Religião-Filosofia-História



Quer no Ismaelismo, quer no Shiismo duodecimano, tem papel proeminente o Imam derradeiro (7º para o Ismaelismo Septimano; 12º para o Imamismo Duodecimano). Ele é chamado o Imam Mahdi - hadi, isto é, o Imam guiado que guia-, e seria o selo da Walayat maometana. Tal afirmação é entendida como sendo o 12º Imam o derradeiro, até o fim dos tempos. Como ele apareceu no tempo, nos séculos IX e X, seu período de imamato é prolongado por Deus, de modo misterioso, até o fim dos tempos. Gozaria ele, então, de uma vida prolongada e preternatural para poder exercer a sua missão. Ele estaria presente e oculto no mundo, exatamente como o 'Batin' está presente e oculto no 'Zahir', ou como a 'Hagiqat' está na 'Shariat'. Sua presença é uma ausência. Toda a vida do Imam escondido está envolta no mistério.

Para os shiitas duodecimanos, o Imam escondido é Mohammed ibn Hassan al Mahdi, e teria "nascido" de modo milagroso. Seus pais teriam sido Hassan al Askari e uma princesa bizantina, Narkés. Ela teria se convertido ao islamismo por causa de sonhos miraculosos que tivera, nos quais lhe teriam aparecido Cristo e os Apóstolos, a Virgem Maria, mãe de Jesus, Maomé, e Fátima, todos instando-a a se tornar islamita, e dizendo-lhe que ela estava destinada a se casar com Hassan al Askari, filho do Imam Ali al Naqi, para se tornar a mãe do 12º Imam. Após muitas peripécias extraordinárias, o casamento se realizou com o prenúncio feito por Ali al Naqi a Narkés:

"Que te soit annoncée la bonne nouvelle: un fils naitra de toi dont le règne couvrira l'Orient et l'Occident, et qui remplira la terre de paix et de justice comme elle est aujourd'hui rempli de violence et de tyrannie" (H. Corbin, En Islan, IV, p. 316). ["Que te seja anunciada a boa nova: um filho nascerá de ti cujo reino cobrirá o Oriente e o Ocidente, e que encherá a terra de paz e de justiça, assim como ela hoje está repleta de violência e de tirania."]

É incontestável, nessa predição, a similitude com a anunciação de Maria, tal como é narrada no Evangelho...

O nascimento do 12º Imam é um mito em que são patentes os elementos gnósticos. Por exemplo, o nascimento do Imam é apresentado como uma teofania, e não como uma encarnação, como bem mostra H. Corbin. Não se dá uma união hipostática. Também Narkés não fica grávida e nem o filho é gerado em seu útero.

Segundo palavras atribuídas ao Imam Hasan al Askari, os imames "... les héritiers de Envoyé de Dieu, nos mères ne nous portent pas dans leur ventre, mais dans leur coté; nous ne sortons pas de leur ventre, mais de leur femur, parce que nous sommes les lumières de Dieu Très Haut qu'il a écarté de nous toute souillure et toute impureté" (apud H. Corbin En Islam IV - 318). ["...os herdeiros do Enviado de Deus, nossas mães não nos levam no seu ventre, mas no seu flanco; nós não saímos do seu ventre, mas de seu fêmur, porque nós somos as luzes de Deus Altíssimo que nos eximiu de toda a mancha e de toda impureza."] O que não impediu que, apesar desse nascimento excepcional e sobrenatural, o menino nascesse circunciso, e com o cordão umbilical já cortado e cicatrizado (cf. H. Corbin, op. cit., IV, p. 319).

Logo após o nascimento, o Espírito Santo, sob a forma de um pássaro, teria levado o menino para longe, trazendo-o de volta para a mãe de 40 em 40 dias. A criança, que já nascera falando, crescia de modo extraordinário: aos 5 anos já parecia adulta. Quando Hassan al Askari morreu, aos 28 anos em 874, antes de falecer, ele designou seu filho como o Imam Mahdi. Imediatamente após a morte do pai, o menino desapareceu de modo misterioso.

Durante 70 anos ele se comunicou com os homens através de 4 representantes. Esse tempo, de 874 a 941, é chamado de Ocultação Menor. Em 941, ao morrer o seu último representante, começou a Ocultação Maior (Ghaybat Kobra), que durará até o fim dos tempos. Neste período da grande ocultação, o Imam Mahdi continuaria vivo, numa terra misteriosa. Assim como Elias e Henoch foram retirados vivos da História, para vir um dia combater o Anti-Cristo, assim como Cristo teria sido retirado da cruz antes de morrer (é o que diz o Corão), assim como a figura de Maitreya no budismo, assim também se teria dado com o Imam Mahdi.

"L'Imam est dans une situation analogue à ceux qui furent enlevés du monde visible sans franchir le seuil de la mort: Henoch, Élie, Christ lui-même, selon l'enseignement du Qoran. On se referait ci-dessus au bodhisattva refusant d'entrer dans le nirvana, avant que tous les êtres soient sauvés, l'attente escathologique que polarise le XII Imam correspond aussi, dans le boudhisme à l'attente de Maitreya, le Boudha futur; à l'attente du Saoshyant, dans le zoroastrisme: à l'attente du second avènement du Christ, dans le christianisme. Et il y a l'occultation des héros d'épopée: celle du Roi Arthur dans l'épopée celtique; celle de Kay Khosraw dans l'épopée iranienne" (H.C. En Islam, IV, 329). ["O Imam está numa situação análoga daqueles que foram retirados do mundo visível sem transpor a soleira da morte: Henoch, Elias, o próprio Cristo, conforme o ensinamento do Corão. Referíamos acima ao bodhisattva recusando entrar no nirvana, antes que todos os seres sejam salvos, a espera escatológica que polariza o XII Imam corresponde também, no budismo, à espera do Maitreya, o Buda futuro, à espera do Saoshyant, no zoroastrismo; à espera da Segunda vinda de Cristo, no cristianismo. E há a ocultação dos heróis de epopéia: a do Rei Arthur, na epopéia céltica; a de Kay Khrosraw, na epopéia iraniana".]

Para onde teria sido levado o Mahdi? Ele estaria numa terra celeste, perto da nossa, mas que não é a nossa, terra que não existe nos mapas, "o país do não-onde" (Na-Koja-abad) como a chama Shorawardi (cf. H.C. IV, 329 e 335). Essa terra celeste seria não um mundo material igual ao nosso, mas um mundo imaginal (mas não imaginário), paralelo ao nosso lugar, "où se corporalisent les esprits et où se spiritualisent les corps", selon l'excellence définition de Mohsen Fayz" (H.C. En Islam, IV, 329). ["onde os espíritos se corporalizam, e onde os corpos se espiritualizam'', conforme a excelente definição de Mohsen Fayz."]

É a terra lúcida do maniqueísmo, a Terra Hurqalya, mundo concreto, mas supra-sensível, a terra do Ocidente de que fala o Amidismo. Poderíamos acrescentar que ela inspirou o "vadutz" de Clemens Brentano, e que ele projetou na gnóstica Montanha dos Profetas das românticas "Visões" de Anna katharina Emmerick. Na feliz comparação forjada por Henri Corbin, esse mundo seria como que feito na oitava superior ao nosso mundo.

Da mesma forma que o Imam vive num lugar que é não-lugar, lugar ubíquo que não está em parte alguma - na Utopia - assim também ele vive fora da História, e fora da eternidade, num tempo que não é tempo, pois não está submetido às leis da cronologia. É um "entre-tempo", diz Corbin. Como que o evo, diríamos nós.

Antes de desaparecer para a sua Grande Ocultação, o Imam Mahdi teria enviado uma mensagem derradeira prevenindo que até a Parusia final, já ninguém mais o veria materialmente.

