Cotidiano

De 15 a 64 anos, 75% dos brasileiros lêem mal
Ricardo Galhardo


SÃO PAULO. Apenas 26% dos brasileiros com idade entre 15 e 64 anos têm domínio pleno da leitura. Outros 68% são considerados analfabetos funcionais, ou seja, identificam letras e palavras, mas não conseguem usar a leitura no cotidiano. Com os 7% de analfabetos absolutos, são cerca de 75% com deficiência de leitura. Os números (que estão com percentuais arredondados) estão no 5 Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf), coordenado pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM), braço social do Ibope, e pela ONG Ação Educativa.

A pesquisa foi feita entre 30 de junho e 10 de julho, com 2.002 pessoas de todas as regiões do país. Os números são praticamente idênticos aos dos levantamentos de 2001 e 2003.

— Se olharmos a situação como um doente, diríamos que ele continua febril — diz Fábio Montenegro, presidente do IPM.

A pesquisa divide os entrevistados em quatro grupos. O primeiro é o dos analfabetos, dos quais 64% são homens, 77% têm mais de 35 anos, 41% estão desempregados e 81% pertencem às classes D e E. Mais da metade (60%) completou de um a três anos de estudo.

O segundo é o dos alfabetizados de nível rudimentar, que conseguem ler títulos e frases, mas localizam apenas informações explícitas, como números e nomes. Eles são 30% do total, 64% pertencem às classes D e E e 36% à classe C. Quase a metade (49%) tem entre quatro e sete anos de estudo e 80% nunca vão ao cinema.

Em seguida vêm os alfabetizados básicos, que conseguem ler textos curtos, e representam 38% do total. Este foi o único grupo que apresentou uma mudança relevante. Em 2001, representavam 34%. Eles também estão concentrados nas classes C (40%), D e E (45%). Os outros 15% estão nas classes A e B. Entre os integrantes deste grupo, 41% vão ao cinema, 72% lêem jornais, 67% revistas e 23% usam o computador.

O nível pleno representa apenas 26% do total. Cerca de 35% pertencem às classes A e B, 41% à classe C e o restantes às classes D e E. A grande maioria (70%) tem entre 15 e 34 anos e 60% cursaram pelo menos o ensino médio enquanto 25% completaram o ensino fundamental. Entre eles, 64% vão ao cinema, 54% usam computador, 83% lêem jornais e 84%, revistas.


Comentário:
 
A pesquisa Inaf do IPM - Instituto Paulo Montenegro - evidencia a situação precária do ensino no país. Segundo a reportagem: "68% [dos brasileiros] são considerados analfabetos funcionais, ou seja, identificam letras e palavras, mas não conseguem usar a leitura no cotidiano"
 
Destaque da pesquisa: Cerca de 15% dos alfabetizados básicos (que conseguem ler textos curtos) são das "classes A e B. Entre os integrantes deste grupo, 41% vão ao cinema, 72% lêem jornais, 67% revistas e 23% usam o computador."
 
Ou seja: uma porcentagem dos que tem uma limitação na leitura é formada por pessoas que têm dinheiro, e que lêem mas não entendem senão textos curtos. Quantos desses não devem se achar inclusive formadores de opinião?
           
Outro destaque: os números globais mostram que os níveis de analfabetismo têm se mantido praticamente inalterados desde 2001, quando começou a pesquisa! Ou seja: não estamos reduzindo o analfabetismo se considerarmos o fenômeno em toda sua dimensão – analfabetismo absoluto + analfabetismo funcional.
 
Se o analfabetismo absoluto está diminuindo, como alardeia o governo, então os que outrora não sabiam ler agora pensam que sabem ler (analfabetos funcionais). Haveria apenas uma transferência do grupo dos ignorantes para o grupo dos presunçosos, o que é grave.
 
É grave, pois só incrementa o risco de manipulação da opinião pública, uma vez que não só grande parte da população não entende o que lê, mas estaria crescendo o número daqueles que se convencem que sabem, quando na verdade apenas engoliram o que lhes foi imposto por meio da mensagem de fácil assimilação. Acrescente-se aí o papel da televisão, que fomenta também uma predisposição à leitura distorcida.
 
Foi o que se viu, por exemplo, na época da aprovação na Camada dos Deputados da Lei de Biossegurança, quando o bombardeio de slogans pela imprensa e a distorção clara da realidade (por exemplo, a indistinção entre células adultas e embrionárias) neutralizaram a ação da sociedade e tornaram possível a aprovação da lei criminosa. Hoje se teme que o mesmo ocorra em relação ao aborto, cujo histórico de falsas estatísticas já é bem conhecido pelo mundo afora.
 
Esse aspecto fica ainda mais evidente em uma das conclusões da pesquisa Inaf do IPM, que não consta da reportagem: sob o título Escolaridade aumenta, mas resultados garantidos pelos níveis de ensino diminuem, a pesquisa mostra que apesar do tempo de estudo ter aumentado de 2001 até hoje, o número de pessoas que atinge os níveis de alfabetismo básico e alfabetismo pleno se mantiveram praticamente inalterados.
 
Ou seja: embora a escolaridade venha aumentando nestes últimos anos, a alfabetização não progride.
 
Um dos quadros da pesquisa mostra inclusive que o índice médio de acertos nas respostas diminui à medida que aumenta a escolaridade. A partir de 4 anos de escolaridade o desempenho dos entrevistados só fez piorar de 2001 para cá.
 
O relatório da pesquisa Inaf do IPM pode ser obtido em: http://www.ipm.org.br/an_ind_inaf_5.php
 
 
Marcos Libório

    Para citar este texto:
"De 15 a 64 anos, 75% dos brasileiros lêem mal"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/cotidiano/20050909/
Online, 28/05/2017 às 15:27:33h