Religião-Filosofia-História

A Teologia do Novus Ordo Missae é a mesma da Celebração da Palavra de Deus?
Bruno Oliveira
 
 
SUMÁRIO
 
 

 
O homem é um animal que esquece
Píndaro, Hino a Zeus
 
Inesquecível é o que amamos
Santo Tomás, comentário ao salmo 9
 
 
 
1. Introdução: Tradição & Identidade
 
Desde o mundo antigo há uma constatação presente em muitas culturas: o esquecimento humano. Em árabe a palavra para designar homem é ‘Insan’, que significa literalmente ‘aquele que esquece’, pois ‘Insan’ nasce do verbo ‘nassa/yansa’ que significa ‘esquecer’.
 
Todo o respeito, reverência, cuidado e amor que o mundo antigo devota à noção de tradição, possui raiz também na constatação dessa carência na alma humana, o esquecimento, pois se o homem esquece é preciso sempre lembrá-lo pelo menos daquilo que é o mais importante, e a tradição é o instrumento para lembrar e ensinar. Cada geração, portanto, preza por entregar à próxima geração aquilo que lhe é de mais valor: tradição (do latim, tradere) significa ‘entregar’. Nesse sentido compreendemos que uma das funções da ‘tradição’ é suprir o esquecimento próprio do homem. Somente temos ciência ‘do que somos’ se preservamos nossa memória. Memória e identidade são profundamente conexos e para nós é impossível responder ‘ao que somos’ sem acessar a memória.
 
O cultivo do passado é necessário para que permaneçamos nos conduzindo para o futuro e aquilo que deve ser cultivado de um povo, de uma civilização, é a cultura, que tem sua raiz no verbo latino ‘colere’ (cultivar). Em grego, a mesma palavra que designa tradição, também designa educação, e reúne em seu significado próprio a noção de perpetuação de valores ao longo do tempo:
 
(...) civilização, cultura, tradição, literatura ou educação; nenhuma delas, porém, coincide realmente com o que os Gregos entendiam por paidéia. Cada um daqueles termos se limita a exprimir um aspecto daquele conceito global, e, para abranger o campo total do conceito grego, teríamos de empregá-los todos de uma só vez. E no entanto a verdadeira essência da aplicação ao estudo e das atividades do estudioso baseia-se na unidade originária de todos aqueles aspectos - unidade vincada na palavra grega -, e não na diversidade sublinhada e consumada pelas locuções modernas” (JAEGER, 2013, Introdução, s/n).
 
O cultivo correto dessa tradição grega proporcionou ao homem chegar a princípios metafísicos absolutamente seguros, ou seja, a um "conhecimento [que] dá ao pensamento e à ação uma segurança antes desconhecida" (JAEGER, 2013, p. 10). Tais princípios metafísicos encontraram seus fundamentos na própria Revelação e Tradição Católica. Em função da harmonia existente entre os ‘princípios metafísicos’ e a própria Revelação, temos uma concordância entre a fé e a razão. A Revelação e a metafísica estavam unidas no eterno por seu objeto – Deus – tais tradições teriam que se unir também no tempo: na Igreja, esposa de Deus. E os filhos da união dessas tradições podem ser observados em todo o seu esplendor, na Teologia de Santo Tomás de Aquino. A proximidade entre a noção de ‘Yaveh’ (‘aquele que é’) e o ‘Ato Puro’ de Aristóteles são prova de que o Deus da razão é o mesmo Deus da fé.
 
A doutrina da Igreja Católica é, portanto, também uma tradição, mas essa tradição possui status ontológico distinto, pois é uma tradição apostólica revelada pelo próprio Deus: "Guardai as tradições que aprendestes, ou por nossas palavras, ou por nossa carta" (II Thess. II, 14). A união dessa tradição revelada com os mais belos esforços argumentativos da Grécia antiga iluminou uma das inquietações mais profundas do homem, pois toda a paidéia “(...) não é possível sem se oferecer ao espírito uma imagem do homem tal como ele deve ser” (JEAGER, 2003, p 24). Ora, o que ‘deve ser’ é ideal e, portanto, não constitui realidade plena, por isso os Gregos criavam personagens que pudessem ‘realizar’ tais ideais na vida humana, tentando oferecer algum tipo de materialidade prática de tais princípios.
 
Mas a Igreja, seio da união entre fé e razão, vai muito além, e oferece o Ser Perfeito efetivamente encarnado. O Eterno que caminha entre os homens, o Eterno que brilha e assim ilumina todo homem que vem a este mundo e acaba por solucionar todas as suas inquietações. A Igreja nos oferece o ‘Ecce homo’ que faz o eterno ecoar no tempo. E esse Eco Eterno possui um veículo próprio de propagação na história: a Liturgia da Missa, centrada na eucaristia. Ela mesma eterna e única, que se atualiza no tempo a cada liturgia sacrifical. E como deveria a Igreja guardar esse tesouro ao longo do tempo? Certamente de modo intocável! E como deveria ser transmitida? Certamente sem nenhuma novidade, pois o próprio ato de acrescentar novidades nos colocaria em uma posição acima do Deus revelado.
 
Consideramos aqui a ‘mudança’ ao modo aristotélico, ou seja, uma noção de ‘mudança’ que não destrói o ‘ser’. O princípio de identidade ensina que cada ser ‘é’ o que ‘é’. Mas nas mudanças há algo que muda e algo que não muda. Para que possamos identificar o que muda e o que não muda. Para que a noção de ‘ser’ coexista com a noção de ‘mudança’ em efetiva harmonia metafísica faz-se necessário distinguir os dois tipos de mudanças: as substanciais e as acidentais. Expondo de modo simplificado: As mudanças substanciais são: geração e corrupção do sujeito da mudança. Já as mudanças acidentais, grosso modo, ou preservam a natureza do sujeito das mudanças, ou não preservam. Quando tais mudanças acidentais são feitas em conformidade com a finalidade da natureza do sujeito pode existir – inclusive – um aperfeiçoamento do sujeito naquilo que é possível de ser aperfeiçoado. Ou, há ainda, outras mudanças acidentais que atentam contra o próprio sujeito da mudança, tais mudanças acidentais não se realizam em conformidade com o fim próprio da natureza do ser, por isso não se articulam no sentido de preservar o sujeito, mas acabam por degenerá-lo naquilo que é possível degenerar.
 
Aplicando esses conceitos à liturgia: há mudanças acidentais que podem e devem ocorrer, para, por exemplo, combater uma heresia. Há mudanças acidentais que, no entanto, diminuem o relevo da fé na presença real de Nosso Senhor na Eucaristia, tais mudanças não devem existir, pois se colocam diretamente contra a fé no seu sujeito e fundamento: a Eucaristia. Há ainda mudanças substanciais litúrgicas que existiriam no âmbito do cânon da missa. Essas não devem existir, porque o núcleo da liturgia - a Missa - foi instituída diretamente pelo próprio Deus.
 
 
2. A Falsa Tradição Nascida no Interior do Homem
 
Evidentemente não consideramos aqui uma tradição secreta ou esotérica, contrária aos ensinamentos de Deus já condenada, por exemplo, no próprio Evangelho São Marcos, 7,6:
 
“Ele (Cristo) respondeu-lhes: <<Com razão Isaías profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu (29,13): Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. É vão o culto que me prestam, ensinando doutrinas que são preceitos humanos. Pondo de lado o mandamento de Deus, observais cuidadosamente a tradição dos homens>>.

Disse-lhes mais: «Vós bem fazeis por destruir o mandamento de Deus, para manter a vossa tradição. Porque Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe. E todo o que amaldiçoar seu pai ou sua mãe, seja punido de morte (Ex. 20,12; Dt. 5,16; Ex. 21,17)>>.

(...)

Convocando novamente o povo, dizia-lhe: «Ouvi-me todos, e entendei. Não há coisa fora do homem que, entrando nele, o possa manchar, mas as que saem do homem, essas são as que tornam o homem impuro. Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça>>.

(...)

E acrescentava: <<O que sai do homem, é que contamina o homem. Porque do interior, do coração do homem é que procedem os maus pensamentos, os furtos, as fornicações, os homicídios, os adultérios, as avarezas, as perversidades, as fraudes, as libertinagens, a inveja, a maledicência, a soberba, a loucura. Todos estes males procedem de dentro, e contaminam o homem>>”.
 
Existe, portanto, uma tradição que destrói os mandamentos. Nosso Senhor, colocando-Se contrário a esta estranha tradição, cita Moisés, nos lembrando de que devemos honrar pai e mãe, responsáveis por nos transmitir a boa tradição. Tais palavras certamente merecem uma análise em profundidade, mas tal análise fugiria aos objetivos do presente texto.
 
