Brasil

Ives Gandra Martins: `Direi não no referendo`
Ives Gandra Martins


http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/opiniao/2005/10/19/joropi20051019001.html

[20/OUT/2005]

Impressionaram-me, vivamente, as estatísticas distribuídas por diversos movimentos da sociedade civil, relacionando o número de domicílios que possuem armas, em sete países, com o número de homicídios ocorridos nestas nações, calculados por 100 mil habitantes.

O Brasil, incrivelmente, é o país que possui o menor número de armas em domicílios privados. Só 3,5% de seus habitantes têm armas de fogo. Nos Estados Unidos, a cifra sobe para 52%, no Canadá para 30%, na Itália para 17%, na França para 24,5%, na Suécia para 15% e na Suíça para 35%!!! Em outras palavras, em países com muito maior segurança pública que o Brasil, os cidadãos sentem-se mais seguros possuindo armas.

O que, todavia, é estarrecedor, nestas estatísticas, é o número de homicídios por universo de 100 mil habitantes. Nos Estados Unidos, apenas 6, no Canadá 3, na Itália 2, na França 1,5, na Suécia 1,5 e na Suécia 1. No Brasil, todavia, em que apenas 3,5% dos domicílios têm armas, o número de homicídios sobe para a fantástica cifra de 27 assassinatos por cada 100 mil habitantes -ou seja, 4 vezes e meia mais do que nos Estados Unidos, 9 vezes mais do que no Canadá, 13 vezes e meia mais do que na Itália, 18 vezes mais do que na França e Suécia e 27 vezes mais do que na Suíça.

Em outras palavras, os países em que a segurança pública é melhor, e, portanto, a polícia protege mais a sociedade, a lei assegura aos cidadãos o direito de possuir armas e, nos Estados Unidos, mais de metade deles as possuem. E nosso país, em que a polícia nada assegura, em que os homicídios são elevadíssimos e em que o número de lares que possuem armas é muito menor, faz-se um referendo para desarmar a população, de forma não muito diversa daquelas adotadas pelas ditaduras, ao longo da história, nas quais seus títeres, para assegurar a submissão do povo, impuseram o desarmamento da sociedade, certos de que, assim dificultariam a revolta dos cidadãos contra a tirania. Na Rússia, de Stálin, na Alemanha de Hitler, na Cuba de Fidel e, parece, também na Venezuela de Chaves, o desarmamento garantiu as ditaduras contra eventuais sonhos de liberdade da população.

Impressiona-me, inclusive, a Emenda nº 2 da Constituição Americana que declara: ''Sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, não se impedirá o direito do povo de possuir e portar armas''.

Trata-se de Carta que data de 1787; tem 218 anos e sete artigos. Quando promulgada, percebeu-se que não cuidava de direitos fundamentais do cidadão, com o que, em 1791, ou seja, quatro anos depois, 10 emendas foram promulgadas (Bill of Rights), cada uma com 1 artigo, sendo a segunda - portanto, na hierarquia cronológica, a segunda de maior relevância - assecuratória do direito do cidadão de andar armado.

À evidência, os tempos são outros. Nos Estados Unidos, a polícia e a segurança pública são, incomensuravelmente, mais eficientes. Mesmo assim, nos últimos 214 anos, ninguém pensou em tirar do cidadão o direito de possuir armas.

Se passar a proibição de que todos os cidadãos brasileiros tenham acesso a armas, nenhum facínora terá mais receio em invadir suas casas, pois saberá, perfeitamente, que não encontrará a menor resistência. Em outras palavras, o paraíso sonhado pela criminalidade ser-lhe-á ofertado pelo próprio governo.

O que mais impressiona, todavia, é que, em vez de desarmar os criminosos - que é a sua função -, pretende o governo desarmar as vítimas, com campanha insidiosa sobre a violência doméstica, que, aliás, continuará a existir, mediante a utilização de armas brancas, como nos tempos em que não havia armas de fogo. A violência decorre muito mais da falta de valores, que este governo parece não cultivar, ao prestigiar todos os envolvidos no maior esquema de corrupção da história brasileira, o que fez, no Fórum Econômico Internacional, o Brasil passar a ocupar a 111ª posição entre 117 nações, exclusivamente no item correspondente à corrupção e ineficiência das estruturas político-burocráticas.

Se o governo desarmasse os criminosos, concordaria que as vítimas fossem desarmadas. Como, todavia, tem fracassado em reduzir os homicídios e em punir os assassinos, que andam soltos pelo país, e que continuarão armados, votarei NÃO.


    Para citar este texto:
"Ives Gandra Martins: `Direi não no referendo`"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/brasil/20051020/
Online, 23/08/2017 às 14:51:05h