Religião-Filosofia-História



Junto à muralha norte da Abadia erguia-se a torre misteriosa da Biblioteca, materialmente construída em forma de labirinto, ela que, do ponto de vista intelectual, também era um dédalo doutrinário e proibido.

Para os monges, "para esses homens devotados à escritura, a biblioteca era ao mesmo tempo a Jerusalém celeste e um mundo subterrâneo no limite entre a terra desconhecida e os infernos. Eles eram dominados pela biblioteca, por suas promessas e proibições(R.216).

Ela era para os monges o local de trabalho, o meio para adquirir a ciência, como também a fonte de uma tentação muito antiga: a do conhecimento do bem e do mal, a tentação da Gnose. Ela era, para eles, em pleno sentido, o fruto proibido, "o lugar da sabedoria proibida"(R. 206).

"O que para os laicos é a tentação do adultério e para os eclesiásticos regulares é a avidez de riquezas, para os monges é a sedução do conhecimento "(R.215).

Numa biblioteca, duas coisas são fundamentais: o fim, que é o saber, e o caminho, que a ele conduz. Assim como Frei Guilherme e Adso tiveram enormes dificuldades para encontrar o caminho certo no labirinto material da biblioteca, assim também ocorre com qualquer leitor, em qualquer biblioteca, para encontrar a verdade que busca.

Mas, antes de conhecer o caminho, é preciso saber o que procurar. A noção de fim precede a escolha dos meios a utilizar para alcançá-los corretamente.

Que se procura numa biblioteca? Que busca o espírito humano nos livros? O conhecimento. Mas, em que consiste o saber? Na posse da verdade? Existe a verdade? É possível conhecê-la de modo seguro? Que meios tem o homem para conhecer a verdade? Qual o caminho a ser trilhado para atingi-la? Existe uma realidade objetiva? A idéia que o homem faz dessa realidade é correta? Temos certeza disso? Se existe a verdade, é conveniente conhecer todas as verdades? Elas devem ser comunicadas a todos? Convém que só alguns controlem o que deve ser conhecido? A ciência deve ser secreta? Quem deve controlar o saber? Quem pode ou deve decidir o que deve ou não ser comunicado aos outros?

Todas essas questões postas pela filosofia no decorrer dos séculos estão implícitas na existência de uma biblioteca. Tais perguntas envolvem uma multiplicidade de complexos problemas filosóficos, políticos, morais e teológicos. Cada um deles é um novo labirinto e é com eles que Eco forma em seu livro o grande labirinto do saber, simbolizado na organização da labiríntica biblioteca da Abadia, imagem do mundo. Por sua vez, é a este labirinto do saber que conduziram os caminhos dos labirintos anteriores. É o controle do labirinto do saber - o controle da Biblioteca, isto é, da doutrina- que dá o verdadeiro domínio da Abadia, isto é, da Igreja e do mundo.

De pouco adianta ter o poder abacial, se não se tem o poder doutrinário. Quem tem este, fatalmente, com o tempo, - ou apressando o tempo com uma taça de vinho envenenado, como diz Aymaro - terá o poder maior. Quem formar doutrinariamente os monges, terá, cedo ou tarde, o poder abacial (papal) nas mãos. É pois o labirinto do saber que dá a chave para o labirinto do poder eclesiástico... Este, por sua vez, dá a chave para o labirinto do poder político, o qual controla os labirintos econômico, religioso e, por fim, o dos eventos. Entretanto, o labirinto do saber é tão complexo, e se divide em tantos sub-labirintos, que é conveniente estudar, - pelo menos os principais - um pouco mais de perto, vendo o que diz deles Eco em O Nome da Rosa.

 

Quando se entra numa biblioteca buscando-se saber, a primeira pergunta que se põe é: saber o quê? Evidentemente, saber a verdade. Qualquer livro, mesmo os que negam a existência da verdade, pretende ensiná-la. O livro da mentira, um livro que confessadamente ensinasse mentiras, não teria leitores, assim como a biblioteca das falácias não teria visitantes nem freqüentadores. Todo livro procura apresentar-se como portador de verdade. E a mentira só é aceita se se apresenta como verossímil.

Como Eco trata essa questão de criteriologia?

Embora o jovem Adso - a testemunha que nada entende - em certo momento diga, de acordo com a definição tomista, que a verdade é a adequação da idéia do sujeito ao objeto, o livro de Eco insiste na defesa do relativismo. Frei Guilherme-Eco revela-se um cético.

Quando Adso pergunta a seu mestre: "Onde está a verdade?", ele lhe responde ambiguamente: "Em nenhum lugar, às vezes"(R181). Essa indefinição ambígua e relativista provém do desejo de evitar afirmar a tese auto-destrutiva de que a verdade não existe. de fato, a sentença "a verdade não existe" é contraditória, porque :

a) ou essa tese é correta

b) ou é falsa.

Se a tese é correta, então eis aí a única coisa de que o homem pode ter certeza, a única tese realmente segura, a única verdade: a de que a verdade não existe. Aí está a verdade. Portanto, a verdade existe.

Se a tese afirmada é falsa, então a afirmação oposta é certa. E a verdade então existe. Portanto, as duas pontas do dilema levam à conclusão de que a verdade existe.

Evidentemente, o medievalista Eco tem conhecimento desse argumento clássico da escolástica tomista, e, para evitar cair nessa armadilha, fez seu cético e escorregadio Frei Guilherme dizer que ela não está em nenhum lugar...às vezes. No máximo, ele admite que se a verdade, alguma vez, está em algum lugar, não se pode sabê-lo.

Frei Guilherme é um homem que recusa certezas. Como se fosse um filho - ou um dos pais- do século XX.

"Sinto-me incerto da Verdade, mesmo quando nela acredito" (R242). O que significa que ele não crê realmente nela.

É por essa razão que Eco, com Frei Guilherme, se ri dos que imaginam possuir a verdade, que presumem ter certezas e que até pretendem ensiná-las, como por exemplo, os teólogos escolásticos da Sorbonne medieval.

"Então não tendes uma única resposta para vossas perguntas?", indaga o ingênuo Adso a seu mestre.

" - Se a tivesse, ensinaria Teologia em Paris."

