Religião-Filosofia-História

Maurice Zundel: um herege escandaloso e descarado
Orlando Fedeli



I - Introdução: uma afirmação escandalosa

Imagine-se que uma pessoa ouvisse alguém dizer que acredita que Cristo está tão presente na sopa quanto na hóstia consagrada, na Missa.

Qualquer católico consideraria que tal pessoa ou não acredita na presença real de Jesus na hóstia consagrada, ou que ele é um gnóstico pan crístico, do tipo Teilhard de Chardin.

De qualquer modo, quem afirmasse tal frase escandalosa, seria tido como um herege.

Por que razão dever-se-ia tirar outra conclusão, se fosse um padre quem afirmasse tal frase escandalosa e maliciosa?

Por que se poria de lado a lógica, se quem afirmou tal frase, que cheira fortemente a heresia, foi um sacerdote amigo do Papa Paulo VI?

Pois Maurice Zundel foi amigo de Monsenhor Giovanni Batista Montini - o futuro Paulo VI – desde 1923. Foi ele quem escreveu a seguinte frase inacreditável na pena de um sacerdote:

"Eu coloco tanta devoção ao tomar a sopa, quanto ao celebrar a missa, porque estamos sempre à mesa do Senhor, e é de sua mão que recebemos o alimento, símbolo de seu amor".
(Maurice Zundel, Il Volto di Dio nel Quotidiano, Ed. Messagero, Padova, 1989, p. 112).

Noutros tempos, um padre que ousasse escrever tal coisa seria imediatamente excomungado. No século XX, ele foi convidado a pregar retiro para o Próprio Papa -- Paulo VI, que era seu amigo e admirador -- e para os Cardeais da Cúria Romana, no Vaticano, em 1972!

É claro que alguns -- capazes de compreender e engolir qualquer heresia – se manifestarão irritados por dizermos a verdade de que esse padre foi amigo de Paulo VI. Esses tais, que exigem que o Papa peça perdão pelos "pecados da Igreja", no passado, não toleram qualquer alusão crítica, por leve que seja, aos Papas pós conciliares.

Estranha lógica...

Portanto, quem se manifestar escandalizado conosco, por contarmos o fato, verdadeiro e histórico, de que Montini (Paulo VI) foi amigo e admirador de Zundel, e não se chocar com a frase escandalosa que citamos desse sacerdote, demonstrará que dá mais valor a pessoas - ainda que seja a pessoa de um Papa, a quem se deve o máximo respeito - do que à própria Fé. Ora, ensinou São Paulo que, se alguém, ainda que fosse um anjo do céu, dissesse algo contra a Fé, esse anjo, mesmo, deveria ser anatematizado. Zundel, ainda que amigo de um Papa, deve ser anatematizado por sua frase escandalosa e ofensiva aos ouvidos pios. Frase que indica, ademais, que ele não acredita no que a Igreja ensina sobre a presença real de Cristo na sagrada hóstia.

E só porque ele foi amigo de Montini, só porque ele foi convidado a pregar um retiro para o Papa e para a Cúria, dever-se-ia calar e tolerar essa frase escandalosa e suspeita de negar a presença real de Cristo na sagrada hóstia? Só por essas razões, dever-se-ia tolerar tal absurdo, ou ocultar sua amizade com Paulo VI?

Pelo contrário. O fato de ele ter gozado da amizade de um futuro Papa, durante cerca de 50 anos, é causa de novo escândalo.

Como foi possível, que um Papa tivesse amizade com um sacerdote que diz atrevidamente tal coisa, gravemente desrespeitosa para com a Eucaristia?

E não só não o repreendeu como deveria, mas, pelo contrário, o convidou a pregar um retiro espiritual para a Cúria Romana.

Dir-nos-ia alguém, com vontade insopitada de defender o indefensável e de desculpar o indesculpável: "Não é que Zundel negue que Cristo está na sagrada hóstia. É que ele é tão grato a Deus por seus benefícios, que, até ao tomar sopa, ele não esquece de que Deus é quem nos dá todo alimento: a sopa e a Eucaristia.

Essa "gratidão", porém, é absurdamente manifestada, porque iguala o benefício da sopa com o Dom inefável e infinito da Eucaristia. É nessa igualdade que está o escândalo.

Pretender defender ou escusar Zundel por sua devoção crística... pela sopa, ou por sua ensopada devoção eucarística, é estar redondamente enganado. Zundel não iguala a sopa à Eucaristia por gratidão. Ele as iguala, porque não crê, de fato, na presença real de Cristo na hóstia consagrada, na forma como a doutrina da Igreja o ensina, e exige que se creia: a TRANSUBSTANCIAÇÃO

Querem-se provas?

Veja-se o que escreveu Zundel, em outro de seus livros:

"Cristo não está na Hóstia.
"Cristo não está na hóstia, como um relógio num estojo, ou como a água numa fonte, ou como nós mesmos neste recinto"

(M. Zundel, Un autre Regard sur l ‘Eucharistie, Ed. Le Sarment, France, 2001, p. 117).

O primeiro sentido desse texto acima citado é claramente contrário à fé, embora haja nele uma certa malícia bem camuflada.

Conforme ensinou infalivelmente o Concílio de Trento, em seu primeiro anatematismo contra os erros a respeito do sacramento da Eucaristia:

"Se alguém ensinar que no Santíssimo Sacramento da Eucaristia não está contido verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue juntamente com a alma e a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, e, por conseqüência, Cristo inteiro, mas pelo contrário, disser que apenas existe, na Eucaristia, um sinal, ou figura virtual, seja excomungado".
(Concílio de Trento, Da presença real de Jesus Cristo Nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. – Cânon I).

"Se alguém disser que, feita a consagração, não está o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo no admirável sacramento da Eucaristia, mas apenas quando ele é usado, enquanto se o recebe, mas não antes, nem depois; que não permanece o verdadeiro Corpo do Senhor nas hóstias ou partículas consagradas, que se guardam ou sobram depois das comunhões, seja excomungado!"
(Concílio de Trento, Cânon 4 sobre a Eucaristia).

E o Concílio de Constança, condenou a heresia de Wyclef que afirmava:

"Cristo não está no mesmo sacramento idêntica e realmente por sua própria presença corporal"
(Concílio de Constança, contra Wyclef. Denzinger, 583).

À primeira vista, e ao primeiro entendimento, Zundel cai sob os anátemas do Concílio de Trento. Entretanto, no texto de Zundel, existe um matiz sutil, que lhe permitiria tentar justificar-se, e tentar eximir-se da condenação de Trento.

O texto de Zundel, além de escandaloso, tem um primeiro sentido herético, caindo sob a condenação dos anátemas de Trento, pois Cristo está verdadeira, real e substancialmente presente na hóstia consagrada.

Diria Zundel, porém, que ele não negou o ensinamento do Concílio. Ele negou apenas que Cristo esteja na hóstia como um relógio no estojo, ou como a água está dentro da fonte, ou ainda como pessoas estão contidas numa sala, isto é, como um conteúdo num recipiente.

De fato, Cristo não está contido na hóstia, como se esta fosse um receptáculo dEle. A hóstia não é um recipiente do Corpo de Cristo. Pelas palavras da Consagração, toda a substância do pão é transubstanciada no Corpo de Cristo.

Entretanto, Zundel deveria ter dito que Cristo não está no pão, e não que Cristo não está na hóstia, pois hóstia designa propriamente o pão já consagrado.

O próprio Concílio de Trento, em seu Cânon 4, usa palavras que condenam Zundel:

"Quem disser ...que não permanece o verdadeiro Corpo do Senhor nas hóstias ou partículas consagradas, que se guardam ou sobram depois das comunhões, seja excomungado!".

Dirá ainda algum teimoso defensor de Zundel, que ele não usou o adjetivo "consagrada", que só falou em hóstia.

Essa seria uma defesa esfarrapada, que será desmentida por outros textos do próprio Zundel, como veremos a seguir.

Qualquer pessoa que leia as frases em foco de Zundel, entenderá que o autor nega que Cristo esteja, verdadeira, real e substancialmente presente, na hóstia consagrada, visto que ninguém – a não ser que seja brutalmente panteísta ou gnóstico - afirmaria que Cristo está na hóstia não consagrada.

Como já dissemos, Zundel protestaria, caso fosse acusado, dizendo que o que escreveu é que Cristo não está contido na hóstia, como o relógio está contido no estojo.

O relógio, que está contido em seu estojo, é distinto do estojo.

Se Cristo estivesse contido na hóstia, a hóstia seria distinta dEle, e isto implicaria que não teria havido transubstanciação do pão no Corpo de Cristo.

Lutero dizia que Cristo estava no pão, mas recusava a transubstanciação. E esta foi uma das heresias luteranas.

Zundel joga com as palavras, usando fórmulas equívocas, cujo primeiro sentido é herético, e só com uma análise mais profunda e sutil, poder-se-ia, com esforço, escusá-las, dando-lhes um sentido aceitável que, à primeira vista, elas não têm.

Esse modo ambíguo de expressar-se é condenável, porque induz em erro, ou, no caso, induz em heresia, pois nega a presença real de Cristo na hóstia consagrada, como sempre a Igreja ensinou, excomungando a tese oposta.

Ora, quem escreve ou diz algo ambiguamente, expressando um primeiro sentido falso, errado ou herético, e, com um segundo sentido doutrinariamente aceitável, porém mais oculto, e que só pode ser alcançado com esforço, deve ser considerado como tendo querido enganar e induzir em erro, ou em heresia. E a Igreja sempre condenou esse tipo de frase como erro, ou como tendo sabor de heresia ou de erro.

Se Zundel tivesse escrito "Cristo não está no pão", teria sido mais certo. Mas ele escreveu que "Cristo não está na hóstia", e, por hóstia, entende-se normalmente, o pão consagrado, transubstanciado em Cristo. Escrevendo assim, ele dá a entender que Cristo não está verdadeira, real e substancialmente presente na hóstia consagrada. Ele deixa entender que não crê na transubstanciação, como a Igreja a define e exige que nela se creia.

Não encontramos, nos vários livros de Zundel que lemos -- não os lemos todos ainda -- nenhuma frase afirmando claramente que, pela transubstanciação, Cristo está verdadeira, real e substancialmente presente na hóstia consagrada.

Encontramos, sim, muitos textos que contrariam a doutrina católica sobre a Eucaristia.

Portanto, concluímos que, na citação acima, Zundel quis mesmo negar a presença real, embora ele use uma fórmula ambígua, para defender-se da acusação de heresia, podendo dizer que Cristo não está na hóstia (no pão) como um conteúdo num continente, num receptáculo, pois, após a consagração, toda a substância do pão é transubstanciada, no Corpo de Cristo, e, por concomitância, no Sangue, Alma e Divindade de Cristo.

Veremos, por meio de muitos outros textos de Zundel, que nossa análise e conclusão são certas: sob fórmulas ambíguas, mas escandalosas, Zundel nega a presença real de Cristo na hóstia consagrada, porque ele nega a transubstanciação, tal como a Igreja a define.

Zundel é um mestre na ambigüidade e na anfibologia. E o caso citado acima -- "Cristo não está na hóstia, como um relógio está num estojo,... etc" -- é um exemplo típico de sua linguagem cheia de malícia serpentina..

Ora, quando um texto é propositadamente ambíguo, ou quando uma pessoa de autoridade se exprime ambiguamente, de caso pensado, deve-se interpretar o texto ambíguo no seu pior sentido, porque a pessoa de autoridade não pode expressar-se ambiguamente. E muito menos em questão tão delicada, quanto o dogma da presença real de Cristo na hóstia.

Que interesse teria, para falar ambiguamente, quem crê no dogma da presença real? Quem crê seriamente num dogma, procura sempre expressar-se claramente, para evitar erros. É o herege, mal intencionado, que busca ocultar o que pensa, falando e escrevendo ambiguamente. Para que brincar, fazendo paradoxos e ciladas acrobáticas, com palavras dúbias, empregando fórmulas capciosas? Quem lê essas fórmulas capciosas, ambíguas ou equívocas, é induzido em heresia mesmo.

Recentemente, mostramos essas frases escandalosas de Zundel, para um sacerdote piedoso, e ele, depois de lê-las, devolveu-nos o livro, comentando:

"Se o sr. publicar isso, grande número de padres e seminaristas, no Brasil, vai gostar, porque elas exprimem exatamente o que eles crêem, isto é, que Cristo, de fato, não está na hóstia consagrada. Em vez de se indignarem, eles vão se alegrar".

E esse sacerdote contou-nos, então, que muitos padres ignoram completamente, entre outras coisas muito essenciais, a doutrina da Igreja sobre a Missa e a transubstanciação.