Já nos tempos modernos o interior do homem (ou sua subjetividade) é profundamente enaltecido, até mesmo exaltado e cultuado, nos escritos de Kant, Hegel, e do próprio Kierkegaard. O interior do homem é, de fato, tomado como lugar do Deus imanente, como vemos no comentário de Habermas sobre a obra “Conflitos das faculdades” de Kant:
 
"Porquanto, somente "o Deus em nós mesmos", é interprete autêntico (...)” (HABERMAS, 2007, p. 240).
 
Ou ainda Gadamer comentando sobre Hegel:
 
Mas mesmo aqui é um ser-interior (Innesein) o que permite experimentar a força. Esse ser-interior é o modo de experimentar a força, uma vez que esta se refere por essência a si mesma. Em sua ‘Fenomenologia do Espírito’ Hegel demonstrou convincentemente a subsunção dialética da ideia de força na infinitude da vida, que se refere a si mesma e se recolhe na sua interioridade” (GADAMER, 2007, p.280).
 
Ora, Nosso Senhor condena o interior do homem como produtor daquilo que não deveria existir!
 
Essa tradição obscura também é reconhecida pelos especialistas não católicos:
 
Em hebraico, kabbalah significa "tradição". A cabala é o movimento através do qual o misticismo judeu foi expresso, especialmente entre os séculos décima segunda e séculos XVII. Além disso, o cabalístico místico caracteriza-se menos pela união com a divindade do que pela aspiração ao conhecimento do mundo, suas origens, seu fim: um conhecimento adquirido através da contemplação e iluminação, graças à transmissão de uma revelação primordial. A cabala - uma gnose que indica aos adeptos o caminho interior da divindade - apresenta-se, portanto, como uma tradição esotérica, uma teosofia, uma hermenêutica” (FAVRE, 1977, p. 8).
 
Ou ainda:
 
“O ensino esotérico deixa espaço para a ideia de "tradição", mais ou menos preservada, que pode ser recuperada ou por efeito de uma iluminação interior, ou graças a iniciações que contêm tesouros preciosos do conhecimento ou são veículos de poderes sobrenaturais. A iniciação é inseparável da regeneração, que depende da gnose e não da igreja. Finalmente, o esoterismo muitas vezes insiste na iminente destruição da Igreja material, mas muitas vezes profecia o advento do reino da Igreja invisível” (ibid., p. 4).
 
Faz-se claro pelas citações acima, que há uma verdadeira luta entre as duas tradições. Havendo tal realidade, não devemos nos deixar influenciar por novidades litúrgicas que tentam deturpar a tradição da Igreja, ou ainda nos deixar encantar com as novidades ou fábulas daqueles que tentam influenciar a Igreja, por exemplo, com a pseudo sabedoria egípcia, como no caso do professor Donato. Para maiores detalhes sobre esse tema verificar: Os erros da Filosofia Perene, autora Heloísa Gusmão, no site Montfort.
 
 
 
3. A Religião como Epicentro da História
 
A partir do conhecimento dessa luta entre tradições, é necessário identificar e se aprofundar no estudo dos instrumentos utilizados com o intuito de destruir a tradição da Igreja. No caso, entenderemos melhor a relação entre as modificações na religião e seus efeitos na sociedade como um todo. Posteriormente, estudaremos as alterações na liturgia como forma de propagação das alterações na própria religião, ou seja, como forma de mudança na própria liturgia:
 
A história da Grécia e de Roma é testemunho e exemplo da estreita relação que há entre as ideias da inteligência humana e o estado social de um povo. (...) à frente dessas instituições e dessas leis, colocai as crenças, e os fatos tornar-se-ão claros e sua explicação tornar-se-á evidente. Se, considerando as primeiras idades dessa raça, isto é, a época em que fundou suas instituições, observamos a ideia que fazia então da criatura humana, da vida, da morte, da segunda existência, do princípio divino, percebe-se íntima relação entre essas opiniões e as regras antigas do direito privado, entre os ritos que se originaram dessas crenças e as instituições políticas. A comparação das crenças e das leis mostra que a família grega e romana foi constituída por uma religião primitiva, que igualmente estabeleceu o casamento e a autoridade paterna, fixando as linhas de parentesco, consagrando o direito de propriedade e de sucessão. Essa mesma religião, depois de estabelecer e formar a família, instituiu uma associação maior, a cidade, e predominou sobre ela como o fazia na família. Dela se originaram todas as instituições, como todo o direito privado dos antigos. Da religião a cidade tirou seus princípios, regras, costumes e magistraturas. Mas com o tempo essas velhas crenças foram modificadas, ou desapareceram por completo, e o direito privado e as instituições sofreram idêntica evolução. Surgiu então uma série de revoluções, e as transformações sociais acompanharam regularmente as transformações da inteligência” (COULANGES, 2008, p. 8 e 9).
 
Portanto, se em nossa sociedade atual desejamos entender as causas das mudanças na noção de família e de propriedade, entender a supervalorização da igualdade pelas mentalidades de esquerda ou, no extremo, a contínua substituição de valores e princípios proclamadas pelo niilismo, devemos procurar essas causas nas crenças da religião.
 
As modificações na religião são como o epicentro dessas mudanças na sociedade inteira. Modificando a religião estamos estremecendo a sociedade diretamente em suas bases mais fundamentais. Aplicando à História Contemporânea esse princípio colocado por Coulanges, podemos pensar na exaltação do ecumenismo e sua relação com a aceitação do divórcio. Dado que a religião é a ‘esposa de Deus’, conforme explicado por São Paulo, havendo um único Deus, há somente uma esposa, e sendo Deus único e verdadeiro, então há somente uma única religião verdadeira. Mas se há outras religiões que são aceitas como possibilidades de culto a um único e mesmo deus, então temos um deus único e falso que se une com várias esposas. O ecumenismo, então, favorece a aceitação e mesmo a proliferação do divórcio. Somente em um mundo pós protestantismo e ecumênico, é possível entender a aceitação larga e profunda do divórcio.
 
As mudanças na sociedade são então ‘ecos’ das mudanças na religião. Citando João Paulo II, Coda sustenta essa ideia: “Como sublinhou com força há não muito tempo o Papa João Paulo II: << “As crises da cultura europeia são as crises da cultura cristã” >>” (CODA, 1984, p. 46, tradução nossa).
 
A expressão da religião mais facilmente assimilável é a sua liturgia. Se modificamos aquilo que foi revelado por Deus, até mesmo, o modo pelo qual Ele deseja ser cultuado, o que deveria permanecer intocável? A resposta é simples: nada permanece intocável - o casamento pode ser desfeito; a vida humana pode ser medida somente com números; o prazer justifica a exploração e o gênero humano pode ser mudado.
 
A intuição de [Walter] Benjamin de que o inadequado ‘continuum’ de toda a história precedente tem que ser quebrado – o grito da criatura atormentada de que tudo << deve ser de outra maneira >> – tem certamente, depois das catástrofes acontecidas em nosso século, uma força maior que a meramente sugestiva”. (HABERMAS, 2001, p. 142).
 
Muito interessante a aproximação entre o ‘desejo de mudança’ em todas as coisas e o tormento da criatura sob a forma de ‘grito’. Deliberando um pouco além da citação acima de Habermas: poderíamos identificar entre as causas das catástrofes do nosso tempo o próprio desejo atormentado de que tudo << deve ser de outra maneira >>.
 
São muitos os autores que identificam o início da modernidade com Lutero, pois se há outra religião que foi fundada com base no mesmo livro da religião única e verdadeira – as Sagradas Escrituras – então a religião e a verdade são somente interpretações (hermenêuticas). Segundo Habermas:
 
Os acontecimentos-chave históricos para o estabelecimento do princípio da subjetividade são a Reforma, o Iluminismo e a Revolução Francesa. Com Lutero, a fé religiosa tornou-se reflexiva; na solidão da subjetividade, o mundo divino se transformou em algo posto por nós” (...).
 
E continua o autor:
 
Contra a fé na autoridade da predicação e da tradição, o protestantismo afirma a soberania do sujeito que faz valer seu discernimento: a hóstia não é mais que farinha, as relíquias não são mais que ossos” (HABERMAS, 2002, p. 26).
 
Mas o que significa – de fato – essa mudança em função de Lutero, segundo o professor da Lateranense:
 
(...) dialética em sentido genuinamente luterano significa coincidência paradoxal dos opostos no nível da justificação e da fé. Com efeito, segundo Lutero, a revelação do mistério de Deus acontece sempre a cabo ‘sub contraria specie’, ou seja, sob o véu de uma realidade que é, na aparência, oposto ao próprio Deus
 
e continua o autor citando Moltmann (formulando com Schelling):
 
Todo ser pode manifestar-se somente em seu contrário” (CODA, 1984, p. 95, tradução nossa).
 
