Religião-Filosofia-História

Maurras
Orlando Fedeli


"Quem não está comigo, está contra mim."
(Mt. XII,30)



Sem pretender escrever um trabalho exaustivo sobre Maurras - bem longe disso - desejamos fornecer apenas um breve comentário, que permita a brasileiros, desconhecedores dos meandros da História contemporânea da França, formarem uma opinião sobre Maurras em relação ao Catolicismo. Julgamos importante ter algumas informações sobre o pensador da Action Francaise (AF), porque, para certos direitistas franceses, criticar Maurras parece pecado maior do que criticar um Papa ou atacar um santo canonizado.

Não dispusemos de muitas fontes para elaborar este nosso comentário. Procuramos ler e citar, quase que só, autores insuspeitos ou favoráveis a Maurras. Uma só, das obras que consultamos, é de um autor suspeito por suas idéias favoráveis ao Movimento Litúrgico de Dom Lambert Beauduin, que tanto mal fez à Igreja. Esse autor, o Pe. Doncoeur, defende a posição de Pio XI contra a AF, mas de sua obra retiramos apenas alguns poucos posicionamentos claramente contrários ao chefe da AF, e que nos pareceram pertinentes, assim como várias citações que ele faz dos livros de M. Infelizmente, é difícil encontrar no Brasil as obras completas do autor que focalizamos, e que seria absolutamente necessário consultar, caso tivéssemos a pretensão de escrever um trabalho mais completo. Fomos, pois, obrigados, infelizmente, a fazer citações de Maurras com base nesses autores que pudemos consultar.

As obras que servirão de base para nosso comentário são:

    1. Yves Chiron, LA VIE DE MAURRAS, Perrin, Paris, 1991. O autor mostra simpatia por seu biografado. Abreviaremos sua citacão com a sigla YC e número de página.
    2. Lucien Thomas, L'ACTION FRANCAISE DEVANT L' ÉGLISE, Nouvelles Éditions Latines, Paris, 1965. O autor pertenceu à A. F. e permaneceu fiel à Maurras. Abrev.: LT.
    3. Jean de Fabrègues, CHARLES MAURRAS, Perrin, Paris, 1966. O autor foi secretário de Maurras durante certo tempo. Abrev.: JF.
    4. Pierre Boutang, MAURRAS, LA DESTINÉE ET L'OEUVRE, Plon, Paris, 1984. Este autor foi o mais fiel discípulo de Maurras. Abrev.: PB.
    5. Charles Maurras, MES IDÉES POLITIQUES, Fayard, Paris, 1937. Abrev.: MIP.
    6. Pe. Doncoeur e outros, POURQUOI ROME A PARLÉ, Ed. Spes, Paris, 1927. Abrev.: PRP. Como já observamos, citamos este autor com reservas, visto ter sido ele favorável à revolução litúrgica desencadeada por Dom Beauduin que veio a produzir a Missa Nova de Paulo VI.

Charles Maurras nasceu em Martigues, na Provença, no dia 20 de abril de 1868. Ele era filho de Jean Joseph Aristide Maurras e de Marie Garnier, 25 anos mais jovem que ele. O casal teve três filhos: Romain, o primogênito, que morreu com dois anos, e Joseph, mais moço que Charles. O pai era liberal, enquanto a mãe era legitimista e católica.

Quando M. tinha dois anos, a França foi esmagada pela Prússia e, em consequência, Bismarck proclamou o Império alemão em Versailles(1870). M. dizia que seu antigermanismo radical havia começado aí.

O pai de M. morreu em 1874, quando ele tinha seis anos incompletos. O pequeno M. foi coroinha e se dizia extasiado pelo canto gregoriano. Aos oito anos, M. leu a Odisséia, iniciando sua paixão pela cultura grega. Em 1876, a mãe de M. mudou-se para Aix-en-Provence, para que ele pudesse estudar no Colégio Sacré Coeur.

Foi aí que M. conheceu o Abbé Penon, que seria seu conselheiro durante toda a sua vida. Esse padre, politicamente liberal, guiará seus primeiros estudos e continuará a manter correspondência com M., mesmo depois que ele perder a fé.

No colégio, M. foi um aluno destacado. Detestava o inglês, que considerava uma língua bárbara. Um traço revela o caráter orgulhoso do menino: ao ficar sabendo que de um ponto, numa reta, só se podia levantar uma única perpendicular e não mais que uma, ficou contrariado, porque via nisso uma violação de sua liberdade (YC,30).

