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Refutando o panfleto do padre José Eduardo (parte 1): A missa nova foi produzida "a tavolino"?
PERGUNTA
Nome:
Matheus Border
Enviada em:
13/01/2026

 Salve Maria, os senhores possuem alguma refutação ao livro do padre josé eduardo "em defesa da missa nova"? Caso não tenham, seria de grande proveito fazê-lo.
Obrigado pelo apostolado. 
RESPOSTA
 

Muito prezado Matheus, salve Maria!

Sim, já tínhamos pensado em responder, pelo menos as partes importantes, do panfleto do Padre José Eduardo em defesa do indefensável, provavelmente faremos isso através de algumas Lives, mas eu mesmo já comecei alguma resposta contra as falácias do padre, numa carta que respondi, que você pode acessar por aqui → Padre José Eduardo vs FSSPX: nem Continuista nem FSSPX nem Resistência! Eu refuto a falácia do padre de que quem critica a Missa reformada de Paulo VI cairia num anátema do Concílio de Trento.

Passemos a uma próxima refutação, só para deixar um gostinho para as próximas Lives refutando o padre panfletário. Um dos argumentos do panfleto do padre seria sobre a famosa acusação de que a Missa de Paulo VI teria sido feita “a Tavolino”, vejamos:

“Outro mantra repetido à exaustão pelos que odeiam a reforma litúrgica é a história do tavolino. “Ah, mas o Novus Ordo foi inventado numa mesinha, por meia dúzia de especialistas iluministas, sem nenhuma relação com a tradição viva da Igreja…” — e aí eles soltam um suspiro dramático, como se estivessem narrando a queda de Roma.”

Segundo o padre, essas acusações não se sustentam, pois:

“o Novus Ordo não foi escrito do zero. Não houve invenção ex nihilo, não houve “nova religião” saída da cabeça de Bugnini. O que houve foi uma reforma que partiu do rito anterior, com base nos princípios do Concílio Vaticano II e nas pesquisas litúrgicas sérias do movimento litúrgico do século XX. O Missal de 1970 é o de 1962 depurado, simplificado, enriquecido. Quem nega isso ou não leu os documentos ou não quer ler.”

Então segundo o padre “o Novus Ordo não foi escrito do zero. Não houve invenção ex nihilo... O Missal de 1970 é o de 1962 depurado, simplificado, enriquecido”, retornemos, portanto, àquela citação famosa de um cardeal que se tornou Papa e é diametralmente oposta à opinião do padre:

“O que ocorreu após o Concilio é algo completamente distinto: no lugar de uma liturgia fruto de um desenvolvimento continuo, introduziu-se uma liturgia fabricada. Escapou-se de um processo de crescimento e de devir para entrar em outro de fabricação. Não se quis continuar o devir e o amadurecimento orgânico do que existiu durante séculos. Foi substituído, como se fosse uma produção industrial, por uma fabricação que é um produto banal do momento” (Cardeal Joseph Ratzinger em prefácio ao livro de Monsenhor Klaus Gamber. A Reforma da Liturgia Romana, 2009, p.8).

O padre José Eduardo frequentemente se orgulha de ser amigo e admirador do Padre Paulo Ricardo, em um vídeo muito difundido na internet (que você pode verificar aqui) o Padre Paulo reafirma a expressão de que a Missa nova foi feita “a tavolino”, “uma revolução... a confecção de um missal feito do nada” e o padre ainda cita um padre defensor das reformas do Concílio que terio afirmado categoricamente: “o Rito Romano, tal qual o conhecemos, não existe mais!”, portanto, vemos que o Padre Paulo discorda bastante do seu amigo padre.

O Padre francês Louis Bouyer, que foi nomeado para a Comissão Preparatória para Estudos e Seminários e também serviu como consultor para a reforma litúrgica pós-conciliar, dá seu testemunho de como a Oração Eucarística II foi fabricada de modo bem improvisado:

“Teremos uma ideia das condições deploráveis em que se despachou esta reforma precipitada, quando eu disser como se amarrou a segunda Oração Eucarística. Entre fanáticos arqueologizando a torto e a direito, que teriam gostado de banir da Oração Eucarística o Sanctus e as intercessões, tomando como é a Eucaristia de Hipólito, e outros, que não se importavam o mínimo para a sua pretensa Tradição Apostólica, mas que queriam simplesmente uma missa desleixada, Dom Botte e eu fomos responsáveis por corrigir o seu texto, de modo a introduzir esses elementos, certamente mais antigos, para o dia seguinte!

