Brasil

Lula e Severino juntos para salvar Dirceu e Janene
Rui Veiga


Fora da praxe do site Montfort, julgamos muito importante que nossos leitores tomem conhecimento das informações contidas no boletim Posto de Informação N* 27, de responsabilidade do Jornalista Rui Veiga, MTb 1.976, avdv@terra.com.br, que gentilmente nos permitiu a sua publicação.


Aos leitores,
 
Nesta edição de Nº 27 deste “Posto de Informação” revelamos algumas tramas que estão por trás das declarações de Severino Cavalcanti em favor de um “acordão” para a salvar a pele de amigos deputados. O processo é muito mais profundo do que parece. A “pizza” como é chamada a manobra envolve o Palácio do Planalto, porque livraria o Presidente Lula das pressões de José Dirceu, o verdadeiro arquivo vivo da história de 25 anos do PT e que, se cassado, não terá mais qualquer compromisso com Lula.
 
Por sua vez, Severino Cavalcanti tenta desesperadamente salvar o pepista José Janene, um dos articuladores de sua campanha
à presidência da Câmara Federal e indivíduo com passado mais que estranho e que, também já ameaçou tornar-se uma bomba de efeito retardado e móvel, pronta a explodir em qualquer espaço político de Brasília, caso seja afastado da vida parlamentar..
 
Boa leitura!
 
Os editores
 
Posto de Informação
 
Lula e Severino juntos para salvar Dirceu e Janene
 
Esta semana se inicia com uma forte mudança no cenário político nacional. O Presidente Lula e o Presidente da Câmara Federal, Severino Cavalcanti, selaram um pacto de ajuda mútua no sentido de se salvarem de uma guilhotinada política geral, que cada vez mais paira sobre o Executivo e o Congresso. Na semana passada, ambos tiveram diversas conversas por telefone, nas quais chegaram à conclusão que a salvação do futuro político dos dois depende da capacidade de se colocar panos quentes na atual crise, assando uma pizza que puna brandamente os parlamentares envolvidos em corrupção.
 
Avaliaram os dois nas conversas, nas quais contaram com o apoio do chamado Gabinete da Crise: os ministros Jacques Wagner, Antônio Palocci, Dilma Roussef e Márcio Tomás Bastos e do secretário geral da Presidência, Luís Dulci. A conclusão da conversação foi que a salvação passa pela não punição de José Dirceu, calcanhar de Aquiles de Lula e de José Janene, que conhece todos os bastidores da eleição de Severino Cavalcanti à Presidência da Câmara no começo deste ano.
 
Lula e José Dirceu estão em rota de colisão. A punição do ex-Chefe da Casa Civil com a cassação de seu mandato o descompromissaria com o PT e com o próprio Presidente. No final de semana, amigos de Dirceu, filiados ou simpatizantes do PT, em diversas reuniões fechadas em residências nos bairros de Higienópolis e dos Jardins em São Paulo, chegaram à conclusão de que está na hora do deputado federal  dar um ultimato a Lula e a Palocci, sob pena dele passar à defensiva, afundar-se na crise e não mais vir à tona. O cacife político de Dirceu, segundo avaliam seus amigos, é ainda o controle da máquina partidária petista, principalmente da burocracia e de ser um arquivo vivo das façanhas “não muito católicas” e “desprendidas” do PT. No consenso obtido, segundo informou um intelectual próximo ao deputado, os dados que ele tem em mãos devido à sua presença permanente dentro da direção do partido nos últimos 25 anos o transformam na verdadeira bomba de efeito retardado para Lula.
 
Se alijado da vida pública com a cassação, ele não terá mais nada a perder e sequer terá que preservar Lula, Palocci e os setores do PT, que agora o renegam. Indagado sobre quais armas Dirceu adotaria, o intelectual e escritor disse que: “Dirceu sabe que se abrir a boca, a imagem de santo que Lula sempre quis passar será demolida tanto no aspecto político como no pessoal. Ele sabe de coisas escabrosas, que vinham acontecendo e sendo escondidas, inclusive por ele próprio, desde 1988”. Para o amigo leal, o problema agora está nas mãos de Lula e Dirceu somente está aguardando o desenrolar dos acontecimentos, mas está à espreita e vigilante. O intelectual procurou o “Posto de Informação” por iniciativa sua e se prestou a dar essas informações, desde que seu nome seja preservado.
 
