Apologética

Neo Paganismo e Bruxaria
Paulo Sérgio R. Pedrosa


Introdução

“Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares.

Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever.

Ficai alerta, à cintura cingidos com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz.

Sobretudo, empunhai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno.

Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus.”

(Carta de São Paulo aos Efésios, VII, 11-17).

Nos dias de hoje há uma preocupação crescente, principalmente entre os cristãos, com o acelerado desenvolvimento de seitas neopagãs no hemisfério Norte, que está se alastrando pelos Estados Unidos e Canadá, abarcando toda a Europa Ocidental e penetrando na Europa Oriental, pela Rússia principalmente.

Na América do Sul, não considerando as religiões animistas provenientes da África trazida pelos escravos, o paganismo tem se propagado entre os jovens por um aumento de interesse e até mesmo adesão à ritos da bruxaria moderna, mais conhecida como Wicca, devido principalmente ao sucesso de produções de Hollywood, tais como Harry Potter, Senhor do Anéis, e outros filmes nos quais a feitiçaria é tratada com simpatia.

Mais do que o paganismo Asiático, o paganismo ocidental é marcado pela rivalidade com o cristianismo, caracterizando-se como uma reação contrária à civilização cristã que se desenvolveu na Europa e em todo o Ocidente. O Neo pagão tipicamente é um cristão que rejeitou sua herança e busca um caminho diferente, mais adequado, segundo seu ponto de vista, ao estilo e pensamentos modernos.

A maioria das seitas neopagãs acredita estar reavivando uma “antiga religião”, inclusive algumas tentam demonstrar que tal religião sobreviveu a séculos de cristianismo, praticada por uns poucos indivíduos, o que dificilmente pode ser considerado seriamente, se estudado o desenvolvimento do cristianismo ao longo da Idade Média na Europa e no mundo Ocidental.

Efetivamente, o elo que muitas vezes une tais cultos pagãos é na verdade sua comum rejeição ao cristianismo e seus valores, enquanto todas seitas neopagãs demonstram uma grande tolerância a qualquer outra religião, inclusive adotando práticas e costumes de religiões orientais apesar destas pouco terem em comum com os antigos ritos pagãos ocidentais.

Do ponto de vista moral, o neo paganismo é naturalista e evolucionista, tendências que favorecem a aceitação de tópicos polêmicos presentes na agenda da sociedade contemporânea, como homossexualismo, aborto, eutanásia, sobrevivência dos mais aptos, controle de natalidade e liberdade religiosa, o que faz do neo paganismo uma religião com boa penetração nos ambientes governamentais, onde inclusive, ela tem angariado vários adeptos, seja no âmbito civil ou no militar. O exército americano, por exemplo, contratou sacerdotisas da Wicca como capelãs para algumas de suas unidades.

Outro traço marcante das seitas neo pagãs é a individualização da religião. Apesar de normalmente praticarem seus cultos em grupos, seus membros são incentivados a fazê-lo muitas vezes individualmente. Na maioria das vezes, tais cultos encetam rituais mágicos, geralmente para conseguir algum benefício individual para seus praticantes. Ou seja, o principal chamariz para os não iniciados, ou leigos, além da ideológica contraposição com o cristianismo, é a possibilidade de utilização de meios “extraordinários” para se conseguir objetivos materiais. A busca de uma eventual felicidade terrena, ou a obtenção de bens puramente materiais através de atos mágicos, de forma a individualizar a religião, supera à necessidade de normalização e referencial moral para convívio social. Daí também a extrema anarquia e liberalidade dos praticantes de tais cultos.

“Em resposta à religião monoteísta, que concentra todos os valores positivos em Deus, deixando a humanidade numa posição submissa, os neopagãos assumem uma visão de mundo pagã que alega que mitos são superiores, porque o politeísmo dá a seus aderentes uma grande independência, uma maior área de escolha, uma consciência mais serena, a medida que eles servem a uma variedade de deuses com interesses relativos, ao invés de um Deus absoluto. A natureza amoral dos deuses pagãos permite ao pagão descartar as limitações morais, e a longo prazo, adotar um reflexão livre de valores, enfocada não em melhoria moral, mas na melhoria das qualidades intelectual, psicológica e biológica” (A. R. Kayayan, Notes on Neo-Paganism, http://www.visi.com/~contra_m/cm/features/cm14_neopagan3.html ).

