Cotidiano

Eutanásia ao alcance de todos
Lamentável o artigo veículado no jornal O Estado de São Paulo de 25 de abril de 1999, sobre a eutanásia. Lamentável, em primeiro lugar, pela falta de respeito a valores morais, do articulista Mário Vargas Llosa. Lamentável também pela falta de lógica com que trata o tema. Lamentável, finalmente, pelo seu desconhecimento das questões religiosas e filosóficas envolvidas na eutanásia.
Llosa começa o artigo procurando mostrar uma suposta contradição entre uma lei americana do estado de Michigan, que proíbe que as autoridades carcerárias alimentem à força os reclusos em greve de fome (segundo esta lei as autoridades "deveriam limitar-se a explicar por escrito ao grevista as possíveis consequências fatais de sua decisão") e a condenação das atitudes do Dr. Jack Kevorkian, o "Dr. Morte", que promove a eutanásia. De acordo com Llosa, existiria um paralelo perfeito entre as duas atitudes, ou seja, a explicação aos grevistas equivaleria a "assistir os suicidas" na hora da morte.
Como pode uma atitude em que se procura salvar a vida de uma pessoa ser igual àquela em que, ativamente, se busca a morte?
Para Vargas Llosa o "Dr. Morte" é um autêntico herói dos nossos tempos (o que eu não discuto; diria até que se trata de um "herói" digno do século XX). Isso porque "sua "cruzada", como ele a chamou, serviu para que muita gente abrisse os olhos para uma monstruosa injustiça: a de que doentes incuráveis, submetidos a padecimentos indizíveis, que queiram por fim ao pesadelo que é sua vida, sejam obrigados a continuar sofrendo por uma legalidade que proclama uma universal "obrigação de viver"". Esse "abuso intolerável contra a soberania individual" seria, segundo Vargas Llosa, "uma intromissão do Estado que conflita com um direito humano básico". E continua: "decidir se alguém quer ou não viver é algo absolutamente pessoal, uma escolha em que a liberdade do indivíduo deveria poder ser exercida sem coerções…".
Aqui chegamos no erro fundamental do Sr. Llosa: confundir liberdade com libertinagem. Liberdade é a possibilidade que o homem tem de escolher entre vários bens, e não entre o bem e o mal. Do contrário, seria necessário deixar impunes o latrocida, o homicida, o assaltante, em nome de sua liberdade de optar entre sua vontade e o direito alheio...
A vida é um bem e a falta dela um mal. Ainda que a decisão de subtraí-la parta do próprio indivíduo que queira se matar. Não é dado o direito de escolha a ninguém entre ser honesto ou ladrão, veraz ou mentiroso.
É coerente com o sofisma criado pelo Sr. Llosa a defesa do homossexualismo, das drogas, etc. o que ele faz posteriormente neste mesmo artigo, sempre em nome dessa pseudo-liberdade.
Talvez o Sr. Vargas tenha se esquecido do aborto, "pupila dos olhos" de "intelectualóides" e daqueles que se consideram "defensores das populações pobres e oprimidas". Afinal de contas, matar o próprio filho também faz parte do pacote de horrores denominado, no mundo moderno, exercício da "liberdade" humana.
Além disso, o direito à vida humana não permite dispor dela de modo absoluto. A vida é concedida para que seja usada dentro de certos limites.
Da mesma forma que a auto-mutilação é condenável, o indivíduo que se suicida abusa do direito à vida que lhe foi dado.
Outro erro é o de tomar o sofrimento humano nesta terra como sendo o mal absoluto. Considera-se assim que o contrário, ou seja, o prazer, é o bem absoluto. Vive-se para gozar a vida, o que leva a julgar desprovido de sentido qualquer obstáculo que se oponha a esse princípio.
Repele-se as máximas de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Meu reino não é deste mundo" ou "Quem quiser vir após mim que tome sua cruz e siga-Me".
Segundo o Sr. Vargas Llosa "uma sociedade civilizada pode ajudar a dar o passo definitivo alguém que, por razões físicas e morais, vê na morte uma forma de libertação, tomando (…) precauções devidas para assegurar que a decisão (de se matar) seja genuína, tomada em perfeito estado de lucidez, com cabal conhecimento de causa do que ela significa".
Pergunto como pode alguém em "perfeito estado de lucidez" não ser capaz de reconhecer que a vida é um bem?
Para coroar sua ignorância, ou falta de fé (o que é mais provável) o Sr. Vargas diz que "a culpa é da religião, sempiterna adversária da liberdade humana", religião cujos princípios certamente ele não conhece. Por exemplo, Vargas afirma que na religião ocidental (supostamente a Católica) está presente a "idéia de castigo eterno que ameaça o pecador" e que a "morte significa a perda absoluta da vida". Não consigo entender como a perda absoluta da vida pode resultar num castigo eterno.
Tirando conseqüências de seus sofismas, o Sr. Mário Vargas Llosa poderia ser um bom advogado do nazismo, que também defendia a eutanásia, ou do Sr. Edson Izidoro Guimarães, enfermeiro do hospital Salgado Filho, do Rio de Janeiro, acusado de ser responsável por mais de 100 mortes pacientes terminais. Afinal, nesse caso a eutanásia não pode ser considerada um mal apenas porque rende algum dinheiro !

    Para citar este texto:
"Eutanásia ao alcance de todos"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/cotidiano/eutanasia_ao_alcance_de_todos/
Online, 20/09/2017 às 18:58:34h