Brasil

A máfia que pôs São Paulo de joelhos
Jorge Marirrodriga

Jonathan era um jovem de 19 anos que, como tantos outros de um bairro pobre no norte de São Paulo, deixou de ir ao colégio há anos e não tinha trabalho fixo. Na última terça-feira foi morto a tiros pela Polícia Militar de São Paulo quando o carro em que viajava não parou em um controle. Quando os policiais se aproximaram, seu cadáver ainda empunhava uma pistola de médio calibre com as siglas PCC gravadas na culatra, e de seu pescoço pendia uma placa dourada com a inscrição: "Paz, Justiça e Liberdade".

Em um de seus bolsos os agentes encontraram um papel do Primeiro Comando da Capital -a organização criminosa que pôs em xeque o estado de São Paulo durante quatro dias- onde estava escrita a palavra "vestibular".

"Trata-se de uma espécie de salvo-conduto que diz que o rapaz é um aspirante a entrar no bando; para muitos jovens é um sonho. As palavras da placa são o lema do PCC", explica um agente de polícia situado numa região menos conflituosa da capital paulista. A família desse agente, que tem cerca de 50 anos e um filho também policial, passou quatro dias fora de casa, refugiada com parentes em outro bairro da capital, pendurada ao telefone enquanto rádios e televisores transmitiam ao vivo, de helicópteros, assaltos e tiroteios.

"Foi uma grande vitória do crime organizado. Eles dizem que vão atuar e todos vão para casa", lamenta o sociólogo Demetrio Magnoli. E o vencedor é Marcos Willians Herbas Camacho, apelidado de Marcola, que dirige a organização fundada por oito presos há 13 anos durante uma partida de futebol na penitenciária de Taubaté, a 130 quilômetros de São Paulo. Seis deles estão mortos e os outros dois, ainda presos, afastados da organização.

Marcola, condenado a 44 anos pelo assalto a um banco e cujo livro de cabeceira é "A Arte da Guerra", do general chinês Sun Tzu, abriu caminho até a cúpula eliminando seus rivais, evitando traições, e hoje dirige com mão de ferro a máquina azeitada que afirma "combater a opressão dentro do sistema penal paulista", mas que
na prática estende suas redes muito além dos muros das prisões superlotadas de São Paulo.

Embora apele para a simbologia -utiliza o ying-yang como bandeira e os números 15.3.3 como senha de identificação-, o PCC baseia seu poder operacional em um financiamento perfeitamente estruturado. Os membros de pleno direito, chamados de "irmãos integrados" e que a polícia estima em 130 mil, pagam, sem exceção, uma cota mensal que varia de R$ 25 dos que estão presos em regime fechado a R$ 500 dos que vivem fora da prisão, passando pelos R$ 50 dos que estão encarcerados e desfrutam do regime aberto.

A essas contribuições devem-se acrescentar os pagamentos feitos pelos familiares, tanto em suas visitas à prisão como no aterior. "Acreditamos que só assim manipulam mais de R$ 1 milhão por mês", diz João Rinaldo Machado, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Penitenciários de São Paulo.

Com esse orçamento, a direção do PCC, desde a prisão, controla o tráfico de drogas, ordena a compra de armas e seqüestros e organiza ações criminosas de grande impacto, mas também freta ônibus para que os parentes de seus membros os visitem na prisão, distribui cestas de alimentos entre presos,
organiza festas nas cadeias ou compra brinquedos para os filhos de seus membros encarcerados.

Além disso, dá assistência jurídica aos detidos, compra aparelhos de televisão para a prisão -indispensáveis diante da proximidade da Copa do Mundo de futebol- e
até paga cursos de direito para ter advogados "aliados".

Machado denuncia que muitos diretores de presídios garantem a tranqüilidade em seus centros e sua segurança pessoal fazendo concessões aos presos. um trabalho excessivo para os guardas. Não podem ir aos pavilhões se não combinarem antes o número de guardas que vão entrar com os presos. E muito menos podem entrar na celas."

Assim como muitos, Machado acredita que a principal arma nas mãos dos membros do PCC é o telefone celular. A polícia de São Paulo estima que 70% dos seqüestros que ocorrem no estado são planejados e comandados do interior das prisões. Os chefes do PCC não utilizam celulares com números originais, mas clonados, quer dizer, replicados de números autênticos de usuários fora da prisão, o que complica o rastreamento das ligações.

A execução das ordens segue um sistema rigidamente hierarquizado, no topo do qual se encontram os chamados "torres", seis pessoas subordinadas a Marcola que fazem parte da direção do PCC. Suas instruções são transmitidas aos "pilotos" -que estão tanto dentro como fora das prisões-, que por sua vez as transmitem aos "soldados", também hierarquizados e encarregados de executá-las.

Com esse sistema, em menos de uma hora o PCC mostrou-se capaz de coordenar ataques em massa contra delegacias de polícia ou dezenas de rebeliões por todo o estado. A polícia afirma que os advogados também passam as ordens das "torres" para o exterior.

As redes de contatos do PCC chegam até os lugares mais reservados do governo brasileiro. Ontem se soube que os líderes do PCC tiveram acesso apenas 24 horas antes do início da rebelião às declarações secretas feitas por dois altos responsáveis da polícia de São Paulo a uma comissão do Congresso brasileiro. Os policiais revelaram sua intenção de transferir a direção do grupo criminoso para uma penitenciária situada a mais de 600 quilômetros da capital, para tentar conter suas atividades.

O técnico encarregado de gravar as declarações dos deputados vendeu por apenas R$ 200 os dois CDs em que foram registrados os planos policiais. Com essa informação a cúpula do PCC sabia de antemão quando deveria atuar e como. O autor da venda admitiu que sabia que os advogados aos quais estava vendendo as gravações eram do PCC, mas afirmou desconhecer a "imensidão" do que iria provocar. "É que ganho pouco", justificou-se.

O PCC quer apresentar um candidato -naturalmente oculto- nas eleições legislativas de outubro próximo, tanto para o Congresso federal quanto para o do estado de São Paulo. Segundo os dados do Departamento de Investigações Criminais, o grupo está investindo cerca de R$ 700 mil na campanha. As investigações se concentram em saber quem são esses candidatos.
(negritos nossos)

    Para citar este texto:
"A máfia que pôs São Paulo de joelhos"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/brasil/20060519/
Online, 23/08/2017 às 14:54:47h