À parte as diversas seitas satânicas, que também têm experimentado um crescimento surpreendente nos últimos tempos, todas as seitas neo pagãs tentam se desvincular de sua imagem inerentemente demoníaca - principalmente as seitas de caráter mágico, como as diversas formas de Wicca, Asatru e Druidismo - alegando que adoram arquétipos representativos da natureza. Contudo, não faltam referências a miríades de deuses pagãos, especialmente deuses do período clássico, como Diana, Ártemis, Pan e vários outros deuses locais, dependendo da religião pagã que alegam ser sua fonte de inspiração, geralmente ídolos vinculados à natureza. E tais entidades, acreditam, se manifestam em seus cultos a ponto de serem “incorporadas” por seus sacerdotes ou sacerdotisas, como é o caso do ritual de “puxar a lua para baixo” da Wicca.

Os deuses dos pagãos são demônios” (Salmos XCV, 5), nos diz a Sagrada Escritura, contrariando à alegação dos praticantes da Wicca de que eles não adoram ao diabo.

Apesar dos neo pagãos proclamarem que sua religião remonta às antigas religiões pré-cristãs, a realidade é bem outra. Vários autores, dentre os quais alguns neo pagãos, identificam como nascedouro de suas práticas religiosas o ocultismo, inclusive o ocultismo satânico, do século XIX e início do século XX, principalmente a sociedade Teosófica de Madame Blavatsky, a Sociedade secreta Golden Dawn e a Ordo Templi Orientis de Aleister Crowley, todas estas com matizes satânicos.

Além do indiferentismo religioso que permeia a civilização ocidental desde praticamente a metade do século XX, e mais precisamente entre os católicos, desde o concílio Vaticano II, outro fator que marcadamente favoreceu a evolução do paganismo moderno foi o movimento da Nova Era. Esta se apresenta como uma forma de paganismo prolixo e indefinido, mais apropriadamente como um compêndio ou síntese de superstições, especialmente as de origem oriental, que muito agitou e perturbou as décadas de 80 e 90 do século passado.

O neo paganismo tem conseguido grande projeção e influência no mundo de hoje, principalmente por causa de suas afinidades e peculiaridades que o faz aderente à agenda política mundial, principalmente aquela defendida seja abertamente ou de maneira velada, pela ONU e, de uma maneira mais abrangente, pelas sociedades secretas.

A visão de um mundo paganizado ao mesmo tempo aterroriza e motiva aos católicos, pois recorda a perseguição e a coroa do martírio, que tantos suportaram com valentia e fé, com muita fé, nos primórdios da Igreja. Mártires católicos, que perante Roma pagã não compactuaram com sua moral decadente e não aceitarem a outros deuses e outras religiões que não a Igreja Católica do Deus Todo Poderoso.

Capítulo 1 – Um breve Histórico do Neo Paganismo

Wicca e Neo Paganismo Celta

Os adeptos da Wicca e do Neo Paganismo proclamam que suas tradições são as mesmas da antiga religião celta, pré-cristã, das ilhas britânicas.

Apesar de que, em todos os povos, certas tradições antigas passarem de geração em geração muitas vezes sob a forma de folclore, algumas destas tais tradições alegadamente remanescentes da cultura celta, invocadas principalmente pelos praticantes da Wicca, são a reconstituição de termos, noções e práticas do chamado período europeu de caça às bruxas europeu, que basicamente ocorreu entre os séculos XV e XVII, e não tem relação direta com as religiões anteriores ao catolicismo.

De acordo com o historiador inglês, Ronald Hutton, que nutre certa simpatia pelo paganismo, a origem do neo paganismo bretão remonta ao século 19, como disse em uma entrevista ao programa Radio National Americana, no dia 17 de julho de 2001, à repórter Rachael Kohn, e que está transcrita no site http://www.abc.net.au/rn/relig/spirit/stories/s313218.htm:

“HUTTON: (...) O que acontece na Inglaterra no século 20 é que as pessoas tentam pular 1000 anos de fé cristã de forma a tirar idéias de mundos antigos, especificamente para os tempos atuais, para o feminismo, a preocupação ecológica, e de crescimento individual.

