imposta por Estado algum.»
Raciocínio frágil
A fragilidade do raciocínio do Papa atual aparece com evidência a quem estudou um pouco a questão, principalmente por meio da obra de Mons. Lefebvre, Minhas dúvidas sobre a liberdade religiosa (Clovis, 2000).
Pretender que a condenação da liberdade de religião no século XIX tinho por único motivo no seu fundamento relativista, e não na sua própria natureza, é uma contra-verdade tanto histórica como doutrinária.
Falar somente de Pio IX sobre a liberdade religiosa supõe esquecer, antes dele, Pio VI, Pio VII ou Gregório XVI. É esquecer, com mais gravidade ainda, os numerosos ensinamentos de Leão XIII, Bento XV, Pio XI (Quas primas)  e Pio XII sobre este tema.
Afirmar que, atualmente, a concepção que prevalece não é mais o relativismo metafísico, mas uma simples constatação de necessidades num mundo pluralista, é se refugiar num mundo imaginário. Na realidade, quanto mais o laicismo se expande, mais cresce esta vontade legal de colocar Deus fora de toda a vida social.
Aliás, é bem característico o fato do Papa se referir a um «princípio essencial do Estado moderno» neste assunto. Se se tratasse somente da constatação de uma necessidade, ele falaria mais prosaicamente de uma «pratica comum do Estado moderno».
De resto, relativamente à coexistência de religiões diversas num mesmo país, a doutrina da tolerância, levada às suas conseqüências por Pio XII no dia 6 de dezembro de 1953, somente doze anos antes do Decreto sobre a liberdade religiosa, foi amplamente suficiente. Se o Concílio optou pelo «princípio da liberdade religiosa», foi porque ele queria se este «princípio essencial do Estado moderno».
Debate falseado
Na questão da liberdade religiosa falar somente do «conhecimento da verdade» é falseara o debate.  Todo o mundo concorda, desde sempre, com este princípio do Código do Direito Canônico:  «Ninguém pode ser coagido a aderir à fé católica contra a sua vontade.» Mas, trata-se, no caso, de saber se não se pode impedir a ninguém de espalhar uma doutrina religiosa falsa. Isto não é a mesma coisa: que alguém seja impedido de agir jamais significou que ele fosse obrigado a agir.
Recusar, por princípio,toda a noção de religião do Estado, e não fazer alusão alguma ao dever das sociedades de honrar a Deus, é esquecer um ensinamento de sempre da Igreja, incluído no Decreto sobre a liberdade religiosa, que lembrava ainda este dever (mesmo que de modo muito hipócrita, pois tratou-se de um adendo de Paulo VI, no último instante, para « quebrar» a oposição persistente a este texto):
 
« [A liberdade religiosa] não traz prejuízo algum à doutrina católica tradicional sobre o dever moral das sociedades em relação à verdadeira religião à única Igreja de Cristo.»
Não fazer diferença alguma entre a verdadeira religião e as falsas é eliminar de conjunto uma distinção crucial, porque os direitos da verdade são essencialmente diferentes dos «direitos» do erro. Como dizia Pio XII:
«O que não está de acordo com a verdade e com a lei moral não tem objetivamente nenhum direito de existência, de propaganda, nem de ação
Enfim, chamar em socorro a liberdade religiosa, ou seja, da recusa em reconhecer a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo, os mártires cristãos que morreram exatamente por « Jesus, nosso Senhor», é alterar toda a história, toda a doutrina católica e toda a realidade. Não se pode construir sobre um tão falso fundamento uma « hermenêutica da reforma » de qualquer valor que seja.
Nota da redação da La Porte Latine
Outros textos serão publicados sobre este discurso do Papa, de 22 de dezembro. Como dito acima "o debate sobre o fundo está enfim aberto". Todos podem enviar suas contribuições para: laportelatine@wanadoo.fr 

    Para citar este texto:
"A interpretação do Concílio Vaticano II - FSSPX - França"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/igreja/20060121/
Online, 24/05/2017 às 16:39:17h