Igreja e Religião

Tempestades vaticanas. A Academia para a vida tem sua cabeça em risco
Sandro Magister

http://Igreja..espresso.repubblica.it/artigo/1342048
 
Seu presidente, Monsenhor Fisichella não goza mais da confiança de uma parte dos membros. Tudo por causa de um artigo seu, aprovado pela Secretaria de Estado, no "L'Osservatore Romano". O requisitório do acadêmico Miquel Schooyans contra a falsa "compaixão" que justifica tudo.
 
 ROMA, 8 de Fevereiro de 2010 – Dentro de poucos dias, de 11 a 13 de Fevereiro, se reunirá no Vaticano a Pontifícia Academia para a vida, cujo presidente é o Arcebispo Salvatore Fisichella (na foto).

     A reunião se prenuncia tempestuosa. Alguns membros da Academia contestam que Fisichella seja o presidente adequado. Entre eles destaca-se Monsenhor Miquel Schooyans, belga, professor emérito da Universidade Católica de Louvain, considerado especialista em Antropologia, em filosofia política, em bioética. Ele é membro de três academias pontifícias: a das ciências sociais, a de São Tomás de Aquino e – exatamente – a para a vida. Papa Joseph Ratzinger o conhece e o aprecia. Em 1997, quando era Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger escreveu o prefácio de um  livro dele: "O Evangelho face à desordem mundial".
     Em vista da reunião, Schooyans escreveu um duro requisitório contra a "ratoeira" na qual Fisichella também teria caído: o uso enganador do conceito de "compaixão".
     O requisitório é reproduzido integralmente mais abaixo. Nele não aparece o nome de Fisichella. Há porém referências precisas a um artigo dele no "L'Osservatore Romano" sobre aborto,  artigo que, quando saiu, provocou um autêntico desastre, e, por fim obrigou a Congregação Vaticana para a Doutrina da Fé a emitir um "Esclarecimento".
     
                                                                 *         *         *

     O artigo de Fisichella saiu em 15 de  Março de 2009. E referia-se ao caso de uma muito jovem menina-mãe brasileira, a qual, em Recife, se fez abortar de dois gêmeos que trazia em seu seio.
     Nos dias precedentes, o caso dessa menina tinha inflamado virulentas polêmicas, não só no Brasil, mas também em outros países e sobretudo na França.
     Os jornais franceses tinham se lançado contra o "fanatismo" e a "dureza de coração" da Igreja, em particular contra o Arcebispo de Olinda e Recife, José Cardoso Sobrinho, que tinha condenado o duplo aborto. E se enfileiravam compactos em defesa da menina e daqueles que a tinham "salva" fazendo-a abortar.     
     As acusações à Igreja privada de "compaixão" eram muito ásperas e atingiam o próprio Papa Bento XVI, apenas saído dos ataques furiosos provocados contra ele pelo caso Williamson poucas semanas antes.
     Lucetta Scaraffia, comentarista de ponta do "Osservatore Romano", estava naqueles dias em Paris e deu o alarme ao diretor do jornal vaticano, Giovanni Maria Vian.
     Este, de acordo com seu editor, o Secretário de Estado, Cardeal Tarcisio Bertone, confiou a Monsenhor Fisichella o encargo de escrever um artigo que aquietasse aqueles ataques à Igreja e ao Papa.     
     Fisichella o escreveu. Bertone o examinou e o aprovou palavra por palavra, sem fazê-lo controlar previamente pela Congregação para a Doutrina da Fé, como, de regra, se faz no Vaticano, para as tomadas de posição que tocam a doutrina.
     Na tarde de 14 de Março o artigo saiu na primeira página do "Osservatore Romano", com a data do dia seguinte.     
     Nesse artigo, Fisichella escrevia que o caso da menina brasileira "ganhou as páginas dos jornais só porque o Arcebispo de Olinda e Recife se tinha apressado a declarar a excomunhão para os médicos que haviam ajudado a interromper a gravidez". Quando, ao contrário, ao invés de, "antes de pensar na excomunhão", "em primeiro lugar, a menina devia ter sido defendida, abraçada, acariciada" com aquela "humanidade da qual nós homens de Igreja deveríamos ser peritos anunciadores e mestres". Mas "assim não foi".
     E prosseguia:
 
"Por causa da muito jovem idade e das condições precárias de saúde, a vida [da menina] estava em sério perigo pela gravidez em ato. Como agir nesses casos? Decisão árdua para o médico e para a própria lei moral. Escolhas como essas [...] se repetem quotidianamente [...] e a consciência do médico se acha sozinha consigo mesma no ato de ter que decidir  o que é melhor fazer".
     
     No final do artigo Fisichella se dirigia diretamente à menina: "Estamos a seu lado. [...] Outros são os que merecem a excomunhão e o nosso perdão, não aqueles  todos que permitiram que você vivesse ".
 