Na avaliação dos grupos de articuladores e analistas informais vinculados a Dirceu, Lula está em palpos de aranha. “Ele pode não ter consciência da gravidade da crise nacional. Mas sabe muito bem o quanto o Zé Dirceu é tenaz, obsessivo e capaz de se defender quando é ameaçado”, disse a mesma fonte. Segundo ele, há problemas que envolvem desde as ajudas internacionais ao PT por ONGs e organizações católicas européias, alianças com setores da CNBB para desestabilizar o Governo de Fernando Henrique em 2001 e 2002 (inclusive dos bastidores das alianças tácitas com Itamar Franco no episódio da invasão dos sem-terras da fazenda de Fernando Henrique na região de Buriti em Minas Gerais), sobre financiamentos venezuelanos para candidatos do partido e aliados e os muitos acordos com o MST para invadir fazendas produtivas e gerar conflitos sociais. “Há também muitas informações, que ele poderá passar sobre a formação do Governo e a estratégia de manter os chamados aliados táticos fiéis nas votações estratégicas para o Governo”, concluiu.
 
O primeiro “round”, Dirceu já venceu. Pôs na lona o Presidente Lula no caso da eleição para o Diretório Nacional do PT. O interventor Tarso Genro, homem de confiança de Lula e Palocci foi obrigado a sair, por perceber que o esquema de Dirceu dentro do partido prossegue tendo o controle das instâncias deliberativas e que, a estrutura que apóia o deputado federal estaria ameaçando reabrir a questão dos empréstimos ao PT gaúcho. Tais empréstimos estão diretamente ligados ao esquema Delúbio Soares e Marcos Valério.  E José Dirceu, como não poderia deixar de ser, tinha total do conhecimento do mesmo. Se as denúncias vierem a público, principalmente com a retomada do caso do ex-militante Diógenes de Oliveira acontecido em 1999, que teria recebido comissões por negócios entre o governo do estado do Rio Grande do Sul e empresários donos de negócios escusos, a ala de Tarso Genro será jogada na atual vala comum petista, da qual ele sempre quis se distanciar.
 
Aliás, à exceção das tendências de esquerda, que nada têm a ver com o que o Campo Majoritário, ao qual Lula, Palocci, Tarso, Berzoini e Dirceu pertencem, fez durante sua longa supremacia na máquina partidária, a disputa dentro do PT cada vez mais se parece ao gangsterismo sindical argentino à época de Perón. Só estão faltando os revólveres e a presença dos “bate paus”. Na disputa pelo poder interno, vale tudo, e nas discussões o leitor atento poderá observar que ninguém falou em pontos programáticos, em projetos para o País, em reforma agrária, em desenvolvimento nacional ou mesmo em política econômica. Assuntos que eram a tônica petista à época do Governo de FHC. Os únicos assuntos colocados em pauta são: corrupções diversas, golpes de mão, denúncias de um lado contra o outro e vice-versa, o valerioduto, Delúbio Soares etc. As famílias Gambino e Genovezzi penhoradas agradecem a consideração! Por sinal, o oportunista e conveniente silêncio dos intelectuais petistas e simpatizantes é sintomático. Eles são sempre os primeiros a abandonar o barco.
 
Na outra ponta, está Severino Cavalcanti, às voltas com seu arquivo vivo: o deputado do PP do Paraná, José Janene. O passado deste senhor é ilustrativo. Esteve à frente dos esquemas de financiamentos das campanhas do ex-prefeito de Londrina, José Belinatti, cassado por corrupção. Montou a estratégia de incorporar o PP à base aliada, onde se incluiu todo o esquema de troca de favores chefiado por Sílvio Pereira. Também foi o responsável pelo passa moleque dado em cima de Lula e de seu candidato à Presidência da Câmara na última eleição, Luís Eduardo Greenhalgh. Atualmente, seu esporte preferido é a ameaça. Anda pelos corredores do Congresso dizendo em alto e bom tom, que se for cassado levará Lula, Severino Cavalcanti, José Dirceu e outros juntos. Os funcionários da Casa ouvem-no proclamar isso diariamente. Além do que sua fama entre os parlamentares, inclusive pepistas, é de ser fanfarrão e boquirroto.
 