KOHN: Então você está dizendo que o movimento neopagão atual deve suas origens ao ano 1000, ou seja, à Idade Média?

HUTTON: Eu digo que o movimento pagão moderno deve suas origem aos últimos 200 anos. Você pode começar a notar que as raízes das mesmas idéias citadas acima começaram no movimento Romântico de cerca do ano 1800 onde muitos dos impulsos emocionais e necessidades que produziram o paganismo moderno estavam aparecendo rapidamente.”

Os princípios básicos da Wicca, ou bruxaria moderna, são creditados a Gerald Gardner, na década de 1940, na Grã-Bretanha. Foi este mesmo que proclamou que a Wicca provém de uma religião celta ancestral que sobreviveu ao cristianismo, e que ele fora iniciado por uma família de bruxos. Tal mitologia é muito arraigada entre os seguidores dos cultos neopagãos, tanto que é largamente difundida em seus livros (vide Raymond Buckland, Wicca. Um Estilo de Vida, Religião e Arte, Ed. Nova Era, 2a. edição,2003, pags. 21 e 22), e popularizados no cinema e na literatura, pela na série Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, e nos livros de Harry Potter, de J. K. Rowling.

Mas hoje isto é largamente contestado por estudiosos do assunto, e mesmo por estudiosos neopagãos. Segundo o recém lançado livro, Voices from the Pagan Census, A National Survey of Witches and Neo-Pagans in the United States, um trabalho de pesquisa e análise de dados conduzidos por Helen Berger, Evan Leach e Leigh Shaffer:

“Os estudiosos do assunto não encontraram evidências para apoiar a noção de que há uma ligação contínua entre religiões pagãs européias e as modernas práticas neopagãs. A noção da Wicca ser uma religião antiga – ou a religião antiga – faz parte da mitologia desta nova religião” (Berger, Leach & Shaffer, Voices of the Pagan Census, University of South Carolina Press, p. 8).

Portanto, é falsa a noção de que as modernas religiões neopagãs sejam descendentes diretas da religiões européias antes da difusão do cristianismo.

Os adeptos da Wicca, que é sem dúvida o maior e mais importante religião Neo Pagã, alegam que suas tradições, rituais e magias, têm vínculo direto com os antigos homens e mulheres “habilidosos”, comuns na Inglaterra do século XIX, que realizavam ‘curas mágicas’, achavam objetos perdidos, etc. (algo similar às populares benzedeiras, que ainda encontramos em algumas cidades do interior no Brasil). Porém:

“Baseado em pesquisa extensiva de folcloristas, Hutton concluiu que as mulheres e homens ‘habilidosos’ que realizavam mágicas para curar, achar objetos perdidos, ou garantir uma boa colheita eram comuns na Inglaterra em todo século XIX. Tais indivíduos eram todos cristãos que iam à igreja e não se consideravam praticantes de uma religião alternativa” (Berger, Leach & Shaffer, Voices of the Pagan Census, University of South Carolina Press, p.11).

Ronald Hutton atribui uma certa maternidade da Wicca a Margaret Murrey, uma egiptologista e folclorista, que criou o mito de que um coven de bruxas secreto sobreviveu ao julgamento e à caça às bruxas no início da idade moderna, e fomentou a crença de que a antiga religião celta cultuava um deus da caça e uma deusa da fertilidade.

Ainda segundo Hutton, o pai da Wicca seria Aleister Crowley, um ocultista famoso do final do século XIX e princípio do século XX, que apresentou um sistema de magia codificado, especialmente magia sexual. Segundo Crowley, mágica é “a arte ou ciência de causar mudanças de acordo com a vontade”, uma definição que é comumente utilizadas pelos círculos neopagãos.