     O artigo suscitou imediatas reações com sinal contrário: de um lado os protestos dos defensores da vida de todo ser  concebido, sem exceção, de outro o aplauso dos sustentadores da liberdade de aborto.
     A arquidiocese de Olinda e Recife, tendo-se como pública e injustamente desautorizada pelo Vaticano, reagiu com uma nota publicada no seu site no dia seguinte, na qual acusava Fisichella de mostrar-se desinformado sobre os fatos e de por em dúvida a própria doutrina da Igreja sobre o aborto.
     O Arcebispo Cardoso Sobrinho pediu às autoridades vaticanas de publicar no "L'Osservatore Romano" essa sua nota. Mas não obteve resposta.
     Ao Arcebispo Cardoso Sobrinho exprimiram a sua solidariedade um grande número de Bispos do Brasil e de todo o mundo. Mas enquanto isso – perdurando o silêncio do Vaticano – em numerosos jornais de várias nações foi tomado credibilidade a tese de que a Igreja tinha aprovado o aborto "terapêutico": tese à qual pareceu dar apoio também uma declaração de 21 de Março do porta voz vaticano Padre Federico Lombarde, enquanto o Papa estava em viagem na África.
     No dia 4 Abril o "Osservatore Romano" voltou vagamente ao assunto, mas sem dar nenhuma satisfação aos críticos do artigo de Fisichella. Antes, fez o oposto.  Numa nota de crônica, o jornal vaticano citou uma declaração de uma famosa jornalista leiga, Lucia Annunziata, ex presidente da televisão italiana de Estado, que reconhecia à Igreja "uma transparência jamais vista" e motivava assim o seu cumprimento:
 
"Refiro-me à intervenção de Monsenhor Fisichella sobre o caso da menina brasileira publicado pelo 'Osservatore Romano'".
     
     Para um bom número de membros da Pontifícia Academia para a Vida, a medida estava no cúmulo. Naquele mesmo 4 de Abril, 27 de seus membros, num total de 46, assinaram uma carta a seu presidente Fisichella, pedindo-lhe que retificasse as posições "erradas" expressas por ele no artigo.
     No dia 21 de Abril Fisichella respondeu a eles por escrito, repelindo o pedido feito.
     Nos primeiros dias de Maio, 21 dos signatários da carta precedente dirigiram-se então ao Cardeal William Levada, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, pedindo à Congregação um pronunciamento esclarecedor da doutrina da Igreja em matéria de aborto.
     A carta foi entregue em 4 de Maio e a Congregação para a Doutrina da Fé a dirigiu ao Cardeal Bertone, visto que ele – foi explicado aos signatários – "o artigo de Fisichella fora escrito a pedido do Cardeal Secretário de Estado e  fora aprovado somente por ele".
     Mas não recebendo de Bertone nenhuma garantia de esclarecimento, alguns membros da Pontifícia Academia para a Vida decidiram por se dirigir diretamente ao Papa.
     Christine de Marcellus Vollmer, venezuelana que vive nos Estados Unidos, presidente da Alliance for Familly e da Latin American Alliance for Family, e outros quatro membros da Academia encontraram por alguns minutos Bento XVI depois da Audiência Geral de uma Quarta Feira. A audiência lhes fora concedida graças aos bons ofícios do Cardeal Renato Martino.
     Os cinco acadêmicos entregaram a Bento XVI um nutrido dossiê, com um grande número de artigos de imprensa que recitavam em coro que, graças ao artigo de Fisichella, a Igreja tinha definitivamente aberto as portas ao aborto "terapêutico".
     Papa Joseph Ratzinger mostrou estupefato e amargurado. Murmurou: "Deve-se fazer alguma coisa... Far-se-à alguma coisa".
     No dia 8 de Junho, Bento XVI discutiu o caso com o Cardeal Bertone e ordenou que se publica-se uma declaração que reconfirmasse como não mudada a doutrina da Igreja sobre o aborto.
     Entrementes, a Arquidiocese de Olinda e Recife reenviou ao Vaticano um memorandum com o relato detalhado do que a Igreja local tinha feito e continuava a fazer para ajudar a menina e os seus familiares, assim como a tinha protegido até o fim assim como a seus dois filhos que tinha trazido em seu seio.
     O memorandum terminava pedindo justiça para o Arcebispo Cardoso Sobrinho, na ausência da qual seria desencadeada uma denúncia canônica contra Fisichella.
     Mas outras semanas se passaram e no Vaticano não se movia uma folha. Christine de Marcellus Vollmer e outros acadêmicos resolveram então a fazer um gesto de pressão extrema. Ameaçaram demitir-se coletivamente da Pontificia Academia para a Vida. Dia após dia as adesões iam aumentando. Chegaram a 17 quando finalmente, na tarde de 10 de Julho, no "L'Osservatore Romano" saiu o esperado "Esclarecimento" da Congregação para a Doutrina da Fé sobre o artigo de Fisichella.
     A nota, tornada pública sem nenhum relevo, não dizia que o artigo de Fisichella estava errado, ma somente que fora objeto de "manipulação e instrumentalização". Um expediente retórico que permitiu seja a Fisichella como a Bertone – ambos membros da Congregação para a Doutrina da Fé – de sair do caso com mínimo dano.
     Mas o feio não passou, para o Arcebispo Presidente da Pontifícia Academia para a Vida. Nos próximos dias ele se achará frente a frente dos acadêmicos que pediram a sua cabeça. E que tornarão a pedi-la.

    Para citar este texto:
"Tempestades vaticanas. A Academia para a vida tem sua cabeça em risco"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/igreja/10-02-08/
Online, 24/04/2017 às 18:09:42h