Brasil

Ruínas no templo da arquitetura
Bruno Paes Manso

Contribuição de um leitor sobre a efemeridade da arte moderna, publicada no Estado de São Paulo:
 
Infiltrações e goteiras no prédio da FAU-USP provocam debate sobre como salvar a obra-prima de Artigas
 
 
Do lado de fora do prédio, enxerga-se um enorme bloco de concreto bruto delicadamente suspenso por vigas em forma de trapézio. Internamente, o teto translúcido feito com 900 domos de fibra de vidro inunda o ambiente com luz natural, num contraste que alguns dizem representar a união entre o céu e a terra, reforçando a aura sagrada que envolve o edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), obra-prima dos arquitetos Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi.
Quarenta anos depois de pronta, a principal referência do estilo moderno brutalista da arquitetura de São Paulo, visitada por artistas do mundo inteiro, deixou de ser motivo de orgulho e hoje causa vergonha aos professores e estudantes. O prédio onde eles ensinam e aprendem a importância de preservação e da manutenção de edifícios está em ruínas.
 
No último andar, a ampla sala de projetos, com espaço para mais de cem pranchetas, que ajudou a definir os rumos do ensino da Arquitetura no Brasil, está interditada. Nos dias de chuva, as goteiras se transformam em pequenas cachoeiras. Para diminuir os estragos, sete caixas d?água de 150 litros espalham-se pelo chão. Sob o teto, uma tela azul foi instalada para evitar que blocos de concreto caiam na cabeça de quem passa, como aconteceu no ano passado, quando um pedregulho quase feriu um aluno.
A infiltração no concreto da parte superior da faculdade, por sinal, já perdura há mais de 15 anos, tempo suficiente para criar estalactites que se multiplicaram por todos os cantos, escancarando as mazelas do edifício. "Não se trata só de falta de manutenção. A construção foi mal executada. O fato é que não podemos mais adiar a solução", diz o arquiteto Sylvio Sawaya, diretor da faculdade.
 
Tocadas durante a ditadura militar, entre 1966 e 1969, as obras do edifício custaram a acabar e ficaram paradas por meses seguidos. Só foram retomadas depois das agitações estudantis no centro da cidade, em 1968, quando militares consideraram urgente mandar os estudantes para a distante Cidade Universitária, na zona oeste. Não era mais possível adiar a execução do projeto inovador do arquiteto comunista. Na segunda fase das construções, porém, o concreto colocado ao redor dos domos não deu liga com o material anterior, comprometendo o futuro do edifício.
 
Grandes fissuras passaram a se formar no teto, onde, para piorar, o sistema de drenagem havia sido malfeito, por causa da malandragem dos construtores. Em vez de quatro canos por pilastra para escoar as águas, como previsto no projeto original, os empreiteiros colocaram dois. "Como os concretos de antes e de depois da paralisação tinham dosagens distintas, as infiltrações viraram um problemão e aumentaram a complexidade da solução", explica Paulo Bruna, professor da FAU.
 
O diretor da faculdade, Sylvio Sawaya, defende uma solução intermediária e mais barata para o problema. Ele quer dobrar a quantidade de tubos de drenagem nas pilastras e criar uma estrutura metálica sobre os domos para bloquear a chuva (veja ao lado). O custo estimado é de R$ 4,2 milhões. "Não é a solução definitiva, mas resolve a situação por 30 a 45 anos. Nesse tempo, aparecem os materiais capazes de garantir a solução definitiva", diz.
 
Não é o que pensam outros professores da faculdade. O arquiteto Lúcio Gomes Machado afirma que, atualmente, já há concretos impermeáveis que solucionariam definitivamente o problema. Bastaria que toda a estrutura dos domos fosse refeita. Essa técnica já chegou a ser parcialmente adotada nos anos 90, quando um terço do teto da faculdade foi reformado. "Já existem novas técnicas e materiais que permitem uma solução que manteria a concepção pensada por Artigas e seria definitiva", defende Machado. Mas a reclamação principal apontada por professores ouvidos pelo Estado é que o assunto não está sendo devidamente debatido. "Seria uma excelente maneira de aprendermos. Afinal, estamos numa faculdade de Arquitetura. O debate enriqueceria a todos. O fato é que a proposta da diretoria não foi sequer apresentada aos outros professores", diz Paulo Bruna.
 
Reformas arbitrárias, feitas sem discussões prévias, até mesmo na avaliação de Machado, têm sido um problema crônico na Cidade Universitária. Pelo menos quatro prédios, feitos por arquitetos representantes da escola moderna paulista, tiveram suas concepções originais modificadas ao longo dos anos. Em um tour pelo campus, Machado mostra o prédio da Faculdade de História e Geografia, de Eduardo Corona. A imensa porta de jacarandá com muxarabi, que faz referência à arquitetura colonial brasileira e ficava na entrada do auditório da faculdade, foi substituída por uma porta vulgar.
 
Nas mudanças feitas no prédio do Departamento de Engenharia Elétrica da Poli, de Zenon Lotufo, a nova cobertura de alumínio no teto bloqueou a entrada de luz natural para as salas de aula e terraços. Ironicamente, depois da reforma, o prédio da faculdade que estuda formas de reduzir o consumo de energia precisa manter as luzes acesas mesmo durante o dia. A concepção original do Conjunto Residencial da USP (Crusp), de Eduardo Kneese, modelo para a produção de conjuntos habitacionais pré-fabricados, só poderá ser compreendida nos livros. Durante o tour, Machado se irrita quando vê um puxadinho na frente das belas paredes de elemento vazado da Escola de Metalurgia, da Poli, criadas por Oswaldo Bratke.
 
O engenheiro João Cyro, da Coordenadoria do Espaço Físico da USP, órgão que distribui anualmente R$ 16 milhões para as diversas unidades fazerem a manutenção dos prédios universitários, defende que deve haver respeito pelas ideias originais. Quer, até mesmo, fazer o Crusp voltar a ser o que era. Mas ele pondera que é preciso usar técnicas modernas para a solução dos problemas atuais. "Existe um certo exagero e purismo nas críticas", argumenta, em um debate interessante e interminável, na busca de um meio-termo entre propostas pragmáticas e idealistas.

    Para citar este texto:
"Ruínas no templo da arquitetura"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/brasil/ruinas-templo-arquitetura/
Online, 18/08/2017 às 21:10:59h