Dessa maneira, se Deus existe, Ele só poderá se manifestar pela ausência, pelo nada. Com base nessa metafísica às avessas fundamenta-se uma Estética do Desaparecimento conforme explicado por Paul Virilio, infelizmente, tão presente no mundo atual, e também na liturgia do ‘Novus Ordo Missae’.
 
Ora, como a liturgia deve acompanhar essa teologia? Já que o signo dessa Nova Teologia é a ausência, o desaparecimento, a liturgia se revela pela ausência de adornos, de sacralidade, na ausência dos paramentos, ausência de orações catecúmenas, despojando-se assim de tudo aquilo que em conjunto dá identidade para a liturgia da Igreja Católica. A cada ‘despojamento’ a liturgia católica torna-se mais protestante. Quanto menos católica, mais ecumênica, pois quanto menos católica, menos ofensiva à outras religiões.
 
Conforme explica Ratzinger, na liturgia católica há um centro, um ponto de unificação, um fundamento, para onde todas as atenções se concentram: a consagração, a transubstanciação. Já a liturgia protestante (em sentido largo) não há um clímax, pois não há Eucaristia. Outro ponto que podemos analisar para raciocinar é de que maneira essa ausência, ou esse desaparecimento, cria uma tensão em seus expectadores, pois caracteriza uma tensão sem resolução. É como, em música moderna, quando uma melodia não termina, e permanece, em suspense, inacabada. Essa tensão – pela ausência existe somente ‘durante’ o desconforto da interrupção permanece enquanto expectativa frustrada. Na liturgia, a ausência da transubstanciação possui um caráter desnorteador e corrosivo, pois se não existe um ponto de resolução na celebração, cria-se uma tensão resultante dessa ausência. Tal tensão torna-se presente a cada celebração, sendo registrada na memória sob a forma de frustração, o que causa um certo ‘enfado’, uma certa paralisia diante da expectativa de algo que não acontece. O que – evidentemente – não favorece a fé católica.  
 
No centro – portanto – da resistência e combate aos erros da ‘Nova Teologia’ deve estar a resistência às mudanças litúrgicas e o amor à ‘liturgia de sempre’.
 
 
 
4. Nova Teologia, Nova Religião – Consciências Confusas
 
Dado esse contexto, temos observado, infelizmente, um certo desconhecimento por parte de alguns fiéis ligados à Missa de São Pio V em relação à teologia do Novus Ordo Missae. Tal desconhecimento acaba por produzir consciências confusas e por isso sem a devida liberdade. Afinal, a liberdade se dá apenas pela verdade (“E conhecereis a verdade. E a verdade vos libertará” João 8:32). Somente conhecendo a teologia que fundamenta essa liturgia é que poderemos identificar seus diversos desdobramentos ‘celebrativos’.
 
Quando conhecemos bem as videiras, podemos identificar e classificar suas diferentes espécies a partir do conhecimento da natureza delas. Alguém que não conheça bem a natureza de uma certa videira pode se confundir, tomando por boa videira aquilo que na verdade é uma má videira e, a partir desse momento, apreciar como bom vinho aquilo que na verdade é um mau vinho.
 
A liturgia serve para dar o devido culto a Deus, conforme Ele mesmo especificou. No entanto se ignoramos tais prescrições reveladas pelo próprio Deus, não honramos a Deus, mas O ofendemos.
 
A ‘Nova Teologia’ foi originalmente identificada por Garrigou Lagrange, sobretudo em sua mutabilidade. Tal mutabilidade fazia com que ele se perguntasse: ‘Para onde vai a Nova Teologia?’ Essa doutrina se fundamenta em um certo evolucionismo doutrinário, conforme nos explica o próprio Garrigou citando o “novo teólogo” Pe. Henri Bouillard em seu livro Conversion et grâce chez saint Thomas d´Aquin, de 1944, na p. 219:
 
Quando o espírito evolui, uma verdade imutável não se mantém senão graças a uma evolução simultânea e correlativa de todas as noções, mantendo entre elas uma mesma relação. Uma teologia que não fosse atual seria uma teologia falsa” (LAGRANGE, 2001, p. 167).
 
Essa doutrina, como um camaleão, camufla-se sob várias expressões que ela mesma produz. Essas expressões funcionam como vestes diferentes do mesmo conteúdo. E é exatamente isso que tem acontecido: há uma grande proliferação de atos litúrgicos novos que possuem essa mesma raiz. Essa ‘teologia’ ainda influencia muitos membros da igreja e continua a fecundar as consciências com ideias ‘teológicas evolutivas’. Portanto, o modo próprio da manifestação dessa ‘Nova Teologia’ é a novidade e um de seus frutos são as liturgias criativas ou inovadoras.
 
Portanto, assim como uma falsa videira produz algo que não é vinho e uma má videira produz um mau vinho, também a ‘Nova Teologia’ acabou produzindo outras liturgias. Identificar corretamente uma teologia e sua respectiva liturgia nos é de suma importância, pois nos alimentar do erro ambíguo da ‘teologia evolutiva’, só produz morte, “Lex Orandi Lex Credendi”. Decidir verdadeiramente, conhecendo os princípios, nos faz realizar nossa racionalidade. Decidir o que participamos – liturgicamente – é nos fazer homens livres sadios. Jaeger comentando o Protágoras de Platão assim nos ensina:
 
Platão, exorta os homens a velar pelas suas almas, recorda aqui ao seu jovem amigo o perigo em que mete a sua ‘alma’, ao confiá-la a um desconhecido, cujas intenções e objetivos ignora por completo. (...) enquanto o mercador vende alimentos que se podem levar para casa, nos recipientes que para isso trazem, e que se podem provar antes de se comerem, o jovem Hipócrates, ao contrário, terá que consumir imediatamente, logo lá, o alimento espiritual ministrado por Protágoras e assimilá-lo diretamente, na sua própria alma, sem saber se o favorece ou o prejudica” (JAEGER, 2003, pp. 623 e 624).
 
Cuidar em conhecer o alimento espiritual que nos nutrimos é “velar pela própria alma”.
 
Apesar de serem certamente poucas as pessoas que conhecem as raízes teológicas da liturgia, é pela própria liturgia que o grande público acaba por ser influenciado pela nova teologia.
 
A renovação litúrgica é o fruto mais visível de toda a obra conciliar ' (Synodi Extr. Episc. 1985 «Relatio finalis», II, B, b. 1). Para muitos, a mensagem do Concílio Vaticano II foi percebida antes de tudo por meio da reforma litúrgica." (João Paulo II, Carta Apostólica Vicesimus Quintus Annus, sobre o vigésimo-quinto aniversário da promulgação da constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, 4 de dezembro de 1988, n. 12).
 
No reino das opiniões, um posicionamento firme é sedutor. Em um mundo pós-moderno, cínico (no sentido dado por Peter Sloterdijk em ‘Crítica da Razão Cínica’), onde as adesões intelectuais ou as convicções são efêmeras e descartáveis, os homens se perdem. Confundem ‘o que são’ com as ‘representações criadas de si’. Onde vozes dissonantes anunciam opiniões contraditórias e igualmente válidas, a tentação da ideologia (moderna) é profundamente sedutora. O ‘desejo de conduzir’ do líder, e o ‘desejo de ser conduzido’, são o campo fértil para a existência da ideologia pois, em um mundo de frustrações, a liberdade é progressivamente detestada. Conforme foi empregado por Marx e Engels em sua obra “Ideologia Alemã”, o conceito de ideologia é um
 
conjunto de ideias que procura ocultar a sua própria origem nos interesses sociais de um grupo particular da sociedade” (LÖWY, 1989, p. 12).
 
A ideologia possui uma roupagem cheia de certezas, porém carece de fundamento na realidade, já que serve para distanciar seus seguidores da própria realidade. Isso porque é na análise da própria realidade que podemos identificar a origem real da ideologia.
 
Tomando por base a ideologia, são confeccionados imaginários (ou sonhos). Tais imaginários constituem identidades falsas, que forjam ‘lógicas fabricadas de identificação social’, como por exemplo, facções políticas, ou ainda seitas. Por natureza a ideologia é sempre contrária a doutrina católica. O catolicismo não nos distancia da realidade, pelo contrário, com a Igreja compreendemos melhor o mundo e a nós mesmos. A fé e a razão estão sempre unidas na verdade: não há divórcios. Quando tais confecções ideológicas se utilizam da doutrina católica é somente para constituir uma camuflagem, seu conteúdo é a tradição oposta à tradição apostólica: a loucura nascida no interior do homem. As causas e as consequências dessas ideologias se identificam no distanciamento da verdade e o resultado psicológico são consciências obliteradas ou turvadas.
 