"Attention: celui qui pretendra m'avoir matériellement vu avant les événements de la fin, celui-là est un menteur et un imposteur." (apud H. Corbin, I.I - IV, 324). ["Atenção: aquele que pretender me ter visto materialmente antes dos acontecimentos finais, é um mentiroso e um impostor".]

Essa afirmação prevenia, pois, os shiitas, para toda tentativa de realizar o milênio já e aqui, na História. Entretanto, o Mahdi só negou que ele pudesse ser visto materialmente. Ficava pois aberta a possibilidade de vê-lo misticamente. E esta é a esperança mística que alimenta a fé dos shiitas: ver o Mahdi em sonhos ou em visões. Toda a mística shiita está, assim, centrada na figura do Mahdi. É o Imam Mahdi que é o guia pessoal de cada shiita, realizando neles uma revelação interior e o reino espiritual do Paráclito (cf. H.C. en Islam, IV, 455). O Imam escondido do shiismo desempenha o mesmo papel do "anjo pessoal" dos sistemas gnósticos antigos (cf. H.C. en Islam II, 260); ele seria o "anjo que fala em ti" de alguns cabalistas (cf. H.C. En Islam I, 454). Entre o Imam e o fiel shiita se dá como que um pacto de fidelidade feudal, semelhante ao que existia na cavalaria. O homem, na vida, é um peregrino (salik), um exilado que busca o caminho de retorno. O Imam é, para ele, o guia nessa peregrinação (H.C., IV, 454).

O Imam é o polo espiritual de toda a mística shiita, que em seu caminho espiritual deve visar o encontro de sua alma com ele. É este "encontro" com o Imam que caracteriza a mística shiita. O Imam seria, então, o coração do místico, visto que o coração é considerado como o centro do verdadeiro conhecimento supra-racional e supra-sensível (H.C., I, 232-233). Ao realizar-se o encontro místico com o Imam escondido, o fiel não recebe uma nova Lei, mas compreende - intuitivamente e não racionalmente - o sentido secreto de todas as revelações, fazendo com que assim ele renasça no reino do Paráclito (H.C., IV, 455). Porque este é um dos nomes que o shiismo dá ao 12º Imam: o Imam é o Paráclito que Cristo anunciou e que prometeu enviar, como se lê no Evangelho de S. João, Evangelho que sempre interessou aos shiitas, quer duodecimanos, quer ismaelitas (cf. H.C., IV, 437). Para os sunitas, o Paráclito é identificado com o próprio Maomé, o qual, por sua vez, seria, segundo os shiitas, uma só essência com os 12 imames, e especialmente com o Mahdi.

E Corbin não se esquece de dizer: "L'historien des religions remarquera ici que tel est exactement le rôle que les manichéens reconnaissaient au prophète Mâni comme étant lui aussi, le Paraclet." (H.C., 438). ["O historiador das religiões notará aqui que tal é exatamente o papel que os maniqueus atribuem ao profeta Mâni como sendo também ele, o Paráclito."]

A idéia de que o nascimento do reino se faz no interior de cada homem é bem própria dos sistemas gnósticos que repudiam todo o universo material. O shiismo, como sistema gnóstico que é, não pode admitir que a Parusia final do Imam traga um reino material. A Parusia do Imam trará um reino milenarista, mas espiritual, interior.

"La parousie n'est pas un événement extérieur qui s'imposera un beau jour du dehors; elle n'est que le terme final de la métamorphose des consciences." (H.C. En Islam, I, 125). ["A parusia não é um acontecimento exterior que se imporá num lindo dia vinda do exterior; ela é o termo final da metamorfose das consciências."]

Portanto, não se pode, de modo algum, afirmar que a escatologia shiita pretende o estabelecimento de um estado utópico na terra, isto é, de uma sociedade perfeita no mundo material. Tratar-se-ia antes de um reino de caráter milenarista espiritual.

"Il ne s'agit ni de légitimisme politique ni d'utopie sociale", diz Corbin (H.C. En Islam IV, 528). ["Não se trata nem do legitimismo político nem de utopia social."]

Embora se diga que no Reino do Mahdi haverá a mais completa igualdade, pois, então, ninguém mandará no outro (H.C. En Islam, IV, 528), não se deve entender isto de modo político-social, e sim ontológico. É o ser que será resgatado. São todos os seres que serão igualados. O reino do Imam será um reino milenarista mas num mundo imaterializado, trans-ontologizado. Nele se dará não apenas a salvação individual, mas também a redenção cósmica (IV, 436). Cessará, então, toda a violência e toda a injustiça deste mundo, como predisseram os Imames, mas ela cessará porque cessará este mundo do ser criado. Cessará a violência ou "blessure de l'être" ("ferida do ser") (IV, 458) e o ser será restaurado em toda a sua integridade.

"Dans ce dernier cas, ce qui domine c'est l'idée de l'apokatastasis, de la "restauration" ou "reintégration" de toutes choses en leur pureté et plénitude originelles." (H.C., En Islam, IV, 458). ["Neste último caso, o que domina é a idéia da apocatastase, da 'restauração' ou 'reintegração' de todas as coisas na sua pureza e plenitude originais."]

A Revelação final feita pelo Mahdi será mais um desvendamento do que uma Revelação propriamente dita. O Imam Mahdi demonstrará que o 'batin' do islamismo é o mesmo 'batin' de todas as demais revelações anteriores.

"L'Imamat mohammadien n'est ainsi l'ésotérique de toutes les religions antérieures, mais la manifestation de cette gnose ne sera complète, à découvert et sans voile, que lors de la Parousie du Mahdi, le douzième et dernier Imam, comme Sceau de la walâyat mohammadienne, laquelle est comme telle le Sceau de la Walayat universelle" (H.C., En Islam, IV, 255). ["O Imamato maometano não é, assim, o esotérico de todas as religiões anteriores, mas a manifestação desta gnose só será completa, descoberta e sem véu, quando da Parusia do Mahdi, o décimo segundo e último Imam, como Selo da Walayat maometana, que é como tal o Selo da Walayat Universal."]

Daí o "reino" milenarista shiita ser ecumênico. Corbin não deixa de sublinhar, então, a flagrante relação entre a escatologia shiita, o Joaquimismo e, mesmo, a visão escatológica dos místicos gnósticos protestantes, desde Boehme até os românticos e os filósofos do idealismo alemão. Quando se dará isto? Para o shiismo perguntar sobre esse quando não tem sentido, pois que ele introduz a idéia de tempo cronológico e de historicidade, que são estranhos à cosmovisão gnóstica do shiismo.

Cada uma das seis revelações corresponde a um dos dias da criação. O "dia" do Mahdi será o 7º dia. "Et peut être n'est-il point de meilleure image pour saisir, en un éclair, ce que c'est que Nâ-Kojaabad (a terra do não-onde): "Comme le jour dans un édifice" car le jour que contient l'édifice, est aussi le jour qui l'environne et qui le contient. Mais alors qui pourrait dire, et qui est ce qui pourrait délimiter où est le jour? Quand le jour se lève, il remplit à la fois l'espace et le temps de ce jour. Ainsi en est-il du "jour de l'Imam, et c'est pourquoi, chaque fois, le jour de l'Imam est le Dernier Jour." (H.C. En Islam IV, 388-389). [" E talvez não há melhor imagem para se entender, num relâmpago, o que é Nâ-Kojaabad - a terra do não-onde-: "Como o dia num edifício" porque o dia que contém o edifício, é também o dia que o envolve e que o contém. Mas, então, quem poderia dizer, e quem poderia delimitar onde está o dia? Quando o dia nasce, ele preenche de uma vez o espaço e o tempo desse dia. Da mesma forma é o 'dia do Imam', e é também o porquê, cada vez, o dia do Imam é o Último Dia."]