" - Em Paris, eles têm sempre a resposta verdadeira ? "

" - Nunca, mas são muito seguros de seus erros".

" - E vós, nunca cometeis erros ? "

"- Freqüentemente. Mas, ao invés de conceber um único erro, imagino muitos, assim não me torno escravo de nenhum"(R 531).

Portanto, para Guilherme-Eco, ter certeza de algo que se julga verdade é ser escravo de um erro. O que resulta, em última análise, em negar a possibilidade de conhecer certamente qualquer verdade. Em vez de Cristo dizer: "A verdade vos tornará livres"(Jo.VIII,32), esse estranho frade de um estranho cristianismo marxista ou semiótico preferiria que Cristo tivesse dito: "A verdade vos tornará escravos".

Para ele, o homem não pode conhecer a realidade com segurança. Pode apenas descobrir que vira errado e que pensara mal, e assim, afastar-se de erros e obter uma aproximação maior do que é certo, por uma melhor focalização das questões.

Quando Adso pede a Frei Guilherme: "Por que não me diz onde está a verdade?", Frei Guilherme lhe responde: "O máximo que se pode fazer é olhar melhor. (R238-239). Entretanto, as verdades, se existem, são inúteis. "As únicas verdades que prestam são instrumentos para se jogar fora "(R553).

Conseqüência desse ceticismo radical é que os homens que julgam possuir a verdade são os que estão mais longe dela. Possuir a verdade seria uma presunção realmente diabólica, que levaria a perseguir os que pensam de modo diverso. Ter certeza seria satânico.

"O diabo não é o príncipe da matéria, o diabo é a arrogância de espírito, é a fé sem sorriso, a verdade que não é nunca presa da dúvida" (R 536. O sublinhado é nosso)

Por isso, Frei Guilherme previne Adso contra aqueles que têm certezas e que, julgando possuir a verdade, estão dispostos a morrer por ela.

"Teme, Adso, os profetas e os que estão dispostos a morrer pela verdade. (Eles amam) lubricamente a sua verdade a ponto de ousar tudo para destruir a mentira "(...) talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, fazer rir a verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana da verdade"(R552).

Que estranho frade é Frei Guilherme de Baskerville, cujas teses se parecem tanto com as de Regina Psaki e Alberto Asas Rosa, discípulos de Eco. (Cfr in Maria Pia Pozzato e outros, L'Idea Deforme,Bompiani, Milão, 1989, os ensaios Critica ortodossa e allegoristi, de Regina Psaki, p. 276; e Postfazione, de Alberto Asas Rosa, pp 295 e 298). Até parece que Frei Guilherme freqüentou um curso de semiótica esotérica, ministrado por Eco. E que estranho cristianismo o seu, tão de acordo com os dogmas do relativismo atual...

Que filosofia está subjacente a tais afirmações? Como coadunar tais convicções com o Evangelho onde Cristo proclamou : "Ego sum veritas "(Jo. XIV,6).

 

O Nome da Rosa expõe de modo literário a árida filosofia nominalista de Guilherme de Ockham, franciscano inglês do século XIV, responsável pela destruição da escolástica, e, com ela, da Cristandade medieval. No romance, o Ockham de Eco é Frei Guilherme de Baskerville.

O nominalismo foi a filosofia que separou Fé e razão, lançando a humanidade ou no fideismo gnosticizante ou no empirismo racionalista. Dessa ruptura entre Fé e razão decorrem as separações - desejadas por Ockham - entre Teologia e Filosofia, entre Igreja e Estado. Foi o ockhamismo a arma utilizada pelos gibelinos e legistas para destruir a sociedade medieval, na qual a Igreja e Estado eram unidos, com a supremacia do Papado sobre o Império. O que fez Felipe, o Belo, em Anagni, contra o papado, Ockham o realizou na Filosofia.

Ockham tornou-se famoso por sua lógica e pela negação dos universais. Dele vieram o empirismo, o experimentalismo e o cientificismo racionalista das Idades Moderna e Contemporânea.

Sua negação das relações de causa e feito e de ordem levou a Filosofia a lançar-se nos abismos do ceticismo, do relativismo criteriológico e moral, assim como no ateísmo materialista, erros que acabam de ser condenados pela encíclica Splendor Veritatis de João Paulo II.

À parte os ingredientes nominalistas, Frei Guilherme apresenta fortes doses de materialismo dialético que fazem dele um franciscano de tonalidade claramente marxista, de perfil muito parecido ao do ex-Frei Leonardo Boff.

Vejamos mais de perto como as teses okhamistas são apresentadas por Frei Guilherme de Baskerville, máscara de Umberto Eco, em O Nome da Rosa.

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Desde a Grécia antiga até o fim da Idade Média, o problema dos universais suscitou veementes polêmicas.

Como se sabe, os universais são conceitos que podem ser aplicados a todos os indivíduos de uma mesma espécie. Por exemplo, o conceito de rosa engloba todas as rosas existentes, ou que possam existir, em qualquer tempo.

O que se tem discutido é em que sentido, ou como existem os universais. Com relação a isso, formaram-se três correntes mais importantes:

a) o realismo; b) o realismo moderado; c) o nominalismo.

Em O Nome da Rosa quase não se fala da posição do realismo moderado, que é a posição tomista assumida pela Igreja, face à questão dos universais. No tempo em que ocorreram os fatos na abadia do romance de Eco, as posições filosóficas mais em voga, e que se digladiavam em todas as Universidades e mosteiros, eram a posição platonizante, do realismo, e a do nominalismo. O realismo de tom platônico era defendido pelos místicos gnosticizantes seguidores de Mestre Eckhart. O nominalismo era partilhado pelos franciscanos seguidores de Guilherme de Ockham e por todos aqueles que tendiam para posições empiristas, racionalistas e panteístas.

Eco apresenta o debate dos universais como se houvesse apenas essas duas correntes (a mística e a racionalista) debatendo a questão dos universais. Os tomistas nem aparecem. Eco leva o leitor comum a julgar que a posição mística e gnóstica é a da Igreja Católica, o que é uma falsificação histórica.

Para que o leitor tenha idéia do que se debatia e do que se trata em O nome da Rosa, a respeito dos universais, faremos uma breve exposição dessa questão filosófica, procurando salientar a que conseqüências levava cada uma das soluções aventadas.

a) A doutrina do realismo filosófico sobre os universais.