A ambiguidade, ou a contradição assumida na noção da ‘verdade evolutiva’, impõe uma igualdade de significado entre o ‘ser’ e o ‘devir’. Para eles o ‘é’ equivale ao ‘devir’. A aceitação da noção filosófica evolucionista – de verdade – repercute psicologicamente no paradoxo, na aceitação da ambiguidade. Essa confusão de alma tende a expressar-se de maneira ambígua. Por exemplo: na vestimenta.
 
O homem naturalmente deve vestir-se conforme o que ele ‘é’. No entanto, nas consciências confusas, temos manifestações marcadas pela contradição: um homem do século XX pode vestir-se como um cavaleiro medieval. Um padre pode vestir-se como leigo. Os homens vestem-se do que desejam ser. Ou ainda, vestem-se daquilo que um dia serão, já que consideram o ‘ser’ igual ao ‘devir’.
 
A ambiguidade aceita no vestir incentiva a alma para a aceitação de outras ambiguidades. Ainda que de modo não explícito, mas de modo sutil. O que antes era combatido intelectualmente, agora é aceito – tacitamente – pelo menos no vestir. O efeito reforça a causa. “Um abismo chama outro abismo” (Sl. 42,7). A moda sempre esteve encharcada por ideologias. Materialmente o homem veste as roupas do seu próprio desejo, psicologicamente ele acredita nas “ilusões do eu”. O sujeito psicológico real dilui-se nas ‘formas de subjetivação mais convenientes para o momento’. No fim essas atitudes constituem um desconforto que é – paulatinamente – neutralizado com a reformulação de intimidades artificiais fabricadas pelo ‘desejo de ser’ algo que na verdade não ‘é’. O que só produz mais frustração, pois assume como remédio aquilo mesmo que é causa da aflição: a não aceitação da sua real condição.
 
A verdade antes buscada pelos neófitos, agora inoculados com a ideologia, é progressivamente esquecida. Pois a realidade do que se é (identidade) é gradualmente entendida como um percalço a ser superado. Sob o império da vontade a inteligência alimenta-se cada vez menos da realidade, da verdade. O líder fisga os seguidores utilizando-se das ilusões dos próprios seguidores, torando essas ilusões ainda mais sedutoras. Nesse estado de consciência, não há decisões verdadeiras, mas somente obediência. Obediência a um líder, a um parente, ou a um superior. Aqui a obediência significa ser o que se deseja ser. A obediência nesse caso, não é boa, mas prejudicial, pois não constitui algo racional e santo como a Igreja sempre ensinou sobre a santa obediência, mas torna-se uma fuga, um escape.
 
As pessoas então acabam por agir assumindo, de modo não explícito, elementos da ‘sociedade de massas’:
 
(i) Um desejo de ausentar-se de si, de subtrair-se das próprias responsabilidades, e das próprias características constitui um espírito propício à ação das massas, (ii) E cederá com maior facilidade quanto mais claro o anonimato, portanto ausente da responsabilidade de seus próprios atos” (LE BON, 1954, p.32).
 
A ideologia forja massas, pois sendo um constructo falso não alimenta verdadeiramente as almas, acaba por transformar ‘pessoas comuns’ em pessoas cada vez mais fracas e vulneráveis. Mais propensas a seguir, e menos propensas a pensar. Na ‘obediência’ há o exílio das responsabilidades, em contrapartida ‘o pensar’ traz consigo consequências, e, responsabilidades.
 
O anonimato é condição ‘sine qua nom’ dos movimentos de massa. Ou de sujeitos massificados. O anonimato pode ser obtido inserindo-se em uma multidão enraivecida, pode acontecer em função da não divulgação de participações de algumas cerimônias ou celebrações, ou ainda pode ser obtido pela participação em eventos de ‘mergulho no nós’, nos quais é possível ver-se submergido de um certo espírito de coletividade.
 
Em todos os tipos de anonimatos há uma certa ‘obediência’. Para uma consciência turvada, essa estranha obediência é local de uma falsa paz, paz passageira, fugaz, que não alimenta a alma, mas torna a alma ainda mais sedenta por submissão - em casos limites a submissão leva à dissolução do ‘eu’ em um mar de sentimentos. Obedecer ao líder a ponto de imitá-lo até mesmo nos trejeitos que decorrem de sua personalidade é o que já foi visto também nos Legionários de Cristo, e em tantas outras seitas condenadas ou sob investigação: um verdadeiro culto à personalidade desse líder.
 
Finalmente, aquilo mesmo que a ideologia trabalha por esconder desde o início, acaba por aparecer: seus reais fins. Dentre outras finalidades, certamente mais profundas (que serão analisados em trabalhos posteriores), gostaríamos de analisar um em particular: o culto à personalidade. Na TFP os seguidores faziam voto de escravidão, e, então tornavam-se ‘outros Plínios’, em cerimônias secretas.
 
As seitas acabam por justificar ou camuflar suas excentricidades, exotismos, na ‘tolerância a novidades’ que acabou por se criar no ambiente católico. As novidades litúrgicas criam um ambiente onde a experiência (ou o experimentalismo) é tomado como normal. Tais experimentos envolvem risco. Assim como liturgias inovadoras envolvem risco. Devemos seguir o conselho de Platão em Protágoras e ‘velar pela própria alma’.
 
Culto à personalidade não é católico. Na atualidade vivemos em um mundo que funciona como ‘areia movediça’, então qualquer segurança é agarrada como a última opção de sobrevivência. Segurança aparente e risco real entrelaçam-se, e torna-se difícil separá-los.
 
Este é um dos resultados finais da proliferação de novidades experimentais litúrgicas. Onde tudo muda, nada é seguro, então a confusão impera. O remédio é o retorno à segurança do passado. A solução é “Lembra-te, pois, do que recebeste e ouviste, e observa-o, e faz penitência” (Ap. 3,3).
 
É importante destacar que esse desejo de submissão pode ser - de início- um desejo correto de servir a Deus pela obediência, ou seja, em sua origem pode existir uma vocação verdadeira, um desejo santo de honrar a Deus. Mas essas vocações verdadeiras podem ser transformadas ou instrumentalizadas pela ideologia. Algo que era bom, torna-se irracional, o desejo de uma vida sacerdotal ou religiosa torna-se irracional, na medida em que a realidade é posta de lado. Na medida que o distanciamento do real é incentivado, o irracional torna-se presente. As ações irracionais mais comuns nestes casos são: (i) ignorar a própria consciência para não sentir os efeitos do remorso, sendo o remorso o efeito próprio da consciência por fazer o que antes se condenava; (ii) submissão (ou obediência) tomada como razão suficiente para ignorar os amigos, a família e, por fim, ignorar a própria liturgia frequentada.
 
Como consequência limítrofe, para a consciência turvada é, infelizmente, a própria obediência que toma o lugar – na alma – da posição que deveria ser ocupada pela doutrina católica.
 
Certamente os Cardeais Ottaviani e Bacci não pensavam em tais consequências quando escreveram que “novas alterações na liturgia não podem ser efetuadas sem levar à completa confusão por parte dos fiéis”.
 
 
 
5. Novidades Litúrgicas e o Bezerro de Ouro
 
Para elucidar a questão, faremos referência a um trecho da Sagrada Escritura que Ratzinger utilizará (a citação de Ratzinger consta no final do presente artigo) para entender as novidades litúrgicas: o bezerro de ouro. Descendo Moisés do Sinai:
 
O Senhor falou a Moisés, dizendo: Vai, desce, pois o teu povo, que tiraste da terra do Egito, pecou. Depressa se apartaram do caminho que lhes mostraste: fizeram para si um bezerro fundido, adoraram-no e, imolando-lhe hóstias, disseram: Este, ó Israel, é o teu deus que te tirou da terra do Egito. O Senhor disse mais a Moisés: Vejo que este povo é de cerviz dura: deixa-me, a fim de que o meu furor se acenda contra eles, e que eu os extermine, e eu te farei chefe de uma grande nação. Moisés, porém, suplicava ao Senhor seu Deus, dizendo: Senhor, porque se acende o teu furor contra o teu povo, que tiraste da terra do Egito com uma grande fortaleza e com uma poderosa mão? Não permitas, te rogo, que os Egípcios digam: Ele tirou-os (do Egito) astutamente para os matar nos montes e exterminar da terra; aplaque-se a tua ira, e perdoa a iniquidade do teu povo. Lembra-te de Abraão, de Isaac e de Israel, teus servos, a quem por ti mesmo juraste, dizendo: Multiplicarei a vossa descendência como as estrelas do céu, e darei à vossa posteridade toda esta terra, de que falei, e vós a possuireis para sempre. O Senhor se aplacou, e não fez ao seu povo o mal que tinha dito.” (Ex. 32, 7-14).
 