Mas, então, perguntamos angustiados, -- nós que não somos teólogos -- mas então, o que é a Missa para esses padres e para esses futuros padres? O que pensam eles que é a Eucaristia? Para eles, o que é a consagração?

E, angustiados por nossa ignorância teológica, perguntamos: que vale a Missa de quem nega a transubstanciação?

Se é verdade o que nos disse esse sacerdote - e não temos o menor motivo para duvidar do que ele nos disse -- então se explica tanto desleixo que se nota no trato com a hóstia consagrada. Então fica explicada a indiferença com que muitos padres tratam as sagradas partículas. Então nos fica claro porque um padre disse a um rapaz (nosso afilhado), que acabara de ser batizado -- isso foi lá por 1964, em plena realização do Vaticano II -- e que lhe pedira a comunhão: "Você quer bolacha, é ? Eu vou lhe dar uma bolacha".

 

E deu-lhe a sagrada hóstia.

E isso foi ainda antes da Nova Missa, em 1964. E desde esse tempo a coisa piorou muito.

Já não se tem o menor cuidado com a hóstia consagrada. Não se cumprem as rubricas mínimas de respeito que a Igreja exige para com ela.

Isto se pode facilmente verificar, hoje, com relação à presença real de Cristo na hóstia: a mera eliminação dos gestos que exteriorizam a fé na presença real de Cristo na hóstia -- as genuflexões diante do Santíssimo Sacramento, ou diante do tabernáculo, por exemplo -- pouco a pouco, leva os fiéis a esquecerem-se da presença real de Cristo na hóstia, e, depois, fica mais fácil negar o dogma.

Parece até que se seguiu uma tática: eliminaram-se inicialmente os sinais externos de respeito, para depois se ensinar a heresia explicitamente, tal como Zundel o faz.

E que Zundel quer negar o dogma da presença real de Cristo na hóstia, é o que veremos, adiante, por meio de muitas outras citações de seus livros. De momento citemos apenas algumas frases dele, que analisaremos posteriormente mais a fundo.

"Se não houvesse mais amor, a Missa seria uma abominação. Disto se segue, de outro lado, como já precisou São Tomás, que na Eucaristia não há presença local, isto é, em outras palavras, que na Eucaristia Jesus não pode ser pego com as mãos. O que tocamos com as mãos são as aparências, o que colocamos na boca, são as espécies de pão e de vinho. Não temos contato físico com Cristo, só temos aquele tipo de contato [com Cristo] que temos com os amigos. É este contato que temos com Cristo, de modo que, comendo a espécie fisicamente, espiritualmente nos nutrimos de Jesus".
(M. Zundel, Il Volto di Dio nel Quotidiano, pp. 170-171. O negrito é nosso).

Ora, conforme ensina a Igreja, e junto com São Tomás, as espécies de pão e de vinho são as aparências ou acidentes do pão e do vinho, que permanecem, enquanto que a substância do pão e do vinho, pelas palavras da consagração, se transubstanciam respectivamente no Corpo e no Sangue de Cristo.

Para Zundel, comeríamos os acidentes do pão, e não a substância. O que é um absurdo lógico, e uma heresia teológica, pois, pelas palavras da consagração, na hóstia consagrada, está real, verdadeira e substancialmente presente o corpo de Cristo, sob as espécies ou aparências de pão.

Zundel nega que, ao comungarmos, comemos o Corpo de Cristo.

Diz ele:

"Quando levamos a Eucaristia, Cristo não é transportado. Quando comemos a hóstia, Cristo não é comido. Todas essas coisas são sinais de alguma coisa que ultrapassa toda palavra. Trata-se de uma transformação de nós mesmos em Cristo, em que todos esses sinais, querem dizer uma só coisa: a caridade de Cristo é que nos transforma nele, para que nossa vida seja caridade"
(M. Zundel, Il Volto di Dio nel Quotidiano, p. 172. O negrito é nosso).

Nessas frases, Zundel nega as próprias palavras pronunciadas por Cristo na instituição da Eucaristia, e que o sacerdote repete na consagração na Missa:

"Tomai e comei. Isto é o meu corpo" (Mt. XXVI, 26).

O que diz Zundel nega também estas outras palavras do próprio Cristo:

"Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós . O que come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim, e eu nele" (Jo, VI, 54-57)

Zundel nega também o que afirmou infalivelmente o Concílio de Trento contra as heresias protestantes a respeito da Eucaristia:

"Se alguém disser que Cristo, oferecido na Eucaristia, é comido apenas espiritualmente, e não também sacramental e realmente, seja anátema"
(Concílio de Trento, Cânon 8, sobre a Eucaristia, Denzinger 896).

E Zundel diz exatamente o que o Concílio de Trento anatematizou.

Note-se ainda que Zundel diz que, na Eucaristia, há apenas sinais. Portanto, que nela não há realidades. Que a Eucaristia não é realmente o Corpo e o Sangue de Cristo.

Ora, já vimos que o Cânon 1 do Concílio de Trento sobre a Eucaristia condena com anátema quem afirma que na Eucaristia haja apenas sinais e não realidades.

Repetimos a parte que interessa ao caso, nesse cânon 1 sobre a Eucaristia:

"Se alguém disser que só está Cristo [na Eucaristia] como em sinal e figura ou por sua eficácia, seja anátema"
(Concílio de Trento, Cânon 1 sobre a Eucaristia. Denzinger, 883. O negrito é nosso).

Finalmente, veja-se a estapafúrdia heresia de Zundel: o que é transubstanciado em Cristo são os homens e não o pão e o vinho.

Escreveu Zundel, e apesar de escrever isso, Paulo VI manteve sua amizade para com ele convidando-o a pregar à Cúria Romana:

"Quando levamos a Eucaristia, Cristo não é de nenhum modo transportado. Quando comemos a hóstia, Cristo não é comido. Na comunhão é significada alguma coisa que ultrapassa todas as palavras: trata-se de uma transubstanciação de nós em Jesus Cristo na qual todos os sinais só querem dizer uma coisa: a caridade de Cristo nos transformando nele mesmo para que nossa vida seja caridade".
(M. Zundel, Un Autre Regard sur l ‘Eucharistie, pp. 160-161).

É de estarrecer!

Pela consagração, nós é que nos transubstanciamos em Cristo!

Veremos, mais adiante, em maior profundidade, essa heresia gnóstica de Zundel.

 II - Zundel deformador da doutrina tomista sobre a Eucaristia

Para justificar suas heresias e sua doutrina escandalosamente gnóstica, Zundel apela a ninguém menos que ao próprio São Tomás, cuja doutrina ele vai torcer, distorcer, deformar e corromper.

Veja-se o que esse herege descarado ousa escrever:

"Se não houver mais amor, a missa seria uma abominação. Segue-se, de outro lado, como já precisou São Tomás, que, na Eucaristia, não há a presença local, isto é, em outras palavras, que na Eucaristia, Jesus não pode ser agarrado com as mãos".
(M. Zundel, Il Volto di Dio nel Quotidiano, p. 170).

Zundel é repetitivo. Mas só repete heresias.

Atrevidamente, ele tenta, então, justificar sua heresia sobre a Eucaristia no próprio São Tomás, dizendo:

"Uma vez admitido o milagre -- ou antes, os milagres -- que têm como termo a presença real (a modo de substância) de nosso Senhor no sacramento da Eucaristia, não é inútil acrescentar alguns corolários que derivam, exatamente, do modo desta presença, da qual São Tomás de Aquino afirma que, de si, não é uma presença local, se bem que as espécies (de pão e de vinho) sob as quais ela se comunica estejam em um local"
(M. Zundel, Quale Uomo e Quale Dio, -- Conferências ao Papa e ao Sagrado Colégio dos Cardeais, 1972, Ed. Messagero, Padova, 1994, p. 304).

Repare-se, antes de tudo, como o tom de Zundel, nesse texto é mais comedido e prudente. Ele falava a Cardeais, e, a eles, ele não se atreveu a comparar a sopa com a Eucaristia. Mas se atreveu a querer justificar sua heresia, citando São Tomás, e o problema da localização da presença de Cristo na Eucaristia

São Tomás, evidentemente, não tinha a doutrina herética de Zundel sobre a Eucaristia e a presença real de Cristo na hóstia.

Por isso mesmo, ele ensinou que "é necessário confessar como de fé católica que Cristo inteiro está neste sacramento [da Eucaristia] "(São Tomás, Suma Teológica III Q. 76, a. 1).

São Tomás ensina ainda --e convém saber isto -- que Cristo está presente nesse sacramento de dois modos: por virtude do sacramento e por natural concomitância.

Por virtude do sacramento, sob as espécies ou acidentes de pão, está o corpo de Cristo, e, sob as espécies ou acidentes de vinho, está o sangue de Cristo. Pois Cristo disse: "Isto é meu Corpo", "Este é meu Sangue".

Por natural concomitância, está na hóstia consagrada o que realmente está unido ao corpo de Cristo, isto é, seu Sangue, Alma e Divindade. E, ao Sangue, está unido, por natural concomitância, seu Corpo, Alma e Divindade. (Cfr. São Tomás, Suma Teológica, III, Q. 76, a. 1).

São Tomás, portanto, ensina que, sob as espécies ou acidentes de pão e de vinho, está realmente Cristo inteiro. O que Zundel nega.

"Certissimamente deve crer-se que Cristo está todo inteiro, em cada uma das espécies do sacramento, se bem que de modo diverso.
(São Tomás, Suma Teológica, III, Q. 76, a. 2).

"Sob a s espécies de pão, está o Corpo por virtude do sacramento, e o Sangue por real concomitância como se disse da Alma e da Divindade."

"Sob as espécies de vinho, está o Sangue de Cristo por virtude do sacramento, e o Corpo por real concomitância, como a Alma e a Divindade, já que agora, atualmente, não está o Sangue separado do seu Corpo, como esteve no tempo de sua Paixão e da morte"

E no artigo 3 dessa mesma Questão 76, São Tomás explica que:

"A substância do Corpo de Cristo está no sacramento por virtude do próprio sacramento, e sua quantidade dimensiva por real concomitância; daqui que o Corpo de Cristo está no sacramento de modo como a substância está nas dimensões, não do modo como está a quantidade dimensiva dos corpos que se ajusta à quantidade dimensiva do lugar.

É evidente que toda a natureza da substância está em cada parte das dimensões que a encerram, como em cada parte do ar está toda a sua natureza, e, em cada parte do pão, toda a natureza do pão, quer estejam o pão e o ar divididos, de fato, em partes, quer não estejam, de fato, divididos. Daqui que seja coisa clara que Cristo está todo inteiro em cada parte da espécie de pão, não só quando este é partido, mas também quando a hóstia permanece inteira"
(São Tomás, Suma Teológica, III, Q. 76, a. 3).

Portanto, Cristo está todo inteiro na hóstia consagrada. Sua Carne está sob a espécie do pão por virtude do sacramento. Seu Sangue, Alma e Divindade está na hóstia consagrada -- como expôs São Tomás -- por concomitância real.

Do mesmo modo, sua quantidade dimensiva -- Ele era um homem de estatura elevada -- Ele está na hóstia consagrada por concomitância, mas inteiramente. É o que São Tomás explica nesse artigo 3 da Q. 76 da III parte da Suma Teológica, e o que ele expõe de modo ainda mais explicitamente no artigo 4 dessa mesma questão 76: "Se no sacramento está toda a quantidade dimensiva do Corpo de Cristo"

E essa questão é assim respondida pelo Aquinate:

"Cristo está presente no sacramento por dois motivos, como dissemos: por virtude do sacramento e por real concomitância.
A quantidade dimensiva do Corpo [de Cristo] não está por virtude do sacramento, porque deste modo está apenas somente aquilo no que termina a conversão, e a conversão termina na substância do Corpo, não em suas dimensões.

É evidente que a quantidade dimensiva permanece depois da consagração, ainda que mude a substância do pão. Contudo, como a substância do Corpo de Cristo não se separa realmente de sua quantidade dimensiva e dos outros acidentes, tanto esses acidentes, como aquela [a quantidade dimensiva] estão no sacramento por real concomitância"
(São Tomás, Suma Teológica, III, Q. 76, a. 4).

Daí se segue logicamente a pergunta do artigo 5 dessa questão:

"Se o Corpo de Cristo está no sacramento como em um lugar", que é o ponto deformado por Zundel para montar seu sofisma de que Cristo não está na hóstia consagrada.

Eis como São Tomás expõe a resposta à pergunta colocada no artigo 5:

"O Corpo de Cristo, como já foi dito, não está no sacramento conforme o modo próprio da quantidade dimensiva, mas antes segundo o modo da substância.

