Religião-Filosofia-História



A luta entre "os cães e os pastores"

Conforme a visão marxista, ou melhor, conforme a cegueira marxista, a exploração do povo leva, muitas vezes, os exploradores a lutarem entre si. Pastores e cães -clérigos e nobres- se engalfinham porque querem auferir para si maiores proveitos da lã, da carne e do leite das ovelhas.

A luta entre Igreja e o Estado, entre o Papado e o Império, entre guelfos e gibelinos aparece no fundo de quadro nos acontecimentos da Abadia, isto é, na História do mundo.

Com efeito, a Abadia seria o lugar de encontro dos embaixadores do Imperador Luís da Baviera com os do Papa João XXII. Frei Guilherme de Baskerville fora enviado antecipadamente ao local, a fim de preparar e organizar esse encontro dos embaixadores dois homens mais poderosos da Idade Média : o Papa e o Imperador.

Nessa época, a luta entre esses dois poderes foi fruto de duas concepções opostas da sociedade. De um lado, a posição católica, consubstanciada na bula Unam Sanctam de Bonifácio VIII. De outro, a concepção imperial, laicista e estatista, representada pelas teorias de Marsílio de Pádua. Guelfos e gibelinos eram os partidos que, de certa forma, estendiam essa luta às vicissitudes políticas das cidades italianas do medioevo.

De acordo com a bula Unam Sanctam, Cristo deu a Pedro duas espadas: a espiritual e a temporal. A primeira para ser usada por Pedro, isto é, pela Igreja. A segunda para ser usada pelo Estado, para bem da Igreja. O poder do Estado é ordenado e subordinado ao poder eclesiástico, pois que as atividades naturais do homem são subordinadas a seu fim último, que é Deus e a salvação eterna. Para Bonifácio VIII, imaginar dois poderes - o eclesiástico e o civil- em paralelo seria pretender que tudo estaria fundado em dois princípios, como defendiam os maniqueus e os cátaros.

Assim como no homem a alma deve estar unida ao corpo e é superior a ele e o dirige, assim também, na sociedade, a Igreja e o Estado devem estar unidos, mas de tal forma que a Igreja esteja em situação de superioridade.

Da mesma forma que a supremacia da alma sobre o corpo não significa que ela vá exercer funções próprias do corpo, assim também, na sociedade, embora a Igreja tenha a suprema direção, isto não faz com que ela tenha o direito de exercer as funções temporais próprias do Estado. Embora a alma vivifique o corpo, não cabe a ela digerir nem respirar. Do mesmo modo, a Igreja vivifica a sociedade e o Estado, mas não lhe cabe organizar a vida material nem a administração das coisas terrenas e temporais.

Em consonância desses princípios, Bonifácio VIII concluía a bula Unam Sanctam definindo: "Assim toda criatura humana deve ser submissa ao Romano Pontífice, e Nós declaramos, dizemos, definimos que esta submissão é absolutamente necessária para a salvação". (Denziger-Schönmetzer, 875).

Portanto, esta definição solene subordina todos os soberanos ao Papa em matéria religiosa.

Teses extremamente opostas foram defendidas por Marsílio de Pádua e Jean de Jandun. Ambos apoiaram a luta de Luís da Baviera e a dos Espirituais franciscanos contra o Papa João XXII. As principais teses de Marsílio de Pádua, muito atuais, são :

1- Supremacia do Estado sobre a Igreja.

Ao Estado caberia até mesmo a jurisdição espiritual, podendo condenar hereges e infiéis.

2 - O Papa deveria pagar tributo ao Imperador.

3 - A Igreja deveria ser pobre e sem propriedades (Tese cara aos gibelinos e Fraticelli) e todos os seus bens deviam reverter ao Estado.

4 - Todo poder - civil ou eclesiástico vem do povo.

5 - Cristo não deu poder a Pedro mais do que aos outros Apóstolos, (Tese caríssima e herética que enamorou o Vaticano II). Ele não fez de Pedro o seu Vigário, nem o chefe da Igreja, idéia que Lutero e toda Reforma vão repetir com grande ódio.