No relato de Deus há a indicação simples e verdadeira do que aconteceu “o teu povo ... pecou”. Sem desvios. Quando Moisés suplica a misericórdia de Deus, não atenua o que aconteceu, mas simplesmente pede perdão. Nem no relato de Deus, nem no pedido de Moisés, há distinções como modernamente se diz: ‘pecaram, mas foi por obediência’, ou ‘não pecaram, pois participaram somente de modo passivo’. Nem na fala de Deus ou na súplica de Moisés cabe este tipo de distinção. É claro que há graus de culpa distintos, e Deus o sabe. Por existirem esses graus distintos, Deus julgará cada um de modo particular. Mas, o relato das Sagradas Escrituras nos ensina como deve ser condenado o ato pecaminoso. As únicas distinções que existem nos textos sagrados são: (i) com aqueles que tinham mais autoridade Moisés é mais severo, então para Aarão há uma pergunta específica “Disse a Aarão: Que te fez este povo, para atraíres sobre ele um tão grande pecado?” (Ex. 32, 21); (ii) quando Moisés se refere àqueles que se arrependem do pecado “Quem é pelo Senhor junte-se a mim” (Ex. 32, 26).
 
 
 
6. Há algo de subterrâneo na ‘Institutio’?
 
Por isso, no presente texto, procuraremos tornar claro os princípios à consciência. Não tentaremos justificar, ou embotar a gravidade do que se trata. Ao contrário pretendemos tornar as consciências preenchidas com a luz que é própria da verdade (claritas):
 
“(...) nossa intenção representa uma indagação ´atrás das novidades teológicas´, a fim de demonstrar que a situação atual, ainda confusa, tem uma história anterior – algo subterrâneo – um contexto que pode esclarecer muitas coisas” (SCHOOF, T.M O.P., 1971, p.24). Como São Pio X trata essas novidades:
 
Em vista disto, Veneráveis Irmãos, não é para admirar que os católicos, denodados defensores da Igreja, sejam alvo do ódio mais desapoderado dos modernistas. Não há injúria que lhes não atirem em rosto; mas de preferência os chamam ignorantes e obstinados. Se a erudição e o acerto de quem os refuta os atemoriza, procuram descartá-lo, recorrendo ao silêncio. Este modo de proceder com os católicos torna-se ainda mais odioso, porque eles ao mesmo tempo exaltam descompassadamente com incessantes louvores os que seguem o seu partido; acolhem e batem palmas aos seus livros, eriçados de novidades; e quanto mais alguém mostra ousadia em destruir as coisas antigas, em rejeitar as tradições e o magistério eclesiástico, tanto mais encarecem a sua sabedoria; e por fim, o que a todo espírito reto causa horror, não só elogiam pública e encarecidamente, mas veneram como mártir quem quer por acaso for condenado pela Igreja. Movidos e abalados por toda essa celeuma de louvores e impropérios, com o fito, ou de não passarem por ignorantes, ou de serem tidos por sábios, os ânimos juvenis, instigados interiormente pelo orgulho e pelo amor das novidades dão-se por vencidos e desertam para o modernismo” (Pascendi Dominici Gegis, IIª Parte. As Causas do Modernismo).
 
Talvez o título do presente artigo represente um pouco essa confusão das consciências. Afinal, trata-se de uma questão um tanto tautológica, pois a “Celebração da Palavra de Deus” ou a “Liturgia da Palavra” é parte do Novo Ordo Missae de Paulo VI, conforme pode ser observado na própria Institutio Generalis Missalis Romani (IGMR), de 1969:
 
"8. Em certo sentido, a Missa consta de duas partes: Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística. Estas duas partes, porém, estão entre si tão estreitamente ligadas, que constituem um único ato de culto".
 
Portanto na IGMR consta a Celebração da Palavra como parte da Missa, conceito esse que consta em consonância com o próprio texto do Vaticano II na Sacrosanctum Concilium (SC):
 
56. Estão tão intimamente ligadas entre si as duas partes de que se compõe, de algum modo, a missa - a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística - que formam um só ato de culto”.
 
Nesse sentido já poderíamos encerrar o artigo dizendo que, evidentemente, há uma única fonte teológica que fundamenta tanto a Liturgia da Palavra quanto a Liturgia Eucarística, e que aqueles que possuem ‘reservas de consciência’ (cito aqui termo utilizado por São João Paulo II) quanto ao Novus Ordo Missae, também possuiriam em relação à Celebração da Palavra.
 
Destaco da Carta dos Cardeais Ottaviani e Bacci, na introdução do Breve Estudo Crítico:
 
(...) As inovações na Novus Ordo e o fato de que tudo o que possui um valor perene encontra ali apenas um lugar secundário – se é que continua a existir – poderiam muito bem transformar em certeza as suspeitas, infelizmente já dominantes em muitos círculos, de que as verdades que sempre foram objeto de crença pelos cristãos podem ser alteradas ou ignoradas sem infidelidade ao sagrado depósito da doutrina ao qual a fé católica está para sempre ligada. As reformas recentes demonstraram amplamente que novas alterações na liturgia não podem ser efetuadas sem levar à completa confusão por parte dos fiéis, os quais já demonstram sinais de relutância e um indubitável afrouxamento da fé. Entre os melhores clérigos, o resultado é uma agonizante crise de consciência, da qual um sem número de exemplos chega a nós diariamente.
 
Sobre a Missa promulgada em 1969 consta no Capítulo I do Breve Estudo Crítico da Nova Ordenação da Missa (de 5 de junho de 1969):
 
O modo como um conhecido periódico dirigido aos bispos, e que expressa seus ensinamentos, resumiu o novo rito (e a recepção do novo rito no sínodo dos bispos): <<Quiseram passar uma esponja em toda a teologia da Missa. Terminou como algo muito próximo da teologia protestante que destruiu o sacrifício da Missa.>> Infelizmente nós descobrimos agora que a mesma “Missa padrão”, idêntica em substância, reapareceu na forma da Nova Ordenação da Missa (Novus Ordo Missae) recentemente promulgada pela Constituição Apostólica Missale Romanun (3 de abril de 1969).(...) Mas esta mesma Constituição, que poria fim definitivamente ao uso do antigo Missal, afirma que a presente reforma tornou-se necessária desde que: “um profundo interesse em fomentar a liturgia disseminou-se e fortaleceu-se entre o povo cristão.
 
É bastante dramático o modo como o famoso ‘Breve Estudo Crítico’ inicia-se: com o relato de uma novidade litúrgica, somada à infeliz constatação de que essa mesma novidade se aproximava da teologia protestante. Nota-se que aquilo que possui valor perene talvez não esteja mais presente “valor perene encontra ali apenas um lugar secundário – se é que continua a existir”. Se a linha mestra é a teologia protestante, e há coisas de valor perene que talvez não estejam mais presentes, as recentes ‘celebrações da palavra’ sem missa são inovações litúrgicas que estão em consonância com aquilo que o ‘Breve Estudo Crítico’ condena.
 
Voltemos ao texto do ‘Breve Estudo Crítico’ tendo em mente que atualmente há ‘celebrações da palavra’ sem missa. Em seu segundo capítulo:
 
“Comecemos com a definição da Missa. No artigo 7 da Instrução Geral que precede a Nova Ordenação da Missa, sob o título “A estrutura da Missa”, encontramos a seguinte definição: A Ceia dominical é a assembléia sagrada ou congregação do povo de Deus, reunindo-se sob a presidência do sacerdote, para celebrar a memória de Nosso Senhor. Por esta razão, a promessa de Cristo se aplica de forma suprema para uma reunião local da Igreja: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles.” (Mt. 18:20). Desta forma, a definição da Missa é reduzida a uma “ceia”, um termo que a Instrução Geral repete constantemente (nos números 8, 48, 55, 56 da Institutio). A Instrução mais adiante caracteriza esta “ceia” como uma assembléia, presidida por um padre e celebrada como o “memorial do Senhor” para recordar o que Ele fez na quinta-feira Santa. Nada disso implica por mais mínimo que seja nem a Presença Real, nem a realidade do Sacrifício, nem a função sacramental do padre que consagra, nem o valor intrínseco do Sacrifício Eucarístico, independente da presença da “assembléia”. Em uma palavra, a definição dada pela Instrução não implica nenhum dos valores dogmáticos que são essenciais à Missa e os quais, tomados em conjunto, fornecem a sua verdadeira definição. A omissão, num tal lugar, desses dados dogmáticos, não pode ser senão voluntária. Semelhante omissão voluntária significa que já se consideram como obsoletos, e equivale, ao menos na prática, a negá-los. A segunda parte do artigo 7 torna ainda pior este já sério equívoco. Ela afirma que se aplica de forma suprema a esta assembléia a promessa de Cristo: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles”. Assim, a Instrução coloca a promessa de Cristo -que se refere somente à Sua presença espiritual através da graça-, no mesmo nível qualitativo, - a não ser por uma maior intensidade -, da Sua presença real, física e substancial, própria ao Sacramento da Eucaristia. O próximo artigo da Instrução divide a Missa em uma “Liturgia da Palavra” e uma “Liturgia da Eucaristia”, e acrescenta que a “mesa da Palavra de Deus” e a “mesa do Corpo de Cristo” são preparadas na Missa para que os fiéis possam receber “instrução e alimento”. Como veremos mais tarde, esta afirmação une de forma imprópria e ilegítima as duas partes da Missa, como se elas possuíssem o mesmo valor simbólico.
 