A pessoa do Imam-Mahdi é, ela mesma, o 7º dia (H.C., IV, 298). Para o shiismo duodecimano, o Imam já "está lá", porém continuará oculto até a Parusia. Para os ismaelitas, o Imam Mahdi (o 7º Imam) é a forma sobre-humana que a humanidade gerará no último dia, e que é um segredo oculto no futuro. O Imam dos Ismaelitas somente virá quando todos os ciclos planetários tiverem-se concluído. Enquanto isso, o Imam vive na Terra da Luz (cf. H.C., En Islam, vol. IV, 298). Para os ismaelitas, ainda, a vinda o Imam acarretará a abolição da letra da Lei, e estabelecerá o Reino da Liberdade para as obrigações legais. Será, pois, um reino antinomista, semelhante ao que era imaginado pelos milenaristas gnósticos e mais ainda semelhante à 'shemitá' futura esperada pelos cabalistas (cf. G.G. Scholem, Les origines de la Kabbale, pp. 490 a 496; G.G. Scholem, A cabala e seu simbolismo, p. 97, Perspectiva).

Desta forma o ismaelismo, e particularmente o de Alamut, rompe totalmente o equilíbrio entre o Zahir e o Batin. Ele pretende destruir completamente o Zahir, a letra da Revelação, como coisa inútil, para libertar completamente o sentido esotérico. E nessa destruição estava implicado o mais radical antinomismo. Para os ismaelitas de Alamut, o Imam Mahdi corresponderia ao Esto divino, isto é, ao Verbo Interior de Deus, ou 1ª inteligência (H.C., vol. I, p. 48). De qualquer forma é indubitável que existe no shiismo, quer no duodecimano, quer no ismaelita, uma forte característica messiânica de tipo gnóstico. Quer o XII Imam shiita, Mohammed ibn Askari al Mahdi, quer o VII Imam ismaelita, Mohammed ibn Ismail, ambos são figuras tipicamente messiânicas, que inaugurarão um reino milenarista, ecumênico, igualitário, antinomista, espiritual, e a-ontológico, isto é, em que se realizará a libertação de todas as limitações metafísicas que ora suportamos, por causa da materialidade e da individualização. Particularmente, dar-se-á a libertação do tempo e do espaço, pela elevação dos homens a um mundo de "oitava" superior ao atual.

 

O Ismaelismo, como vimos, é uma cisão do shiismo ocasionada pela designação do 2º filho de Jafar Sadik, Musa al Kazem, para o Imamato. Um grupo de ultra-shiitas manteve-se fiel ao Imam Ismail, primogênito de Jafar Sadik, e que morreu antes de seu pai. Nessa ocasião, esse grupo entendeu que o imamato deveria passar para o filho do Imam Ismail, Mohammed ibn Ismail. Este grupo radical era liderado por Abul-Khattab e foi desautorizado por Jafar Sadik. O jovem Imam Mohammed ibn Ismail desapareceu e se tornou o Imam escondido.

O Ismaelismo sofreu várias cisões em sua dramática história. As facções ismaelitas mais famosas foram a dos fatimitas do Egito, a dos ismaelitas reformados de Alamut, e a dos ismaelitas hindus. Nenhuma seita ismaelita tem uma história tão mirabolante quanto a dos ismaelitas de Alamut, cujo chefe Hassan ibn Sabbah é uma figura de lenda. Desgraçadamente, a destruição da biblioteca de Hassan Sabah em Alamut, promovida pelos mongóis, deixou a história de Alamut desprovida de suas fontes primeiras. Recentemente, W. Ivanow descobriu e publicou textos de Hassan Sabbah encontrados entre os ismaelitas da Índia.

O estudo desses documentos não deixa nenhuma dúvida sobre as conexões entre a gnose antiga e o ismaelismo. Também não há discussão sobre uma clara influência judaica-cabalista no ismaelismo. Embora um estudo comprovante até hoje não tenha sido elaborado, Henry Corbin relaciona a mística das letras, praticada no ismaelismo, com os cálculos numerológicos de Markos, o gnóstico. Entretanto, julgamos mais provável que essa numerologia ismaelita provenha diretamente de fontes judaicas e não de Markos (cf. H. Corbin, Hist. de la Phil., vl. I, pp. 110-111).

Henry Corbin dá uma síntese do sistema teosófico ismaelita, em sua obra sobre a filosofia islâmica. Aí ele afirma que o Ismaelismo é a gnose islâmica, por excelência. Para o Ismaelismo, na origem de tudo, não está o Ser absoluto, mas o Fazer-Ser. Este Fazer-Ser é a divindade absolutamente incognoscível porque é um abismo absoluto, um não-ser total, o nada.

Evidentemente, há nesta divindade inicial muita coisa que lembra a teologia apofática, os escritos do Pseudo Dionísio, e mesmo as noções elaboradas pelos gnósticos judeus sobre o Ein-Soph. Deste Abismo - Deus agnotos - teria provindo por via emanativa a 1ª Inteligência chamada também Inteligência Universal ou Inteligência Integral (Aql. Koll). Ela seria não o ser mas a ordem imperativa de ser (K.N=esto). A 1º Inteligência corresponderia ao Logos interior e silencioso que contempla o Nada Abissal da Divindade. Ela o conhece, mas não completamente.

Este Logos, que conhece a divindade apenas incompletamente, parece-nos corresponder bem à idéia de Logos que se acha no arianismo, pois que se nega, nessa formulação, uma igualdade absoluta entre a divindade e o seu Logos (o Filho). O Nada e o Logos, ou Verbo inicial, constituíram o "Deus revelatus". De ambos, então, proviria a 2ª Inteligência ou Alma do Mundo, que seria o Verbo pronunciado. A alma do mundo (Verbo pronunciado) conteria todos os seres em sua forma de luz ideal, e, por issso - parece-nos, ela corresponderia ao Logos platônico contendo, em si, o mundo ideal. A 1ª e a 2ª Inteligências, isto é, o Verbo interior e o Verbo exterior, formariam uma dualidade em que haveria oposição dialética. Desta dualidade dialética teria provindo, então, a 3ª Inteligência - o Adão Celeste, anjo arquétipo da humanidade. Tanto a 1ª quanto a 2º Inteligências teriam sempre reconhecido sua limitação de conhecimento, respectivamente, com relação ao Abismo inicial e à 1ª Inteligência. Tal, porém, não teria ocorrido com o Adão celeste, ou 3ª Inteligência, que recusou aceitar o seu limite.

O Adão Celeste se deixou enganar por uma autocontemplação naturalista que o inebriou, levando-o a crer que poderia atingir o Abismo da divindade sem utilizar intermediários. Deste modo, o Adão Celeste se fez Deus e, conseqüentemente, por seu erro, caiu na temporalidade. Da idolatria metafísica praticada pelo Adão Celeste é que nasceu a tragédia cósmico-metafísica e o tempo. A 1ª Inteligência teria feito um apelo às formas de luz existentes na 2ª e 3ª Inteligências, para que viessem até seu nível contemplar o Abismo da divindade. A 2ª Inteligência aceitou, mas a 3ª recusou, e daí a sua queda. De 3ª Inteligëncia que ela era, caiu para o nível da 10ª Inteligência. São evidentes, nesse mito do apelo da 1ª Inteligência às formas de luz da 2ª e 3ª Inteligências, as reminiscências do maniqueísmo (cf. H.C. Puech, Sur le manichéisme et autres essais, Flammarion, Paris, 1979).