Foi aos 14 anos, em 1882, que M. foi atingido pela surdês. Essa desgraça o obrigou a deixar de freqüentar a escola. O Abbé Penon se dispôs a dar-lhe aulas particulares, que M. aproveitou bem. Entretanto, a doença mergulhou o menino em profunda depressão e revolta. Praticamente, ele se defrontou com o problema do mal, que atormentá-lo-á durante toda a vida e que levá-lo-á a não compreender porque Deus permite o mal físico ou moral. Seu estado de revolta era tão grande, nesse tempo, que ele fez, por pura raiva, sua mãe cortar uma fileira de velhos e altos ciprestes que ornamentavam o jardim de sua residência de Martigues. Nenhum tratamento conseguiu vencer a sua surdês. Apelou-se para a homeopatia....que, evidentemente não teve nenhum efeito.

Em depressão, leu Pascal, o que lhe fez muito mal :

"Pascal, lu de bonne heure, avant quinze ans, déposa en moi un germe que je peux appeler pré-kantien et qui fut le principe de mes premières mises en question métaphysiques et religieuses. Je songe à des pensées comme celle-ci: "notre âme est jetée dans le corps; elle y trouve nombre, temps, dimension". Ce n'est certes pas ce qui emporte la position: c'est ce qui ouvrit la brèche" (YC,46). Como se vê, era um pensamento claramente tendente à Gnose: considerar que a alma é lançada na matéria, a qual está submetida ao número, ao tempo e à dimensão, e que é isto o que explica o mal, é uma idéia tipicamente gnóstica.

Era natural que um pensamento tão errado conduzisse um menino em depressão ao suicídio. M. tentou se enforcar com uma gravata, mas ela se rompeu. Não foi essa a única vez que M. tentou se matar. Adulto e líder direitista, ele preparou meticulosamente seu suicídio por causa de uma decepção amorosa adulterina.

Tratando dessa primeira tentativa de suicídio em sua adolescência, M. sexagenário escreveu: "[...] sa longue existence n'accepta jamais l'injustice de la surdité! À cause d'elle, il tenta d'en finir, mais la corde se rompit aussitôt: miraculé!"(YC,47).

Ainda cinqüenta anos após esse fato, M. escreveu dois livros em que os heróis escolhem o suicídio como "solução" última para sua situação espiritual e intelectual. É preciso notar que um desses livros (Le mont de Saturne) foi escrito no fim da vida de M., quando ele estava em pleno processo de "conversão".

 

Isolado do mundo e dos outros pela surdês, o menino M. entregou-se febrilmente às leituras. Que o Abbé Penon não controlou ou não dirigiu bem. M. leu então Zola, os autores jansenistas, o ateu Saint-Beuve. A Filosofia se tornou a paixão de M.. Leu, nesse tempo, São Tomás e os filósofos idealistas alemães. Deleitava-se com a Suma Teológica , mas escreveu então :

"Saint Thomas ne satisfait pas toujours, il ne répond pas à la grandissime question, la seule qui me passionne, savoir: la réalité objective de nos idées" (YC,54).

A respeito do filósofo tão cotado pela Direita francesa - o gnóstico martinista Joseph de Maistre - M. escreveu que ele era "un farceur (...) de mauvaise foi" (YC,54-55). Maurras dixit.

Em 1885, M. com sua família, passou a residir em Paris. Nesse mesmo ano fora reprovado no seu "Baccalauréat". Foi então que escreveu seus primeiros artigos para jornais e revistas. Assinou alguns artigos com o pseunônimo anagramático e amargo de R. Amarus, o que fazia bem transparecer seu estado psicológico. Seus primeiros artigos sobre filosofia atrairam a atenção e apoio de Mons. D'Hulst, iludido pelas simpatias tomistas expressas por M.. Na verdade, o que ele escrevia ao Abbé Penon, nesse tempo, mostrava que seu tomismo era já muito relativo:

"Cette année je lis beaucoup moins de philosophie que l'an dernier, mais j'y réfléchis peut-être davantage. Mais plus je m'y applique, plus je vois s'évanouir les formes de l'être et l'être même, et le monde en phantasmagories" (YC,61).

Leu Renan, que vai ser um de seus mestres... Manteve contactos com Blondel, cuja tese sobre "A Ação" vai influir tanto na heresia modernista quanto no pensamento político do século XX. Por volta de 1890, M. se declarou agnóstico. Ele se encaminhava diretamente ao nihilismo, e a não solução do problema do mal levou-o da paixão pela filosofia ao desprezo da Metafísica.

