Igreja e Religião

Polêmica pela decisão do Papa de anular a autonomia dos franciscanos de Assis

A decisão do Papa de colocar os franciscanos sob a autoridade do Bispo local  levantou uma polêmica e dividiu a Igreja italiana
 
Roma, 21 nov (EFE) - A decisão de Bento XVI de suprimir a autonomia da qual gozavam os franciscanos de Assis e de colocá-los sob a autoridade do Bispo local levantou uma polêmica e dividiu a Igreja italiana e alguns, como o escritor católico Vittorio Messori, afirmam que Ratzinger " ajustou as contas" com a ordem.
 
"Ratzinger não perdoou à comunidade franciscana os excessos cometidos durante o primeiro encontro inter-religioso de 1986, na época de João Paulo II. Eles tinham uma conta a acertar e agora as coisas voltam a seu lugar", afirmou Messori após conhecer a anulação da autonomia pastoral de que gozavam desde 1966 por decisão de Paulo VI.
Neste fim de semana, o Vaticano tornou público um "Motu propio" (documento sobre questões do governo da Igreja) de Bento XVI referente a novas disposições sobre as basílicas de São Francisco e de Santa Maria dos Anjos, em Assis, os lugares mais simbólicos dos franciscanos.
 
Com esse Motu Propio, o Papa "modificou" a atual situação jurídica de que gozavam os franciscanos da basílica de Santa Maria dos Anjos desde 1966, e os frades conventuais da basílica de São Francisco, desde 1969, e ordenou que de agora em diante estarão sob jurisdição do Bispo de Assis, e que todas as iniciativas que tomem terão que ser aprovadas pelo prelado local.
A decisão causou uma grande polvorosa na Itália, sobre tudo entre os partidos de esquerda e nos grupos pacifistas, que asseguram que "caiu o baluarte, a praça forte, do diálogo".
 
A ex ministra, ex comunista, Lívia Turco (católica) disse que agora os franciscanos, "privados de autonomia e submetidos à autoridade da Conferência Episcopal Italiana têm as mãos atadas e já não podem ser pontes entre a Igreja e a sociedade" e o diálogo inter-religioso está em perigo.
 
Conforme Turco, os Santuários de Assis não são "covas de rebeldes apóstatas ou de hereges, mas um formidável ponto de encontro entre leigos e crentes, um ponto de referência para todas as consciências".
 
O escritor Gad Lerner assegurou que a chamada à ordem é um retorno da Santa Sé "ao tradicionalismo" e para o Padre Vitaliano Della Sala, líder dos católicos anti-globalização, trata-se de uma falta de democracia interna e de uma medida que desorienta a quem têm Assis como "ponto de referência nas batalhas pacifistas".
 
Segundo Messori --o escritor católico que se tornou famoso após dar forma ao libro "Cruzando o limiar da esperança", baseado em perguntas a João Paulo II- Bento XVI fez o que pretendia fazer desde 1986, "acabar com os excessos dos frades".
 
O escritor assegurou hoje à imprensa local que, no dial 27 de Outubro de 1986, durante o primeiro encontro de líderes religiosos na cidade de São Francisco, os franciscanos "forçaram a mão" e permitiram aos animistas africanos sacrificar frangos no altar da Igreja de Santa Clara, e permitiram aos peles vermelhas americanos dançar no templo.
 
Nessa ocasião o Cardeal Ratzinger, assinalou Messori, fez muitos reparos  àquele encontro, e desde o primeiro momento não quis assisti-lo, e "graças" às reservas demonstradas " limitaram os prejuízos".
 
Conforme o escritor, Ratzinger, na véspera do início do encontro, corrigiu o texto de João Paulo II, "e em sua mente ficou muito claro que não se podia manter o enclave franciscano fora do controle jurídico da Igreja”.
 
Messori assinalou que os frades abusaram do chamado "espírito de São Francisco" e se difundiu uma imagem do Santo que não corresponde à realidade.
 
"São Francisco não era um bobo que falava com os lobos e com os pássaros,  pelo contrário, é o filho mais autêntico da Igreja das cruzadas. Ele não era um pacifista. Participou como capelão na quinta cruzada, e não foi ver o sultão para dialogar, mas para convertê-lo. Não foi também um defensor acérrimo dos animais e menos ainda um ecologista. São Francisco se opôs a seus seguidores que queriam converter-se em comunidade vegetariana", disse Messori.
 
Os franciscanos, por sua parte, também estão divididos, ainda que não tenham levantado excessivamente a voz.
Vincenzo Coki, guardião da basílica de São Francisco, disse hoje que os franciscanos não tinham saído "do caminho", e que o espírito de Assis é "confrontação e de abertura ao diálogo".
 
O bibliotecário do convento, Pasquale Magro, assegurou que a regra do Santo era que "a quem quer que chegue, amigo ou inimigo, ladrão ou bandoleiro acolhei-o com bondade e isso é o que fazemos". O frade se queixou de que agora pretendem fechá-los na casca da diocese.
 
Pelo contrário, os frades de Santa Maria dos Anjos garantiram que uma maior relação com a diocese é positiva.
 
 (tradução e destaques nossos)

    Para citar este texto:
"Polêmica pela decisão do Papa de anular a autonomia dos franciscanos de Assis"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/igreja/20051121/
Online, 24/04/2017 às 18:12:06h