Talvez a raiz mais profunda do neo paganismo moderno seja mesmo o movimento romântico do início do século XIX. Como forma de contraposição à sociedade racionalista moderna, o romantismo tinha as sociedades pagãs como mais puras e autênticas. Com a literatura romântica, o paganismo clássico se tornou objeto de estudo, tonando-se o deus pagão Pan uma figura importante na literatura romântica. O gnosticismo do romantismo acabou fazendo com que a religiosidade gnóstica do oriente começasse a penetrar nos círculos elitistas da sociedade, abrindo-se assim o caminho para Madame Blavatsky e sua sociedade teosófica, que procurava compatibilizar uma pseudo ciência com a filosofia e religiosidade orientais.

E a Teosofia, juntamente com o ritualismo maçônico, deu origem à sociedade Golden Dawn, cujas práticas ritualística foram em boa parte incorporadas pela Wicca, e adotadas pelos Neo Pagãos.

Asatru, o Neo Paganismo Nórdico

O Neopaganismo nórdico, conhecido como odinismo ou asatru, é bem menos difundido e possui bem menos aderentes do que o Neopaganismo que se diz de origem celta.

Também os odinistas pretendem serem os herdeiros de uma cultura que ‘sobreviveu’ ao cristianismo, nos países nórdicos e na Grã-Bretanha. O odinismo adora os deuses nórdicos da guerra e a deusa da fertilidade. Usam o surrado argumento de que o catolicismo converteu a elite, mas o povo do interior continuou fiel à tradição pagã. Isto, óbvio, é uma canhestra tentativa de aplicação da teoria da luta de classes de Marx à religião. A cultura de um povo é moldada pela elite, e todos os movimentos populares, sejam religiosos, políticos ou sociais, só conseguem se concretizar se houver apoio das camadas mais esclarecidas ou poderosas da sociedade.

Como disse anteriormente Hutton, não existem registros históricos de que religiões pagãs tenham sobrevivido à cristianização de maneira oculta.

Religião oculta que sempre existiu, e que de vez em quando se mostra à tona, como uma seita ocultista, ou neopagã, como se diz hoje em dia, é a gnose, que é mãe de todo ocultismo pagão, e é a anti-religião por natureza, arquitetada pelo próprio demônio aproveitando-se das tendências más do homem decaído, e oposta à verdadeira religião, que é a Católica Apostólica Romana, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo sobre Pedro.

Em seu livro, Gods of the Blood, o professor da universidade de Estocolmo, Mattias Gardell, diz que a “avó” da renovação do odinismo folclórico foi Elsie Christiansen, uma exilada dinamarquesa e anarquista com um pitoresca historia de dissidência vinculada ao anarquismo e socialismo internacional, e que foi vivamente influenciada pela obra Imperium, de Francis Parker Yockey, uma obra de apologia do fascismo. Segundo Gardell esta obra do neo nazista Yockey influenciou fortemente o princípio da Asatru no mundo ocidental.

Gardell também mostra em seu livro como as convicções dos odinistas são animadas por pensamentos derivados de Nietzche, do historiador Oswald Spengler, de Carl Jung, e de místicos racistas.

Hoje em dia, os membros da ASATRU tentam se livrar da pecha de neonazistas, dizendo-se apenas uma seita que ama a natureza, e adora deuses nórdicos, etc. da mesma forma que os praticantes da Wicca dizem que não são satanistas.

Evidentemente, não se deve pensar que os adeptos da Asatru são todos racistas ou neo nazistas. Muitos deles alegam que religião e política não devem se misturar, e seguem sua superstição adorando seus ‘deuses’ e praticando sua ‘magia’, que é baseada em runas nórdicas. Contudo, como o nazismo e o racismo estão nas raízes do odinismo, não se pode desvincular as suas causas de sua situação atual. Odinistas que se dizem contrários ao racismo, ou melhor dizendo, ao eugenismo, seriam como satanistas que dizem não acreditar em satã.

Outros cultos Neo Pagãos

Dentre as outras superstições que tem se alastrado, à parte as supracitadas, podemos contar outros que aparecem mais nos EUA, mas que tem pouco impacto em outros países, como os Adoradores da Deusa, que é um grupo extremamente vinculado ao feminismo ativista e possui entre seus adeptos um número muito maior de mulheres do que de homens. Existem também os Druidas, que também alegam ser uma religião celta, o xamãnismo, que é mais vinculado ao paganismo indígena norte americano e a Igreja Universalista Unitária, que é uma igreja que congrega neo pagãos, judeus, budistas, etc., como se fosse uma L.B.V. Americana.