Só que a situação de Janene, que era relativamente confortável, complicou-se na semana passada. O problema explodiu, quando seu ex-amigo e correligionário político, Eduardo Alonso de Oliveira, deu entrevista à revista Isto É. Lá, ele afirmou que José Janene seria o idealizador do “mensalão” e que este esquema em escala menor havia funcionado em Londrina na administração de Belinatt, com Janene na chefia do processo. O denunciante diz-se disposto a depor ao Ministério Público Federal e à própria CPI. Por enquanto, há uma tentativa de relegar a matéria da revista e o denunciante ao esquecimento ou às calendas gregas.
 
Por ter tomado conhecimento já na sexta feira da reportagem, Severino Cavalcanti apressou-se a conversar com Lula e encontrar uma saída que poupasse a todos, inclusive José Dirceu. Ele teria sido advertido por Jacques Wagner quanto ao risco de uma estratégia como esta colocar todo o Congresso sob suspeição diante da opinião pública. No entanto, a amigos e confidentes, ele vem afirmando que o momento é de salvar a própria sobrevivência política e deixar de lado os pruridos. Em sua avaliação, os deputados como ele, provenientes de grotões eleitorais, nada têm a temer, uma vez que seus eleitores dependem de favores pessoais e não estão preocupados com os destinos das CPIs. Ele expressou ainda nas conversas com Lula que, se todos fossem colocados no mesmo patamar, ou seja, em termos populares “é tudo farinha do mesmo saco”, os que têm relação direta com eleitores das pequenas cidades não sofreriam qualquer represália eleitoral. Em sua opinião, somente sofrerão os que detonaram a crise, ou seja, os parlamentares que disputam votos nas grandes e médias cidades, onde o eleitor cobra-lhes uma postura ética. Ou seja, o clientelismo para ele deverá ser reforçada e ele está disposto a montar um “acordão” contando com o beneplácito do Planalto para salvar a todos: Governo, Presidência da Câmara, os envolvidos em corrupção e desmoralizar as CPIs, as esquerdas. os deputados e senadores de oposição.
 
Com problemas e sem outra saída à vista, o Presidente Lula está cada vez mais balançando em favor dessa solução. E ela ficaria ainda mais palatável para Lula, caso Palocci fosse colocado na berlinda e nela se desgastasse publicamente e as pesquisas eleitorais demonstrassem que as idas do Presidente às ruas, estratégia na qual ele e o gabinete de crise puseram muitas fichas, não estiverem surtindo os efeitos positivos (para ele, é claro) esperados. Com isso, ele se veria encorajado a dar uma última cartada, aceitar a proposta de Severino Cavalcanti e passar a governar com o baixo clero na Câmara e, provavelmente, tomando medidas populistas e falando a linguagem desse público representado pelos baixos escalões do Congresso. Linguagem esta que, até bem pouco tempo, pelo menos nos discursos, Lula abominava. O termo que melhor expressa esse modo de atuar é o preto no branco: fisiologismo.
 
Tal manobra põe em risco as instituições e a governabilidade, uma vez que um dos poderes, o Legislativo será posto em xeque e desacreditado totalmente. Logo, isto é assunto agora para a sociedade civil resolver. Que fiquem atentos a ABI, a OAB, os magistrados, o ministério público, a imprensa em geral, porque a manobra está mais profunda do que parece. Não é apenas mais uma bravata de Severino Cavalcanti.
 
Pense nisto!
 
Aqueles intelectuais que hoje se calam e de forma oportunista e conveniente dizem que é a hora do silêncio, são os mesmos que ontem e nos últimos 25 anos, eram os que acusavam todos os não petistas de picaretagens, falcatruas, maracutaias, mordomias e tráfico de influência.  Muitos dos que advogam essa tese já fizeram parte das diversas administrações petistas, sob a égide do Campo Majoritário e, até então, não tinham nenhum pejo de tê-lo feito. Ao contrário, orgulhavam-se disso. Agora, parece que todos querem embrulhar os fatos e lavar as mãos, fazendo parecer que nenhum deles tem a ver com os desvios de conduta e que a opressão petista sobre a sociedade nunca existiu.
 
Posto de Informação - Boletim de Análise Política
Ano 1  Nº 27    30 de agosto de 2005
RB Comunicação                               
Jornalista Responsável: Rui Veiga MTb 1.976

    Para citar este texto:
"Lula e Severino juntos para salvar Dirceu e Janene"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/brasil/20050831/
Online, 12/12/2017 às 16:25:06h