Entretanto, esse agnosticismo anti-metafísico, ao qual repugnava um Deus misericordioso e providencial, que permite o mal físico e moral, não impediu M. de aderir à... Quiromancia!!! Incredulidade e superstição sempre andaram juntas...

"En effet, ce n'est pas seulement la chiromancie que pratiqua le M. de ces années troubles, mais aussi la graphologie, et il s'intéressa de près des sciences occultes. En témoignent quelques livres conservés dans sa bibliothèque du Chemin de Paradis, nottamment le TRAITÉ MÉTHODIQUE DE SCIENCES OCCULTES, de Papus, de plus de mille pages" (YC,69). M. praticou a leitura das linhas das mãos e acreditava que a mão era espelho da alma.

"Le jeune Charles pratiqua lecture des lignes de la main et l'interprétation des écritures dans les salons amis frequentés par sa mère. Ce qui fut, au départ, don d'intuition et sens de la psychologie dut s'enrichir à la lecture des divers ouvrages, nottamment le gros volume Chiromancie Nouvelle d'Adolphe Desbarolles. Les configurations de la paume de la main ou l'écriture lui apparurent (et lui apparurent toujours) [frizamos nós o toujours] comme des miroirs "de l'âme et de l'esprit". Interrogé sur ces sujets par une revue spécialisée, en 1907, M. conviendra que la chiromancie fournit des "données indiscutables sur le charactère plutot que des révelations sur l'avenir. C'est une véritable "architecture psychologique qu'est gravée dans la main: telle ligne pourra être rapportée au "coeur". Un "mont de la lune" développé révelera aptitudes au rêve ou à l'imagination, le "mont de mars", un esprit batailleur" (YC, 69).

Tal foi o talento quiromântico revelado por M. que um amigo se propôs comprar para ele "un cabinet de chiromancie et de graphologie" (YC,70). M. não aceitou porque se interessava mais por literatura... Yves Chiron afirma que M. se afastou logo do ocultismo. Sem abandonar, é claro, a crença que manteve - toujours - na quiromancia.

Não se diga que essa tendência para a superstição desapareceu com a maturidade do racionalista agnóstico que M. sempre foi. Nos últimos anos de sua vida, ele ainda se impressionava com as coincidências numerológicas entre os seus números de prisioneiro em Riom e em Claraval.

"Son goût ancien pour la numérologie était comblé: "[...] j'ai eu de l'avancement, écrivit-il à sa nièce, mon numéro d'écrou est aujourd'hui 8321, mais rends toi compte! La somme de ce chiffre est la même que celle de 2048, de 14 qui est 7x2 comme la somme des lettres de mon prénom et de notre nom! Et l'on dira que les existences ne sont pas réglées par les nombres des cieux! Il est vrai que l'on ne tient compte que des cas positifs, car les autres son innombrables" (YC, 471). Ironia ou superstição mantida?

A crise espiritual de M. prosseguiu. Ao Abbé Penon, ele escreveu nesse tempo, dizendo: "Ma métaphysique intérieure aboutit au pessimisme noir et gris teinté de vagues roses par l'art libérateur" (YC,83). E ainda: "Je ne crois pas aux faits. Les idées importent seules" (YC,91).

Sobre os Evangelhos, confessou então ao Abbé Penon que seu relato "n'est pas assez fort pour triompher de mon agnosticisme. Il est vrai que je suis toujours profondement catholique en sociologie" (YC,91).

Todavia, esse profundo "sociologismo católico" era também profundamente adepto de... Augusto Comte e do Positivismo!

É claro que uma tal confusão mental deveria conduzir à Gnose. O M. dessa época escreveu: "Le fait est que je ne puis croire entièrement ni au bien ni au mal. Il est au moins deux dieux, voilà ce dont je suis certain" (YC,113).

Nesses anos de juventude, M. escreveu frases ímpias e blasfemas que iriam causar-lhe muitos transtornos no futuro, quando sua política aproximá-lo-ia dos católicos. Até hoje, os partidários de M. argumentam que tais frases foram pecados de juventude e que não correpondem ao pensamento amadurecido de M.. O fato é que se ele não as escreveu mais - e algumas, até lamentou - jamais as renegou ou condenou.