Todo corpo localizado está no lugar conforme o modo próprio da quantidade dimensiva, porque é comensurado pela quantidade dimensiva dele.

Daí se segue, portanto, que o Corpo de Cristo não está no sacramento localizado, mas antes a modo como a substância se contém em suas dimensões. A substância do Corpo de Cristo sucede no sacramento à substância do pão; daqui, como a substância do pão não estava localmente em suas dimensões, e sim substancialmente, tão-pouco está assim a substância do Corpo de Cristo.

Entretanto, a substância de Cristo não está sujeita às dimensões do pão, e a do pão, sim, o estava. Por isso, o pão estava ali localmente por causa dessas dimensões, pois se relacionava com o lugar através delas.

A substância do corpo de Cristo se relaciona com o lugar mediante dimensões alheias -- [as do pão] -- não mediante as próprias.

As próprias se relacionam com o lugar através da substância. E isto é contrário à razão de ser do corpo localizado. Por isso, de nenhum modo está localmente o corpo de Cristo, no sacramento"
(São Tomás, Suma Teológica, III , Q. 76, a . 5).

O que São Tomás expõe é que Cristo está substancialmente na hóstia por transubstanciação do pão em seu Corpo. Porém, a transubstanciação não faz o Corpo de Cristo tomar as dimensões das espécies do pão. Cristo não está na hóstia como uma coisa em um receptáculo. O pão não é recipiente do Corpo de Cristo, pois se assim fosse, restaria ainda alguma coisa da substância do pão, depois das palavras da consagração. Ora, isso não ocorre. Toda a substância do pão se torna a substância do Corpo de Cristo. Entretanto, as dimensões do pão, permanecem como espécie do pão, e estas localizam a hóstia.

Zundel, omite, oculta, que São Tomás afirma que Cristo está realmente e substancialmente presente na hóstia, para por em relevo que São Tomás demonstra que Ele não está ali localizado, porque são as dimensões do pão -- uma das espécies do pão -- que o localizam, e não as dimensões de Cristo.

Dizendo que Cristo não está localmente ali, Zundel faz entender que Cristo não está substancialmente ali, na hóstia, sobre o altar, ou no sacrário.

Desse modo, Zundel induz seus leitores a caírem em heresia, negando a presença real de Cristo na hóstia consagrada.

Veja-se como Zundel nega a presença real de Cristo na Eucaristia:

"Nós não colocamos o bom Deus sobre a mesa ou sobre o altar, nós não colocamos o bom Deus em nossa boca ou em nosso bolso, mas há no pão e no vinho consagrados, como numa carta, o veículo de uma presença real, da mesma forma como uma carta é o veículo de um pensamento real"
(M. Zundel, Un Autre Regard sur l ‘Eucharistie, p. 31)

Zundel repetirá essa imagem -- ele é muito repetitivo de suas heresias -- que podemos reduzir a uma proporção:

carta   hóstia
_____________ =
_____________
pensamento   Cristo

Essa proporção é herética.

Cristo não está presente na hóstia como a heresia de Zundel está presente em seus livros, ou em suas cartas. O pensamento de um missivista numa carta não eqüivale, de modo algum, à presença real e substancial de Cristo na hóstia. Na carta enviada por um missivista, este não está realmente e substancialmente presente. E Cristo está presente na hóstia de modo verdadeiro, real e substancial.

Se Cristo estivesse na hóstia, como o pensamento de um missivista em sua carta, Jesus não estaria na hóstia assim como o próprio Zundel não está substancialmente presente em seus livros ou cartas. Quando comprei os livros de Zundel, eu não o trouxe para minha casa, graças a Deus.

Este artigo que escrevemos contém nosso pensamento sobre as heresias de Zundel, mas nós não estamos substancialmente presentes neste artigo. E Cristo está real e substancialmente presente na hóstia.

Montando a proporção acima citada, Zundel negou a presença real de Cristo na hóstia.

Zundel faz outra comparação hereticamente estapafúrdia da presença real, quando traça um paralelo entre o que ocorre na consagração, e o que acontece quando ligamos o rádio. Diz o herege Zundel:

"Se quisermos ainda uma comparação extremamente grosseira -- [grosseira é a heresia dele] -- na missa, nós ligamos o rádio juntos para entrar em contato e assimilar uma Presença que já está lá, exatamente como as ondas de rádio estão já, no quarto, antes de ligar o rádio: ligamos o rádio para captar uma presença que está sempre oferecida, que já está em nós, mas para a qual nós ainda não estamos presentes."

"As espécies eucarísticas são uma abertura para essa Presença."

"Não se trata de imaginar que Cristo cai do céu sob a forma de pão e a do vinho. Trata-se de ver bem que o pão e o vinho se abrem sobre uma Presença que já está no interior de nós mesmos, dada a cada um: ela se abre e nos permite atingi-la, porque, precisamente as espécies-- [de pão e de vinho] -- são o símbolo da fraternidade, pois que estamos na missa numa ceia que reúne virtualmente a humanidade inteira e realiza um horizonte universal"
(M. Zundel, Un Autre Regard sur l ‘Eucharistie, p. 36).

Nesse texto de Zundel a heresia é mais do que clara.

Em primeiro lugar, é herético dizer que Cristo está presente na hóstia como as ondas radiofônicas estão presentes no ar. Que assim como essas ondas já estavam presentes no ar, antes de ligarmos o rádio, assim também Cristo já estava presente mesmo antes das palavras da consagração. Estas palavras apenas "ligariam" os fiéis a uma "Presença" já previamente existente.

E, existente em nós !!!

A presença de Cristo estaria nos homens, e não na hóstia consagrada !!!

E que "Presença" é essa, a que Zundel faz referência com um "P" maiúsculo?

"Presença" de que?

Seria essa "Presença" o que na cabala judaica se chama de Schechinah?

De fato, para a Gnose judaica, a Schechinah - última sefirah emanada da Divindade oculta -- teria caído no mundo, e estaria presente em cada um de nós e em todas as coisas, inclusive no pão e no vinho.

Na missa, pelas palavras da consagração, Cristo se torna verdadeira, real e substancialmente presente na hóstia e no vinho, e não em nós. Nunca em nós.

De que cabala Zundel tirou isso? Ele a tirou da Gnose de Mestre Eckhart, do sistema cabalístico de Jacob Boehme, da Gnose romântica de Hegel, e da Gnose do Modernismo. Essas são as raízes de sua heresia.

É herético Zundel dizer que "o pão e o vinho se abrem para uma Presença que já está no interior de nós mesmos, dada a cada um".

É herético ele dizer que "as espécies [de pão e de vinho] são o símbolo da fraternidade".

Já seria herético dizer que as espécies consagradas são o símbolo da presença de Cristo. Que dirá afirmar que elas "são o símbolo da fraternidade"?

Para Zundel, pelas palavras da consagração, Cristo estaria em nós.

Será que é por essa razão que, hoje, na missa de Paulo VI, se diz a estranha frase: "Ele está no meio de nós"?

"Não sei se consigo me explicar bem. A eucaristia não é uma espécie de rito mágico que faz Jesus cair sobre a terra. No momento da consagração brota do "De profundis" da igreja que se oferece a ele, que faz saltar todo limite, que aceita portar com Cristo toda a humanidade e todo o universo, identificando-se com ele, dizendo :"Este é o meu corpo, este é o meu sangue."

 

"Cristo está verdadeiramente no meio de nós(M. Zundel, Il Volto di Dio nel Quotidiano, p. 169).
, enquanto nós estamos à sua mesa e comungamos com ele, em comunhão uns com os outros."

Noutras passagens, Zundel confirma essa doutrina de que Cristo não passa a estar realmente presente na hóstia, depois, e por causa, das palavras da consagração :

"Notai bem como a encarnação não pode querer dizer que Deus desceu do céu para vir sobre a terra, onde ele não estava (Deus já estava no mundo, mas o mundo não o conhecia), como a encarnação significa uma humanidade tornada infinitamente presente a Deus (o qual, de sua parte, estava sempre presente à humanidade; do mesmo modo a eucaristia não quer dizer que Jesus se tornou presente, enquanto antes ele não o estava: nosso Senhor está sempre presente à humanidade, não só pela sua divindade, mas com a sua humanidade"
(M. Zundel, Il Volto di Dio nel Quotidiano, p.166).

Segundo Zundel, então, as palavras da consagração, na Missa, não têm o poder de transubstanciar o pão e o vinho no Corpo e no Sangue de Cristo. Jesus, antes mesmo da consagração, já estava presente em todos os homens e em todas as coisas.

Embora fora do âmbito deste artigo, não podemos deixar de protestar também contra outra heresia de Zundel relativa à Encarnação do Verbo. Para ele, a Encarnação não consistiu em que o Verbo se uniu hipostaticamente à natureza humana, no seio da Virgem Maria. Para Zundel, a Encarnação significa uma humanidade tornada presente a Deus (???). E isso também é herético.

"A encarnação de Cristo não significa uma descida do céu sobre uma terra da qual, até então, ele estava ausente; bem antes da Encarnação, Deus estava no mundo mas o mundo não o conhecia. A Encarnação é a vinda no mundo de uma humanidade, a de Jesus, infinitamente presente a Deus, e "cognoscente" de Deus.

"Passa-se a mesma coisa com a Eucaristia: a Eucaristia não quer dizer que Jesus Cristo se torna presente, sendo que, até então, ele não estava presente. Não ! Na realidade, nosso Senhor esta sempre presente à humanidade não somente por sua divindade, mas também por sua humanidade. E é preciso dizer mais ainda: a humanidade de Jesus está sempre presente em cada um de nós; ela é a "a luz que ilumina todo homem (Jo. I, 19).
(M Zundel, Un Autre Regard...p. 156).

Cremos que já está suficientemente claro que Zundel não crê na presença real e substancial de Cristo na hóstia consagrada. Por isso, dispensamo-nos de dar outras citações dele, comprovantes dessa heresia.

Veremos, porém, mais adiante, como Zundel nega o valor da consagração, negando que, pelas palavras da consagração, Cristo se torne real e substancialmente presente na hóstia.

 

 III - Eucaristia = Materialismo e idolatria 

Segundo pensa Zundel, a Igreja, na ânsia de combater a heresia protestante, materializou a eucaristia, fazendo dela um ídolo:

"Os católicos se petrificaram na realidade da presença de nosso Senhor no Santíssimo sacramento e materializaram tal presença contra os protestantes, os quais, em vez, contrários a tal materialização, a reduziram a algo de simbólico.(M. Zundel, Il Volto di Dio..., p. 164).

"Ambos as partes haviam perdido de vista a causa essencial da presença real, que é de ser a presença comunitária. Isto significa que nosso Senhor podia estar presente à humanidade somente sob a forma de igreja".

Na realidade, Zundel julga que a Igreja sempre errou em seu entendimento da eucaristia.

Para ele, o que a Igreja sempre ensinou e sempre praticou com relação à Eucaristia foi materialismo e idolatria. Foi preciso nascer Zundel para que a humanidade alcançasse a verdadeira compreensão do sacramento da Eucaristia.

Para Zundel, Cristo ser adorado no Santíssimo Sacramento, ser guardado no sacrário, era pura idolatria, o culto faraônico e materialista para um objeto ineficaz.

Vejamos algumas citações de Zundel sobre esse tema.

"Uma espécie de materialismo religioso, o pior de todos, pode tragicamente se estabelecer em trono da eucaristia: lá, [nela] se tem um paládio [um amuleto], um para raios celeste, em cima da casa, pode-se dormir tranqüilamente, Deus está lá, em sua caixinha [o sacrário] e se o tem constantemente à sua disposição"
(M. Zundel, Un Regard... p. 71).

Veja-se bem a que reduz Zundel a devoção eucarística que a Igreja sempre praticou: a um materialismo, ao pior de todos os materialismos, o materialismo religioso.

Deseja-se uma confirmação dessa blasfêmia e dessa heresia?

Leia-se esta:

"Podemos agora pensar que Jesus nos tenha dado a Eucaristia a fim de que refabriquemos um culto idolátrico, a fim de que possamos possuí-lo, tê-lo ao alcance da mão, fechado numa caixinha, porque ele é propriamente nosso?
(M. Zundel, Stupore e Povertà, Ed. Messagero, Padova, 1991, p.99 e Un Regard...p.75).

"Pode-se imaginar um tal materialismo por parte do Senhor? Pode-se pensar que ele tenha subtraído a sua presença visível aos apóstolos para dar-nos na eucaristia um foco de idolatria, como se pudéssemos dispor de Deus como se pode fazer com um objeto? É absolutamente impossível. É verdade o contrário."