Deste drama é que teria surgido o tempo, que seria o atraso do Adão Celeste, isto é, o tempo seria a eternidade retardada. Daí terem sido emanadas mais 7 Inteligências para cobrir os níveis intermediários entre a 3ª e a 10ª Inteligências. Estas seriam os 7 Querubins, ou 7 Verbos divinos. O "atraso" da 3ª Inteligência (Adão Celeste) introduziu em seu ser algo de opaco, que ele repele, e que é Iblis, ou Ariman (note-se aí a aceitação de uma terminologia zoroástrica, estranha ao islamismo). Cada uma das 3 Inteligências continha em si inúmeras "formas de luz". Quando a 3ª Inteligência (o Adão Celeste) caiu e se retardou, elas caíram também e se atrasaram. Daí, então, o Adão Celeste ter-se-ia feito demiurgo e teria criado o mundo como meio para que as suas formas de luz decaídas pudessem se libertar do que nelas havia de opaco e, portanto, de maligno.

E nota aí Corbin: "Cette histoire symbolique présente de nettes réminiscences manichéennes" (H. Corbin, Hist. de la Ph., vol. I, p. 126). ["Esta história simbólica apresenta claras reminiscências maniqueístas."] O ismaelismo ensina, então, que o mundo seria regido por cada um dos planetas durante mil anos. Tal crença nos parece inteiramente paralela ao que se lê no "Sefer ha Temunah", para o qual, cada ciclo terrestre (shemitá) duraria 1.000 anos, e que em cada um deles haveria o domínio de uma das Sefirás divinas. A Sefirá atual seria a de Din (o julgamento), e daí estaríamos sob o rigor da Lei. A próxima Shemitá seria a da Hesed, ou misericórdia, e nela haveria a abolição da Lei e toda a desigualdade, tornando-se lícito o que hoje é ilícito (cf. Gershon G. Scholem, Les origines de la Kaballe , Aubier- Montaigne, Paris, 1966, pp.485-499).

Quando do milênio regido pela lua, teria nascido o Adão Integral terrestre, "como uma planta que nasce da terra". Ele teria nascido no Ceilão, junto com 27 companheiros (perfazendo pois o total de 28 (7x4). O Adão Integral terrestre seria impecável e perfeito, e vivia no Paraíso Terrestre. É sua perfeição e sua impecabilidade que ele transmitiu aos Imames. O Adão Integral fundou uma comunidade esotérica que, por suas virtudes, permitiu que ele voltasse ao Pléroma divino. Tal vitória propiciou um primeiro resgate pleromático; pois que a 3ª Inteligência (o Adão Celeste) pôde, então, elevar-se de um nível, juntamente com todas as suas formas de luz. Tal ascensão repetir-se-á até que o Adão Celeste se reintegre ao nível da 2ª inteligência. Justamente esta seria a missão terrestre dos Imames.

A cada ciclo de revelação por meio de um profeta, corresponderia um ciclo de imamato; a cada shariat corresponderia uma walayat; a cada Epifania, uma Ocultação. Isto prosseguiria assim até a reintegração final que completará o nosso ciclo atual, o nosso Ayon, e que equivaleria, no total, a 360.000 vezes 360.000 anos. O último Imam, de Epifania anterior ao nosso atual ciclo de Ocultação, foi Honayd pai do Adão Parcial (isto é, o 1º homem, o Adão histórico). Todos os anjos teriam reconhecido Adão como Imam, exceto Iblis, que seria um dignatário do ciclo anterior. Tentado por Iblis, o Imam Adão revelou o que só poderia ser revelado pelo Imam Mahdi (o 12º ou o 7º Imam, conforme a seita). Cada ciclo começa com um profeta revelador de uma shariat, e que é sucedido por uma ou várias séries de 7 Imames. Todo ciclo é encerrado por um Imam Qaim ou Imam da Ressurreição, que, então, suscita um novo profeta inaugurador de um novo ciclo. Vimos que, de Adão a Maomé, teria havido seis (ou sete ciclos): os de Adão, Noé, Abraão, Moisés, (David), Jesus e, afinal, o de Maomé, que seria o derradeiro profeta.

O 1º Imam da shariat maometana foi Ali, e o último será o Mahdi, que não dará prosseguimento aos ciclos, pois não introduzirá um nofo profeta. O Mahdi revelará o sentido secreto de todas as revelações e completará a reintegração das formas de luz da 3ª Inteligência no nível a que foram chamados, no princípio do drama teosófico cósmico (cf. H. Corbin, Hist. de la Ph., vol. I, pp. 118 a 133).

 

O Ismaelismo de Alamut foi fundado por uma das figuras mais misteriosas, e de vida mais mirabolante que já houve na História. É difícil, especialmente por causa da destruição da biblioteca de Alamut, por ordem do chefe mongol Houlagou, separar a lenda da realidade, na vida de Hassan Sabbah. O que se sabe de sua vida provém do que conta o historiador árabe mongolizado Ala-Ed Din D'jouenny, que teve oportunidade de estudar, durante um ano, a biblioteca de Hassan Sabbah em Alamut, por ordem de Houlagou-Khan. Na biblioteca de Hassan Sabbah, haveria uma autobiografia contando as aventuras do fundador do Ismaelismo iraniano. Ele teria nascido em Reï, na Pérsia, e sua família era shiita. Ele estudou em Nichapour, onde teria tido como colegas dois homens que ficariam famosos: o futuro grão-vizir Nizam-al-Molk, e o grande poeta persa Omar al-Khayyam.

Consta que os três teriam sido iniciados no esoterismo shiita pelo mestre Muaffik e que, levados por seu fervor, teriam jurado um pacto de igualdade absoluta: tudo o que ganhassem deveria ser igualmente repartido entre os três. Terminados os estudos, cada um seguiu o seu caminho. Dos três sectários, o que logo teve êxito foi Nizam al-Molk, que se tornou grão-vizir do sultão seldjúcida Alp-Arslan. Nizam tornou-se um dos maiores estadistas do Islam, tendo escrito um famoso "Tratado de Governo", para Melik Schah, herdeiro presuntivo de Alp-Arslan. Ele foi também o grande responsável pela organização do império seldjúcida.

Omar al Khayyam exigiu que Nizam cumprisse o pacto, mas ficou satisfeito com uma enorme soma que lhe foi dada. Hassan ibn Sabbah era bem mais ambicioso, e desejava que o pacto jurado fosse estritamente cumprido. Porém, ele tinha medo de exigir isso do poderoso grão-vizir. Afinal, a ambição venceu o medo, e Hassan Sabbah se apresentou a Nizam, exigindo o cumprimento do pacto. Nizam o recebeu amavelmente, mas declarou-lhe que não podia cumprir matematicamente o juramento, pois não sabia o que possuía. Ofereceu-lhe, todavia, dar-lhe tudo o que ele bem quisesse. Hassan aceitou, e passou a viver luxuosamente na Corte. Após um certo tempo, a vida regalada não satisfez mais o ambicioso Hassan Sabbah, pois via que Nizam, além de riquezas, tinha o poder. Ele exigiu, pois, participação no poder. Desta vez, Nizam não o recebeu tão favoravelmente, como de início. Contudo, ainda assim o atendeu parcialmente, fazendo nomear seu amigo para o cargo de vizir. Isso contentou Hassan Sabbah por pouco tempo.

Em 1071-1072, uma expedição guerreira empreendida por Alp Arslan e Nizam, contra os bizantinos, provou que não havia igualdade entre o grão-vizir onipotente e um simples vizir, como Hassan Sabbah. Foi então que, nos ócios decorrentes da ausência do sultão e do grão-vizir, na capital, Hassan se entregou aos mais profundos estudos do esoterismo shiita, do Zend e dos Gathas de Zaratustra.