Para Platão e para seus seguidores, os universais teriam existência real fora da mente, no mundo superior das idéias. Esse mundo das idéias seria perfeito, divino e inteiramente desprovido de matéria, Em nosso mundo, a forma ou idéia de um ente - comum a todos os exemplares individuais de sua espécie- estaria atualmente aprisionada nos seres materiais individuais.

Explicavam os platonizantes que a idéia de rosa - o universal rosa - é uma só para todas as rosas individuais. Essa idéia não é só única e universal, como também é absolutamente perfeita, visto que os defeitos possíveis de uma rosa existem somente na matéria. É apenas a rosa concreta que murcha, é danificada ou morre. O conceito universal jamais se deteriora, envelhece, murcha ou morre. O universal é perfeito e imutável. A idéia universal goza então de uma perfeição tal que os platônicos consideravam-na divina. Enquanto a rosa individual, concreta, material fenece e perece, o universal rosa permanece para sempre o mesmo, perfeito e imutável.

Concluíam disto os filósofos de tendência platônica, que a matéria era a fonte de todas as imperfeições e de todo o mal. Era na matéria, causa da individuação, que estava a origem do mal. Estar neste mundo material era ter as idéias divinas aprisionadas no cárcere da matéria. Só com a libertação da matéria é que seria possível fazer as idéias universais divinas retornarem ao pléroma divino de onde tinham caído.

Essa visão platônica era gnosticizante, como bem o demonstrou Simone de Pétrement. (Cfr. Simone de Pétrement, Le dualisme chez Platon, les gnostiques et manichéens, Puf, Paris,1947).

Para os gnósticos, há uma oposição radical entre espírito e matéria. O espírito é divino. A matéria, produzida pelo demiurgo, é sempre má. Na constituição dos seres a forma ideal é, pois, divina, enquanto a matéria é seu cárcere maléfico. Como a matéria é a causa da individuação, para o gnóstico ser indivíduo ou pessoa é um mal. O bem está na absorção ou perda de todo eu no Todo divino, que coincide dialeticamente com o Nada absoluto.

Essa posição de divinização do universal e condenação de todo ser individual foi defendida por Mestre Eckhart e por todos os sectários gnósticos do fim da Idade Média, entre os quais os Irmãos do Livre Espírito. Não queremos dizer que todos os filósofos que defenderam o realismo, em qualquer tempo, tenham sido, de fato, gnósticos. Queremos dizer, isto sim, que o realismo, levado às suas últimas conseqüências, chega à Gnose.

A escolástica admitia a parcela de verdade em que Platão se fundara para cair nesse erro. Com efeito, as essências criadas por Deus existiram primeiramente na Inteligência ou Verbo de Deus como idéias exemplares. Assim como um artista primeiro tem idéia do que vai esculpir, e, depois, esculpe o que ideou, assim também a Sabedoria de Deus concebeu o que ia criar. Por isso, Deus, ao criar, dizia antes uma palavra. Por isso também se lê em São João que "tudo foi feito pelo Verbo e sem ele nada foi feito"(Jo, I,3).

b) O nominalismo

No final da Idade Média, surgiu uma corrente de pensamento diametralmente oposta ao realismo platônico. Roscelin e, um tanto, Abelardo tinham-na preparado, mas ela só tomou todo o seu maior desenvolvimento com a filosofia de Guilherme de Ockham, retratado por Eco na figura de Frei Guilherme de Baskerville.

Para o nominalismo, os universais são meros nomes. Nenhuma realidade corresponderia a um conceito universal, que só existiria na mente. Os universais não se realizariam de modo algum nas coisas. São apenas obras do espírito que as palavras exprimem Assim, rosa é apenas um nome. O nome da rosa é um mero "flatus vocis". A única realidade é a rosa individual, diferente de todas as demais rosas existentes.

Ockham baseou-se nas idéias de Petrus Hispanus, expostas no livro De supositionibus. Suposição é a posição que um termo ocupa numa frase, no lugar de outras coisas, diz Ockham. Podemos distinguir três tipos de suposição :

1-Suposição material existe quando o termo empregado numa frase designa apenas a própria palavra usada. Na frase: "a rosa é uma palavra de quatro letras", a palavra rosa é tomada em si mesma, como termo escrito ou falado.

2-Suposição pessoal existe quando o termo usado numa frase designa um ente individual concreto e determinado. Por exemplo, na sentença: "a rosa está se abrindo", o termo rosa está no lugar de uma determinada rosa individual concreta, à qual se faz referência.

3-Suposição simples ocorre quando o termo utilizado designa, não um ser individual concreto, mas o conceito universal de um ser. É o que acontece com o termo rosa, na frase: "a rosa é uma flor".

Conforme essa teoria, a palavra rosa, como universal, indica apenas um conceito mental, que não existe, de fato, na realidade. Não existindo os universais, o homem só poderia conhecer as rosas individuais, e, o que se conhece de uma rosa não pode ser aplicado a nenhuma outra rosa.

Como já ensinara Abelardo, no século XII, Ockham dizia que só o conhecimento do singular é verdadeiro, pois o homem tem dele um conhecimento intuitivo, direto. Assim, só o particular seria real. A essência equivaleria à existência.

Daí se concluía que o verdadeiro conhecimento não pode ser teórico, e sim prático e experimental. É desses pensamentos que vai nascer o experimentalismo, e o cientificismo do mundo moderno.

Isto, a longo termo, acaba por negar não só a existência das essências e dos universais, como também o valor de qualquer conhecimento teórico racional, pois "é extremamente difícil para uma tal doutrina explicar, a partir desses blocos individuais, sem nada em comum, como o pensamento pode formar as noções de gêneros e espécies", como diz Etienne Gilson. (E.Gilson, La philosophie au Moyen Âge, Payot, Paris,1976, 2.vol, p. 644).

São essas teses de Abelardo e de Ockham que Frei Guilherme de Baskerville repete em várias passagens de O Nome da Rosa.

"O conhecimento pleno (é) a intuição do singular"(R43). "O livro da natureza não fala só por meio de essências"(R43), isto é, por meio dos universais.

"A ciência não deve contentar-se com idéias que são justamente signos, mas deve buscar as coisas em sua verdade singular"(R362-363).