Como esse padre, esse infeliz, se atreveu a escrever tal blasfêmia?

Como ele pode publicar essa frase absurda: a eucaristia é um foco de idolatria?

E como, publicando isso, ele não foi excomungado como se fazia outrora com cruz, água benta e apagando a tocha acesa, lançando-a ao chão, e pisando sobre a sua chama?

E como esse herege pode gozar, por décadas, da amizade e da admiração (públicas) de Paulo VI? E como Paulo VI o convidou a pregar um retiro, no Vaticano, para o Sumo Pontífice e para os Cardeais da Cúria Romana?

Isso é inexplicável !

Teria considerado Monsenhor Montini -- depois Paulo VI -- que afirmar que Cristo não está na hóstia, que não comemos o Corpo de Cristo ao comungar, mas que só recebemos então as espécies de pão, que a Eucaristia é um foco de materialismo e de idolatria, que tudo isso não tem importância? Que nada disso é condenável? Que, pelo contrário, tudo isso é admirável, ou, pelo menos, aceitável?

Mas, então, o que é que tem importância?

Zundel é insistente em suas heresias. Ele repetirá o que disse, variando um tanto as palavras, mas nunca seu pensamento herético. Isto traz a vantagem que se torna difícil negar que ele tenha ensinado as heresias que denunciamos.

"É certo que uma espécie de materialismo religioso é o pior de todos os materialismo, e que um certo materialismo tragicamente pode tomar pé em torno da eucaristia: é a presença real, na qual se crê firmemente, com profunda segurança. Eis pois uma defesa, um para raios celeste sobre a casa, pode-se dormir tranqüilamente. Deus está aí, fechado em sua caixinha, e se o tem sempre a disposição."
(M. Zundel, Stupore e Povertà, pp. 95-96)

"Confesso o meu horror diante de tais imagens. Parecem-me verdadeiramente a degradação do evangelho, tenho a impressão de estar em pleno faraonismo, em uma religião sem empenho, que não suscita nada de particular na vida"

Confessamos nosso horror e nossa indignação por essa frases de um sacerdote acusando de materialismo a crença firme que o povo tinha na presença real de Cristo na Eucaristia!

Confessamos nosso horror e nossa indignação contra esse padre que chama de faraonismo o culto eucarístico que a Igreja praticou durante 2.000 anos.

Confessamos nosso horror e nossa indignação contra esse padre que, teria que viver para o sacrário que ele se atreve chamar de "caixinha".

Recentemente vimos uma foto de um sacrário que fora transformado em... casinha de cachorro!

Esse foi o resultado da livre pregação da Teologia de Zundel, ao interior e desde o alto da Igreja: o sacrário relegado a um lugar secundário, quando não transformado em casinha para um cachorro.

É impossível não concluir: a religião pregada por Zundel é oposta à religião católica. O que ele chama de materialismo e de faraonismo é o verdadeiro catolicismo.

Desgraçadamente, esse satanismo anti eucarístico não foi condenado por Paulo VI.

Para confirmar esse satanismo anti eucarístico, Zundel torna a dizer:

"Em torno à hóstia se estabeleceu todo um materialismo, exatamente porque se perdeu de vista a exigência fundamental"
(M. Zundel, Stupore e Povertà, p. 104).

Zundel repete a doutrina anti eucarística do padre Bouyer contra o culto a Jesus como Rei. Seu democratismo e igualitarismo se revoltam contra as homenagens a Cristo Rei. Certamente -- como outros que cultuam o homem -- ele preferiria que as homenagens feitas a Cristo Rei, fossem dirigidas a ... Barrabás.

"Em que medida tal liturgia não tem, ela também, algum traço desta troca ambígua entre regalismo ["regalità", no texto italiano] terreno e a regalidade divina? Antes, em que medida a regalidade divina não deriva simplesmente da regalidade humana? Em que medida, em Bizâncio, -- [o mesmo exemplo dado pelo Padre Bouyer para combater o culto eucarístico, e contraditoriamente tanto Bouyer como Zundel admiravam a liturgia bizantina] -- o cerimonial da corte e a liturgia de Santa Sofia não coincidiam no mesmo modelo em que regalidade divina e regalidade humana , por sua vez, se confundiam? (M. Zundel, Stupore e Povertà, pp. 93-94).

"E em que medida a nossa liturgia não é ainda uma sobrevivência daquelas liturgias reais que nunca empenham o mais profundo da alma? Trata-se de prestar homenagem a um soberano, de fazer uma procissão em torno do altar, de erigir-lhe um santuário, e, feito isso, tudo está cumprido, e se está livre de qualquer obrigação. Tudo isso se pode realizar sem nenhum empenho místico" "Não frisa isso talvez a idolatria? Não é a religião burguesa, a religião satisfeita, a religião que se dá uma patente de honorabilidade e de boa consciência e que, no nível mais baixo, se exprime com estas palavras de um pároco: "Aqui, quando um operário se torna patrão, ele passa a usar luvas de pelica e começa a ir à missa"

Zundel combate os traços monárquicos na liturgia. Ele quereria, certamente, uma liturgia proletária, proletarizada e proletarizante.

Essa oposição ao culto de Cristo eucarístico como rei, e essa negação da presença real de Cristo na hóstia é que causou, desde o Vaticano II e da reforma da Liturgia de Paulo VI, o desaparecimento quase total das bênçãos do Santíssimo Sacramento, praticamente o fim das Horas Santas e das exposições do Santíssimo, para ser adorado pelos fiéis, cerimônias, hoje, rarísssimas, a sabotagem das procissões eucarísticas, particularmente da procissão de Corpus Christi.

Zundel vai além da acusação de idolatria e de regalismo faraônico no culto eucarístico que a Igreja sempre praticou: ele nega qualquer eficácia à Eucaristia tal como a Igreja sempre a entendeu e praticou.

"A hóstia no tabernáculo, como objeto, é ineficaz, tão ineficaz da presença do Verbo que brilhou através das trevas e que as trevas não acolhem"
(M. Zundel, Stupore e Povertà, p.103).

O que é uma nova negação implícita da presença de Cristo na hóstia.

Zundel podia ter qualquer religião. Católico, ele não era.

"A presença da hóstia no tabernáculo como um objeto não pode ter nenhum efeito; ela é tão ineficaz quanto a Presença do Verbo que brilha nas trevas sem que as trevas a recebam"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 99).

Veja-se agora esse estranho texto de Zundel:

"Jesus não se apresentou a Caifás, a Herodes, a Pilatos, ele não se apresentou simplesmente ao mundo fenomenológico. Deve-se dizer o mesmo de todos esses discursos sobre a Presença real, elas se referem sobre a presença real no mundo em "ele" , é nesse mundo em "ele" que se chegou a falar de Jesus prisioneiro no tabernáculo."
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p.137).

Para Zundel, então, crer que Cristo está na hóstia como a Igreja sempre ensinou e acreditou e fez acreditar, discutir sobre a presença real de Cristo na hóstia é situar-se no mundo materialista, no mundo em "ele" -- no mundo em que há o outro, no qual se distingue o eu do ele. Zundel, com todos os românticos, especialmente com os gnósticos, Hegel, Baudelaire e Rimbaud, identifica o eu com o outro, com o ele. O mal seria distinguir sujeito e objeto.

É nesse mundo em que se julga existir o "ele", e não só o eu pessoal, é que se distingue o eu pessoal do ele. Distingue-se, falsamente, Cristo na hóstia, como objeto, do eu, sujeito.

De onde se segue que, considerar a hóstia consagrada -- a presença real de Cristo na hóstia -- como objeto, é separar sujeito e objeto. É romper a unidade ontológica de todos os seres.

De onde...

"Se quisermos absorver Jesus Cristo para nós sozinhos, reduzindo-o às relações pessoais -- [individuais, particulares] -- que temos com ele, ele se torna um ídolo"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 155; Il Volto... pp. 166 e 171).

Portanto, comungar, tendo um relacionamento pessoal com Cristo é torná-Lo um ídolo.

Para Zundel, então, a Igreja sempre patrocinou a idolatria, mandando os católicos comungarem, procurando unir-se pessoalmente a Cristo. E esse homem, apesar de dizer tudo isso, foi convidado, dando-lhe prestigio e "autoridade" moral, a pregar um retiro no Vaticano para o Papa Paulo VI e para os Cardeais da Cúria!

É de espantar que, por toda parte quase, se destruiu, ou pelo menos se perdeu, todo o respeito pela Eucaristia e que se A trate como pão vulgar? (cfr. eliminação dos sinais exteriores de adoração, comunhão de pé, na mão, dada por homens e mulheres não consagrados).

Zundel pergunta atrevidamente, ele que era sacerdote e que, rezando a Missa tinha Deus em suas mãos na hóstia consagrada - caso ele consagrasse realmente:

"Que quer dizer então: ter Deus nas mãos? Ter Deus na boca, ou num tabernáculo, ou numa igreja? Levar o bom Deus? [Em viático, para um moribundo]. Isto, tudo isto, nessas expressões pode parecer de tal modo idolátrico!. Sim, e idolátrico, na medida em que se esqueceu esta coisa capital, que a Eucaristia é o sacramento do corpo de Jesus Cristo. Esqueceu-se muito facilmente e regularmente que há na Eucaristia um sacramento, isto é, uma realidade, um valor: atingir-se Jesus Cristo na medida em que se atinge a si mesmo"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 148. O negrito é nosso).

Quer dizer que, para Zundel, "se atinge Jesus Cristo, na medida em que se atinge a si mesmo" (???).

Mas então, para Zundel, nós é que somos Cristo?

Nós é que somos Deus?

Veja-se esta outra citação, para compreender como Zundel e os de sua escola entendem a consagração e a transubstanciação:

"A Consagração consiste no colocar-nos na linha da catolicidade. Venhamos aos pés da cruz, invoquemos nosso Senhor e digamos no momento da consagração sobre o corpo de Cristo aquilo que dizia a Virgem, quando o recebia em seus braços: "Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue" Identificamo-nos com esse corpo crucificado, identificamo-nos com o amor imolado, então Cristo pode alcançar-nos, tocar-nos; ele se identifica conosco, diz também sobre nós: "Este é o meu corpo, esse é o meu sangue", e nós nos trocamos com ele"
(M. Zundel, Il Volto..., p. 168).

Portanto, pela consagração, o fiel é que se transubstancia em Cristo.

Veremos que é isso mesmo que pensa Zundel, pois ele é um gnóstico escarrapachado.

Para esse padre, o catolicismo, tal qual foi ensinado e praticado durante quase 2.000 anos, era magia, era materialismo, o pior materialismo que existe: o materialismo religioso.

Foi preciso nascer e crescer Zundel, para se alcançar o verdadeiro sentido da Eucaristia e dos demais sacramentos, para levar a Igreja a um catolicismo adulto, como queriam Maritain e os Modernistas. A um Catolicismo "espiritual", e não materialista.

"Eis o grande drama: o de uma cristandade que não chegou à sua maioridade espiritual e está ainda largamente engajada em suas crenças mágicas, e que não viu que o sacramento estava nos antípodas, nos antípodas da magia."
(M. Zundel, Un Autre Regard... p. 42).

Não há dúvida, Zundel tem uma fé oposta, diametralmente oposta à católica. Nos antípodas do catolicismo.

O problema gravíssimo é que a religião zundeliana se difundiu pelo mundo, e está afogando o catolicismo.

"O drama: descobrimos o verdadeiro Cristo? Estamos nós no verdadeiro evangelho? Não fizemos da Bíblia uma magia dizendo: "Eis o livro!" A Bíblia, uma magia, e os sacramentos uma outra magia, quando nós dizemos: "Eis lá, o Senhor está lá, Cristo está lá -- sobre a mesa!"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 41).

O drama -- a tragédia -- é que essa religião anti católica penetrou profundamente nas mentalidades dos católicos, e especialmente, infelizmente, na mentalidade de muitos padres, hoje.

A doutrina de Zundel -- que se espalhou pelo clero de modo subterrâneo, visto que esse autor foi praticamente desconhecido enquanto estava vivo (até 1.975) -- essa doutrina herética que considera todo o culto eucarístico da Igreja durante 2.000 anos como magia, e toda a doutrina eucarística como falsa e foco de materialismo e de idolatria, a doutrina de Zundel que considera o Santíssimo Sacramento no sacrário como objeto ineficaz, que conseqüências tira ela sobre o Santo Sacrifício da Missa que a Igreja sempre rezou?

Que pensava Zundel da Missa de São Pio V? Seria ela pura magia, para Zundel?