Por exemplo, seu livro Chemin de Paradis, que foi posto no Index em 1926, foi considerado pelo padre Jules Pierre, em 1914, como "vitriol de Schoppenhauer et de Nietzsche versé dans l'ordure du marquis de Sade" (YC,111). Quando M. se aproximou politicamente da Igreja, ele republicou esse livro, expurgando dele algumas passagens mais chocantes para os católicos, mas sem jamais condená-las expressamente.

Costuma-se defender M. dizendo que as citações que se fazem de frases dele, escritas na juventude, não levam em conta a evolução de seu pensamento. De fato, em sua longa vida M. mudou em alguns pontos. Confessou-se apenas ao morrer, e queira Deus tenha obtido o perdão divino. Deixou também de atacar blasfemamente os Evangelhos e o Magnficat. Veremos que mudou um tanto - apenas um tanto - diante do socialismo. Mudou também algo face à Metafisica.

Vimos que a Filosofia foi a paixão juvenil de M.. Leu de tudo. Perdeu primeiro a Fé em Deus e na Igreja. Perdeu depois a confiança na Criteriologia, para, finalmente, odiar a própria Metafísica. Já não tinha certezas.

 

 "Ce qui attend l'homme lucide, ce n'est donc d'abord qu'une incertitude "infinie" que chantent avec force les vols des goélands qui ne font que tourner en cercles inutiles (...)" (JF,250). Essa imagem de M. sobre o vôo circular dos pássaros goélands revela bem sua crise criteriológica e de fé. A não aceitação de sua desgraça física levou-o a repudiar a Deus. Desde então, ele volteou em círculos. Homem lúcido que jamais soube elevar-se até o Sol da Verdade - Deus - M. fixou seu alvo em objetivos terrenos, naturais: a Razão, a Nação, a Política, a França, sobretudo a França. Ambigüamente ele corrigiria o que dissemos: "Sobretudo, não. Antes de tudo". "Antes de tudo não é sobretudo". Em concreto, ele que se declarava agnóstico, subordinou o sol da Igreja ao serviço de seus objetivos nacionalistas. Noutras palavras, ele fez, de coisas criadas, valores absolutos; a "Cidade", a "Razão", a "Ordem", a "Nação", tomaram o lugar de Deus e da Igreja.

Temos certeza de que bastam estas linhas introdutórias para causar a indignação dos "maurrassianos", que, incontinenti, clamarão por injustiça, desonestidade intelectual ou por incompreensão. Esta reação dos fiéis de M. é característica: eles o tratam como se fosse um santo ou um profeta que fala inerrantemente em nome de Deus. Para eles, a palavra de M., sempre ambígua e fugidia, suscetível portanto de várias interpretações, esconde em suas dobras, o sentido verdadeiro das palavras de M., que, como as palavras da Revelação, não podem ser criticadas. Em conseqüência, todo juízo, ainda que levemente crítico contra M., gera polêmicas enormes que giram inútil e infinitamente - como os goélands - sobre o significado exato e objetivo dos oráculos do "profeta" e do que ele realmente tencionou dizer.

Que quis dizer M.? Como entendia ele tal termo? E os textos dando significados diferentes, e até opostos, se acumulam, jamais se chegando a uma conclusão do que o autor de Anthinéa queria fazer entender. O que é tanto mais estranho, quanto mais se reconhece que ele era um homem muito lúcido.

Partidários, discípulos e amigos de M. se queixam de que se lhe atribuem idéias que ele jamais defendeu nem sequer teve:

"On lui prête des idées qu'il n'a jamais eues. On lui fait partisan de politiques ou de régimes qu’il a combattus toute sa vie. Et quand on imprime une prétendue citation de ses oeuvres il y a gros à parier que c’est un contre sens". (Pierre Gaxotte, secretário de M., Préface à obra de M. "Mes idées politiques, Fayard, Paris, 1937, p. 11).

M. escreveu que "un homme qui n'aurait que des idées claires serait assurément un sot" ( JF., 91). Ora, ter idéias claras e saber exprimí-las com clareza é que é próprio do homem inteligente. Ter idéias confusas ou exprimí-las sem clareza é próprio do tolo. Mas, quem é lúcido e se exprime ambigüamente, não pode ser tachado de tolo e sim de "furbo" - espertalhão - pois é claro que pretende enganar. Maurras era bem inteligente, mas bem pouco claro. E enganou - e continua a enganar - a muitos.