"Os simples têm razão porque possuem a intuição do individual, que é a única boa"(R240-241).

Ockham, por vezes, parece admitir que o universal é apenas uma impressão confusa ou indistinta de um ser individual. Se temos de Sócrates apenas uma impressão confusa, porque o vemos à distância ou envolto em brumas, dele só temos o conceito de homem. Mas, à medida que o vulto de Sócrates vai se tornando mais nítido e claro, nesse sentido, nós o vamos identificando até podermos dizer que é Sócrates e não Platão.

É essa mesma doutrina ockhamista que Eco expõe, pela boca de Frei Guilherme, ao responder à seguinte pergunta de Adso :

"Quando vós lestes as pegadas sobre a neve e nos ramos, ainda não conhecíeis Brunello. De certo modo os rastros nos falavam de todos os cavalos, ou pelo menos, de todos os cavalos daquela espécie. Não devemos então dizer que o livro da natureza nos fala só por meio essências, como ensinam muitos insignes teólogos ? "

"Não de todo, caro Adso", respondeu-me o mestre. "Com certeza o tipo de pegadas me exprimia, se assim o queres, o cavalo como "verbum mentis", e o teria expresso assim em qualquer lugar que o encontrasse. Mas a pegada naquele lugar e àquela hora do dia dizia-me que pelo menos um dentre todos os cavalos possíveis passara por ali, de modo que eu me encontrava a meio caminho entre a apreensão do conceito de cavalo e o conhecimento de um cavalo individual. Em todo caso, o que sabia do cavalo universal me era dado pelo rastro, que era singular. Poderia dizer que naquele momento eu estava preso entre a singularidade do rastro e a minha ignorância, que assumia a forma bastante diáfana de uma idéia universal. Se tu vês alguma coisa de longe e não entendes o que seja, contentar-te-ás com um animal, mesmo que não saibas ainda se Brunello ou Favello. E somente quando estiveres à distância apropriada verás que é Brunello (ou esse cavalo e não outro, qualquer que seja o modo como decides chamá-lo). E esse será o conhecimento pleno, a intuição do singular. De modo que eu, há uma hora atrás, estava pronto a esperar qualquer cavalo, e não pela vastidão de meu intelecto, porém pela exigüidade de minha intuição. E a fome de meu intelecto só foi saciada quando vi o cavalo singular que os monges traziam pelos arreios.

Só então soube, realmente, que meu raciocínio anterior conduzira-me para perto da verdade. de modo que as idéias que eu usava antes para figurar-me um cavalo que ainda não vira, eram puros signos, como eram signos da idéia de cavalo as pegadas sobre a neve: e usam-se signos e signos de signos apenas quando nos fazem falta as coisas."

"Outras vezes eu o tinha escutado falar com muito ceticismo das idéias universais e com grande respeito das coisas individuais ".(R42-43).

Ockham dividia a ciência em dois tipos :

a) - a ciência real (scientia realis) ou das coisas individuais;

b) - a ciência racional (scientia rationalis) que utilizava os signos mentais.

Frei Guilherme não fala diferentemente;

"A idéia é signo das coisas e a imagem é signo de uma idéia, signo de um signo (...) A verdadeira ciência não deve contentar-se com idéias, que são justamente signos, mas deve buscar as coisas em sua verdade singular "(R362-363).

"Mas então, pergunta Adso, o verdadeiro nunca existe?"

"Talvez exista, é o unicórnio indivíduo", contesta Frei Guilherme. (R363).

Sendo a verdadeira ciência a intuição do singular, ela é a mais própria dos rústicos do que dos doutos :

"Os doutores (...) freqüentemente se perdem em busca de leis demasiado gerais. esses, [os pobres, os simples], têm a intuição do individual"(R239).

Os simples - que na linguagem de Frei Guilherme são também os hereges, (Cfr. P. 10 e R233)- têm razão porque possuem a intuição do individual que é a única boa. porém, se a intuição do individual é a única boa, como poderá a ciência chegar a recompor as leis universais através das quais, e interpretando as quais, a magia boa torna-se operativa? (...) Não sei mais. Tive muitas discussões em Oxford com meu amigo Guilherme de Ockham(...) Semeou minha alma de dúvida. Porque, se apenas a intuição do individual é justa, o fato que causas do mesmo gênero tenham efeitos de mesmo gênero é difícil de provar. "(R 240-241).

Assim, a negação das essências e dos universais reduzia o ockhamismo a um empirismo e a um experimentalismo radicais que comprometiam toda noção de relação.

Isto conduz ao problema da causalidade, pois entre uma causa e um efeito o que existe é uma relação. A relação é um acidente que não está num ser concreto, não é propriamente um "ens in allio". Ela está "entre" os seres que se relacionam. Para Ockham, que só aceitava o individual concreto, a relação não tinha nenhuma realidade, a não ser a dos termos. Por isso ele negava a relação de causa e efeito. Argumentava dizendo que a relação de causa e efeito não pode ser anterior ao efeito, já que a relação supõe a existência dos dois termos; nem podia ser simultânea, porque o efeito é conseqüência dela; nem podia ser posterior, pois que seria preciso dizer então que ela se produz a si mesma. O único meio de provar que uma coisa é causa de outra seria, portanto, a experiência, raciocinando com a presença ou com a ausência da causa e do efeito.

Também para Frei Guilherme era "difícil dizer que efeito tenha tido tal causa; bastaria a intervenção de um anjo para mudar tudo, por isso não é de se admirar se não se pode demonstrar que uma coisa seja causa de outra "(R 242).

Ockham em sua obra Centiloquium, declara que a própria existência de Deus não pode ser provada. A existência de Deus, assim como sua unicidade, sua infinitude, sua oniciência, seriam questões às quais se deveria dar apenas uma adesão de fé. Desse modo, Ockham cai no fideísmo, retirando à sua teologia qualquer apoio racional.

Por seu lado, Frei Guilherme diz que "o remontar cadeias por vezes longuíssimas de causas e efeitos me parece tão insensato quanto o querer construir uma torre que chegue até o céu"(R 46). E ainda: "Deus deve ser bom, se gerou a natureza"(R 80), frase em que o condicional se revela todo o seu ceticismo e probabilismo, que são, no fundo, um ateísmo que ainda não tem coragem de se declarar.