Foi ainda nesse tempo (1072) que ele entrou em contato com Aboul Fazi. Surpreendentemente, ele informou a Hassan Sabbah que, no norte do Irã, existiam ainda os líderes de uma comunidade esotérica zoroastriana. Em 1072, Alp Arslan foi assassinado por um príncipe cristão prisioneiro. Hassan Sabbah sugeriu então a Nizam-al-Mulk que depusessem o herdeiro - Melik-Shah - e dividissem o poder entre si, para que o pacto que haviam estipulado fosse realmente cumprido. Nizam, entretanto, não concordou, e entronizou Melik-Shah. Este se mostrou logo grandemente interessado na administração. Hassan Sabbah soube, pouco a pouco, captar sua confiança.

Um dia, o sultão exigiu que Nizam apresentasse, o mais rapidamente possível, um balanço geral das despesas e receitas do Reino. Nizam pediu um prazo excessivamente longo, pois se sentiu ofendido pelo pedido do sultão. Em meio ao diálogo, Hassan Sabbah, violando as normas da etiqueta vigente, sem pedir licença, interrompeu o sultão para dizer que, se lhe fosse dada a mesma incumbência, ele a faria em 40 dias. Melik Shah, zangado, deu-lhe o encargo, mas acrescentou que, caso não cumprisse o que dissera, ele morreria por causa de seu atrevimento. Hassan conseguiu realizar o seu intento e, no 39º dia, ele conferiu os rolos em que se registraram exatamente os dados das receitas e gastos do Estado. O trabalho fora imenso e febrilmente realizado, e Hassan Sabbah, para demonstrar sua superioridade e despreocupação, deixando os rolos sobre sua mesa, foi passear ostensivamente pela cidade. Ele queria mostrar que nem empregara o total do prazo concedido.

No dia seguinte, ele se apresentou na reunião do conselho do governo com seus rolos. A leitura de seus documentos seria longa. A expectativa era enorme, pois se previa a queda de Nizam al Molkh. Subitamente, em meio à leitura de seus rolos, Hassan se atrapalhou, engasgou-se, conferiu afobadamente seus rolos, embaraçou-se... Alguém entrara em seu gabinete de trabalho e, ao invés de roubar a documentação, simplesmente a embaralhara... Hassan pediu novo prazo ao sultão, prazo que não lhe foi dado. Quando o sultão, irritado, mandou prender o presunçoso Hassan Sabbah, este fugiu, saltando por uma janela. Nizam vencera.

Hassan Sabbah procurou refúgio na casa de Abou Fazl, que o encaminhou para os sectários zoroastrianos do norte da Pérsia. As memórias de Hassan Sabbah foram destruídas pelos mongóis que, entretanto, deixaram delas um resumo. Ivanow encontrou, entre os ismaelitas da Índia, alguns textos que permitem refazer uma parte da biografia do fundador do Ismaelismo de Alamut. Hassan teria contado que, quando fugiu de Ispahan, teria tido, em sonhos, uma visão de Zaratustra, que o teria encaminhado para o norte, ao encontro de seus iniciadores, numa caverna de uma alta montanha. Lá, ele teria entrado em contato com os membros de uma seita secreta, e teria recebido uma alta iniciação dada pelo senhor da montanha. Jean Claude Frère dá a tradução do texto completo dessa iniciação conforme a documentação recentemente encontrada na Índia por W. Ivanow (cf. Jean Claude Frère, L'Ordre des Assassins, caps. I e II, pp. 15 a 78).

O texto revela uma doutrina gnóstica em que se misturam elementos zoroastrianos, cristãos e islâmicos. Desses elementos, queremos destacar:

1º) alusões à parusia do messias zoroastriano: o Saôshyant;
2º) a exposição da doutrina shiita das revelações sucessivas de Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi, Cristo e finalmente de Maomé;
3º) orações ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo, "unité qui est triple, visible et invisible" (J.C. Frère, op. cit., p. 50). ("unidade que é tripla, visível e invisível")
4º) citação do evangelista S. João e de textos do Apocalipse;
5º) utilização de simbologia cristã (a cruz), judaica (a estrela de Salomão) e de magia;
6º) realizações de uma "ceia eucarística", repetindo as próprias palavras da consagração da Missa;
7º) alusão a uma gnose joanita;
8º) relação do nome de Abraham com o nome Brahma;
9º) citação de várias figuras típicas dos textos do gnosticismo dos primeiros séculos do cristianismo, tais como Sabath, Iao, Abrasax, Danoup Khrator Berbali Barbit (a Barbelô, dos gnósticos primitivos);
10º) invocações de Ahura-Mazda contra Ariman (cf. J.C. Frère, op. cit., pp. 44 a 78).

Os iniciadores teriam dado a Hassan Sabbah a missão de libertar a raça ariana e de fundar um novo império, tendo por base a nova religião. Voltando a Reï, sua cidade natal, Hassan se pôs em contato com um líder ismaelita local, e entrou para a seita fatimita, que era sustentada pelos califas do Cairo. Hassan tornou-se em pouco tempo a maior autoridade doutrinária entre os ismaelitas de Reï, e foi então convocado para visitar o centro da seita no Egito, onde chegou em 1078. No Cairo, Hassan completou sua iniciação na famosa "Casa das Ciências" do Ismaelismo. Nos textos publicados por W. Ivanow, o próprio Hassan Sabbah narra as suas iniciações cairotas. Nelas constatamos os seguintes elementos mais curiosos:

1º) a invocação de novas entidades da mitologia gnóstica, por exemplo, Ialdabaoth, e citação da Ogdoada;
2º) relação com os antigos mistérios egípcios de Isis;
3º) a invocação de muitos espíritos da gnose judaica como, por exemplo, o anjo Uriel, Adonai, Elohim, Manuel, Sedekiel, Sabaoth, Lilith;
4º) uma exposição da doutrina gnóstica, como sendo o fundo comum das religiões reveladas de Moisés, Cristo, Zoroastro e Maomé;
5º) um elenco das emanações cósmicas muito semelhante à que se acha nos escritos de Valentino, que aliás é citado expressamente como o Doutor por excelência da gnose (cf. Jean Claude Frère, op. cit., pp. 106 a 120).

Djouennyt cita textos de Hassan Sabbah nos quais ele conta como, no Cairo, teve conhecimento das técnicas de emprego do has-chich, para alcançar a gnose, e para dominar os iniciados. Ele, ao que consta, iria empregar largamente essa droga para fanatizar os seus sectários em Alamut. No Cairo, Hassan Sabbah viu-se envolvido na crise política que dividiu o fatimismo egípcio. Era califa fatimita, no Egito, Al Mostansir-billah. Ele tinha dois filhos, Nizar, o primogênito, e Al-Mostawili. O príncipe Nizar era pouco competente, enquanto al-Mostawili era muito capaz. Este casara-se com a filha do grão-vizir, o armênio Bedr-al-Djemalyi, conhecido como o emir Al-Djaiouch.

O grão-vizir pressionava o califa al Mostansir para designar como herdeiro seu genro Mostawili. Hassan Sabbah favorecia o príncipe Nizar: a) porque era o que devia herdar, segundo as regras do fatimismo; b) porque sendo pouco capaz, seria mais facilmente manejado. Repentinamente, o príncipe Nizar desapareceu misteriosamente. O grão-vizir foi logo acusado de ter ordenado sua morte e, para os fatimitas mais exaltados, o príncipe Nizar logo tomou ares de um Imam escondido. O grão-vizir deu, então, um golpe de estado, entronizando seu genro, Al Mostawili. Hassan Sabbah foi preso e vendido como escravo para alguns cristãos, que partiram imediatamente em seu navio.

Conforme conta o historiador árabe Mirkhond, citado por Jean Claude Frère, a viagem foi tormentosa. O navio cristão teve grandes dificuldades, junto ao litoral sírio. Os marinheiros cristãos estavam em pânico. O escravo Hassan não manifestava a menor preocupação, e recusava ajudar nos trabalhos de bordo, mesmo levando pancadas. Ele deu, então, um golpe genial: declarou-se profeta, e disse que Deus lhe revelara que eles não morrerriam por causa da tempestade. O golpe era genial, dissemos, porque, caso morressem, ninguém cobraria de Hassan a profecia mentirosa; caso se salvassem, ele estava "diplomado" profeta.