 

Capítulo 2 – Causas do Ressurgimento do Paganismo

É certo que o paganismo começou a mostrar-se mais visível com o Renascimento, que adotou a cultura pagã grega e romana como fonte de inspiração artística. Mais tarde ele veio  a ser revigorado, disfarçado sob a forma de ateísmo, durante a Revolução Francesa, com os jacobinos e seu anticatolicismo radical, e cultuado na forma da deusa razão, que era representada sempre usando um barrete frígio, o mesmo usado nas representações do culto de Mithra, uma espécie de missa negra primitiva, combatida por São Justino:

“Devemos mencionar que Mithra usava um barrete frígio, como aqueles adotados pelos revolucionários franceses...” (Solange Hertz, Is the black Mass Valid?, http://www.cathinsight.com/apologetics/hertz1.htm)

Contudo, o paganismo que tem se revelado hoje no mundo ocidental tem suas causas mais recentes principalmente na filosofia humanista e nas sociedades secretas surgidas no século XIX.

 

Gnose,  a religião do diabo

Dois amores deram nascimento a duas cidades: a cidade terrestre procede do amor de si até ao desprezo de Deus; a cidade celeste procede do amor de Deus levado até ao desprezo de si(Santo Agostinho, De Civitas Dei, lib. XIV, c. 17).

Sem pretender aprofundar o estudo da gnose, da qual se pode conseguir melhores informações no artigo Gnose: Religião Oculta na História, de autoria do professor Orlando Fedeli e no Espaço do Leitor, na seção sobre Gnose, procuramos explicar qual é a relação da gnose com a crescente onda de paganismo que assola o mundo.

Gnose significa conhecimento. Não um conhecimento que pode ser alcançado com o uso do intelecto, mas um conhecimento místico, uma espécie de iluminação, que pretende ser “magicamente” adquirida pelo iniciado.

No que consiste tal conhecimento “mágico”?

Segundo a explicação mais comum que a gnose utiliza para a criação do universo, no começo Deus era tudo que existia, o todo era divisível, e todas as partículas resultantes dessa divisão (éons) eram idênticas entre si. Cada partícula era idêntica ao todo; assim, cada parte se reconhecia no todo e o todo se reconhecia em cada parte...

Isso permaneceu assim até o surgimento de um éon diferente. Como este era diferente, os outros não se reconheciam nele. Isso causou, de alguma forma, a criação do mundo material e o aprisionamento dos éons (partículas divinas) na matéria.

Foi então que, segundo a teoria gnóstica, o demiurgo (a divindade má em essência, porque era diferente) criou o mundo material e aprisionou a divindade boa nele. O papel do gnóstico então seria conseguir o “conhecimento” para liberar a divindade contida na matéria, ou mais especificamente, nele mesmo.

Assim, enquanto que para os cristãos Deus salva o homem, para a gnose, o homem salva  Deus.

Daí também a pretensão metafísica do homem de efetivamente ser Deus.

Os pagãos alegam que sua religião é muito antiga, e eles têm razão nisto, se considerarmos em última instância sua religião é a gnose, pois está escrito no Gênesis, capítulo 3, versículos 1 a 6:

A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse a mulher: É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?

A mulher respondeu-lhe: Podemos comer do fruto das árvores do jardim.
Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: “Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais.”

 “Não! – tornou a serpentevós não morrereis!

Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.”

A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para abrir a inteligência, tomou dele, comeu, e o apresentou também ao seu marido, que comeu igualmente.”

Assim, a serpente (o demônio) seduziu a Eva e esta a Adão para comer da árvore do conhecimento (Gnosis em grego) pois assim – através do “conhecimento” – eles seriam deuses. Eis a fundação da gnose.

No sistema religioso gnóstico, não existe uma entidade superior transcendental, ou seja, um Deus sobrenatural, exterior à natureza. A divindade estaria aprisionada dentro da própria natureza. Deus seria imanente ao mundo. Dessa forma, para o gnóstico a matéria é má.