Também a existência da alma racional no homem só poderia ser aceita pela fé, pois a razão não conseguiria prová-la. Por onde, o ceticismo de Ockham raia pelo materialismo.

A ordem do mundo, como toda ordem, consiste em uma relação entre seus elementos componentes. Ora, negando a existência real das relações, Ockham não poderia aceitar a existência de ordem no mundo e muito menos que esta ordem tivesse fundamento na própria natureza de Deus que fez o universo à sua imagem e semelhança. Para Ockham, a suposta ordem posta por Deus no mundo - se existe- é completamente arbitrária. Deus poderia ter feito o universo em qualquer outra disposição. Noutras palavras, não haveria fundamento racional objetivo para a ordem do universo

Em conseqüência, a ordem moral também não era considerada objetiva. Uma ação seria pecaminosa apenas porque Deus a proibira, nada havendo nela de objetivamente mau. Se Deus tivesse ordenado o pecado, ele seria bom. A ordem moral, portanto, poderia ser totalmente invertida pelo arbítrio divino. Mais ainda. Até mesmo sob a ordem moral atual, Deus poderia ordenar a alguém que a violasse, sendo então tal ato virtuoso. O livre querer de Deus seria tão absoluto que poderia inverter a ordem moral. Esse livre querer de Deus não se fundamentaria na essência divina e, por isso, não teria nenhuma objetividade.

Desse relativismo moral os ockhamistas logo deduziram a negação de toda ordem moral, tendo alguns chegado a dizer que a lei de Deus era a única causa do pecado. [Aí admitiam então haver causa...] Outros defenderam o mais radical antinomismo, muito semelhante ao da Cabala e ao das seitas gnósticas.

Frei Guilherme de Baskerville, assim como os nominalistas medievais e como os relativistas atuais, defende a idéia de que o mundo não tem regras objetivas, podendo, em tese, ser posto "up side down", o que tornaria forçoso seguir um anti-decálogo. Daí sua afirmação:

"Como filósofo duvido que o mundo tenha uma ordem; consola-me descobrir, senão uma ordem, pelo menos uma série de conexões em pequenas porções de negócios do mundo"(R 446).

A posição de Adso face ao mundo era muito menos cética que a de seu mestre. Diz ele :

"É difícil para mim explicar esse mistério de contradição, sinal que o ânimo humano é demasiado frágil e nunca segue diretamente pelas veredas da razão divina, que construiu o mundo como um perfeito silogismo, porém desse silogismo colhe apenas proposições isoladas e freqüentemente desconexas, de onde a nossa facilidade em cair vítima das ilusões do maligno" (R322).

Mas... Adso é a testemunha que nada entende...

E, quando extasiado com o pouco que vê, exclama: "Como é belo o mundo e como são horríveis os labirintos", Frei Guilherme corrige esse entusiasmo de noviço dizendo: "Como seria belo o mundo se houvesse regras para andar nos labirintos"(R209). Frase que insinua ser o mundo um mundo sem regras objetivas.

Angustiado, pergunta Adso: "Então há uma ordem no mundo? "E Frei Guilherme o desilude, afirmando: "Então há uma certa ordem nesta minha pobre cabeça"(R 242).

Quanto à ordem na pobre cabeça do homem, nem nessa dever-se-ia fiar. Por isso Frei Guilherme lamenta que ele tenha tanta confiança nos silogismos... "Ahimè! "Adso, como te fias nos silogismos !"(R 304).

O racionalista Frei Guilherme desconfia da razão e de seus silogismos! É natural que Adso fique perplexo com essa paradoxal atitude de um racionalista: "Fiquei confuso. Sempre acreditara que a lógica fosse uma arma universal e percebia agora como na realidade dependia do modo como era usada. Por outro lado, freqüentando meu mestre, dera-me conta, e cada vez mais me dei conta nos dias que se seguiram, que a lógica podia ser muito útil conquanto fosse possível entrar dentro dela e depois dela sair"(R 304).

Portanto, também a lógica era um labirinto, e de caráter ambíguo, cujo valor então era também relativo. Então nem a verdade existe, nem os instrumentos para alcançá-la - a razão e a lógica - são seguros. E nem a ordem do mundo é real e objetiva.

Poderia o homem confiar, pelo menos, na revelação divina? Não. Nem nessa, porque, quando Adso conta seu sonho inspirado na Coena Cypriani, Frei Guilherme o explica, ensinando : "Um sonho é uma escritura, e muitas escrituras não são mais do que sonhos".(R 494). Ora, Adso acabara de fazer alusão às Sagradas Escrituras...

Por todas essas razões, Frei Guilherme considerava que "Ninguém nos obriga a saber, Adso. É preciso, eis tudo, mesmo ao preço de compreender mal."(R 508).

Para Frei Guilherme -e para todos os que ele representa- o homem está num mundo labiríntico e sem ordem, onde precisa encontrar um caminho, sabendo embora que suas bússolas - a razão e a lógica - normalmente o enganam, e que o mapa que possui do mundo é um mapa falso, pois não existe ordem natural objetiva. É a tal frustração angustiante e desesperada que o racionalismo conduz o homem. Para continuar a crer no racionalismo é preciso então ter fé nele. Daí Karl Popper dizer que o racionalismo pode ser descrito "como uma irracional na razão". E que "a atitude racionalista fundamental se baseia numa decisão irracional, ou numa fé na razão" (Karl Popper, A sociedade aberta e seus inimigos Ed. Itatiaia-Edusp, Belo Horizonte, São Paulo, 1974, 2 vol, pp. 238 -239 do 2. vol).

Ao examinar a causa de seus erros no decorrer de sua investigação na Abadia, Frei Guilherme chega à conclusão de que errou por ter admitido alguma ordem: "Comportei-me como um obstinado, seguindo um simulacro de ordem, quando devia saber que não há uma ordem no universo" (R 553).

O universo relativista e caótico seria a imagem de um Deus arbitrário, ao qual tudo seria possível, até mesmo o absurdo e o pecado.