Que pensava esse amigo de Paulo VI -- o Papa que instaurou, que apresentou, uma Nova Missa em 1969 -- a respeito do valor da Missa antiga? Como julgou ele a Missa elaborada (fabricada) por Monsenhor Bugnini e por seis Pastores protestantes, em 1969, e imposta por Paulo VI?

Pois se Zundel considera que Cristo não está na hóstia, que só comemos as espécies de pão, e não o Corpo de Cristo, se crer que Cristo está realmente no sacrário é idolatria. É colocar lá um ídolo, se a transubstanciação não faz a substância do pão ser a substância do Corpo de Cristo, que seria a Missa para Zundel?

Este sacerdote ensinava o oposto do que a Igreja sempre ensinou:

"Se quisermos absorver Jesus Cristo para nós sozinhos -- como sempre foi praticado na Igreja -- reduzindo-o a motivos pessoais que temos com ele, ele se torna um ídolo"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 155).

Comungar, visando estabelecer um relacionamento pessoal com Jesus Cristo, seria então criar um ídolo. Durante 2.000 anos, teria se praticado idolatria com a Eucaristia. Foi preciso vir Zundel, para salvar a Igreja do faraonismo idolátrico do culto eucarístico, que ela sustentou durante 20 séculos.

Por isso, conseqüente em suas heresias, Zundel condena a Missa privada:

"Porque a Missa não consiste em um rito mágico que opera sobre um sujeito. Trata-se de uma equação de luz e de amor entre a comunidade e seu Chefe, entre a comunidade e o seu Senhor."(M. Zundel, Stupore e Povertà, p. 103).

"Não existe, portanto, liturgia ou comunhão privada"

Comungar não seria receber a Jesus na hóstia consagrada, entrar assim em comunhão com Cristo Deus, mas comungar seria entrar em comunhão com a humanidade.

"Isto é absolutamente fundamental, porque a eucaristia não é jamais uma coisa privada. A missa é sempre universal. Comunicar-se

[= comungar] é abrir-se infinitamente ao amor de Cristo, abrindo-se sem limites à humanidade. De modo que cada comunhão é uma luz para todos os homens. A comunhão tem esta vastidão universal: ela alcança o mundo inteiro, doutro modo seria pura magia, que reduz Cristo a um ídolo"
(M. Zundel, Il Volto di Dio nel Quotidiano, pp. 169-170).

Zundel, como sempre, exprime seu pensamento de modo muito ambíguo. O primeiro sentido de tal frase parece condenar a Missa privada.

Ora, o Concílio de Trento condenou essa heresia protestante que Zundel insinua capciosamente, nas citações acima:

"Se alguém disser que as missas em que só o sacerdote comunga sacramentalmente são ilícitas e devem ser abolidas, seja anátema"
(Concílio de Trento, Cânones sobre o Santo sacrifício da Missa. Cânon 8. Denzinger 955).

Mais uma vez constatamos como a doutrina de Zundel é heterodoxa.

Para Zundel tudo o que se fazia com relação ao Santíssimo Sacramento era "pleno faraonismo" (M. Zundel, Stupore e Povertà, p. 95).

"As palavras da consagração brotam, portanto, da profundidade do corpo místico. Cada liturgia supõe toda a humanidade reunida em torno da mesa do Senhor. É preciso que no mundo haja, pelo menos, uma alma que carregue este peso de amor, que seja a caução deste convite. Se no mundo, não houvesse nem uma alma em estado de graça, em estado de comunhão universal, toda missa se tornaria repentinamente sacrílega e impossível"

(M. Zundel, Stupore e Povertà, pp. 102-103. O negrito é nosso).

Nesse texto de Zundel, ele defende uma doutrina totalmente herética. Segundo Zundel, as palavras sacramentais da consagração da hóstia não atuariam ex opere operato, isto é, que sua eficácia dependeria de que, pelo menos uma pessoa no mundo estivesse em estado de graça. Esse é um posicionamento donatista radicalíssimo.

Nessas frases de Zundel, primeiramente, há uma renovação da heresia donatista, que afirmava que os sacramentos, para serem válidos, exigiam a santidade do sacerdote. Zundel é ainda mais radical que o herege Donato, combatido por santo Agostinho. Donato só exigia que o sacerdote estivesse em estado de graça, para o sacramento ter validade. Zundel exige que pelo menos uma pessoa fiel esteja em estado de graça.

Também os hereges Fraticelli foram condenados por afirmarem que os sacramentos somente seriam válidos se ministrados por sacerdotes que estivessem em estado de graça (Cfr Denzinger 53 e 486).

A consagração é eficaz, mesmo que o sacerdote que a pronuncia esteja em pecado. Mesmo que a consagração seja pronunciada diante de pecadores. Ela não depende do estado de garça do sacerdote ou do povo.

Ora, a tese de que o sacramento é ineficaz se ministrado por alguém que está em pecado mortal foi condenada pelo Concílio de Trento.
(Concílio de Trento, Cânones sobre os Sacramentos em geral, 12, Denzinger, 855).

"Se alguém disser que o ministro que está em pecado mortal, pelo fato de observar tudo o que é essencial que se refere à realização ou colação do sacramento, não realiza ou confere o sacramento, seja anátema"

Então é doutrina contrária à fé aquela que afirma que o sacramento é ineficaz se administrado por um sacerdote em pecado mortal. Não é necessário que o padre esteja em estado de graça para que a Missa seja válida e eficaz. Contra o que diz Zundel.

Sem se estar unido à humanidade celebrar-se-ia e se assistiria a missa de modo sacrílego e ineficaz.

Zundel expressa, nessa frase sublinhada e citada por nós mais acima, que todas as Missas rezadas sem que haja pelo menos uma pessoa em estado de graça, como sendo "sacrílegas e impossíveis".

Portanto, como pecaminosas e ineficazes, noutras palavras, como Missas não válidas e sacrílegas.

"Para compreender isso imaginai que na igreja, se fosse possível não haja mais uma só pessoa que ame, que não exista senão recusa, blasfêmia, ódio. Imaginai que a Missa venha a ser celebrada numa humanidade na qual mais ninguém, inclusive o sacerdote, celebrante amasse a Cristo. Tal missa seria uma blasfêmia, porque se procuraria aprisionar a Cristo materialmente, se o reduziria a uma espécie de ídolo obediente a uma palavras mágica; enquanto a eucaristia é aferrar a Cristo com o seu Coração, é abrir-se ao seu amor. A Missa só é legítima se em algum lugar há um coração amante que o invoca"(...) "Se não houvesse mais amor, a missa seria uma abominação"
(M. Zundel, Il Volto di Dio..., p. 170).

Portanto, para Zundel, a doutrina em que sempre a Igreja fundamentou a Missa, e que a Igreja sempre ensinou, exigiu que se aceitasse sob as penas mais severas, durante 2.000 anos, tornaria todas Missas rezadas, no decorrer de tantos séculos, sacrílegas e ineficazes.

Conforme a doutrina e a escola de Zundel se não houver união com a humanidade, pelo menos por parte de um homem que se identifique com a humanidade, a consagração é inútil, pois não se daria a transubstanciação:

"...se não estamos nesse estado de comunhão uns com os outros, se então não tomamos o encargo de toda a humanidade e todo o universo, no momento da consagração nada aconteceria. A própria condição do contato entre esta humanidade de Cristo e nós mesmos é esta comunhão universal"
(M. Zundel, Un Autre Regard... , p. 172).

Explica-se, então, como hoje se manifesta tanto ódio pela Missa de sempre, praticamente proibindo-a, e perseguindo como a leprosos -- como escreveu o Cardeal Ratzinger -- aqueles que a defendem e assistem.

Explica-se porque se fez uma Missa Nova essencialmente comunitária.

E lembremos que, para Zundel, Comunidade = Humanidade.

Pior ainda é o fato que Zundel considere que o estado de graça consiste em estar unido a toda a Humanidade.

Pois escreveu Zundel: "Se no mundo, não houvesse nem uma alma em estado de graça, em estado de comunhão universal, toda missa se tornaria repentinamente sacrílega e impossível"

Que estranho conceito tem Zundel do estado de graça !

Estar em estado de graça significa ter a graça santificante na alma, isto é, participar da vida divina pela graça, pelo fato de estar batizado, e de não ter cometido pecado mortal. O estado de graça nada tem a ver com o estar em união com a "humanidade", e sim em estar em união com Deus a não ser que se queira insinuar que a Humanidade é Deus.

A estranha tese de Zundel sobre o estado de graça faz supor que a Humanidade é que é Deus. Ora, veremos mais tarde, em outro trabalho que faremos sobre a doutrina de Zundel, que, para ele...

"É preciso admitir, portanto, com os mais humildes fiéis, que Jesus escreveu realmente no centro da história esta prodigiosa equação:

O homem = Deus"

(M. Zundel, Quale Uomo e Quale Dio, exercícios espirituais pregados a Paulo VI e à Cúria Romana, 1972 , ed Messagero, Padova, p. 158).

E Paulo VI disse uma frase em que parece aceitar essa mesma doutrina, porque, no encerramento o Concílio Vaticano II, a 7 de dezembro de 1965, ele proclamou:

 

"Nós, mais que qualquer outro, Nós temos o culto do homem"

(Paulo VI , Discurso de encerramento do Concílio Ecumênico Vaticano II, 7-XII-1965)

Depois de considerar tudo isso, pode-se então perguntar: até que ponto, o maçon Monsenhor Bugnini -- que elaborou a nova Missa de Paulo VI, com a ajuda de seis pastores protestantes -- em que medida esse Monsenhor Bugnini foi contagiado pela doutrina gnóstica e modernista de Zundel?

Noutras palavras, em que medida a doutrina de Zundel está na raiz da Nova Missa, e em que medida a explica?

É por essa sua estranha doutrina que relaciona a transubstanciação com a humanidade, que Zundel escreve:

"É totalmente inútil construir uma igreja com o pretexto que aí se colocará o santíssimo Sacramento, se ninguém vive dele, se essa Presença não é sentida [?] como uma presença comunitária na igreja, da igreja, pela igreja, isto é, na humanidade, da humanidade, pela humanidade. Se essa Presença não é sentida como presença comunitária que nos quer fraternalmente unidos, estamos completamente fora da perspectiva do Evangelho"
(M. Zundel, Stupore e Povertà, pp. 103-104. O negrito é nosso).

"Em torno da hóstia se estabeleceu todo um materialismo, exatamente porque se perdeu de vista a exigência fundamental"

Note-se, antes de tudo, a confirmação do que dissemos, que, para Zundel, comunidade = humanidade.

Em segundo lugar, que a "Presença" -- a misteriosa "presença" que muito se parece com a gnóstica sefirah Malkult, a Schechinah da Kabballah, que também é chamada de a comunidade, ou a Ecclesia de Israel (Cfr. Gerschom G. Scholem, A Mística Judaica, Perspectiva, São Paulo 1972; Les Origines de la Kabbale, Aubier- Montaigne, Paris, 1962; Kabbalah, Ketter, Jerusalém, 1974 e outras obras do mesmo autor) causada pela consagração na missa, se faz "na humanidade, da humanidade, pela humanidade", e que se não se fizer assim, então, se está "completamente fora da perspectiva do Evangelho".

"É impossível celebrar a missa sem vivê-la, antes de tudo, como um encontro com toda a humanidade., é preciso vivê-la como um a reunião de toda a história, como um retorno às origens, como uma recapitulação de toda a criação: ninguém está ausente, nem os mortos, nem os vivos, nem os antigos, nem os modernos, nem a posteridade, nem os contemporâneos, todos estão lá, em torno da mesa do Senhor. E é porque todos estão lá que a missa se torna um ato universal, um ato infinitamente humano, um ato de comunhão com a humanidade."


(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 103 O sublinhado e o negrito são nossos.

Então a missa é um ato infinitamente humano?

E a presença de Cristo na Eucaristia onde fica? Fica no homem. Fica na humanidade, responderá Zundel.

Tendo em vista o que se fez da Missa, hoje, -- um ato puramente naturalista, porque voltado inteiramente para o homem e para o povo -- é de se perguntar se essa doutrina de Zundel não foi a causa de tanto naturalismo e do profundo Antropocentrismo que encharca as Missas atuais.

Seria possível imaginar um sistema mais claramente gnóstico a respeito da transubstanciação e sobre a Missa?

Essas últimas citações de Zundel nos encaminham para um outro problema: que entende ele que ocorre com as palavras da consagração, na Missa?

 

IV - A Transubstanciação da Humanidade em Cristo

Vimos que Zundel nega o que a Igreja sempre acreditou e sempre ensinou: que Cristo está verdadeira, real e substancialmente presente na hóstia consagrada.