6 - Na Igreja não deve haver hierarquia. Papa, Bispos, Padres têm igual poder, porque Cristo não deu maior poder a ninguém. Todo poder na Igreja é concessão do Imperador, que pode depor e julgar qualquer autoridade eclesiástica, inclusive o Papa. (Cfr. Denziguer- S, 495-500).

Como se vê, não poderia haver maior oposição entre duas doutrinas. A primeira situaria o fim da sociedade em Deus e no céu; a outra punha como fim de tudo o homem e seu reino na terra. Uma queria uma Igreja monárquica, hierárquica e de poder divino; outra queria uma igreja democrática, igualitária, pobre e popular. Como queria o ex-Frei Boff e ainda Frei Betto quer. Uma preconizava a união entre Igreja e Estado; outra defendia a separação entre o poder eclesiástico e o civil e até a subordinação da Igreja ao Estado.

No livro O Nome da Rosa, Frei Guilherme de Baskerville é o porta-voz diplomático das teses de Marsílio de Pádua e de Jean de Jandun - assim como das idéias de Eco- na conferência dos embaixadores imperiais e papais.

Como Marsílio de Pádua, ele defende uma nítida separação entre Igreja e Estado:

"...a legislação sobre as coisas deste mundo e, portanto, sobre as coisas das cidades e dos reinos, não tem nada a ver com a custódia e a administração da palavra divina, privilégio inalienável da hierarquia eclesiástica"(R.403). "O domínio temporal e a jurisdição secular não tem nada a ver com a Igreja e com a lei de Jesus Cristo, e foram ordenados por Deus fora de qualquer aprovação eclesiástica e antes mesmo que surgisse nossa santa religião."(R.404).

Por isso, o Papa não deveria ter nenhum poder coercitivo. "Ele (Cristo) não quis que os apóstolos tivessem comando e domínio, e por isso parecia coisa sábia que os sucessores dos apóstolos devessem ser aliviados de qualquer poder mundano e coactivo"(R.404).

Sem poder negar o texto de Evangelho, no qual Cristo estabeleceu Pedro como pedra fundamental da Igreja, e, por isso, lhe dá o poder das chaves, Frei Guilherme explica que Cristo "brincava com as palavras" ao dizer "Tu es Petrus"(R.161).

Eco faz seu investigador nominalista explicitamente defender a tese gibelina, quando diz que "a Igreja de Avignon injuriava a humanidade inteira asseverando que lhe cabia aprovar ou suspender aquele que fora eleito Imperador dos romanos. O Papa não tem sobre o Império direitos maiores que sobre as outras coisas "(R. 405-406).

Pelo contrário, o Imperador é que deveria ter poder não só sobre o Papa, como sobre todos os clérigos: "Se o Pontífice romano, os bispos e os padres não fossem submetidos ao poder mundano e coactivo do príncipe, a autoridade do príncipe seria anulada, e anular-se-ia com isso uma ordem que, como se tinha demonstrado antes, fora disposta por Deus"(R.404).

Até mesmo o poder de julgar em matéria religiosa acabava sendo negado pelo Frei Guilherme de Eco com palavras e razões que lembram o Vaticano II na Declaração Dignitatis Humanae. "A Igreja pode e deve advertir o herege que ele está saindo da comunidade dos fiéis, mas não pode julgá-lo na terra e obrigá-lo contra a sua vontade"(R.405).

Se a Igreja não pode julgar o homem por questões religiosas, muito menos o pode o Estado, pois o Príncipe não é guardião da verdade divina. No máximo, poderá condenar o herege, caso "prejudique a conviv6encia de todos"(R.404-405).

Frei Guilherme defende a tese segundo a qual o poder vem do povo e atribui essa idéia liberal ao próprio Cristo.