Aquilo que é advertido como perigo no texto acima, parece ter se tornado realidade. Afinal se for considerado obsoleto ‘o valor intrínseco do Sacrifício Eucarístico’, porque devemos perpetuá-lo? É inegável constatar o vínculo doutrinário entre as ‘Celebrações da Palavra sem Missa’ e os perigos preditos no ‘Breve Estudo Crítico’. Consequentemente, há uma certa ambiguidade que acaba por afirmar uma certa equivalência simbólica entre a “Liturgia da Palavra” e “Liturgia da Eucaristia”. No documento “Orientações para a Celebração da Palavra de Deus” – 32ª Assembléia Geral, Itaici, SP, 13 a 22 de abril de 1994, temos no nº 51:
 
As celebrações dos sacramentos, possuem um ritual próprio. No caso da celebração da Palavra de Deus, não existe um ritual específico. Muitas comunidades simplesmente seguem o esquema da Celebração Eucaristia, omitindo algumas partes. Outras comunidades usam o roteiro sugerido por folhetos litúrgicos”.
 
A evidência do próprio texto dispensa outros comentários.    
 
Portanto, para permanecer o espírito inovador, deve existir um contínuo nascimento de novos tipos de celebrações, uma para cada momento histórico. O resultado é que já é possível identificar uma miríade de expressões litúrgicas. Essa grande variedade torna mais difícil o posicionamento diante do problema. Dentre outras, a Celebração da Palavra de Deus sem a Missa, é bastante comum. Para esta liturgia foi confeccionada pela Congregação para o Culto Divino no dia 2 de junho de 1988 o ‘Diretório para Celebrações Dominicais na Ausência do Presbítero’ (CDAP), que expressa:
 
20. Entre as formas que se encontram na tradição litúrgica, quando a celebração da Missa não é possível, é muito recomendada a celebração da palavra de Deus, que, se for oportuno, pode ser seguida da comunhão eucarística”.
 
Esse instituto é também fundamentado na própria Sacrosanctum Concilium:
 
35.4 "Promovam-se celebrações da palavra de Deus nas vigílias das grandes festas, em certos dias da quaresma e do advento, nos domingos e dias santos, principalmente nos lugares em que não há sacerdotes. (...)“.
 
No Brasil as ‘Celebrações da Palavra” são atos litúrgicos que correspondem a aproximadamente 70% das comunidades que se reúnem e celebram os mistérios da fé ao redor da Palavra de Deus, pesquisa feita entre 1989 - 1990, pela Linha 4 - Dimensão Litúrgica da CNBB. Mais recentemente, mesmo presbíteros e bispos celebram a ‘acolhida da Palavra de Deus’, sem Missa.
 
Constata-se então uma derivação de sentido da noção de ‘Liturgia da Palavra’. Em um primeiro momento tínhamos tal noção entendida mais propriamente como parte integrante da Missa e agora - em sentido largo derivado - existem outras formas celebrativas constituídas de modo separado da missa (...na Ausência do Presbítero). E essa celebração constitui, sim, um ato litúrgico conforme o documento “Orientações para a Celebração da Palavra de Deus” – 32ª Assembléia Geral, Itaici, SP, 13 a 22 de abril de 1994, em sua Introdução:
 
A celebração da Palavra de Deus é um ato litúrgico reconhecido e incentivado pela Igreja”.
 
Uma das características que nos permite identificar a existência de ato litúrgico (ou celebração) é a indumentária do presbítero ou bispo (sendo que no caso deste último, utiliza-se também o roquete e a mozeta), conforme consta no documento: “A vestição dos paramentos litúrgicos e as respectivas orações” do Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice:
 
A estola é o elemento distintivo de um ministro ordenado e é sempre usada na celebração dos sacramentos e sacramentais. É uma faixa de tecido, em geral bordado, cuja cor varia de acordo com o tempo litúrgico ou o dia santo. Ao vesti-la, o sacerdote recita a seguinte oração: Redde mihi, Domine, stolam immortalitatis, quam perdidi in praevaricatione primi parentis; et, quamvis indignus accedo ad tuum sacrum mysterium, merear tamen gaudium sempiternum. (Restitui-me, Senhor, a estola da imortalidade, que perdi na prevaricação do primeiro pai, e, ainda que não seja digno de me abeirar dos Vossos sagrados mistérios, fazei que mereça alcançar as alegrias eternas).
 
O que resta nas consciências quando há uma tal proliferação de inovações litúrgicas como celebrações sem missa ou distribuição da eucaristia por leigos? Consta no n. 30 do Diretório CDAP que:
 
“Quando estão ausentes quer o presbítero quer o diácono, o pároco deve designar leigos, aos quais confiará (...), o serviço da Palavra, e a distribuição da sagrada comunhão.
 
Para Ratzinger, o que resta nas consciências é uma certa confusão sobre o que é soberania eclesial:
 
"[Antes] era o Credo que fornecia o padrão para a teologia. Agora, na Igreja Católica, tudo isso - ao menos na consciência popular - estava submetido à revisão, e até mesmo o Credo não parecia mais intocável, mas antes submetido ao controle dos teólogos. Por trás dessa tendência de domínio dos especialistas podia-se já detectar algo mais: a ideia de uma soberania eclesial do povo, na qual o próprio povo determina o que quer que seja entendido pela Igreja, pois "Igreja" já parecia muito claramente definida como "Povo de Deus”’ (RATZINGER, 1988, p.134).
 
Será que essa tendência da soberania eclesial do povo não pode ser reforçada com as Celebrações da Palavra dado que no documento das Orientações para a Celebração da Palavra de Deus da CNBB constatamos as seguintes expressões ambíguas:
 
Na Introdução:
 
"A palavra de Deus é acontecimento, onde o Pai entra na História, onde o Filho prolonga o mistério de sua Páscoa e o Espírito atua com sua força. As celebrações da Palavra de Deus, especialmente aos domingos, fundamentam-se no caráter sacerdotal de cada batizado e de cada batizada”.
 
No nº 8:
 
(...) Deus continua a falar aos seus filhos em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo. Vale-se da comunidade dos fiéis que celebra a liturgia (...).
 
Afinal quem é o sujeito da celebração?
 
No nº 16 do mesmo documento temos a resposta: “A liturgia é ação comunitária da Igreja (...)”.
 
Em seu livro ‘La Vie de la Liturgie’ o padre Louis Bouyer explica em termos mais claros o que realmente significa essa nova noção de liturgia.
 
A Liturgia, na unidade de sua plenitude, deve portanto ser vista como a reunião do Povo de Deus reunido em assembléia, pela convocação da palavra de Deus, pelo ministério apostólico, para que este povo, tomando consciência de sua reunião, possa ouvir a própria Palavra de Deus em Cristo, possa aderir a esta Palavra por meio da oração e do louvor, no seio da qual a Palavra é proclamada, e assim selar pelo sacrifício eucarístico a Aliança realizada por esta mesma Palavra" (BOUYER, 1956, p. 44. Itálico e o negrito são nossos, devemos tais citações ao professor Orlando Fedeli).
 
Algum incauto poderia pensar no termo sacrifício eucarístico no sentido de Trento, e poderia atenuar as escandalosas frases do Padre Bouyer. Mas logo em seguida as noções inovadoras tornam-se mais claras. Pe. Bouyer vai acentuar que a Liturgia
 
"é, antes de tudo, a descida da Palavra de Deus até nós, ela é fundamentalmente uma Liturgia da Palavra" (Ibid., p.46).
 
Indo adiante, porém na mesma página supracitada, Padre Bouyer afirma que:
 
a Liturgia da palavra não se dá apenas na primeira parte da celebração”, mas que "a missa é igualmente uma liturgia da Palavra na sua segunda parte", que, segundo ele, seria uma parte de sacrifício sacramental, o qual é essencialmente constituído por palavras sacramentais "verba sacramentalia".
 
Continua o padre:
 
"na assembléia da Igreja, o Qahal, cuja atividade própria é a mesma liturgia, fica claro que, se se compreende bem o que ela é, que cada um tem alguma coisa a fazer, tem seu papel próprio a desempenhar numa ação que é essencialmente comunitária, uma ação que não admite espectadores, mas apenas participantes ativos, engajados numa obra de conjunto" (BOUYER, 1956, p.48).
 