Para Zundel, isso seria materialismo e idolatria.

Para ele, ao pronunciarem-se as palavras da consagração não é o pão e o vinho que se transubstanciam no Corpo e no Sangue de Cristo.

Pelas palavras da consagração seria toda a comunidade -- toda a humanidade -- todos os homens, desde Adão até o último homem a existir até o fim do mundo, todos, sem exceção alguma, sem excetuar um só, todos seriam transubstanciados em Cristo, tornando-se o seu corpo místico, isto é, a Igreja.

Mais ainda, conforme Zundel, não só a humanidade é transubstanciada em Cristo, mas também todo o universo. O cosmos se tornaria o Corpo de Cristo.

Vejamos os textos nos quais Zundel expressa esse pan cristismo gnóstico, na linha de Teilhard de Chardin.

"Dando-nos a Eucaristia, Cristo quis nos reunir num só corpo, tanto que, finalmente o sentido da Missa é a transformação de toda a humanidade e de todo o universo em seu corpo e em seu sangue"
(M. Zundel, Un Autre Regard...,p. 95).

"Para reencontrar Cristo, é preciso entrar nas profundezas do Amor.
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 97).

"Isto quer dizer que as palavras da consagração eucarística devem repercutir sobre toda a humanidade e sobre todo o universo: seu fim último é esta transformação de toda a humanidade e de todo o universo no corpo e sangue do Senhor, nós não podemos dizê-las com sinceridade senão vivendo-as até o seu fundo, e isto não se pode fazer sem nos apagar-nos no Eu de Cristo que as pronuncia através de nós"

Não há dúvida de que essa doutrina é herética, afirmando uma idéia absolutamente estranha ao catolicismo.

Essa "Missa" segundo Zundel, essa, sim, é que é materialismo religioso , o pior materialismo que possa existir. Essa pretensa transformação do universo e da humanidade no corpo e sangue de Cristo, isso, sim, é que é magia e idolatria.

Qualquer padre que celebrasse a Missa tendo essa doutrina, e, pretendendo transubstanciar a humanidade e o universo em Cristo, estaria fazendo um sacrilégio incrível e um ato de magia grosseira. Essa Missa seria absolutamente inválida e ineficaz.

Para Zundel, a Missa, tal qual sempre se a praticou, teria sido não só magia e materialismo, mas também, só teatro.

"Além disso, é preciso viver [a liturgia] somente como sacramento e permanecer intensamente unidos a toda aquela humanidade e a todo o universo dos quais temos o encargo. Doutro modo [a liturgia] é apenas teatro, ainda que belo, não é o que queria Jesus"
(M. Zundel, Stupore e Povertà, pp. 112 -113).

É claro que uma tal doutrina não pode conciliar-se com a católica. E Zundel tem consciência clara que a sua religião está nos antípodas do catolicismo de sempre. Por isso, ele mesmo diz:

"Nos é preciso reencontrar uma concepção totalmente diferente e oposta dos sacramentos: o sacramento é uma atuação [une prise] comunitária sobre a presença de Cristo pela comunidade e para a comunidade. Na Eucaristia, não se trata de uma apropriação [prise] física de Cristo.[prise] de amor sobre essa presença sempre dada. Devemos viver essa ordenação comunitária e tomar consciência das exigências deste pensamento comunitário"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 45. O negrito é nosso).

"Na consagração, se estamos no eixo de nossa fé, nós nos solidarizamos com Cristo imolado formando uma cadeia de amor que engloba o mundo inteiro:

 

"A Igreja pronuncia a consagração sobre Cristo, e Cristo pronuncia a consagração sobre a Igreja, isto é, sobre seu corpo místico. A ceia então se tornou sacramento. Uma nova relação foi introduzida na ceia eucarística entre Cristo e a Comunidade, há uma dupla corrente entre Cristo e a Comunidade.

"Cristo não é fechado no pão e no vinho, mas o pão e o vinho se abriram para a presença de Cristo, eles estão em estado de abertura para com essa presença. É, portanto, um caminho comunitário que permite uma atuação

Portanto, para Zundel, é a humanidade, é o mundo inteiro que se transubstancia em Cristo, formando a comunidade que, para Zundel eqüivale à humanidade, e esta é que seria o corpo místico de Cristo, isto é a Igreja.

Em Cristo, pelas palavras da consagração, toda a humanidade formaria uma só pessoa, um só ser:

"Cristo quis que todos nós formássemos um só corpo, uma só vida, uma só pessoa, um só ser em sua presença. É isto que Cristo quis, ele que é o segundo Adão e o grande reunidor, ele que é o Homem e não somente um homem, ele que contém toda a história, ele que é a unidade do gênero humano, ele que está em todas as gerações é o contemporâneo de cada uma: ele quis que formássemos um só corpo, uma só vida, uma só pessoa, um so ser em sua presença"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p, 103-104. O negrito é nosso).

Fica inteiramente claro que Zundel tem um conceito monista e gnóstico da Eucaristia.

Seria preciso citar, in extenso, capítulos e capítulos dos livros de Zundel, nos quais esse pensamento é repetido "ad nauseam", com pequenas variações acidentais.

Veja-se, por exemplo, este outro texto:

"Não se trata de imaginar que Cristo cai do céu sob a forma de pão e a de vinho, trata-se de ver bem que o pão e o vinho se abrem sobre uma Presença que já está lá, no interior de nós mesmos, dada a cada um: ela se abre e nos permite atingi-la porque precisamente, as espécies são o símbolo da fraternidade, pois que nós estamos lá numa refeição que reúne virtualmente a humanidade inteira e realiza um horizonte universal.[prise] física sobre Cristo por meio da Eucaristia, nós temos uma atuação [apropriação] espiritual, e o sina de que essa tomada de posse [prise] espiritual é verdadeiramente realizada é que estamos juntos e realizamos juntos a comunidade humana da qual ninguém é excluído.
(M. Zundel, Un Autre Regard..., pp. 36-37. O negrito é nosso).

"Nós não temos atuação

 

"E isto é de tal modo verdadeiro -- escutai bem isto -- é de tal modo verdadeiro que, se não houvesse mais, no mundo, um só ser aberto, pelo menos, em estado de desejo, toda consagração seria impossível porque, então, faltaria nela a condição essencial: ser um apelo da comunidade, para a comunidade, e na comunidade".

"Se a consagração pudesse ser válida sem esta garantia de amor, sem esta caução de uma intimidade humana se oferecendo a intimidade de Deus, então Deus, verdadeiramente seria pego na cilada das fórmulas, e os sacramentos seriam ritos mágicos"

Está aí, nessa longa, escandalosa citação a doutrina de Zundel. Deus está real e substancialmente presente em cada homem, em toda a humanidade, em todas as coisas, em todo o universo.

Pelas palavras da consagração não seriam nem o pão, nem o vinho que se transubstanciam no Corpo e no Sangue de Cristo. É a comunidade, isto é, a Humanidade, nos diz Zundel, que se transubstancia em Cristo.

A Missa não seria então a renovação do sacrifício do Calvário -- como sempre a Igreja a definiu -- mas sim uma cerimônia na qual, pelas palavras da consagração, a presença de Cristo no homem -- em cada homem -- na humanidade, se realiza de modo sacramental, tornando toda a humanidade uma só corpo, o Corpo místico de Cristo, isto é, a Igreja.

"O essencial na eucaristia é esta abertura da humanidade a Jesus Cristo no mistério da igreja, da qual ninguém é excluído, a fim de que nosso coração não limite a Cristo, não faça dele um ídolo"
(M. Zundel, Il Volto..., p. 169)

Seria por isso, que na Missa Nova se diz, aqui no Brasil: "Ele está no meio de nós". Seria porque Cristo está presente em cada homem, que, hoje, não se considera o sacerdote hierarquicamente superior ao povo, tendo um poder sacrifical próprio, superior ao dos leigos. Por isso, também, na Nova Missa, o sacerdote é tido apenas como presidente da assembléia, igual em dignidade a qualquer outra pessoa. Consequentemente, então, se todos tem o mesmo poder sacrifical, uma mulher poderia ser sacerdote, como se exige hoje, coisa que, graças a Deus, o Papa João Paulo II tem condenado seguidamente.

A oposição entre a concepção católica de Missa e a concepção zundeliana de eucaristia fica patente nesta outra citação:

"A missa pode significar toda sorte de coisas diferentes conforme a gente se coloque diante do verdadeiro Deus, um Deus interior e desapropriado de si, ou então diante de um Deus Imperador celeste que puxa as cordéis da história e delega seus poderes a uma hierarquia que seria justificada precisamente pelo exercício desses poderes"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 100. O negrito é nosso).

Para Zundel então, há duas religiões em luta: aquela que adora um Deus transcendente, Senhor de todas as coisas, e que instituiu uma Igreja hierárquica - evidentemente a Igreja Católica -- e uma outra religião, a de Zundel, que crê num deus imanente, interior ao homem.

A religião do Deus transcendente -- a Católica -- acredita que Cristo está realmente presente na hóstia consagrada, guardada nos sacrários da terra -- "uma caixinha" para guardar um ídolo, diz Zundel. A outra religião, a religião que cultua o homem, -- a religião zundeliana que se difundiu, hoje, entre os católicos -- adora o deus imanente que se identifica com o homem, a religião que aceita a equação verdadeiramente redentora do homem e do deus encarcerado na matéria. Esta religião, diz Zundel, acredita que Cristo está no homem:

"Não, Jesus não ia nos montar uma cilada materializando a sua presença, colocando-a ao alcance de nossa mão para fazer dela um ídolo!
(M. Zundel, Un Autre Regard..., pp 101- 102).

"A Eucaristia é então outra coisa: ela significa muito precisamente que nós só podemos atingir Jesus na comunidade, pela comunidade e para a comunidade. Nós não podemos atingi-lo, e não há outro caminho para ir até ele, senão assumindo com ele toda a humanidade, senão entrando em sua pobreza e na sua universalidade, o que é idêntico"

De passagem, convém notar, que se toda a humanidade faz parte do Corpo místico de Cristo, -- toda a humanidade seria a igreja -- então ficaria explicada a nova definição de Igreja adotada pelo Concílio Vaticano II: "A Igreja é o sacramento ou sinal, e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano"

 

(Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, n0 1).

Todos os homens, de fato, fariam parte da Igreja, até mesmo os pagãos, os ateus e infiéis. E esta noção explica o ecumenismo.

Este pensamento herético que identifica a Igreja com toda a humanidade através da Eucaristia, independente do batismo e da ortodoxia, é repetida por Zundel em outros livros:

"Os homens são todos juntos um só pão e um só corpo em Cristo Jesus"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 185).

"Este fato -- [a Eucaristia] -- este fato é a Igreja, e nós temos aí a própria conclusão da realização efetiva da Presença real de Jesus no Santíssimo sacramento: é preciso inicialmente que o corpo místico de Cristo, é preciso que inicialmente que toda a igreja na qual toda a humanidade e todo a criação sejam compreendidas, é preciso que o corpo místico se constitua. Porque somente ele esta na posse sobre seu Chefe, somente ele esta na posse sobre sua Cabeça que é Jesus Cristo"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 184).

Veremos isto, mais a fundo, em outro trabalho.

Retornemos à análise da citação acima de Zundel.

Nela, ele afirma que

"...se não houvesse mais , no mundo, um só ser aberto, pelo menos, em estado de desejo, toda consagração seria impossível porque, então, faltaria nela a condição essencial: ser um apelo da comunidade, para a comunidade, e na comunidade".

Se não houvesse, na Missa, pelo menos uma pessoa querendo unir-se a toda a humanidade, a consagração não se realizaria e a Missa seria inválida.

E Zundel não hesita, pedindo que se preste bem atenção, que, sem essa condição essencial, a Missa é magia, a Missa seria inválida e ineficaz.
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 105).

"A consagração, com efeito, seria inválida e impossível sem esta reunião universal, porque, justamente, ela só se pode realizar na comunidade, pela comunidade, e para a comunidade"

Desse modo Zundel considera que todas as Missas que são rezadas conforme a doutrina tradicional da transubstanciação foram, e são, inválidas e ineficazes

São magia que deveria ser proibida.

Daí, o ódio contra a Missa de sempre, contra a Missa de São Pio V, e a insistência obsessiva que se faz, hoje, para que tudo seja feito "comunitariamente". A palavra "Comunidade" se tornou obsessiva. Se tornou obrigatória. Quase um tabu ou talismã. Ái de quem não a usa ou de quem recusa diluir-se na "Comunidade".