O panteísmo é uma forma grosseira de traduzir a imanência divina, identificando a divindade com o universo material, e preparatória para a Gnose, ao identificar a divindade com a matéria. Assim, contrariamente à gnose, o panteísmo passa a ver a matéria como boa, pois a identifica com a própria divindade.

Panteísmo significa exatamente isto: tudo é divino. Assim sendo, não se espera de uma pessoa cujo pensamento seja essencialmente panteísta que acredite em Deus separado da natureza, ou que acredite na graça sobrenatural. Para ele, tudo o que acontece, seja no âmbito visível (mundo material) ou no invisível (mundo espiritual), acontece de acordo com leis naturais, conhecidas ou não.

No paganismo, adotou-se quer o panteísmo, quer a Gnose. Conforme diz o Padre Festugière, em sua grande obra sobre Hermes Trismegisto, havia no mundo greco-romano duas religiões: uma otimista e panteísta, que divinizava a matéria; outra pessimista, gnóstica, que considerava a matéria má (Cfr. R. P. Festugière, La Revélation de l´Hermes Trismegite, Lecofre Gabalda, Paris, 1954, 4 vol.).

No paganismo panteísta, cultuam-se diversas entidades naturais, diretamente vinculadas ou relacionadas com o mundo material. No fundo, as divindades pagãs refletem o próprio homem com suas fraquezas e misérias.

O neopaganismo se manifesta mais perfeitamente panteísta que o paganismo antigo, no sentido de que mais diretamente adora a natureza, mesmo que em seus cultos sejam envolvidas entidades espirituais, que em seu entendimento também são naturais.

O pai da gnose, e por conseguinte do panteísmo, é o mesmo demônio que tentou Adão e Eva no paraíso, para que comessem do fruto do conhecimento do bem e do mal. Dessa forma , de acordo com o demônio, eles se tornariam como deuses. E assim, hoje, o homem come do fruto da gnose, que é a mentira essencial, pois ele se acredita deus, negando a graça sobrenatural e a existência de um Deus transcendental criador do Universo.

 

O ressurgimento do paganismo  durante um século cético.

O século XIX passa a dirigir sua rebeldia diretamente contra Deus, como uma sucessão do iluminismo, onde se faz substituir Deus pela ciência.

Assim como Karl Marx tenta dissociar a história da influência direta de Deus, Charles Darwin também pretende dissociar os fenômenos naturais e a própria natureza da ação divina.

Aliado e conseqüente a isso, assistimos também o fenômeno da industrialização, que mudou os conceitos de produção e transformou a sociedade, desumanizando as relações de trabalho e dando início ao capitalismo liberal e selvagem.

Parte da elite européia, sentindo-se decepcionada em face a um mundo cada vez mais ateu e secularizado, onde a ciência tudo pretendia explicar, e tendo sido em grande medida desacreditada a religião, acabou por mergulhar inicialmente na descoberta das religiões orientais, e posteriormente, no surgimento de sociedades secretas mágicas e do espiritismo pseudocientífico, como o de Kardec, por exemplo. Ao se rejeitar a verdade revelada por Deus, e guardada pela Igreja, foi-se buscar no ocultismo e no paganismo as respostas que a ciência não podia  fornecer, e encontrou-se na gnose um paralelo para os novos conceitos evolucionistas e marxistas que surgiam com força na época.

            A verdade, porém, é que se pode deduzir justamente o contrário. Sendo a gnose, em última instância, a mãe e nutriz da teoria da evolução de Darwin e do Marxismo de Karl Marx.

            Normalmente, o racionalismo positivista produz, por reação e por aprofundamento de seu princípio imanentista, uma ressurreição da Gnose. O panteísmo imanentista leva à Gnose imanentista, que substitui o espírito à matéria, como a essência da Divindade imanente.         

 

A influência do evolucionismo no naturalismo pagão.

Qual seria a influência da teoria da evolução das espécies, de Darwin, e o seu impacto numa expressão religiosa como o neopaganismo? Apesar da aparente contradição, é puro exercício de lógica inferir tal compatibilidade se pesquisarmos um pouco mais a fundo.