“Felizmente encontrei em um escrito, senão do próprio Hipólito, certamente no seu estilo, uma bendita fórmula sobre o Espírito Santo que poderia fazer uma transição, do estilo Vere Sanctus, para a breve epiclese. Dom Botte, por sua vez, fabricou uma intercessão mais digna de Paul Reboux e de seu “à maneira de” do que de sua própria ciência. Mas não posso reler esta incrível composição sem me lembrar do terraço do bistrô Transtevere onde tivemos que acertar a nossa pensão, para podermos apresentar-nos na Porta de Bronze na altura fixada pelos nossos regentes!” (Memórias [inéditas] do Padre Louis Bouyer p. 130-131).

“Depois de tudo isto, não deveríamos nos surpreender se, por suas inacreditáveis fragilidades, o aborto que produzimos [nomeadamente o novo Missal] suscite risos ou indignação… a ponto de nos fazer esquecer uma série de elementos excelentes que carrega, no entanto, e que seria uma pena que a revisão que será imposta mais cedo ou mais tarde não salvasse, pelo menos, como pérolas perdidas…” (Memórias [inéditas], p. 131

Como diria o Padre Aulagnier, no seu artigo “É possível depreciar o Novus Ordo Missae?” que você pode ler aqui):

“Como podemos ver, o Padre Bouyer fala, sobretudo, “das condições materiais e práticas para a elaboração da Oração Eucarística II”. Essa elaboração na verdade “aconteceu” em um clima incrível de leviandade, de improvisação, até de gambiarra, “fabricação” e, certamente, falta de amor pelo patrimônio da Igreja Católica. O pior é sem dúvida a pressa realmente indecente com que estes textos foram preparados: “no terraço do bistrô Transtevere onde tivemos que acertar a nossa pensão, para podermos apresentar-nos na Porta de Bronze na altura fixada pelos nossos regentes!” Também é claro que “apenas algumas semanas foram suficientes para derrubar a tradição mais sagrada. Ficamos verdadeiramente maravilhados e dolorosamente surpresos com tal ataque à liturgia” (Abbé Celier). Estamos testemunhando uma verdadeira “revolução litúrgica”, “uma verdadeira fabricação”. O Padre Bouyer é muito explícito: “O edifício completo da liturgia romana, lentamente desenvolvido ao longo de vinte séculos de tradição, sofreu uma reformulação completa e radical” em poucos meses”.

O Padre panfletário chegou ao cúmulo de criticar a prática tradicional de rezar o terço durante a Missa:

“O ofertório, belíssimo, era sussurrado às pressas, para um povo que, na maioria das vezes, rezava o terço sem entender nada do que acontecia no altar. É essa a “perfeição” que eles defendem?” (Padre José Eduardo, em seu livro Em Defesa da Missa Nova, pág. 18).

Vejamos o que diz o Papa Pio XII sobre o assunto:

“Além disso, as necessidades e inclinações de todos não são as mesmas, nem são sempre constantes no mesmo indivíduo. Quem, então, diria, por causa de tal preconceito, que todos esses Cristãos não podem participar da Missa nem compartilhar seus frutos? Pelo contrário, eles podem adotar algum outro método que se mostre mais fácil para certas pessoas; por exemplo, eles podem meditar amorosamente nos mistérios de Jesus Cristo ou realizar outros exercícios de piedade ou recitar orações que, embora difiram dos ritos sagrados, ainda estão essencialmente em harmonia com eles. (Encíclica Mediator Dei, 11/20/1947, n. 108).

Em 20 de agosto de 1885 o Prefeito da Congregação dos Ritos sob Leão XIII emitiu outro documento, um decreto urbis et orbis [para a cidade e para o mundo], dedicando o mês de outubro a Nossa Senhora do Rosário. Nesse pronunciamento, ele pediu que o Rosário fosse recitado durante os rituais da Missa. A Sagrada Congregação dos Ritos reforçou isso em 16 de janeiro de 1886, quando respondeu a uma pergunta sobre como especificamente aplicar a recomendação do Papa.

A pergunta feita à Sagrada Congregação dos Ritos e a resposta que ela deu dizia:

“Dúvida V – O mesmo Decreto [de Leão XIII de 20 de agosto de 1885] determina que o Rosário deve ser recitado com as Ladainhas entre as orações realizadas pelos fiéis. Perguntamos se estas palavras devem ser entendidas como o Rosário a ser rezado ao mesmo tempo da celebração da Missa; ou que a Missa seja celebrada antes da recitação do Rosário e Ladainhas, como costuma acontecer na Diocese de Palentina.

Resposta: afirmativa à primeira parte; negativa para o segunda.”

Bom, prezado Matheus, logo refutaremos outros pontos importantes do panfleto do padre, assim sendo, peço, por caridade, que reze por nós nesse combate em defesa da Missa de Sempre.

Que Deus te ajude sempre!

In báculo cruce et in virga virgine,

 

Francis Mauro Rocha.