Em meio às labaredas que consomem a Abadia, no final do romance, desenrola-se o derradeiro diálogo entre Adso e seu mestre racionalista :

"Como pode existir um ser necessário [Deus] totalmente entretecido de possível? Que diferença há entre Deus e o caos primigênio? Afirmar a absoluta omnipotência de Deus e sua absoluta disponibilidade a respeito de suas próprias escolhas não equivale a demonstrar que Deus não existe ? "(R 553).

Tal pergunta de Adso encostava o frade nominalista contra a parede. Ela, no fundo, mostrava que a conseqüência lógica do nominalismo só podia ser o ateísmo e, portanto, o materialismo. Como, aliás, se deu no decorrer da História que caminhou do nominalismo até o marxismo e até o relativismo absoluto de nossos dias.

À pergunta de Adso, seu mestre responde ambiguamente, sem contestar, porém, de fato, sua conclusão :

"Como poderia um sábio continuar comunicando seu saber, se respondesse sim à tua pergunta ? "(R 553).

Adso procura desfazer a ambigüidade da resposta indagando se Frei Guilherme queria dizer que não haveria mais saber comunicável, ou que não se lhe consentiria ensinar o que sabia aos outros.

No momento em que o franciscano ia responder, caiu o telhado da Abadia em fogo, assustando homens e cabras. Aproveitando essa circunst6ancia, o discípulo de Ockham diz equivocamente :

"Há muita confusão aqui ". (R 554).

"Aqui" é a Abadia? "Aqui" é o mundo? Frei Guilherme não o esclarece. Mas Eco já havia esclarecido: a Abadia era um microcosmo. Ela representava a Igreja e o Mundo. Ela e o Mundo eram confusos labirintos...

c - O realismo moderado

A terceira posição da filosofia medieval face à questão dos universais é a do realismo moderado, defendida por São Tomás e adotada pela Igreja.

O universal nem é um mero nome, como afirmavam os nominalistas, nem tem existência num mundo imaterial de puras idéias, como diziam os platônicos e como queriam os gnósticos.

Para os defensores do realismo moderado - em particular para São Tomás - é preciso distinguir, no espírito humano dois universais, conforme o aspecto sob o qual se considera o universal:

1. o universal direto, ou seja, um tipo de ser atribuído de modo unívoco a muitos seres individuais. Este universal direto é obtido pela abstração das notas individuais de cada ser concreto. O universal então acrescenta, à idéia do tipo de ser que ele expressa, um estado de abstração e de não individuação, de universalidade. É o universale post rem, existente em nossa mente por abstração.

2. O universal reflexo que tem esse nome porque só é percebido por nossa inteligência após a comparação entre o universal direto, que havíamos concebido, com as coisas em que o aplicamos e nas quais ele se realiza de modo mais ou menos perfeito. A esse universal reflexo se dá também o nome de universal formal.

O universal direto se acha nas coisas quanto ao que ele expressa, não quanto ao modo com que o expressa.

Em cada ser concreto, há o indivíduo único, identificado por suas notas particulares individualizantes, numa essência que permite que se manifestem nele todas as atividades existentes em todos os seres de sua espécie. É esta essência que é objeto de nosso espírito sob a forma de uma mesma idéia, aplicável a todos os indivíduos da mesma espécie, e que exprime o que eles são, independentemente de suas notas individualizantes.

Desse modo, podemos considerar uma essência de três modos diversos:

a) em si mesma, com suas notas constitutivas, tal como ela existe na mente divina, como idéia exemplar, eterna em Deu. É o universale ante rem, isto é, o universal que Deus concebeu antes de criar uma coisa. É a este universale ante rem que Platão deu existência no mundo das idéias, como seres divinos, fora da Sabedoria de Deus.

b) a essência enquanto existente em um indivíduo qualquer em estado concreto é o universale in re.

c) a essência enquanto concebida em nosso espírito, abstrata e universal. É o universale post rem.

O universal direto (universale post rem) tem existência real em nossas mentes, enquanto conceito abstrato, e existe nas coisas concretas, enquanto forma substancial (universale in re). Por essa razão, nos é possível conhecer o que as coisas são. Tendo o homem a idéia universal rosa em sua mente, ao ver uma rosa real, ele pode conhecer que o conceito de rosa, existente em sua mente, existe também, formalmente na rosa concreta, individual.

O universal reflexo não se encontra realizado nem sequer nas coisas enquanto o que ele expressa, pois ele é um simples ser de razão, que tem, entretanto, fundamento nos seres individuais reais, isto é, a sua semelhança, que permite a nosso espírito agrupar seres individuais em uma mesma espécie.

Esta, em termos breves, a teoria do realismo moderado, que evita quer o materialismo, a que conduz o nominalismo, quer a Gnose, termo final do erro do realismo.

*****

Como se vê, em O Nome da Rosa, pela boca de Frei Guilherme de Baskerville, são expostas as teses do nominalismo. Do realismo moderado nem se faz menção. Deste modo, o leitor desavisado é levado a pensar que a posição do realismo gnóstico se confunde com a doutrina católica e medieval.

O ceticismo, o empirismo, o racionalismo ockhamista incendiaram a Igreja e, através dela o mundo, impelindo a História pela "via moderna". O racionalismo cartesiano, o subjetivismo liberal, o materialismo marxista, o existencialismo, a Teologia da Libertação, foram algumas das principais conseqüências filosóficas desenvolvidas a partir dos erros de Ockham, como se poderia demonstrar, se outros fossem os limites e objetivos deste trabalho.

Ao relembrarmos que, além das teses nominalistas mais típicas, Frei Guilherme se apresenta como defensor da dialética e da luta de classes, torna-se bem claro que, se esse franciscano medieval existisse e vivesse hoje, ele talvez se chamasse Boff. Estaria lutando pelo socialismo, ainda que este desmoronasse em Berlim, Bucarest e Moscou, do mesmo modo que desmoronou a Abadia de Eco. Se essa abadia era um microcosmo e seus eventos uma imagem reduzida da História, não representariam seus personagens medievais figuras de outros tempos? De nossos tempos ?

 

Do racionalismo ao misticismo.
Do Panteísmo à Gnose.
Da Utopia ao Milênio.