Consideremos a gnose, com sua ancestral crença na depuração  através de reencarnações, sempre apontando para uma melhoria do indivíduo, almejando num futuro distante liberar a centelha divina de sua prisão material. É impossível não enxergar certo paralelo na evolução das espécies, objetivando de alguma forma melhorias sucessivas nas espécies, projetada numa abstrata convergência num futuro eternamente distante.

Consta que Alfred Russel Wallace, o "co-autor" da teoria de evolução através da seleção natural com Charles Darwin, era, de fato, um espírita declarado.

Wallace era um dos líderes do “revival” do "espiritualismo" que estava ocorrendo na Inglaterra em seu tempo.

E consta ainda que ele “descobriu” a seleção natural de maneira estranha, como ele mesmo descreveu:

O método inteiro de modificação da espécie ficou claro para mim, e nas duas horas de meu ajuste eu tinha idealizado os pontos principais desta teoria”.

É curioso e significativo que um “insight” de um espírita tenha influenciado o rigoroso Charles Darwin em seu trabalho de longa data sobre a evolução das espécies...

A teoria da evolução das espécies, que hoje é contestada agressivamente nos meios acadêmicos mundiais, teve uma espantosa máquina de propaganda que infundiu seus conceitos de tal maneira no subconsciente ocidental, que a cultura ocidental passou a encarar  tudo como um processo evolutivo, desde a biologia, o campo original de Darwin, passando pela praxis do marxismo, pelo enfoque histórico e pelas religiões, chegando mesmo a contaminar alguns paleontólogos ditos católicos, como Teilhard de Chardin, por exemplo.

Portanto, não é de se estranhar que a Wicca e muitas seitas neopagãs, principalmente as de fundo mais ambientalista, sofram uma forte influência da teoria da evolução das espécies de Darwin, principalmente por que a identificam com suas crenças, ao traçar um paralelo místico-religioso com as  teorias reencarnacionistas adotadas pela quase totalidade delas.

Assim, Buckland afirma, baseado na contestável teoria de Darwin, que:

“Os australopitecos do leste e sul da África, os primeiros primatas eretos, evoluíram dos primatas vegetarianos para se tornarem caçadores, predadores, comedores de carne”  (Raymond Buckland, Wicca, um estilo de Vida, Religião e Arte, editora Nova Era, p.12).

Isso ilustra, em certa medida, o caldo confuso das crendices neopagãs, que adotam, por costume, indução ou voluntariamente, por teorias, sem fundamento científico maior, para, como o espiritismo, dar um certo ar pseudocientífico às suas superstições.

Outra pseudociência que provoca grande impacto na sociedade contemporânea, apesar dela de certa forma ser “subterrânea”, é a Eugenia. A Eugenia, que é uma disciplina derivada do evolucionismo, está por trás da maciça promoção do aborto e da eutanásia mundo afora.

Conseqüência lógica do evolucionismo, a eugenia diz que se as espécies se transformam por “seleção natural”, existindo raças inferiores e raças superiores.

O próprio Darwin declarava: “Entre os selvagens, os corpos ou as mentes doentes são rapidamente eliminados, os homens civilizados, entretanto, constróem asilos para os imbecis, os incapacitados e os doentes e nossos médicos põem o melhor de seu talento em conservar a todos e cada um até o último momento, permitindo assim que se propaguem os membros fracos de nossas sociedades civilizadas. Ninguém que tenha trabalhado na reprodução de animais domésticos, terá dúvidas de que isto é extremamente prejudicial para a raça humana”. (Charles Darwin, The Descent of Man, Chapter 5 - On the Development of the Intellectual and Moral Faculties During Primeval and Civilised Times, http://www.book-worm.org/darwin-charles/the-descent-of-man/chapter-05.html)

Essa terrível declaração de Darwin inspirou seu primo Galton a criar a teoria eugenista, aplicada a seres humanos: a substituição da “seleção natural” por uma mais “voluntária”. As organizações caritativas, ao assumir o cuidado de pobres e doentes (tidos por ele como tarados, inferiores ou incapazes), impedem que a “seleção natural” atue.

