Apologética

A falsa obediência de um continuísta: considerações sobre uma orientação de Ariel Lazari
Eder
 

Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra” (Filipenses II, 10).

 

Apareceu-me uma “orientação” de um leigo – Ariel Lazari – sobre a ordem de um bispo que, contrariando o ensino da Igreja – expresso no nº. 91 da Instrução Redemptionis Sacramentum – proibiu a comunhão de joelhos. O apologeta – conhecido por ser um adepto do continuísmo de sempre, ou seja, alguém que coloca a autoridade não somente acima da verdade católica, mas da própria realidade – recomendou ao seu seguidor que obedecesse ao bispo em sinal de virtude, pois a obediência – não ajoelhar diante de Cristo – é o melhor sacrifício.

Essa obediência cega, disposta até mesmo a violar os mandamentos e negar a devida reverência a Deus, foi objeto de crítica por São Francisco de Sales em suas Palestras Íntimas. Para alguém que pretende orientar almas na internet, convém conhecer bem o ensino dos santos e da Igreja:

“A respeito desta obediência – CEGA –, várias pessoas se enganaram muitíssimo, pensando que ela consiste em fazer-se a torto e a direito tudo quanto nos possam mandar ainda que seja contra os mandamentos de Deus e da Santa Igreja. Nisto erraram muitíssimo, transformando esta cegueira em loucura, quando de modo nenhum é loucura; é que assim como os superiores não têm poder para darem jamais ordem alguma contrária aos Mandamentos de Deus, da mesma maneira os súditos não têm nunca qualquer obrigação de obedecer em tal caso; e se o fizessem pecariam gravemente” (São Francisco de Sales. Palestras Íntimas, XII).

Que uma ordem dessa não deve ser acatada – proibição de dar a devida reverência a Deus – ensinou o Papa Bento XVI:

“Um sinal convincente da eficácia que a catequese eucarística tem sobre os fiéis é seguramente o crescimento neles do sentido do mistério de Deus presente entre nós; podemos verificá-lo através de específicas manifestações de REVERÊNCIA À EUCARISTIA, nas quais o percurso mistagógico deve introduzir os fiéis. Penso, em geral, NA IMPORTÂNCIA dos gestos e posições, como, por exemplo, AJOELHAR-SE durante os momentos salientes da Oração Eucarística” (Sacramentum Caritatis).

Quanto à recepção da Eucaristia, ensinou o mesmo Pontífice:

“... que façam o possível PARA QUE O GESTO, na sua simplicidade, CORRESPONDA AO SEU VALOR de encontro pessoal com o Senhor Jesus no sacramento(Sacramentum Caritatis).

Mesmo antes de se tornar o Papa Bento XVI, isto é, quando ainda era o Cardeal Joseph Ratzinger, o ilustre prelado nos concedeu boas iluminações que hoje servem contra certos bispos desobedientes:

“Há círculos — e círculos influentes, diga-se de passagem — que tentam nos convencer de que não há necessidade de se ajoelhar. Alegam que é um gesto inadequado à nossa cultura (mas qual *seria* adequado?); que não condiz com o homem maduro, que vai ao encontro de Deus de cabeça erguida; ou, no mínimo, que é impróprio para o homem redimido que, por meio de Cristo, tornou-se uma pessoa livre e — precisamente por isso — já não precisa se ajoelhar” (Joseph Ratzinger. O Espírito da Liturgia: Una Introdução. Madri: Ediciones Cristiandad, 2001, p. 209–210).

Contra esses círculos desobedientes, que pretendem proibir a devida reverência a Deus, ensinou o digníssimo Cardeal:

“O ato de ajoelhar-se não tem origem em uma cultura qualquer; ele encontra suas raízes na Bíblia e na experiência de Deus. A importância central desse gesto na Bíblia pode ser inferida, especificamente, de um fato: somente no Novo Testamento, a palavra ‘proskynein’ aparece cinquenta e nove vezes — vinte e quatro delas no Livro do Apocalipse, o livro da liturgia celeste, que é apresentado à Igreja como ponto de referência para a sua própria liturgia” (Joseph Ratzinger. O Espírito da Liturgia: Una Introdução. Madri: Ediciones Cristiandad, 2001, p. 210).