Para o Pe. Garrigou, a Nova Teologia acaba por levar as pessoas para o ‘modernismo’, doutrina já condenada. Não seria o modernista Henri De Lubac que acabaria aproximando a noção de natural com a de sobrenatural, inclusive recusando-se a essa distinção, e preferindo a utilização da palavra ‘mistério’? Como prova dessa mentalidade utilizaremos uma citação obtida pelo Professor Orlando:
 
Para provar isso que dissemos de De Lubac, basta citar o que dele disse o Cardeal Siri: “Em 1946, ele [o Padre Henri de Lubac] publicou seu livro “Sobrenatural”, que exprime todo o seu pensamento de então. Ele afirmava que a ordem sobrenatural está necessariamente implicada na ordem natural” (Cardeal G. Siri, Reflexions sur le Mouvement Théologique Comtemporain, p.  41).”.
 
Como consequência dessa noção, não deveria existir uma aproximação unitiva entre o sacerdócio leigo e o sacerdócio presbiteral?
 
Nossa decisão em não frequentar tais liturgias fundamenta-se exatamente na desvalorização da Eucaristia e em uma supervalorização da Palavra de Deus. Tal movimento é síncrono e constatado por muitos:
 
"Tanto historiadores da liturgia como exegetas estão hoje de acordo no constatar que a liturgia da palavra e a liturgia eucarística têm raiz hebraica. [...] A comunidade cristã adotou esta celebração em sua estrutura essencial. A proclamação da palavra ocupa nela o primeiro plano, mas é forçoso reconhecer que sua teologia permanecera até então sob uma interpretação pessoal que a Igreja nunca aceitara de forma oficial. O Vaticano II, sem fazer dela uma proposição de fé, afirma não obstante se ponto de vista: "Presente está (Cristo) em Sua palavra". [...] No tempo da Reforma, a Igreja viu-se obrigada a se pronunciar sobretudo acerca da presença sacramental de Cristo na Eucaristia; desde então se ia esquecendo que, junto à presença sacramental, há outros modos de presença do Senhor [...]. Por isso o Concílio insiste em que na celebração da liturgia a Sagrada Escritura tem importância extrema" (NOCENT, 1965, p. 485).
 
Ora, a celebração da Palavra de Deus sem Missa só reforça precisamente essa ideia.
 
Sobre esse tema temos mais ambiguidades nas “Orientações para a Celebração da Palavra de Deus” da CNBB:
 
No nº 30: Palavra de Deus e Eucaristia são duas formas diferentes da presença de Jesus Cristo no meio do povo da nova aliança”.
 
No nº 51: “As celebrações dos sacramentos, possuem um ritual próprio. No caso da celebração da Palavra de Deus, não existe um ritual específico. Muitas comunidades simplesmente seguem o esquema da Celebração Eucaristia, omitindo algumas partes. Outras comunidades usam o roteiro sugerido por folhetos litúrgicos”.
 
Ou ainda no Catecismo da Igreja Católica, fundamentado no Vaticano II, "a mesa preparada para nós na Eucaristia é ao mesmo tempo a da Palavra de Deus e a do Corpo do Senhor" (CI 1346).
 
O que constatamos aqui – ambiguamente – é uma doutrina que Piero Coda, professor da Lateranense, uma das universidades romanas, afirma permear todo o nosso tempo, pois – segundo ele – a ‘teologia da cruz’ ou a teologia da ‘Morte de Deus’ é o que fundamenta a cultura do nosso tempo:
 
Dos três reformadores – Descartes, Lutero, Rousseau - passando por Hegel e chegando até os teólogos da morte de Deus, a pergunta que se apresenta então ao pensador ocidental contemporâneo é a seguinte: ‘Jesus, morte definitiva de Deus e, portanto, morte do homem? Ou participação-revelação de um novo modo de ser e de presença de Deus entre os homens?” (CODA, 1984, pp. 52 e 53). Tradução e destaque nossos.
 
Afinal se Deus está – em presença – entre os homens, o que devemos fazer senão celebrar sem Missa?
 
Há mais. Pode parecer um pouco estranho e mesmo paradoxal celebrar a palavra de Deus sem Missa, mas é muito importante entender isso pois, segundo Coda, citando E. Jungel, em ‘Dios como misterio del mundo’ p.85: “
 
Aqui está toda a importância do diálogo da teologia com o lugar cultural contemporâneo: ‘Nesse sentido a teologia se encontra diante da tarefa, aparentemente paradoxal, de pensar Deus, não somente sem deixar de pensar juntamente o mundo, senão melhor é pensá-lo a partir de uma situação histórica do mundo, na qual, por sua vez, torna necessário pensar o mundo sem Deus. Entretanto, o aparente paradoxo tem que ser solucionado, a tarefa tem que ser mostrada como possível, ao menos em princípio, se é que a teologia quer continuar tendo sentido’” (ibid, p. 58).
 
Não há um aparente paradoxo, mas um real paradoxo!
 
Como isso é possível?
 
Essas loucuras são os frutos pseudoteológicos da ‘verdade evolutiva’ do Modernismo ou da Nova Teologia: pensar Deus segundo sua ‘historicidade’, é pensar o ‘é’ – Deus – como igual ao ‘devir’ – historicamente. Isso não é possível racionalmente. Mas tendo por base o ‘paradoxo’ ou a ‘contradição’ no sentido de Lutero, é possível criar uma base doutrinária para assim fundamentar as novidades teológicas ou litúrgicas. Para os ‘novos teólogos’, Deus não é imutável. Ele é movimento (devir) e o novo sempre é diferente do antigo para assim ‘permanecer verdadeiro na sua evolução’. Essa evolução, que assume o ‘é’ como idêntico ao ‘devir’ só pode ser ‘capturada’ de modo anti-intelectual pelo ‘paradoxo’. Avançar no estudo das raízes dessa doutrina é muito interessante e importante, porém fogem ao nosso objetivo e ficarão para um segundo artigo sobre este tema.
 
 
 
7. Conclusão: As Celebrações como Desaparecimento da Missa
 
Por fim, gostaria somente de colocar duas citações, sendo uma do Cardeal Ratzinger e outra do Papa Paulo VI. Nas duas, há elogios à liturgia de sempre sob aspectos distintos. Além disso na primeira citação de Ratzinger, segundo Tracey Rowland há a crítica mais violenta já feita à nova liturgia:
 
Com isso chegamos a uma última reflexão. O ser humano não pode “criar” sozinho o seu próprio culto; ele só agarra o vazio, se Deus não se mostra. Quando Moisés diz ao faraó: “não sabemos com que havemos de servir ao Senhor” (Ex. 10, 26), de suas palavras emerge de fato um dos princípios basilares de todas as liturgias. Se Deus não se mostra, o ser humano, com base naquela intuição de Deus que está inscrita em seu íntimo, certamente constrói altares “ao deus desconhecido” (cf. At 17, 23) e, impelido pelo pensamento nele, o procura tateando às cegas. Mas, a verdadeira liturgia pressupõe que Deus responda e mostre de que modo podemos adorá-lo. Ela implica uma forma de instituição. Não pode ser gerada por nossa fantasia, por nossa criatividade, do contrário seria como um grito nas trevas ou uma simples confirmação individualista. Pressupõe, porém, algo que seja de fato real, que se mostre a nós e que, assim, aponte o caminho à nossa existência.
 
Dessa não arbitrariedade do culto existem numerosos e impressionantes testemunhos no Antigo Testamento. Em nenhuma outra passagem, porém esse tema se manifesta com tanta dramaticidade como o no episódio do bezerro de ouro (ou melhor, do novilho). Esse culto, conduzido pelo sumo sacerdote Aarão, não poderia, de fato, servir a um ídolo pagão. A apostasia é mais sutil. Ela não passa abertamente de Deus ao ídolo, mas permanece aparentemente junto ao mesmo Deus: deseja-se honrar o Deus que conduziu Israel para fora do Egito e se crê poder representar de modo apropriado o seu misterioso poder na imagem do novilho. Na aparência, tudo parece correto e, presumivelmente, também o ritual procede segundo as prescrições. É, todavia, uma queda na idolatria. Duas coisas levam a essa queda, inicialmente quase imperceptível. De um lado, a violação da proibição das imagens: não se consegue manter a fidelidade ao Deus invisível, distante e misterioso. Faz-se com que Ele desça ao próprio nível, reduzindo-O a categorias de visibilidade e compreensibilidade. Desse modo, o culto já não é mais um elevar-se até Ele, mas um rebaixamento de Deus às nossas dimensões: Ele deve estar lá onde houver necessidade dele e deve ser assim da maneira como se precisar. O ser humano se serve de Deus segundo as próprias necessidades e assim se coloca, na realidade, acima dele. Com isto já se alude à segunda coisa: trata-se de um culto feito de autoridade própria. Se Moisés permanece ausente durante longo tempo e Deus é inacessível, então Ele é colocado ao nível de Israel. Esse culto se torna, assim, uma festa que a comunidade cria por si mesma; ao celebrá-la, a comunidade nada faz que se confirmar a si própria. Da adoração a Deus se passa para um círculo que gira em torno de si mesmo: comer, beber, divertir-se. A dança ao redor do bezerro de ouro é a imagem desse culto que busca a si próprio e se torna uma espécie de banal autossatisfação. A história do bezerro de ouro é uma advertência contra um culto realizado segundo o molde pessoal e a busca de si mesmo, em que finalmente, não está mais em jogo Deus, mas a formação, por iniciativa pessoal, de um pequeno mundo alternativo. A liturgia, então, se torna de fato um jogo vazio. Ou ainda pior, o abandono do Deus vivo camuflado sob o manto da sacralidade. No final, porém, resta a frustração, o sentimento do vazio. Não existe mais aquela experiência de libertação, que acontece lá onde se realiza um verdadeiro encontro com o Deus vivo” (RATZINGER, 2014. p. 18 e 19).
 