Ninguém morreu... O barco encalhou nos rochedos do litoral sírio, e todos alcançaram a terra firme. O último a desembarcar, calmamente, foi o novo "profeta" Hassan ibn Sabbah, que foi recebido na praia pelos marinheiros ajoelhados e agradecidos. Desde então, eles o seguiram como fanáticos, aceitando inteiramente seus ensinamentos, e obedecendo absolutamente às suas ordens (cf. Jean Claude Frère, op. cit., p. 131).

Hassan resolveu, então, investir-se na chefia do Ismaelismo. O ano 1081 marca o início da era da reforma ismaelita de Hassan Sabbah, que se apresentava como o representante do Príncipe Nizar, novo Imam escondido, e de seu pequeno herdeiro. Dizia que só ele tinha contato com Nizar, e que dele recebia ordens. Desse modo, ele foi aceito como líder dos ismaelitas da Ásia. Em Ispahan, o centro ismaelita lhe forneceu as listas dos membros secretos da seita, mas logo teve que fugir porque Nizam-al-Molkh deu ordens para a sua captura. Em sua fuga, trouxeram-lhe uma criança pequenina, dizendo que era filho de Nizar. Hassan "acreditou" e fez acreditar que isto era verdade. Desde então, ele tinha em seu poder o futuro Imam. Hassan perambulou pelas zonas desérticas e montanhosas do norte da Pérsia, pregando sua gnose e fazendo-se reconhecer como profeta.

"L'ascétisme dont Hassan Sabbah faisait preuve et qu'il exigeait des fidèles était à lui seul profondement anti-islamique: il méprisait les dons de Dieu, ou plutôt, considérait comme les manichéens et en Occident à la même époque, les cathares, que ces choses matérielles, toutes périssables et subissant la loi de prolifération universelle, étaient l'oeuvre du "mauvais démiurge" celui qui, ne connaissant pas l'Arkon qui lui était supérieur, avait crée ce monde et en avait fait l'émmanation de son orgueil" (Jean Claude Frère, op. cit., pp. 139-140). ["O ascetismo que Hassan Sabbah dava prova e exigia dos fiéis, era somente por si só profundamente anti-islâmico: desprezava os dons de Deus, ou melhor, considerava como os maniqueus - e como os cátaros, no Ocidente, na mesma época - que as coisas materiais, todas perecíveis e sujeitas à lei de proliferação universal, eram a obra do 'mau demiurgo’, aquele que, não conhecendo o Arkon que lhe era superior, tinha criado este mundo, e havia feito dele a emanação do seu orgulho"]

Hassan pregava ainda que a gnose de Deus só se obteria pela imitação do Imam escondido, e que, por essa imitação, todos os homens atingiriam uma igualdade absoluta. Durante três anos, Hassan viveu como profeta nômade, buscando um lugar eleito para sede da nova seita. Afinal, ele encontrou o castelo de Alamut, o "ninho da águia". Em meio a uma paisagem atormentada, um castelo inacessível, num píncaro abrupto e com um nome de mistério. Hassan decidiu estabelecer no "ninho da águia" a sua seita. Assim nascia a Ordem dos Assassinos. Ele conquistou a fortaleza não pela força, mas convertendo, pouco a pouco, a guarnição. Quando o chefe da fortaleza tentou resistir, Hassan Sabbah apresentou-se a ele, teatralmente, como o verdadeiro chefe da fortaleza, e mandou que pusessem o ex-chefe fora das portas, dando-lhe apenas um bilhete com a ordem ao governador de Damegan, para pagar ao portador a soma de 3.000 dinares. O general expulso, não tendo outra coisa a fazer, foi até o governador de Damegan, que surpreendentemente beijou o bilhete e pagou incontinenti a grande soma.

Hassan Ibn Sabbah iniciava o seu reinado de "Sheikh-al-Djabal", Senhor da Montanha, (os cristãos traduziram a expressão por Velho da Montanha), no dia 6 do mês de Redjet, no ano 468 da Hégira (1090). Ora, aplicando os métodos da cabala numérica do alfabeto árabe, os ismaelitas notaram que o nome Alah-Amout (Águia-Ninho) correspondia exatamente ao número 468. Logo se espalhou a notícia de que Hassan Sabbah era senhor de Alamut.

 

No castelo de Alamut, Hassan Sabbah só permitiu ficarem os membros de sua seita. Para inaugurar sua ação, ele realizou um grande sacrifício ao fogo "Senhor do Universo", no terraço do castelo. Foi uma das poucas vezes em que ele foi visto em público, até a sua morte. O sacrifício ao fogo nada tinha que ver com o maometismo, que não admite sacrifícios, nem mesmo a Allah. O ritual desenvolvido, então, por Hassan Sabbah revela que suas crenças eram muito mais próximas do zoroastrismo do que do maometismo (cf. Jean Claude Frère, op. cit., pp. 158 a 161).

Seus asseclas foram submetidos a rigoroso regime ascético, de que o próprio Hassan dava exemplo: jejuns, sacrifícios, proibição do vinho e da música. Ao lado disto, consta que Hassan os inebriava com Haschich. Segundo uma versão um tanto rocambolesca, Hassan teria feito construir em Alamut um "jardim de delícias", para onde os drogados eram levados enquanto dormiam, e lá encontravam as "houris" do paraíso maometano.

Mesmo que esta versão seja mera fantasia, é evidente que a alternância de práticas ascéticas rigorosas com doses de narcóticos se constituía num verdadeiro processo rústico de "lavagem cerebral". O resultado era que os asseclas de Hassan - os "fidawis" - eram homens que o obedeciam a tal ponto que, ao que se diz, matavam-se a um mero sinal dele, pois acreditavam que, morrendo por Hassan Sabbah, iriam diretamente para o Paraíso (no livro "Le communisme: de la Bible à nos jours", conta-se um caso impressionante de suicídio de dois fidawis).