"Era de se imaginar que ao próprio Senhor não fosse estranha a idéia de que nas coisas terrenas o povo seria legislador e causa primeira e efetiva da lei"(R.403). E, "por povo... seria bom entender a universalidade dos cidadãos ou (...) a melhor parte dos cidadãos"(R.402). "O modo em que o povo poderia exprimir a sua vontade podia coincidir com uma assembléia geral eletiva. Disse parecer-lhe sensato que uma tal assembléia pudesse interpretar, medir ou suspender a lei"(R.402). O que retirava da lei todo fundamento natural, sujeitando-a ao relativismo da opinião da maioria. Era já o Direito positivista triunfando o Direito natural...

Não há dúvida que essas teses do medieval Frei Guilherme soam muito atuais.

Na luta entre o Estado e a Igreja intervinham também os hereges gnósticos. Eles rejeitavam a matéria e, portanto repudiavam a Igreja estruturada, hierárquica e rica. Condenando de modo absoluto o mundo criado pelo demiurgo, eles não podiam aceitar uma Igreja, como a concebida e definida por Bonifácio VIII, que pretendia submeter o mundo, o Estado e a sociedade a fim de guiá-los para Deus. Os místicos gnósticos defendiam em conseqüência a idéia de que a Igreja verdadeira deveria ser puramente espiritual.

Estes pontos os ligam às teses gibelinas e laicas de marsílio de Pádua. É por isso que os Espirituais franciscanos, os Fraticelli e os Dolcinianos viram em Frederico II, o meio escolhido por Deus para destruir a Igreja-Babilônia, e, depois, se aliaram a Luís da Baviera para tentar depor João XXII.

No campo político-social, porém, os místicos gnósticos divergiam dos gibelinos racionalistas. Eles não queriam um império super organizado. Não queriam o reino do Imperador neste mundo. Sonhavam com um Reino de Deus quiliástico e espiritualizado, sem lei, sem propriedade e sem qualquer desigualdade, regido pelo Amor.

Tais divergências não impediam que os Espirituais anti-racionalistas, como Ubertino de Casale, se unissem a seu confrade Guilherme de Ockham e ao legista Marsílio de Pádua em seu apoio ao Imperador. Era o ódio ao papado e à sua concepção da Cristandade que os unia.

A luta entre Igreja e Estado é descrita por Eco de modo caricato na conferência entre os embaixadores do Papa e do Imperador, que se realiza na Abadia. Os embaixadores dos dois partidos não raciocinam logicamente. Usam sofismas ridículos. Ofendem-se de modo grotesco e acabam por se agarrar pela barbas e cabelos como mulheres histéricas. É numa cena de comédia-pastelão, sem nenhuma elevação, que a Igreja e Estado se engalfinham para disputar a supremacia.

Nessa luta o Imperador conta com a aliança dos franciscanos racionalistas e também com a dos místicos cujas teses, se vitoriosas, levariam à eliminação do poder papal. Por sua vez, o papado utiliza os poderes inquisitoriais para eliminar - fraudulentamente no romance de Eco- os defensores das teses laicistas que os Espirituais e Dolcinianos introduziam na Igreja, para deste modo anular a manobra dos imperiais.

Portanto, o Império tentava vencer a Igreja, introduzindo nela as teses gibelinas. Um Papa fraticello daria a vitória ao Estado moderno, laico e totalitário. E, quando Luís II da Baviera não conseguiu isso, criou um anti-papa na pessoa de Pedro de Corbara. (Nicolau V).

O labirinto no qual pastores e cães se engalfinham se abre então para um novo emaranhado de caminhos, qual seja o da luta pelo controle da política eclesiástica. Vislumbra-se então um novo labirinto: o da luta pelo poder dentro da Abadia, isto é, dentro da Igreja.

Eco introduz o leitor nesse novo labirinto ao fazer o monge Aymaro de Alexandria relacionar os crimes ocorridos na Abadia ao fato de que "alguém não deseja que os monges decidam aonde ir, o que fazer e o que ler" (R.152). E esse alguém controla a Abadia e seu abade, isto é, a Igreja e o Papa.(Cfr. R. 150-151).

Anterior
Anterior


    Para citar este texto:
""
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/religiao/labirintos7/
Online, 21/03/2019 às 15:18:37h