Perdoe-nos o paciente leitor repetirmos tantas citações, confirmando as mesmas idéias de Zundel. Se citamos repetidos textos desse autor é porque seu pensamento é de tal modo inacreditável, e tão absurdamente herético, que dando uma só frase dele, poder-se-ia por em dúvida se realmente ele quis dizer aquele delírio.

Perguntar-se-ia: "Será que é assim mesmo? Será que não houve ou um erro de impressão, ou uma falta de clareza de expressão? Será que não houve algum equívoco?"

E tais dúvidas podem nascer ainda do susto que se tem ao constatar como essa doutrina absurda explica idéias muito difundidas, hoje, nos meios católicos, e, praticamente, em cada paróquia.

E o susto é ainda maior ao se perceber como as doutrinas de Zundel transparecem sob as palavras e fórmulas estranhas que se usam nas missas, hoje em dia, como elas se mostram subjacentes na Nova Missa de Paulo VI, assim como em muitas doutrinas que convulsionaram a Igreja após o Vaticano II.

Por isso repetimos citações. Por isso, pedimos ao nossos pacientes leitores que leiam mais esta citação de Zundel referente à transubstanciação da comunidade = humanidade no Corpo de Cristo.

"Segue-se daí que a Eucaristia é essencialmente uma presença comunitária, uma presença à comunidade, pela comunidade e para a comunidade.("Ele está no meio de nós").

"Não é que Cristo não esteja presente: ele está sempre inteiramente presente em cada um de nós, em cada um de nós! Porque, se nós, nós não podemos estar presentes e interiores nos outros, no interior dos outros, porque somos limitados, e porque nossas fronteiras nos impedem esta presença nos outros, e porque o nosso egoísmo nos encerra em nossa solidão, Cristo, ele, não tem fronteiras, nem limites, e, por conseqüência, ele está no interior de cada um de nós: ele está no interior dos outros -- [prise] sobre ele, não uma posse material, não ! Trata-se de captar com nossa intimidade essa intimidade de Deus que se oferece a nós. E precisamente, o gesto comunitário, se o cumprimos lealmente, vai produzir seus frutos"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 34. O negrito é nosso).

"Cristo, portanto, já está presente em todos, dignos ou indignos,

ele está presente a todos, somos nós que não estamos presentes a Cristo, e na Eucaristia trata-se precisamente que nós nos tornemos presentes a ele, que tenhamos atuação

Se Cristo está presente em cada homem, se no sacrário ele não está presente, se pelo contrário ele está presente na "Comunidade", explica-se então porque o padre deve estar voltado para o povo e não para o sacrário. A doutrina de Zundel explica a necessidade de que a Missa seja rezada pelo padre face ao povo, e não para o sacrário...

É evidente, nesse texto acima citado, que Zundel tem uma concepção gnóstica da eucaristia: Cristo já está presente em todos os homens, dignos ou não, em pecado ou não. Então, a doutrina católica da graça é destruída. Os pecadores têm, eles também, Deus realmente presente neles. Toda a ordem sobrenatural rui por terra. O homem por sua própria natureza seria divino.

E se Cristo já está presente em todos os homens, em cada homem -- mesmo que sejam indignos -- portanto, essa seria uma presença que independeria do estado moral da pessoa, deve-se perguntar se essa presença é ontológica. Porque, se essa presença for ontológica, todo homem, pelo simples fato de ser homem, ainda que não seja católico, ainda que não seja sequer batizado, teria Cristo presente (naturalmente por sua graça sobrenatural) em si.

E é lógico que Zundel pensa isso mesmo; pois afirma que, pela consagração, Cristo passa a estar presente em toda a humanidade, sem excetuar ninguém. Por essa razão é que ele salienta que Cristo não tem limites, não tem fronteiras, nem dogmáticas, nem morais. Pois o dogma é um limite. O estado de graça -- como a Igreja o define -- é outro limite.

A doutrina de Zundel é um pan cristismo semelhante ao de Teillhard de Chardin, e esse pan cristismo é que explica o atual ecumenismo.

Se toda a humanidade é o corpo místico de Cristo, como o Corpo místico de Cristo é a Igreja, conclui-se que a Igreja é o conjunto da humanidade, sem excluir ninguém. Bastaria ser homem, bastaria ser concebido, para ser membro da Igreja. Todo homem, qualquer religião que ele professe, quer seja protestante, maometano, macumbeiro, budista, espírita, pagão ou ateu, homem de boa, ou até mesmo de má vontade, só pelo fato de ser homem, tem Cristo presente em si, e já é membro da Igreja. Todos fazem parte do corpo místico de Cristo. Todos são membros (naturalmente) da Igreja. É o fim da distinção da ordem natural e sobrenatural gratuito pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo, é dizer que o sobrenatural seria um direito da criatura e não um dom gratuito do Criador, ou a criatura seria igual ou o mesmo que o Criador.

Pergunta Zundel:

"Que fazemos nós na Liturgia? Nós não pronunciamos, aí, palavras mágicas para colocar Deus num bocal. Que fazemos nós na Eucaristia? Nós fazemos com que toda a humanidade apele para Cristo, e se solidarize com ele, dizendo sobre ele: "Isto é meu corpo. Isto é meu sangue". Toda a humanidade vindo colocar-se ao pé da cruz.
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 35).

"E Cristo, nas mesmas palavras, investe sua comunidade e se dá à humanidade, dizendo sobre ela: "Isto é meu corpo, isto é meu sangue". E, no final da enunciação dessas palavras, a Presença real da fraternidade se dá verdadeiramente aos seus. Ele se dá à comunidade, pela comunidade e para a comunidade".

"É exatamente este desapego que Cristo quis provocar na eucaristia estabelecendo entre ele e nós toda a humanidade, todo o universo. Para vir a mim, nos diz Jesus -- [Onde é que Jesus disse isso? Zundel inventa palavras que põe na boca de Jesus, palavras que Cristo nunca disse] -- para encontrar-me realmente, para não achar uma caricatura ou um ídolo, para não repetir a ilusão mortal dos apóstolos, será preciso que assumais toda a humanidade e todo o universo -- pelo menos em intenção, isto é, com todas as energias de que sois capazes nesse momento. Quando tiverdes formado juntos o meu corpo místico, quando estiverdes todos reunidos à minha mesa, então será o momento de chamar-me, e eu não hesitarei em responder"
(M. Zundel, Stupore e Povertà, pp. 99-100).

Como se vê, Zundel não hesita em inventar palavras e colocá-las na boca do próprio Cristo, elaborando assim um novo evangelho apócrifo: o Evangelho segundo Zundel

"Segue-se disso que a Eucaristia é essencialmente uma presença comunitária, uma presença à comunidade, pela comunidade, para a comunidade."
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 34).

É claro que não faltará quem pretenda justificar Zundel apresentando o argumento de que Cristo disse: "Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei entre eles" (Mt. XVIII, 20).

Mas, a prometida presença de Cristo entre os que se congregam em seu nome é essencialmente diferente da presença real e substancial de Cristo na Eucaristia. No povo reunido em seu nome, a presença de Cristo é uma graça (de presencia meramente espiritual). Não é uma presença verdadeiramente substancial de seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, como ocorre na hóstia. Equiparar essas duas formas diferentes de presença é sofismar, e querer enganar, usando a palavra "presença" anfibologicamente, com sentidos diferentes.

Para Zundel, Cristo não está real e sunbstancialmente presente na hóstia, mas está presente na Comunidade, isto é, na humanidade.

Se isso fosse assim, não é lógico e natural que o sacerdote celebre a Missa voltado para o povo, para a comunidade, na qual Cristo está realmente presente, e não voltado para o sacrário, onde, segundo Zundel, está um objeto ineficaz guardado numa caixinha, ou um ídolo semelhante a um faraó ?

O centro de tudo, na missa, seria o Povo-Cristo, o Povo de Deus, e não a hóstia consagrada.

Não seria esta doutrina sacrílega e herética de Zundel que inspirou a Missa Nova de Monsenhor Bugnini?

Então, quanta razão tem o Cardeal Ratzinger em dizer que foi um erro mudar a regra que obrigava a fazer o altar, o sacerdote e o povo ficarem voltados para o Oriente, e não para o povo. Que, portanto, foi um erro mandar o sacerdote rezar a Missa voltado para o povo.

Isso explicaria também porque os Cardeais Bacci e Ottaviani, em seu exame da Nova Missa de Paulo VI lhe tenham escrito que a Nova Missa era "um impressionante afastamento da teologia católica da Santa Missa" (Cardeais Bacci e Ottaviani, Breve exame crítico do Novus Ordo Missae).

Para Zundel, portanto, a presença de Cristo só pode ser comunitária, só pode ser na humanidade.

"Isto significa que nosso Senhor só pode estar presente para a humanidade sob a forma de igreja: e isto quer dizer que nosso Senhor é o segundo Adão, como dizia São Paulo. Nosso Senhor, no qual toda a história recomeça, se recapitula, nosso Senhor que é o centro do universo, nosso Senhor que une tudo em si mesmo toda a criação, para que o universo todo seja apenas uma só pessoa, não podia dar outro local de encontro para a humanidade senão esta igreja, a qual responde portanto às exigências de uma comunidade"
(M. Zundel, Il Volto..., p. 164).


 V - Transubstanciação do cosmos em Cristo

 Mas ele vai além.

A consagração realizaria não só a transubstanciação da humanidade no corpo de Cristo, mas faria mais ainda: transubstanciaria o cosmos em Deus, em Cristo. A consagração divinizaria a matéria:

"A Eucaristia não é apenas a realização da humanidade, ela é também a realização do universo. Porque o universo deve, ele também, entrar na vida divina: o universo, ele também deve ser transfigurado pelo olhar de Jesus. A vocação do universo é a de ser o ostensório de Deus"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 75).

Por enquanto, o universo é apresentado apenas como "ostensório de Deus"...Depois...

Zundel insinua, diz sem dizer...

Faz entender, deixando sempre uma via de escape. Mas acaba dizendo o que é, em que consiste essa "vocação do universo": [raccourci] extraordinário".
(M. Zundel, Un Autre Regard..., pp. 192-193).

"E depois, também -- mas haveria tantas coisas a dizer! -- há a transubstanciação que se realiza nessa liturgia: essa mudança essencial da estrutura do pão e do vinho no corpo e sangue do Senhor. Há lá uma espécie de miniatura resumida incomensurável na qual o mais alto atinge o mais baixo, em que a matéria é abrasada de algum modo pelo amor de Deus, em que a matéria é transfigurada, transformada, transubstanciada, para não conservar senão suas aparências que veiculam a Presença real de Nosso Senhor.

"E bem parece que isso nos mostra uma vocação do universo: o universo não é fechado em um determinismo e uma fatalidade materiais. Não! Ele é aberto, o universo é aberto, o universo tem uma vocação, o universo é tocado pelo espírito, ele é chamado a espiritualizar-se, a se libertar, e isto quer dizer que Deus quer se comunicar ao universo, até ao menor átomo da matéria, para tanto quanto ele seja capaz de receber esta comunicação: há aí uma miniatura

Portanto, para Zundel, a matéria deve "libertar-se". E por libertação ele entende a divinização do universo material.

Isso é confirmado por outros textos desse autor.

"Quando Jesus transforma ou "transubstantifica" o pão e o vinho, quando ele introduz a liberdade no coração da matéria, como ele o faz em todos os milagres, justamente ele revela que a vocação do universo é a de ser divinizado: o universo só tem um movimento contínuo que vai do átomo ao homem e do homem a Deus. O próprio sentido do universo é o de refletir o rosto de Deus, é de participar de seu amor, é o de entrar na jubilação da Trindade divina.(M. Zundel, Un Autre Regard..., pp 175-176. O negrito é nosso).

"E eis aí que exatamente através das espécies consagradas a matéria é libertada, o universo físico se personaliza e a unidade da criação, por um momento pelo menos, se realiza".

Nessas frases Zundel expressa uma doutrina bastante afim com o pan cristismo do gnóstico e modernista Teilhard de Chardin.

É esse pan cristismo que faz entender esta outra citação do herege que focalizamos neste artigo:

"A comunhão é algo universal; e a manducação é o sinal que representa uma outra manducação, uma identificação misteriosa que se cumpre no mais profundo de nós, se estamos conscientes da presença universal de Cristo. A vossa comunhão é sempre a comunhão de toda a igreja, de toda a humanidade, de todo o universo; e por isto podeis aproximar-vos da comunhão se não tendes nenhum sentimento sensível, porque a vossa comunhão é a comunhão da igreja inteira"
(M. Zundel, Il Volto..., p. 71).