O prelado também argumenta recorrendo à natureza humana, lembrando que o ato espiritual – adoração – deve se manifestar por meio do gesto corporal:

“Detive-me longamente nestes textos porque neles se revela algo importante. Nas duas passagens que examinamos mais de perto, os significados espiritual e corporal da palavra ‘proskynein’ são absolutamente inseparáveis. O gesto corporal — enquanto tal — transmite um significado espiritual, a saber, o da adoração, sem o qual ele careceria de sentido; e o ato espiritual, por sua vez, deve NECESSIARAMENTE EXPRESSAR-SE — por sua própria natureza e em virtude da unidade físico-espiritual do ser humano — POR MEIO DO GESTO CORPORAL [...] A adoração é um daqueles atos fundamentais que envolvem o ser humano em sua totalidade. Portanto, dobrar o joelho na presença do Deus vivo é INDISPENSÁVEL” (Joseph Ratzinger. O Espírito da Liturgia: Una Introdução. Madri: Ediciones Cristiandad, 2001, p. 215–216).

Ajoelhar-se, diz o Cardeal, é adequado e NECESSÁRIO:

“A cultura moderna talvez não compreenda o gesto de ajoelhar-se, na medida em que é uma cultura que se afastou da fé e já não conhece Aquele diante de quem ajoelhar-se é o gesto adequado — e, de fato, interiormente necessário. Quem aprende a crer, aprende também a ajoelhar-se. Uma fé ou uma liturgia que desconhecesse o ato de ajoelhar-se estaria enferma em um ponto central. Onde quer que esse gesto tenha se perdido, é preciso reaprendê-lo, para que a nossa oração possa permanecer em comunhão com os apóstolos e mártires, em comunhão com todo o cosmos e em unidade com o próprio Jesus Cristo” (Joseph Ratzinger. O Espírito da Liturgia: Una Introdução. Madri: Ediciones Cristiandad, 2001, P. 219).

Por fim, essa mesma autoridade – que se tornou o Papa Bento XVI – chegou a dizer que a recusa em se ajoelhar é própria da essência diabólica:

“A incapacidade de se ajoelhar aparece, por assim dizer, como a própria essência do diabólico” (Joseph Ratzinger. O Espírito da Liturgia: Una Introdução. Madri: Ediciones Cristiandad, 2001, p. 219).

É importante observar que o desprezo pela comunhão de joelhos ocorreu entre os protestantes, que passaram a negar a presença real de Cristo na Eucaristia:

“Pelo contrário, Zwingli, Calvino e seus sucessores, que negavam a presença real, introduziram, ainda no século XVI, a comunhão na mão e de pé: ‘Estar de pé e movendo-se, para receber a Comunhão, era hábito’. Uma prática semelhante se observava na comunidade de Calvino em Genebra: ‘Era hábito mover-se e estar de pé, para receber a Comunhão. A gente estava de pé diante da mesa e recebia as espécies com as suas próprias mãos” (apud Athanasius Schneider. Dominus Est. Anunciai a Boa Nova, 2008, p. 52).

A recusa de receber Cristo de joelhos se tornou o símbolo da descrença herética no Dogma Eucarístico:

“Alguns sínodos da Igreja calvinista da Holanda, nos séculos XVI a XVII, estabeleceram formais proibições de receber a Comunhão de joelhos: “Nos primeiros tempos, a gente ajoelhava-se durante a oração e recebia a Comunhão ainda ajoelhada, mas alguns sínodos proibiram-no, para evitar toda a hipótese de que o pão pudesse ser venerado” (apud Athanasius Schneider. Dominus Est. Anunciai a Boa Nova, 2008, p. 52).

Para não estender demais – provando o elementar para um apologeta de internet – finalizaremos com o ensinamento de um Santo Cardeal (John Henry Newman):

“Acreditar e não mostrar algum sinal de reverência, um culto com familiaridade, segundo o seu próprio gosto, é coisa anómala e um fenómeno desconhecido mesmo pelas falsas religiões, não falando de verdadeiras religiões. Culto, formas de culto - como o AJOELHAR-SE, tirar os sapatos, fazer silêncio e coisas semelhantes - são considerados como NECESSÁRIOS para poder aproximar-se devidamente de Deus” (apud Athanasius Schneider. Dominus Est. Anunciai a Boa Nova, 2008, p. 47

A obediência contra a Fé não é virtude, mas um ato de rebeldia!

In Corde Maria Regina

Eder Moreira


    Para citar este texto:
"A falsa obediência de um continuísta: considerações sobre uma orientação de Ariel Lazari"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/apologetica/orientacao_ariel/
Online, 14/07/2026 às 16:34:48h