Cremos que tantas discussões surgidas a respeito do real significado do pensamento de M. nascem:

    1. De sua recusa em admitir que tinha uma doutrina;
    2. da ambigüidade de seus textos e expressões;
    3. de seu desprezo pela metafísica;
    4. de seu desejo de - antes de tudo - fazer política: "politique d'abord".

 

 Não somos nós que constatamos a ambigüidade de M.. Ela é reconhecida até por seus maiores defensores.

"Avant d'accuser M. de faire de la Cité un absolu, il faudrait donc mesurer ce qu'il a expressément voulu signifier. Mais les formules les plus significatives du CATHÉCHISME d'ACTION FRANÇAISE portent la marque paradoxale d'une ambiguité continue. La devise "Politique d'abord", cent fois expliquée, et dont Maritain a encore montré dans son premier texte sur M. qu'elle avait un sens recévable dans l'ordre des moyens, elle a son sens, mais l'équivoque y subsiste. Et plus encore les formules de la Déclaration de la Ligue d`Action Française: "Un vrai nationaliste place la patrie avant tout" et il la défend "par tous les moyens" (JF,336). E note-se que, nesse tempo, Maritain era amigo de M. e simpático à Action Française.

A pátria acima de tudo? M. protestaria que não disse "acima de tudo". Disse "antes de tudo". Antes de Deus? Antes da Igreja? Antes da verdade, da lei e da justiça?

E será lícito defender a pátria por todos os meios? Por acaso também na defesa da pátria, não estão os meios subordinados à Moral ? Ou o fim - defesa da pátria - está acima, ou deve ser anteposto ao Bem e à Justiça?

Vê-se bem, por essas afirmações citadas, como o nacionalismo de M. pode facilmente ser confundido com o nacionalismo fascista ou nazista, e porque alguns maurrassianos acabaram por se tornar colaboracionistas dos "boches" de Hitler, ocupadores da França.

"Mais si l'équivoque a toujours habité ces formules, plus encore va-t-elle éclater dans un temps où c'est du mot de nationalisme que se parent les systèmes du type fasciste et plus encore l'hitlerisme lui-même" (JF, 336). Todo o pensamento de M. sofreu dessa ambiguidade. E, para defender-se dela, ele recorreu ao sofisma. Argumentando contra os que o acusavam de imoralismo ao querer que a pátria fosse defendida "por todos os meios", ele respondeu, citando vários documentos pontifícios, nos quais os Papas recomendam aos católicos que usem "todos os meios" para difundir o catolicismo... Cremos que não é preciso mostrar que defender a pátria por todos os meios, e difundir a fé católica por todos os meios, não são coisas iguais.

Qual a doutrina de M.? Que pensava ele? Qual era o seu sistema? Poucos poderão responder claramente essas questões, porque o próprio M. não as respondia clara e sistematicamente. Durante longo tempo, ele se recusou a admitir que tinha uma doutrina.

"Mais toujours il s'est refusé à donner de ce qu'on a appelé sa "doctrine" (lui même proscrivait le mot qui lui semblait impliquer quelque chose de scolaire, de formel, de figé) un exposé méthodique, sa méthode était de partir de faits de l'évenement quotidien de le commenter à la lumière de la raison, de s'éléver alors à des vérités générales. Rien de moins dogmatique" (Pierre Gaxotte, prefácio citado, p. 13).

Nada menos dogmático. Nada mais vago ou fluido. É claro que essa recusa de apresentar uma doutrina de modo sistemático, permitiu a M. um largo espaço para manobrar politicamente, agradando desde os anarquistas e socialistas até os monarquistas legitimistas. O difícil é compreender como essa fluidez dogmática pôde conciliar-se com o dogmatismo católico. Como os católicos - homens das certezas e dos dogmas explícitos e claros - puderam seguir a reboque de um pensador que recusava dizer qual era sua doutrina?

Ele é tido como o chefe de um dos mais ardorosos movimentos apoiados pelos católicos no século XX, e pessoalmente foi incrédulo até a soleira da morte. Punha-se como defensor da Igreja, e estadeava sua admiração pelo paganismo. Proclamava-se romano, porque era humano... Admirava a Igreja , mas blasfemara contra o Cristo hebreu - e não se retratou dessa e de outras expressões blasfemas, do modo que seria necessário - e quis subverter o Magnificat (adiante veremos os textos).

Atacava o Hitlerismo, mas era profundamente anti-semita. De um anti-semitismo de Estado e não de pele ou de raça, como fazia questão de distinguir. Era anti-judeu, nacionalista e defensor de um socialismo nacional. E até hoje se discute: foi M. um colaboracionista do ocupante nazista da França, ou não? Seu anti-germanismo superou seu anti-democratismo, impedindo-o de aderir totalmente ao nazismo, ou não?