Noutra passagem, Zundel escreve:

"Deus nos imortaliza, ele é a respiração de nossa vida, somente ele pode fazer de nós uma presença universal que abarque toda a humanidade e todo o universo para fazer dele uma hóstia para a glória do Pai e do Filho e do espírito Santo"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 186).

Havíamos visto que Zundel definira o universo transubstanciado como "ostensório de Deus". Já agora, ele o define como "hóstia"...

Veja-se a confirmação desse pan cristismo zundeliano, que não inventamos, no título de um capítulo de seu livro Un Autre Regard sur l’Eucharistie:

"A Promoção da matéria em eucaristia."

"A Eucaristia, é já a transfiguração de todo o cosmos e de todo o universo num resumo prodigioso. Nessa transfiguração, o que há de mais material no universo é desposado por Deus e transformado por ele até tornar-se o veículo da Presença real.

"A matéria é promovida a tronar-se o signo, e o sacramento, que nos comunica a presença do Senhor, é uma miniatura de toda a história do universo, é a realização de sua vocação derradeira, que é esta transfiguração na luz de Deus: jamais a matéria, o que nós chamamos de matéria, se encontra tão profundamente glorificada!

"É como a imagem do corpo glorificado, do corpo que não significa mais finalmente em sua unidade senão a Presença infinita que a penetra e que é a sua vida"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., p. 190).

Não há dúvida então que, para Zundel, o próprio cosmos está destinado a ser transubstanciado em Deus. A matéria seria transubstanciada, divinizada em Cristo.

Para Zundel, em todas as coisas existiria o que ele chama de a "Presença".

Já vimos que, conforme a Kabbalah, a emanação sefirótica que caiu no mundo e nele ficou aprisionada, é chamada de Schechinah, palavra que significa exatamente "Presença da Divindade", imanente nas coisas, e que é preciso libertar para que ela retorne ao Ein Sof, à Divindade. Para a Kabbalah e para a Gnose -- e a Cabala é a gnose do judaísmo -- a função do homem é ser o redentor de si mesmo, e, redimindo-se, ele redime o próprio Deus. O Homem seria o salvador de si mesmo, e, salvando-se, o homem salvaria a Deus.

Ora, veja-se como Zundel afirma essa mesma doutrina tipicamente gnóstica:

"É preciso admitir, portanto, com os mais humildes fiéis, que Jesus inscreveu realmente no centro da história esta prodigiosa equação: o homem = Deus.

"Para conseguir entender isto -- enquanto e possível conseguir --deve-se reconhecer que a comunicação da intimidade divina é o próprio sentido da criação, cujo surgir inaugura um regime nupcial que se exprime mais profundamente na linguagem humana, pela frase: "Tu és eu" do antigo ritual hindu. De fato, é graças a esta identificação que era formulada neste secular uso o consentimento que constituía o matrimônio. É este "Tu és eu", levado à origem do mundo, que ilumina e fundamenta a equação redentora: para deus, o homem = Deus"
(M. Zundel, Quale Uomo, Quale Dio, p. 158. O negrito é nosso).

O homem é Deus. Este é o primeiro artigo do credo de Zundel (Cfr. no final deste trabalho o Credo de Zundel.

Curiosamente, Zundel acusara a doutrina da Igreja sobre a Eucaristia de ser o pior tipo de materialismo que possa existir: o "materialismo religioso". Ora, ele é que vem agora declarar que pelas palavras da consagração, na Missa, a matéria é libertada e se realiza então a vocação do universo material: entra na vida divina.

Zundel é um herege que procura impingir aos católicos o pior materialismo que possa existir: o "materialismo religioso", muito parecido àquele que se encontra na Cabala e no Romantismo.

 

VI - Igreja, Ecumenismo e Apocatastasis

Como vimos, a doutrina de Zundel identifica a humanidade com o Corpo místico de Cristo. No momento da consagração, todo o universo, toda a humanidade todos os homens, sem excetuar um só, são transubstanciados no corpo de Cristo. Deste modo o universo e a humanidade, sem excetuar nem um só homem, são divinizados e identificados com Deus, formando um só ser, uma só pessoa com Cristo. Nisto se realizaria a verdadeira redenção da humanidade.

Em conseqüência, todo homem, ainda que não seja católico, e mesmo que não seja sequer batizado, faria parte da Igreja, a qual se identificaria com a humanidade e finalmente com o cosmos.

Desse modo, o dogma católico "Fora da Igreja não há salvação" seria um absurdo, porque nada e ninguém pode estar fora da Igreja.

Zundel vai ainda mais longe.

Como ele afirma que em todo homem há uma misteriosa "Presença" -- algo da própria Divindade substancialmente imanente em todas as coisas e em todos os homens -- todos acabariam se salvando. Ninguém poderá ser condenado, porque, caso contrário, Deus estaria condenando a si mesmo, porque o homem = Deus.

Essa doutrina da salvação universal -- a apocatastasis -- foi condenada como herética pela Igreja, mas Zundel a defende sem temor, e até agora, envenenandoo rebanho fiel, sem sanção ou advertência alguma em seus livros.

"Cristo quis que todos formássemos um só corpo, uma só vida, uma só pessoa, um só ser em sua presença. É isto que Cristo quis, ele que é o Segundo Adão e o grande reunidor, ele que é o Homem, e não apenas um homem, ele que contém toda a história, ele que é a unidade do gênero humano, ele que é todas gerações e o contemporâneo de cada uma: ele quis que nós formássemos um só corpo, uma só vida, uma só pessoa, um só ser em sua presença.

"Se há um vazio, se há uma exclusão, se alguém está ausente em nosso coração, se alguém é repelido ou condenado, nós não podemos ser uma presença real porque aí está a questão: a questão não é que Jesus esteja ou não esteja lá., ele está sempre lá porque ele é interior a cada um de nós, ele está sempre lá [como também estaria na sopa de Zundel] numa expectativa infinita, ele está sempre lá, quaisquer que sejam nossas renegações, é a nós que cabe estar lá"
(M. Zundel, Un Autre Regard..., pp103-104. O negrito é nosso).

Nesse texto Zundel deixa clara sua doutrina cristicamente monista, que tem por conseqüências necessárias a identificação da Igreja com a humanidade, e desta com a Divindade, sem excluir ninguém. Portanto, ninguém podendo ser condenado.

Zundel afirma -- contra o que ensina São Paulo -- que não é preciso temer por nossa salvação:

"Não se trata mais, portanto, de tremer por nossa salvação, mas de tremer pela crucificação de Deus. Nada arriscamos do lado de Deus. Como é que uma mãe poderia ser outra coisa senão mãe? Será que uma mãe vai supliciar seu filho? Não, ela vai tomar o lugar dele. Será que Deus é menos mãe, menos mãe do que uma mãe humana, quando ela é perfeita? É impossível. Ele é infinitamente mais mãe do que todas as mães. Nós não arriscamos nada por parte de Deus., é Ele que arrisca tudo de nossa parte, porque nós podemos nos fechar, nós podemos nos recusar, nós podemos nos destruir, nós podemos nos ausentar e Ele está sem defesa contra nós"
(M. Zundel, Silence, Parole de Vie, Éd. Anne Sigier, 1990, p. 68).

Zundel exclui a possibilidade de que Deus castigue os homens eternamente no inferno de fogo, como Cristo o disse e como a Igreja ensina.

Ele ironiza e blasfema do Deus Ultor, do Deus vingador:

"Como se pode apresentar o inferno como uma "rotisserie" inventada por Deus, na qual Deus mergulha eternamente criaturas miseráveis que ficam em espantosos gemidos? É claro que o inferno pode ser visto em diferentes níveis e que o inferno corresponde de um modo geral a esta idéia, a esta certeza que há uma diferença entre o bem e o mal, que, por conseqüência, o bem e o mal não podem conduzir ao mesmo resultado. E esta idéia profundamente justa, é preciso não enfraquecê-la, tudo ao contrário. É preciso sublinhar constantemente que o bem e o mal são diferentes e que eles não podem ter a mesma saída. É preciso não esquecer ainda que, no Novo Testamento, o Bem é Alguém a amar e que é preciso tornar-se o Bem, o que já constitui uma diferença, assim como o mal é um ferimento feita a Alguém, e não, antes de tudo, a violação exterior de uma lei exterior a nós mesmos"
(M. Zundel, pp. 68).

E daí Zundel retira uma conclusão incrível:

"E isto é o inferno cristão: um Deus crucificado em nós, se recusamos amá-Lo, eternamente crucificado em nós, se recusamos eternamente amá-Lo. Então, o julgamento não é mais o julgamento do homem por Deus, é o julgamento de Deus pelo homem".
(M. Zundel, Silence, Parole de Vie, pp 68).

Conclusão que ele confirma, dizendo ainda:

"E é por isso que o cristão está descarregado do cuidado de sua salvação: não se trata mais de salvar-se mas de salvar Deus de nós, de salvar Deus de nossas trevas, de nossos limites, de nossas recusas, de nossas ausências, de nossas distrações, afim de, como diz São Paulo, não afligir o Espírito"
(M. Zundel, Silence, Parole de Vie, p. 68).

Deus é quem estaria sendo salvo, e não o homem, tudo ao contrário.

Como explicar esta afirmação surpreendente?

Não vemos outra explicação possível senão a da Gnose.

O homem, e todas as coisas, teriam dentro de si uma partícula divina. A missão do homem seria reconstituir a unidade divina perdida na criação, fazendo com que todas as partículas divinas, aprisionadas na matéria, retornam ao pleroma divino refazendo a unidade perdida de Deus. O homem seria salvador de Deus. Mas esta salvação é fatal, inelutável. Por isso, por mais que surjam vicissitudes e contratempos, Deus acabará sendo salvo pelo homem. Não há que temer por nossa salvação. Deus é que pode temer que falhemos, fazendo durar mais tempo o exílio da Divindade no mundo.

Mas, ao fim e ao cabo, todos os homens seria salvos, porque para esta salvação, não se leva em conta a moral -- a obediência a uma lei exterior a nós , imposta por um faraó, exterior ao homem -- mas a salvação tem razão ontológica, não moral. Todos os homens se salvarão, porque todo homem = Deus.

Esta seria a equação redentora inscrita no coração da História, como vimos Zundel afirmar.

Todas essas considerações permitem compreender melhor, agora, pelo menos alguns dos artigos do Credo de Zundel, no qual ele substitui Deus pelo Homem:

"Creio no homem criador do homem.
Creio na trindade humana: pai, mãe e filho.
Creio na virgindade da paternidade e da maternidade autênticas. Creio na virgindade do amor.
Creio na comunhão de luz na qual as pessoas reciprocamente se geram e se reconhecem.
Creio no valor infinito do corpo humano e em sua eternidade.
Creio que Deus é a vida e o segredo do corpo como ele se revela nele.
Creio que Deus se faz corpo tanto como ele se faz homem.
Creio que o corpo só se torna ele mesmo desenvolvendo a dimensão mística que o personifica e que escapa a toda posse.
Creio que o amor é um sacramento que é preciso receber de joelhos".

(M. Zundel, Credo, apud Marc Donzé, La pensée théologique de Maurice Zundel, Ed. du Tricorne, Genebra, ed. Cerf, Paris, 1980-981, p. 290).

Esse estranho "Credo" que nada tem de católico foi encontrado entre os papéis de Zundel que tratavam do amor e da sexualidade, por Marc Donzé, que o publicou em seu livro acima citado.

Vários artigos desse "Credo" são ininteligíveis sem uma explicação mais profunda da teologia de Zundel.

Aliás, como é natural, é essa teologia que explica a doutrina herética e gnóstica que Zundel e sua escola tem da Eucaristia.

Essa doutrina teológica de Maurice Zundel pretendemos estudá-la em outro trabalho que faremos, em breve.

De qualquer forma queremos, mais uma vez, registrar nosso espanto de que um homem, com essa doutrina herética, possa ter gozado da amizade e do favor de Monsenhor Montini, e, depois da amizade do Papa Paulo VI que o promoveu. Nosso espanto cresce ainda mais, chegando às raias do escândalo, por saber que Maurice Zundel foi convidado pelo Papa Paulo VI para pregar "exercícios espirituais" para o Papa, para os Cardeais, e para a Cúria Romana, no Vaticano, em 1972. Não podemos deixar de perguntar-nos: a quantos Prelados terá intoxicado Zundel?

Fica identificada a "fumaça de Satanás" que Paulo VI denunciou ter se infiltrado no Templo de Deus.

São Paulo, 27 de Março de 2.002
Orlando Fedeli

 

 

 


    Para citar este texto:
"Maurice Zundel: um herege escandaloso e descarado"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/religiao/zundel/
Online, 27/06/2017 às 19:24:32h