René Grousset, citando as "Éracles", conta algo semelhante ocorrido no castelo de Kahf, quando visitado por Henri de Campagne, no século XII. "Au chateau de Kahf, le grande maître (dos assassinos de Nosairi), pour impressioner Henri, lui donna une démonstration de l'obéissance absolue qu'il obtenait du fanatisme de ses "fidawis". "En ce chastel avoit une haute tour, sur chascun crenel avoit deux homes tous blancs vestus. Li des Hasseis (Assassins) li dist (à Henri de Champagne): "Sire, vos homes ne feroient pas por vos ce que li mien feroient por moi" - "Sire, dit-il, ce puet bien estre". Le sire des Hassesis s'écria (une autre leçon de la chronique dit qu'il se contenta d'agiter son mouchoir) et deux de ses homes qui sus les créniaux estoient se laissèrent cheoir à val et se bruisièrent le cou". Le bon Henri de Champagne tout ému avoua qu'en effet chez les Francs on ne trouverait personne pour donner une telle preuve d'obéissance. Mais le grand Maître insistait, offrant de faire suicider tous les autres occupants des créneaux: "Sire si vouz volés, je ferai tous ceus que vous veoiez sallir à val (sauter dans le ravin). De plus en plus ému, Henri le supplia de n'en rien faire. Le chroniqueur ajoute qu'avant de laisser partir le prince franc, le grand maître le couvrit de cadeaux, lui jura une amitié éternelle et lui offrit galamment de faire assassiner pour lui qui il voudrait. "Le sire des Hassasis li dona grant plenté de ses joiaux, le convoia hors de sa terre et au départir li dist que por l'onor qu'il li avoit fait de ce qu'il iert venus par sa terre, il l'asseuroit de lui à tous jors mès (à tout jamais). Et s'il estoit nus hans haus qui li feist chose dont il le pesant, feist-il à savoir, et il le feroit occirre." (Réné Grousset - Histoire des Croisades et du Royaume franc de Jérusalem, III vol., p. 134, Plon, Paris, 1936 - citando Eracles III, pp. 210 e 231). ["No castelo de Kahf, o grande mestre 'dos assassinos de Nosairi', para impressionar Henrique, deu-lhe uma demonstração de obediência absoluta que ele obtinha do fanatismo dos seus 'fidawis'. "Neste castelo havia uma torre alta, e em cada almeia havia dois homens vestidos de branco. O chefe dos Assassinos lhe disse (a Henrique de Champanhe): 'Senhor, vossos homens não fariam por vós o que os meus fariam por mim' - Senhor, disse ele, isto pode ser'. O senhor dos Hassessis gritou uma ordem (uma outra versão da crônica diz que ele bastou agitar seu lenço) e dois dos seus homens que estavam nas almeias, se precipitaram lá do alto e quebraram o pescoço.' O bom Henrique de Champanhe totalmente emocionado confessou que, de fato, entre os francos não se encontraria ninguém que pudesse dar tal prova de obediência. Mas o grande Senhor insistia, disposto a levar ao suicídio todos os outros ocupantes das almeias: 'Senhor se vós quereis, eu farei com que todos aqueles que vós vedes, se atirem lá do alto até o chão (saltar no fosso). Cada vez mais emocionado, Henrique lhe suplicou que não fizesse nada. O cronista acrescenta que antes de deixar partir o príncipe franco, o grande Senhor cobriu-o de presentes, jurou-lhe uma amizade eterna, e ofereceu-lhe gentilmente de mandar assassinar, por sua ordem, quem ele quisesse. 'O senhor dos Hassasis deu-lhe grande quantidade de suas jóias, o acompanhou fora da sua terra e ao partir disse-lhe que pela honra que ele lhe havia feito por ter vindo em sua terra, ele seria para sempre reconhecido. E se alguém lhe fizesse algo de mal, que lhe comunicassem, e ele o faria matar."]

Com os seus "fidawis" Hassan Sabbah formou uma "cavalaria espiritual" com a finalidade de preparar a Parusia do Imam. Alamut era apenas uma etapa na preparação do reino celeste que estava por vir. Os "fidawis", vestidos de branco com uma corda vermelha na cintura, eram os "amigos de Deus". Eles já não viviam para este mundo, e sim para o mundo esotérico ou "imaginal" do Imam, numa oitava "ontológica" superior.

"Leur vie n'est pas dans le monde, mais dans l'esprit. L'Ordre de Hassan Sabbah ainsi refuse toute sécularisation. Ils ne sont déjà plus dans ce cycle de l'humanité; nous les voyons se mouvoir dans le "troisième Règne, celui de l'Esprit du Paraclet (que les mystiques iraniens ismaeliens et shiites nomment, en déformant le nom, car la lettre p n'existe pas dans l'alphabet arabe, "alfarkalit"), qui doit suivre le règne du Père, qui a été celui des prophéties anciennes (Zarathoustra, Moïse, Salomon) et celui du Fils (annoncé par Jésus, Mahomet et Ali). Ainsi la prophétologie ismaélienne nous offre une attente spirituelle, un millenarisme sensiblement proche de celui que connut l'Occident avec la doctrine du Paraclet chez Joachim de Flore à la même époque" (J.C. Frère, op. cit., pp. 166-167 - o sublinhado é nosso). ["Sua vida não era no mundo, mas no espírito. A Ordem de Hassan Sabbah, assim, recusa toda secularização. Eles não estão mais neste ciclo da humanidade; nós os vemos moverem-se no 'terceiro Reino', o do Espírito do Paráclito - que os místicos iranianos ismaelianas e shiitas chamam, deturpando o nome, porque a letra p não existe no alfabeto árabe, 'alfarkalit' - que deve seguir o reino do Pai, que foi o das profecias antigas - Zaratrusta, Moisés, Salomão - e o do Filho - anunciado por Jesus, Maomé e Ali. Assim, a profetologia ismaeliana nos oferece uma espera espiritual, um milenarismo sensivelmente próximo daquele conhecido no Ocidente como a doutrina do Paráclito em Joaquim de Flora na mesma época."]

 

O poder de Hassan Sabbah logo se estendeu para outros castelos vizinhos. Alarmado, o sultão Melik Shah mandou um exército, comandado por Arslan Tach, atacar Alamut, em junho de 1092. O castelo foi sitiado. Um "dai" (propagador ismaelita), Al Kebir Abou-Ali, homem de confiança de Hassan e que estava em missão de propaganda na região de Kazmim, reuniu 400 homens para vir libertar Alamut. Ele se instalou numa colina de onde se podia ver Alamut, e atrás das linhas inimigas. Hassan ordenou a esses homens que esperassem o sinal de ataque, que ele daria. Em Alamut, a fome era grande. O cerco durava já 4 meses. Hassan, porém, recusava-se a dar o sinal de ataque. Queria levar os seus homens até o extremo da necessidade, para verificar até onde poderiam ir em sua obediência.

Uma manhã, Hassan subiu à terraça de Alamut com uma tocha acesa nas mãos. Pouco depois, as tropas de Arslan Tach eram atacados pela retaguarda pelos homens de Abou-Ali, enquanto os Fidawis de Hassan, vindos de Alamut, os atacavam pela frente. Os "assassinos" lutavam como demônios desesperados, e as tropas de Arslan Tach foram massacradas ou dispersas. Nizam el Molkh organizou, então, uma expedição de dezenas de milhares de soldados para acabar com a seita. O castelo de Dereh foi cercado, e quando tudo fazia crer que os ismaelitas estavam perdidos, o grão-vizir Nizam el Molkh, o inimigo de Hassan Sabbah, foi assassinado a punhaladas por um Fidawi, quando ia à mesquita de Bagdá, durante o Ramadã (16/10/1092). Torturado, o assassino respondia contente que ia agora ao Paraíso, pois matara por ordem do Velho da Montanha. Começava, deste modo, a campanha terrorista que faria dos ismaelitas o poder mais temido no Oriente islâmico.

O assassinato de Nizam desorganizou o império seldjúcida, e obrigou as suas tropas a cessarem a campanha contra os castelos ismaelitas. Outras figuras foram assassinadas a seguir. E outras, para se salvar, prestaram homenagem secreta a Hassan Ibn Sabbah. Deste modo, seu poder se estendeu por províncias inteiras. Ao lado do terror, a propaganda ismaelita prosseguia. Todo o império era percorrido pelos "dai" ismaelitas. Eles procuravam captar a confiança das pessoas mostrando-se afáveis e fiéis praticantes do Corão. Despertavam a curiosidade dos seus ouvintes, mostrando-lhes as contradições do texto corânico, e depois dando soluções de tipo esotérico. Isto abria o caminho das mentes para a revelação do "batin".

Os prosélitos de 1º grau eram convidados a contribuir com dinheiro para a seita. Quando o prosélito se mostrava desejoso de conhecer mais profundamente os segredos do Corão, revelava-se-lhes a doutrina do imamato. No 3º grau, o prosélito ficava conhecendo a distinção entre shiismo e ismaelismo. No 4º grau, criticava-se a Shariat maometana, e fazia-se o adepto reconhecer que haveria um profeta posterior a Maomé. Assim, no 4º grau, o adepto deixava de ser realmente maometano. No 5º grau, levava-se o adepto a desprezar todos os significados literais, e a condenar a religião positiva. Isto levava a pessoa a não mais cumprir as imposições legais do Islam. Levava-se ainda a pessoa a preferir as doutrinas gnósticas às explicações de todas as religiões positivas. No 6º grau, o adepto era conduzido a preferir os filósofos aos profetas. No 7º grau, desvendava-se a doutrina da oposição dualista entre a Divindade e o demiurgo criador. No 8º grau desvendava-se que o "Deus Absconditus" era o Nada. Finalmente, no 9º grau, o ismaelita ficava livre de crer no que quisesse, embora se favorecesse a aceitação da gnose de Bardessanes ou a de Mani.