Condenou e elogiou o fascismo e Mussolini, cujos métodos de violência utilizou. Opunha-se à barbarie comunista, mas considerava que o pior mal do século XX não era o comunismo e sim a Democracia, a ponto de afirmar que um comunismo não democrático seria mais aceitável que a Democracia.

Afirmava-se profundamente monarquista, e defendeu a restauração do trono como a única solução política para a França, mas... chegou a preconizar para ela uma monarquia socialista. Ele foi monarquista, sim, mas... sindicalista... Foi monarquista sim, mas... anti-aristocrático.

Defendia a supremacia da razão, mas admitia a Quiromancia e a Numerologia, a paixão, e a tomada do poder pela força. Pretendia defender a lógica, a coerência e a supremacia do pensamento, mas tinha fobia da Metafísica e da teoria pura.

Criticou duramente o Romantismo, mas admirava e decorava Lamartine, Musset e Hugo. Era contrário ao amor romântico, mas ficava, à noite, na calçada, em frente da casa de uma mulher, mãe de três filhos, pela qual estava apaixonado e fez uma poesia sobre esse tema. Aliás, essa não foi o único amor adulterino de M., o "anti-romântico".

Foi essa ambigüidade do positivista M. que permitiu reunir na ACTION FRANCAISE (AF) católicos e ateus, monarquistas e socialistas, aristocratas e anarquistas, nobres e proletários, tradicionalistas e sillonistas, positivistas, tomistas e bergsonianos, etc. "Politique d'abord..." E a panela política de M. teve boca tão larga que por ela passaram ingredientes de todos os tamanhos e de todas as naturezas...Com isto, a AF tornou-se uma "bouillabesse" heterogênea e envenenada. É devido a essa ambigüidade doutrinária que é possível acusar M. de muitos erros e, ao mesmo tempo, defendê-lo como paladino de verdades opostas a esses mesmos erros. É desta ambigüidade que nasce a perplexidade do leitor não apaixonado por M. Ele era tão ambíguo que o acusaram de sistematicamente empregar uma linguagem cifrada. M. utilizava terminologia católica, mas dando-lhe um sentido diferente do normal.

Escreveu o Pe. Doncoeur que M. e os positivistas ateus da AF "ne donnent pas aux mots le même sens [que os católicos] et qu'ils évoluent dans des ordres différents. Les mots, les formulessont les mêmes. Le positivisme emprunte au catholique tout son discours et reproduit à s'y méprendre les gestes du fidèle. La concordance sera poussée scrupuleusement jusquáu moindre détail, et cependant l'incroyance demeurera rigoureuse. Inconséquence? Incohérence? Pure feinte?

Nullement. Mais l'équivoque au sens technique du mot. L'on emploiera bien les mêmes mots, mais il est impossible qu'on leur "supose" le même sens; cet usage du discours a deux clés idéologiques constitue un véritable système de double écriture" (PRP,35).

Terá sido esta uma acusação exagerada de um Padre inimigo de M., cujas idéias liturgicistas o tornam suspeito? Clamarão os atuais defensores de M. por sacrilégio?

Considerem eles, porém, antes, o que o próprio M. escreveu. Ao republicar Anthinéa, em 1912, M. expurgou dela algumas frases, e explicou que o fazia porque "le sens caché [do texto] dans un trop subtil filigrane devenait susceptible de scandaliser sans raison le public...la nouvelle édition substituant (quand ce fut utile) au langage chiffré la rédation en clair... Le livre ne pouvait devenir orthodoxe mais était dégagé de l'aspect de volonté agressive qu'il pouvait revêtir antérieurement pour les yeux inhabiles" (CM., L'AF et la réligion catholique, pp 136-137, apud PRP,36).

É a ambigüidade de M. levada até à criptografia que causa tantas polêmicas. Após ler seus capítulos, o leitor é obrigado a relê-los, e se pergunta: "Afinal, qual é a posição do autor? Que quis dizer ele realmente? Afinal, o que defendeu realmente M.? Até hoje ele causa perplexidade e polêmicas envenenadas. Não queremos nem o equívoco, nem a linguagem cifrada. Nem o veneno.


    Para citar este texto:
"Maurras"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/religiao/maurras1/
Online, 20/09/2017 às 19:01:15h