Brasil

O preconceito politicamente correto
Cleber Benvegnú

As telenovelas brasileiras, em 2005, tiveram pelo menos três personagens carolas -- mulheres cristãs devotas que cultivam costumes religiosos tradicionais. O roteiro de todas elas, contudo, foi traçado através do mesmo e conhecido enfoque: santas de dia, mas devassas de noite; pagadoras do dízimo, mas ladras do alheio; praticantes da oração, mas mentirosas profissionais; apaixonadas por Deus, mas tomadas pelo rancor. Ou seja: mulheres frustradas, mascaradas, odientas e odiadas.
 
Esse é apenas um exemplo do sarcasmo com que a cultura "politicamente correta" costuma tratar quem dela discorda. Se, por um lado, escreve romances amorosos entre homossexuais e conta fábulas de mulheres prostitutas de caráter reto, intocável e valente, por outro, é intolerante contra quem ousa adotar um estilo de vida conservador e rigoroso, especialmente se essa vítima confessar uma religião, gostar de ir à missa ou defender a instituição familiar tradicional. Ao estilo de vida que defende, tende a ofertar louros, poesias e encantamentos. Ao de que duvida, desprezo, ironia e sátira.
 
Se esse tipo de abordagem fosse eventual, a crítica seria casuística. Todavia, basta observar a maioria dos roteiros artísticos, quando tratam das culturas tradicionais, para constatar o majoritário gosto por uma abordagem que desacredite seus valores e costumes, num esforço organizado para que a sociedade os coloque no baú do passado e das coisas vencidas. Nessas horas, a charmosa linguagem "politicamente correta" revela violentos preconceitos.
 
Apesar de posar como defensora da liberdade, essa nova cultura difunde implicitamente a intolerância contra quem critica seu discurso, além de não guardar o mínimo respeito com o estilo de vida que escolheram ter, por exemplo, essas mulheres que são tementes a Deus. Seus multiplicadores tratam-nas como subprodutos, fêmeas burrinhas que não souberam escolher direito o rumo para suas vidas. Não gostam da idéia de que a trajetória de muitas carolas, que viveram e ainda vivem por aí, inspirariam, na verdade, belas histórias de caridade, humildade, devoção e felicidade.

Claro que a novela e o teatro não nasceram para ser uma reprodução fiel da vida real, mas não sejamos ingênuos a ponto de acreditar que essa tônica insistente de abordagem foi colocada no ar apenas para fazer rir ou entreter. Desacreditar a importância da religião, da oração, da família, do silêncio e da fidelidade, de tal modo que tudo isso pareça brega e fora de propósito, é parte da estratégia dessa nova cultura. E a grande obra humana das culturas tradicionais - tais como o catolicismo, o judaísmo e o protestantismo - é um incômodo angustiante para quem prega uma sociedade desprendida de valores e apegada ao relativismo. Eis a questão.

(negritos nossos)


    Para citar este texto:
"O preconceito politicamente correto"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/brasil/20051110/
Online, 30/03/2017 às 09:43:00h