Palavras sábias, notar que o envolvimento é da comunidade e não somente do sacerdote. São, também, aqueles que assistem que fazem parte da idolatria e não somente o sacerdote.
 
A última citação trata-se de um elogio de Paulo VI ao latim:
 
“(...) em 26 de novembro de 1969, em uma alocução da audiência geral, o Papa Paulo VI pronunciou o que é descrito como o maior elogio que já se fez da Missa em latim. Com sentimento genuíno, ele reconheceu que a adoção da Missa nas línguas vernáculas "será certamente um grande sacrifício para aqueles que conhecem a beleza, a força e a expressiva sacralidade do latim" e que "temos realmente razões para nos lamentarmos, razões que praticamente acarretam uma consternação pela sua perda"
 
1. Sua aflição é evidente quando assevera que "estamos renunciando a algo de valor incalculável" e que "a mudança é algo que afeta nosso patrimônio religioso hereditário, o qual parecia trazer aos nossos lábios as orações de nossos antepassados e de nossos santos, e nos dava o conforto do sentimento de fidelidade ao nosso passado espiritual, que nós mantivemos vivo para transmiti-lo às gerações futuras"
 
2. Paulo VI descreveu o latim como "a língua dos anjos" e reconheceu que, com o seu abandono, "ocorria um afastamento do modo de falar dos séculos cristãos [e os católicos estavam] se convertendo em intrusos profanos nos recintos literários da expressão sagrada" 3.” 1,2,3: Paulo VI, Audiência da Quarta-feira, 26 de novembro de 1969, L´Osservatore Romano, 4 de dezembro 1969, p.12, (in ROWLAND, 2008, p. 175).
 
Afinal, por que renunciar à Liturgia de sempre em prol das novidades litúrgicas? Por que abandonar algo de valor incalculável? O que justiçaria essa renúncia?
 
Reconhecemos no Rito Tridentino uma centralidade na eucaristia: Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. As reformas litúrgicas possuem uma linha clara de aproximação gradativa com os protestantes. Inicialmente com a teologia anglicana, pois ainda há referência a Eucaristia. Na sequência, a teologia protestante em sentido largo, pois há um desaparecimento gradativo da Eucaristia. As novidades litúrgicas subtraem, cada vez mais, a centralidade Eucarística. Até chegarmos a algumas liturgias completamente centradas na palavra.
 
Esse desaparecimento, ou renúncia, das características católicas das celebrações possui um caráter kenótico (de aniquilamento):
 
Com efeito, a auto comunicação da Trindade na economia se chega a cabo mediante a kenosis do Filho encarnado (como sublinha toda a ‘theologia crucis’ da tradição luterana), e também do Espírito Santo (como nos recorda a liturgia ortodoxa, sobretudo a contemporânea, ao apresentar o tempo da Igreja como tempo da kenosis do Espírito)” (CODA, 1984, p 162).
 
Dizendo essas coisas, esses homens só conseguem aniquilar a eles mesmos. Tomando “nada” em sentido análogo ao sentido do texto acima, Santo Agostinho nos ensina: “os homens quando pecam tornam-se nada (...)” (AGOSTINHO, 1954. p.26). É nos ídolos deles que encontraram o nada que tanto desejam “Nós sabemos que o Ídolo é nada no mundo” (I Cor, 8, 4).
 
 
 
8. Aplicação: Como Identificar as Celebrações da Palavra de Deus
 
Tendo explicado um conjunto de princípios de suma importância, reconhecemos com a luz da verdade o que realmente nos une, como filhos da Igreja Católica Apostólica Romana. Infelizmente, tais princípios, são esquecidos em nosso tempo. Com esse pequeno artigo esperamos ter colocado os olhos de nossos leitores “no Eterno” fazendo referência a Santo Agostinho. Rememorando a lutas das duas Tradições desde o início da Igreja, esperamos ter colocado em foco o velho inimigo que desde o Genesis tenta nos dividir. A elevação dos princípios nos convida à reflexão, ao pensamento detido e calmo.  Devemos nos reconhecer como somos:
 
Deus chama-nos a uma dignidade superior à dignidade humana. Seremos mais que homens na medida em que reconhecermos primeiro que somos homens, na medida em que nos elevarmos da baixeza à grandeza. Se julgarmos ser alguma coisa, quando afinal nada somos, não receberemos o que não somos, e ainda seremos despojados do que somos” (AGOSTINHO, 1954. p.15).
 
Nesse espírito, esperamos agora apresentar algumas características da celebração da palavra, para facilitar a aplicação do que aqui foi apresentado. Em função da multiplicidade de tipos celebrações litúrgicas, somado ao fato de que não há uma regra estrita para tais celebrações, pode existir alguma dificuldade para reconhecer uma celebração desta natureza. Sem perder de vista: nº 51: “(...) No caso da celebração da Palavra de Deus, não existe um ritual específico”.
 
  • As celebrações são atos litúrgicos que podem ser reconhecidos pelo uso da ‘estola’ por parte do celebrante. Se o celebrante for um bispo acrescenta-se em sua indumentária a mozeta e o roquete.
  • Tal celebração não precisa ser realizada em uma igreja necessariamente.
  • Como dito, a celebração da palavra de Deus pode ou não ter uma Missa. As celebrações da palavra de Deus sem Missa não encontram respaldo na tradição litúrgica da Igreja.
  • Tais celebrações acontecem em vernáculo, e não há razão para deixarmos de lado o latim “o qual parecia trazer aos nossos lábios as orações de nossos antepassados e de nossos santos”.
  • Dado que é a mesma teologia que se expressa tanto na ‘liturgia da palavra’ quanto na ‘liturgia da Eucaristia’ temos as mesmas ‘reservas de consciência’ para não frequentarmos tais celebrações. Nas celebrações da palavra de Deus sem Missa, há uma reafirmação tácita do caráter ambíguo da “equivalência” da presença de Nosso Senhor tanto na “palavra” quanto na “eucaristia”, pois, de todo modo, não encontramos nelas elementos que condenem tal ‘equivalência’ ambígua.
  • Sintoma disso é que, durante tais celebrações, há, comumente, a recepção das Sagradas Escrituras com incenso.
 
Como exemplo citemos a Celebração que abriu o sínodo arquidiocesano em 24 de fevereiro em São Paulo, conforme expresso no site do evento: (http://arquisp.org.br/noticias/celebracao-abrira-sinodo-arquidiocesano-em-24-de-fevereiro) acessado em 25 de março de 2018. “O evento não será uma missa, mas um encontro celebrativo”. Mais adiante: “Num segundo momento, haverá a solene invocação do Espírito Santo, a acolhida da Palavra de Deus”.
 
Todas as características colocadas acima aplicam-se a essa Celebração. A essa celebração estavam presentes Padre Julio Lancelotti, um expoente da Teologia da Libertação, e Padre Jonas dos Santos Lisboa, da Administração Apostólica Pessoal S. João Maria Vianney. Uma curiosa aproximação.
 
Apesar da crítica aqui realizada aos fundamentos da liturgia da Celebração da Palavra de Deus, lembramos que é graças ao apoio de Dom Odilo Scherer que temos Missa no rito de São Pio V na Arquidiocese de São Paulo. A ele somos eternamente gratos.
 
Bruno Oliveira
28 / 03 /2018
 
 
 
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    Para citar este texto:
"A Teologia do Novus Ordo Missae é a mesma da Celebração da Palavra de Deus?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/religiao/novus_ordo_palavra/
Online, 24/04/2018 às 07:17:44h