A negação da verdade objetiva, assim como a recusa de que é possível ter certezas levaram o nominalismo a não aceitar a existência de uma ordem objetiva, quer no campo da metafísica, quer no campo da moral. Sendo assim, o homem já não sabe o que é certo e o que é errado, o que é bem e o que é mal, o que é belo e o que é feio. Serão as coisas realmente como nós as vemos e julgamos? Estaria errado o monge Adelmo de Otranto em traçar nas marginália de seu saltério um mundo "up side down"? Seria errado desenhar monstros? Que é um monstro? Que é ser normal ? Estaria certo o mundo como ele é, ou estaria certo o mundo ao avesso, tal como é descrito na Coena Cypriani? A realidade é um delírio ou é no sonho delirante de Adso que está o real ?

Comentando esse sonho, Frei Guilherme faz a seguinte consideração :

"Qual é o mundo errado, e que quer dizer andar de cabeça para baixo? Teu sonho não sabia mais onde era o alto e onde o baixo, onde a morte, e onde a vida. Teu sonho duvidou dos ensinamentos que recebeste"(R 403).

Assim, o racionalismo resvala para o ceticismo, e, deste para a incerteza absoluta. Nessa situação tudo passa a ser válido, até mesmo a inversão da realidade tal qual a figurava nas telas o adamita e alquimista gnóstico Hyeronimus Bosch e a efetivam, hoje, o relativismo doutrinário e a Arte Moderna. O racionalismo leva dialeticamente ao irracionalismo. Vimos que Karl Popper considera que o irracionalismo tem, no seu bojo, o irracionalismo, pois que só se pode ser racionalista tendo uma fé irracional na razão.

Paradoxo dialético análogo ocorre com o misticismo anti-racionalista de Jorge de Burgos. Por ódio ao riso e ao prazer, ele tanto se opõe ao racionalismo que acaba por negar valor à razão. Porém, agindo desse modo, torna sua defesa do mundo normal - que seria correta se fosse completa e não simplificadora - inteiramente ineficiente, pois um mundo não racional poderia ser concebido às avessas; portanto, é falha sua seguinte argumentação :

"Assim como existem más conversas, existem más imagens. E são as que mentem acerca da forma da criação e mostram o mundo ao contrário daquele que deve ser, sempre foi e sempre será nos séculos dos séculos, até a consumação dos tempos (...) O que querem todas essas nugae? Um mundo invertido e oposto ao estabelecido por Deus (...) Pouco a pouco, o homem que representa monstros e portentos da natureza para revelar as coisas de Deus por speculum et in aenigmate, toma gosto pela própria natureza das monstruosidades que cria e se deleita com elas e por elas, não enxergando senão através delas"(R 100-101).

A representação do mal e do feio é, de si, lícita, desde que fique clara a condenação do mal e do feio. Jorge de Burgos simplifica o problema e cai em erro. Como poderia ter razão quem nega a razão. Como se pode defender a representação do mundo tal qual ele é, se se nega o valor da Razão, a pretexto de condenar o racionalismo? Negada a razão, qualquer representação do mundo fica válida.

O racionalismo e o misticismo anti-racional se encontram, por fim, no mesmo abismo: na negação de toda ordem objetiva. Ora, essa negação, acompanhada do desejo comprazido da inversão da realidade objetiva, revela uma revolta metafísica típica da Gnose, a qual detesta o mundo e seu Criador, como declara, por exemplo, entre outros, o pintor expressionista Max Beckmann:

"Minha religião é altivez diante de Deus, rebeldia contra Deus. Rebeldia porque nos criou, porque não podemos nos amar. Em meus quadros repreendo a Deus tudo o que ele fez mal"(Apud Joseph, Cardeal Ratzinger, Teoria de los principios teológicos, Herder, Barcelona, 1985,p. 446).

A mesma revolta gnóstica e satânica contra o Criador, contra a razão e contra a criação pode ser encontrada nos manifestos futuristas de Marinetti e do Dadaísmo, na pintura de Dali, que preconizam a busca de uma outra realidade, o desprezo do mundo criado por Deus, a destruição da lógica, e a busca do feio.

Ninguém exprimiu essa revolta contra o ser melhor do que Emile Cioran, que desejava ser o Judas do Ser: "O próprio ser não é senão uma pretensão do Nada" (E.Cioran, Précis de Décomposition,Gallimard, Paris, 1949, p. 73).

"E eu não direi mais: "eu sou", sem enrubescer, a imprudência do sopro, o escândalo da respiração estão ligados ao abuso de um verbo auxiliar...(E. Cioran, op. cit. p.113).

"Chegado ao mais íntimo de seu outono, ele [o homem] oscila entre a aparência e o nada, entre a forma enganadora do ser e sua ausência: vibração de duas irrealidades..." (Idem,p.334)

"A injustiça governa o universo. Tudo o que aí se constrói, tudo o que aí se desfaz leva a marca de uma fragilidade imunda, como se a matéria fosse o fruto de um escândalo no seio do nada". (Idem, p. 60).

Por odiar o ser, Cioran - e com ele todos os gnósticos- odeia a verdade e a razão: "A definição é a mentira do espírito abstrato"(Idem,p.30)"... Verdade(...) nenhum vocábulo é mais oco... essa superstição (...) resulta do atropelamento da esperança sobre a lógica"(Idem, p.233).

"... repelir - por um divórcio metafísico- a substância de que sois moldados, que vos cerca e que vos arrasta (...) Quando se traiu o ser, só se leva consigo um mal estar indefinível (...) Vós tendes o direito de solapar o próprio ser; vós podeis licitamente demolir as bases de tudo o que é (...) (Idem, p. 147-148).

"UM JUDAS COM A ALMA DE BUDA, que modelo para uma humanidade futura e agonizante" (Idem, p. 85. As maiúsculas são nossas).

Esse homem, que odeia de tal modo o ser e a razão, vê bem como a Gnose, anti-metafísica e irracional, se harmoniza com a mentalidade racionalista sonhadora de utopias :

"Notemos de passagem que por seus lados positivos a alquimia e a utopia se encontram, perseguindo um sonho de transmutação aparentado, senão idêntico. Uma combate a irredutibilidade na natureza, outra, a irredutibilidade na História. e é de um mesmo vício do espírito ou de uma mesma esperança que procedem o elixir da vida e a cidade ideal"(E. Cioran, Histoire et Utopie, Gallimard, Paris, 1960, apud A. Cioranescu, L'Avenir du passé, Gallimard, Paris, 1972, p. 99).