O último segredo da seita, reservado apenas ao chefe, que o transmitia ao sucessor, na hora da morte, era que "nada é verdadeiro, e que tudo é permitido". Deste modo, uma seita maometana, por graus, levava o adepto à gnose e ao nihilismo antinomista mais radical. Hassan Sabbah vivia em Alamut fechado em sua biblioteca, nunca aparecendo em público. De lá partiam as ordens que, difundindo o terror, asseguravam o poder da seita.

Hassan governava de modo inexorável. Seu rigor era tal que nem seus filhos tinham qualquer privilégio. Ele mandou executar os dois: o seu primogênito, por se envolver numa conspiração, e o menor por ser flagrado bebendo vinho. Quando Hassan morreu, em 1184, ele nomeou em seu lugar Kya Burzug Humid para a tarefa de dirigir a ordem e os seus 74 castelos. Kya Burzug Humid mudou um tanto a política de Hassan Ibn Sabbah, pois começou a aceitar mais facilmente tributos.

Hassan Sabbah desprezava o dinheiro e o poder direto: o que lhe interessava era dominar quem estava no poder. Kya Burzug, entretanto, estendeu ainda mais o poder da ordem. Foi no tempo do governo de Kya Burzug Humid que se deu um caso famoso que ilustra bem o fanatismo dos ismaelitas. Em 26 de novembro de 1126, o vice-rei de Mossoul e de Alepo foi assassinado em Alepo.

"Le 26, comme c'était un vendred il alla faire ses dévotions à la grande mosquée. Au moment qu'il arrivait sous le mimbar huit Ismailliens, déguisés en derviches l'assaillirent et malgré sa cotte de mailles, le criblèrent de coups de couteau. Il expira le jour même. Détail qui donne une idée des progrès effroyables accomplis dans la population arabe par la terrible secte: la mère d'un des Assassins, croyant d'abord que son fils était mort en tuant, fière d'avoir donné naissance à un tel héros, se peignit les yeux au Khol en signe d'allégrèsse. Apprenant ensuite qu'il s'était échappé, elle se rasa la tête et se noircit le visage" (Kemal Al Din, p. 654, apud Robert Grousset, op. cit., vol. I, p. 650). ["No dia 26, por ser sexta-feira, ele foi fazer suas devoções na grande mesquita. No momento que ele chegou sob o mimbar, oito ismaelianos, disfarçados em religiosos, atacaram-no, e, apesar da sua armaduraa de malhas, o feriram a golpes de faca. Ele expirou no mesmo dia. Detalhe que dá uma idéia da penetração assustadora da terrível seita na população árabe: a mãe de um dos Assassinos, pensando inicialmente que seu filho havia morrido matando, orgulhosa de ter dado nascimento a um tal herói, pintou-se os olhos em sinal de alegria. Ao saber posteriormente que ele havia escapado, ela se rapou a cabeça e enegreceu o rosto."]

Kya Burzug Humid faleceu em 1138, deixando o poder para seu próprio filho, Kya Mohammed (1138-1162). Inaugurava-se, assim, o costume de transmitir o poder ismaelita para um filho, e não para um dos mais dedicados membros da seita. Formava-se uma "dinastia" que ia tornar Alamut mais parecido com um reino. Kya Mohammed "reinou" pelo terror assassino até 1162, quando passou o poder para seu filho Hassan Aladhikri Shassalam (1162-1166) ou Hassan II. Ao que parece, este indivíduo não tinha as qualidades necessárias para governar a Ordem. Ele se proclamou a si mesmo Imam. Ao tomar conhecimento do supremo segredo (que nada era verdadeiro e que tudo era permitido), resolveu abolir todo culto exterior. Mais ainda: ele revelou o grande segredo para todos os fidawis. Logo a anarguia entrou em Alamut. Em 8 de agosto de 1164, Hassan II, o pretenso Imam, proclamou, em Alamut, a Grande Ressurreição "Qiyamat al Qiyamat", isto é, o fim de toda a lei, e a Parusia do Reino do Espírito. Ele instaurou assim o "reino" gnóstico ismaelita do qual Hassan II era o messias, o Imam Mahdi.

Toda religião messiânica vive numa contínua tensão, graças à expectativa da Parusia. A tentativa de realizar o reino messiânico, aqui e agora, na História, traz sempre o esgotamento de toda a potencialidade do milenarismo. O Ismaelismo de Alamut não escapou a essa regra. A proclamação da Grande Ressurreição, isto é, a da instalação do reino milenarista em que haveria igualdade absoluta (pois ninguém mais teria autoridade) e da liberdade completa (extinção de toda a lei) levou Alamut à decadência. Já não havia preocupação de estender ou manter o domínio da Ordem. Os atos terroristas diminuíram. Não se cuidava mais nem da política, nem da ordem interna do castelo. A anarquia cresceu, e já que tudo era permitido, um dia, um Fidawi assassinou Hassan II (1166). Seus últimos fiéis se retiraram, então, de Alamut, e foram para a Índia, onde deram origem a um ramo ismaelita hindu.

Com a morte de Hassan II, em Alamut, o poder passou para seu filho Mohammed ibn Hassan, ou Mahommed II (1166-1214). Ele também se disse Imam, mas foi morto por seu próprio filho. Djellal ed Din Hassan ibn Mohammed (1214-1226), 6º Velho da Montanha, recusou o título de Imam, afirmando-se apenas grão-mestre da Ordem Ismaelita. Ele desaprovou a política de realização do milênio seguida por seu avô e por seu pai. Ele manteve também uma política mais aberta para com o maometismo, chegando ao ponto de mandar construir uma mesquita. Sentindo a aproximação da ameaça mongólica, ele fez um acordo com Gengis-Khan. Seu grande erro foi ceder o poder, ao morrer, a seu filho de 9 anos, Alla ed Din Mohammed III (1226-1254).

Este 7º Sheik da Montanha era louco e aos 15 anos se proclamou Imam. Ele foi morto, em 1254, num festim, por seu próprio filho, que ele ia assassinar durante o banquete. Rock ed Din Kourshah (1254-1265) foi o 8º e último "Velho da Montanha", em Alamut. Tinha 20 anos, quando assumiu o poder. Era covarde e cruel. Em 1265, os mongóis de Houlagou conquistaram facilmente Alamut. Houlagou considerou Rock ed Din tão sem valor que não o matou. Segundo alguns historiadores, Rock ed Din Kourshah, depois de ter que beijar a terra, diante de Houlagou, teve que dar ordens para entregar todos as fortalezas ismaelitas. Quando estas se entregaram, todas as guarnições foram massacradas pelos mongóis. Houlagou teria enviado Rock ed Din para a corte de seu irmão, o Khan Mongka. "Mais Mongka moins tolérant que son frère, déclara qu'il n'y avait pas lieu de fatiguer les chevaux de poste pour un chef d'assassins et fit executer ce dernier en cours de route" (R. Grousset, op. cit., vol. III, pp. 567-568). ["Mas Mongka, menos tolerante que seu irmão, declarou que não havia mais motivo para cansar os cavalos de transporte por um chefe de assassinos, e fez executar este último pelo caminho."] Assim terminava a história de Alamut, mas não a lenda...

 

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MONTFORT Associação Cultural
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Online, 18/04/2021 às 21:48:06h