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IN MEMORIAM
Francis Mauro Rocha
               No último Dia das Mães, desse mesmo ano de 2020, comecei a perder aquele que, durante muito tempo, foi a grande autoridade masculina em minha casa, por assim dizer, o senhor de nossa casa. Digo “por assim dizer” pois, quem um dia conheceu a minha família, sabe que quem sempre foi o “senhor” da nossa casa foi a minha mãe, a mulher forte, firme como uma rocha. Sim, meu pai, com todas as suas fraquezas e imperfeições era ele o grande modelo masculino que eu tinha à vista. Sim, ainda que acompanhado de tantas fraquezas e imperfeições, era ele o meu exemplo masculino, talvez, um pobre exemplo, é verdade, mas, pela vontade de Deus, o meu exemplo.

 Ele se recuperava num hospital de campanha de Belém do Pará, infectado por esse vírus infernal - talvez, não um vírus infernal por causa da sua letalidade, mas infernal por causa de tanta desordem provocada, ainda que, de certo, sua letalidade não justifique tamanho caos. No mesmo domingo do Dia das Mães, pela manhã, recebemos a notícia que ele estava bem, se recuperando... mas, pela parte da tarde, ele parece ter tido uma recaída brutal! Um belo presente de Dia das Mães para aquela anciã que sempre foi tão forte, tão firme, mais uma pedra sobre suas já tão calejadas costas, mais uma cruz para o seu calvário.

No dia seguinte, aquela paraense de traços sofridos recebeu mais algumas vastas marcas de dor em seu semblante, através do papel mais do que ingrato de ter que reconhecer o corpo de seu companheiro de tantos anos, que se foi, que partiu, que não mais voltaria com ela. Aquela senhora de 70 anos, que em minha terra poderíamos chamar, carinhosamente, de “velha rezadeira”, agora tem um motivo a mais, motivo bem grave, para calejar ainda mais aqueles joelhos tão feridos, rezando pela alma daquele que um dia foi com ela “uma só carne”. Motivo bem grave pois a miserável alma daquele homem, desgraçadamente, nunca havia praticado a religião antes... por isso mesmo, só por um grande milagre, fruto da grande Misericórdia de Deus e das orações caridosas de muitos amigos, talvez, só talvez, tenha tido oportunidade de um último suspiro de conversão, uma contrição perfeita em seu derradeiro momento, minha última esperança!

Meu pai provavelmente se contaminou trabalhando, nos seus quase 70 anos. Apesar da quarentena imposta no Estado do Pará, ele tinha que sair para trabalhar, ninguém poderia fazê-lo em seu lugar. Por isso, como muitos em nosso país, não poderia se dar ao luxo de ficar trancafiado, “protegido” contra esse vírus infernal. Sua obrigação de sustento o impelia a algo que talvez para alguns fosse um ato de certo heroísmo, para outros imprudência e irresponsabilidade, para ele não, com certeza não, como não é para muitos brasileiros, pois não passava de necessidade, apenas necessidade.

O que mais me entristece, profundamente, nas condições em que faleceu meu pobre pai, não foi tanto o falecimento de certa forma trágica - se juntando a centenas que se vão nessa carnificina mundial - mas, sobretudo, mais do que tudo, foi ter perdido meu pai sem que houvesse a possibilidade de receber os sacramentos, longe de Deus, com alma em frangalhos, muito mais mortalmente ferida que o corpo.

Sei que muitos compreenderão, sobretudo os mais simples e mesmo os mais abastados que têm os dois pés bem fincados na realidade, compreenderão os motivos que levavam aquele velho senhor a sair de casa e se arriscar, a necessidade esclarece muitos bons espíritos e corações. Mas, diante dessa tragédia, a pergunta que mais me inquieta é: e a necessidade da alma? Que é a maior de todas as fomes, a mais letal de todas as necessidades?

Se o meu pai tivesse tido a possibilidade de continuar trancafiado em casa, “protegido” contra esse vírus do cão, mas saísse unicamente, “irresponsavelmente”, só para a Missa, só para cumprir o seu grande e mais grave dever para com Deus, será que muitos iriam compreender tamanha imprudência? Será que a necessidade da alma, mais do que a necessidade do corpo, teria o poder, nesse nosso mundo pós-moderno, de esclarecer tantos espíritos e corações?

Nesse mundo em que muitos idosos morrem pelo chamado suicídio assistido (assistido só se for pelo demônio), em contraposição, será que seria permitido a um idoso o acesso à vida da alma pelo acesso aos sacramentos, assistência mais do que necessária para a salvação, ainda que sob certo risco, mesmo remoto, de uma certa desassistência da saúde do corpo? Tenho muitos bons motivos para duvidar. Idosos, porque não podem mais “gozar a vida” perdem a alma, e outros querem mais do que tudo fazer viver a alma mesmo sob certo risco do corpo!

Confesso que não sei a resposta definitiva, não sei o que dizem os manuais de Teologia Moral. Não tenho certeza sobre o que julgam os que possuem a graça de estado. Entretanto, de uma coisa tenho certeza: como eu gostaria que o meio pelo qual o meu pai tivesse se contaminado (ainda que com todas as prevenções necessárias) tivesse sido uma missa, participando dos excelsos sacramentos, arriscando a vida do corpo pela saúde da sua alma... Ah, meu Deus, como eu queria, tu o sabes, seria o mais feliz dos filhos. Claro que, não pelo desejo da contaminação, não tenho vocação para masoquista, porém, pelo desejo do Pão da Vida. Todo o risco, se possível, unicamente pelo amor de Deus, pelo dever para com Deus, teria valido a pena, o único risco que realmente vale a pena! Os joelhos feridos daquela anciã, as pontas dos dedos calejadas de tantos amigos que insistentemente passam as contas do rosário, as orações persistentes de tantos amigos padres, tudo teria valido muito mais a pena. E aquela alma que, por escolha própria, pouco havia conhecido do amor de Deus, teria se sublimado na Paz do Senhor, requiescat in Pace!

Sei que a maior culpa do afastamento do meu pai dos santos sacramentos foi dele mesmo e de nenhum outro. Portanto, não tendo tido tamanha fortuna só me resta suplicar junto às almas caridosas que, por misericórdia, rezem pela pobre alma de um homem que tem muito pouca chance de ter se salvado senão graças às insistentes orações de almas tão piedosas!

 

In báculo Cruce et in virga Virgine,

Francis Mauro Rocha.

    Para citar este texto:
"IN MEMORIAM"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/religiao/inmemoriampai/
Online, 31/05/2020 às 16:41:03h