Portanto, o utopismo racionalista e a Alquimia mágica e irracional são frutos da mesma raiz e caminham para o mesmo abismo. Dialeticamente, Gnose irracional e Panteísmo racionalista se opõem e se juntam. Odeiam-se e se admiram. Como Frei Guilherme e o cego Jorge de Burgos (Cfr. R. 531).

Qual é essa raiz comum da qual brotam os sonhos racionalistas de construir a Utopia e os delírios irracionais da magia alquímica para vencer a morte e todos os males que afligem o homem? Essa raiz é a inconformidade com as limitações do ser humano, e particularmente com as penas que o punem. O panteísta racionalista e o gnóstico irracionalista desejam desesperadamente redimir o homem por seu próprio esforço, usando de meios naturais. Esse desejo impotente e desesperado os faz odiar a a realidade tal qual ela é. Os faz odiar também o Criador e a criação feita à sua imagem e semelhança. É no ódio a Deus criador e ordenador que a Gnose alógica e o panteísmo racionalista comungam e dialeticamente se identificam. O panteísmo racionalista quer construir a Utopia. A Gnose quer a realização mágica do Milênio

Em seu romance, Eco faz o próprrio Adso constatar que o racionalismo de Frei Guilherme acaba por chegar a um impasse do qual o nominalista procura escapar por uma via mística. "Vós sois mais místico que Ubertino", diz Adso a seu mestre. (R242). Adso diz o que Karl Popper assevera: "A atitude racionalista fundamental se baseia numa fé irracional, ou numa fé na razão"(K.Popper, op cit. vol 2, p.239).

Frei Guilherme não se escandaliza com o universo "up side down" de Adelmo de Otranto, ou com o quiliasma sem lei dos Dolcinianos. Por seu lado, o místico Jorge de Burgos condena de tal modo as representações que levam ao riso - porque o riso é o efeito da razão ao possuir uma verdade de modo repentino, claro e surpreendente- que ele acaba por estabelecer para si uma cosmovisão irracional da criação.

Esse encontro dos pólos dialeticamente opostos se realiza de modo grandiloqüente em nosso século XX, era do computador e das superstições, das astronaves e da magia. Século em que a Ciência quis construir a Cidade do Homem, mas terminou por montar uma torre de Babel cuja desordem impele o homem racionalista a buscar refúgio em todas as formas de magia e de preternatural. Século de encontro da Utopia com o Milênio. Século que até há pouco proclamava: "Creio em Marx", e que agora não se peja de afirmar: "Creio em duendes".

Que vivemos, hoje, a era da técnica e da ciência, ninguém o duvida. Que vivemos, hoje, numa era gnóstica, poucos o sabem, porque poucos conhecem teoricamente o que é a Gnose, embora muitos creiam em seus delírios. É o que afirmam os especialistas neste assunto.

Simone de Pétrement, por exemplo, examinando a literatura a partir do Romantismo, chegou à seguinte conclusão: "A julgar por nossa literatura, entramos em uma idade gnóstica".(S. de Pétrement, Le Dualisme chez Platon, les Gnostiques et Manichéens, Puf, Paris, 1974, p. 347).

E Eric Voegelin considera que os grandes movimentos ideológicos do século XX, inclusive o marxismo, são formas de Gnose:

"Dizendo movimentos gnósticos, queremos nos referir a movimentos como o progressismo, o positivismo, o marxismo, a psicoanálise, o comunismo, o fascismo e o nacional- socialismo" (Eric Voegelin, Il Mito del Mondo Nuovo, Rusconi, Milano, 1976,p. 16).

Certamente, esta citação surpreende muitas pessoas, vendo colocar no mesmo saco nazismo, fascismo e comunismo, com a Psicoanálise freudiana por cima. Entretanto, é só a identidade dialética que explica as seguintes afirmações que Goebels, o famigerado Ministro da propaganda do regime racista de Hitler, publicou no Angrif,, em carta-aberta a um líder comunista :

"Você e eu lutamos um contra o outro, mas não somos inimigos verdadeiros". E, no seu diário pessoal, Goebels escreveu em 31-I-1926: "Acho terrível que nós [os nazistas] e os comunistas estejamos sempre nos enfrentando (...) Quando poderemos atuar juntos com os dirigentes comunistas? (Cfr. W. l. Shirer, Ascenção e Queda do Terceiro Reich, Civilização Brasileira, Rio, 1964, 4 vol, p. 196 do I vol.).

E o Governador nazista de Dantzig, Hermann Rauschning, escreveu, em 1939, antes do pacto Molotov-Ribbentrop: "Uma aliança russo-alemã significa simplesmente a confluência de dois rios que correm para o mesmo mar, o mar da revolução mundial. O nacional-socialismo vai se submeter à Gleichschaltung [sintonia] com a revolução bolchevista mundial, ou sujeitará essa revolução à Gleichschaltung com ele mesmo: dos dois modos, o resultado será idêntico. Não será uma coalizão comum entre duas potências para fins normais, práticos. A Alemanha e a Rússia, se se reunirem, transformarão o mundo radicalmente. Essa aliança será o próximo grande golpe de Hitler" (H. Rauschning, Germany's Revolution of Destruction, Londres, 1939,p.275, apud Nikolai Tolstoi, A Guerra Secreta de Stalin, Melhoramentos, São Paulo, sem data, p. 106).

Assim como Hitler e Stalin se admiravam, e até se aliaram, assim Frei Guilherme e Jorge de Burgos buscavam a admiração um do outro.

Se Gnose e Panteísmo são dois rios que correm para o mesmo mar, teve razão Eco ao fazer o nominalista racionalista e o místico gnóstico agirem um em função do outro, sonhando com a aprovação do outro. Um compreendendo o outro, na espera de seu encontro final, no incêndio da Abadia, que o místico ateou e o racionalista assistiu consolado.

Frei Guilherme de Baskerville e Jorge de Burgos são, no fundo, gêmeos-dialéticos. Contrários e iguais. Um planejando a Utopia. O outro sonhando com o Milênio. Ambos delirando.

 

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MONTFORT Associação Cultural
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Online, 21/03/2019 às 15:15:32h