Então a eugenia propõe tratar os doentes e idosos como os selvagens o fazem: eliminando-os. A partir daí, a eugenia assumiu a distinção entre raças inferiores e superiores, e propôs métodos “científicos” de acelerar o processo de “seleção natural” de forma a surgir uma “super- raça”. Patente é portanto o vínculo entre evolucionismo, eugenia e o nazismo, que fez a sua aplicação prática plena.

A moral cristã do ocidente é um enorme  empecilho para a implantação de medidas eugênicas, ao passo que as religiões pagãs, principalmente as panteístas, como as seitas neopagãs modernas, são muito mais adaptáveis a tal raciocínio, principalmente por dois motivos:

1 – Adoração da natureza e noção de que o equilíbrio natural é de importância capital.

2 – Crença na reencarnação.

O todo vale mais do que o indivíduo, e sem os limites morais impostos pelo cristianismo, efetivamente se pode atuar controlando a vida e morte dos cidadãos para se manter um pretendido equilíbrio de qualidade de vida, meio ambiente e utilização de recursos não renováveis, entre os quais costumam ser relacionados a água potável, fontes de energia, florestas, etc. Além do mais, a crença na reencarnação permite aos pagãos inferir que um indivíduo sacrificado por ter uma “baixa qualidade de vida” poderia reencarnar em um futuro indeterminado, talvez com uma “qualidade de vida” melhor.

Atualmente o eugenismo é exercido através dos programas de controle de natalidade e aborto promovidos pela ONU e por várias organizações de alcance mundial, como a Planned Parenthood; pela fecundação in vitro de embriões; pela promoção global do homossexualismo (pois relações homossexuais não geram filhos, obviamente); pela promoção da eutanásia, que tem sido implantada em alguns países nórdicos; pelo projeto genoma humano; pela influência estatal na estrutura familiar, seja através de planejamento familiar, seja pela deturpação e desvalorização da estrutura familiar, com a promoção do divórcio e do casamento entre homossexuais.

E todos os tópicos relacionados acima são amplamente aceitos e defendidos pela comunidade neopagã mundial através de um apoio ativo e participativo (vide Berger, Leach & Shaffer, Voices of the Pagan Census, University of South Carolina Press).

 

Esoterismo/satanismo dos fins do século XIX.

A fonte primordial  do esoterismo no século XIX é indubitavelmente o romantismo, com a sua rejeição ao mundo cada vez mais materialista, e com sua mística profundamente gnóstica. Foi no romantismo que ressurgiram com força referências a algumas divindades pagãs, como Pan, por exemplo. O romantismo têm suas raízes profundamente fincadas na Gnose, como demonstrado no artigo Origens Do Romantismo Alemão do professor Orlando Fedeli.

There is a pleasure in the pathless woods,
There is a rapture on the lonely shore,
There is society, where none intrudes,
By the deep Sea, and music in its roar:
I love not Man the less, but Nature more,
From these our interviews, in which I steal
From all I may be, or have been before,
To mingle with the Universe, and feel
What I can ne'er express, yet cannot all conceal.

Lord Byron (1759-1824) English poet

Há nas matas cerradas um prazer
Há nas encostas solitárias um arrebatamento,
Há sociedade, onde ninguém pode intrometer,
Pelo mar profundo, e música em seu lamento:
Eu não amo menos ao Homem, mas à Natureza mais,
Dessas nossas entrevistas, nas quais capturo
De tudo que eu possa ser, ou tenha sido tempos atrás,
Para me misturar ao Universo, e sentir puro
O que nunca posso expressar, ainda que não possa esconder

(Tradução livre)

Os versos de  Lorde Byron dão o tom do esoterismo panteísta do século XIX, principalmente na Inglaterra onde este floresceu grandemente.

Desiludidos sobre a possibilidade de construir uma sociedade organizada racionalmente sem alusão a um Deus transcendente, os Românticos propagaram filosofia e teologia gnósticas. O Romantismo manteve que a experiência emocional é o propósito da vida, rejeitando o materialismo, mesmo na prática.

Tal visão sentimental e irracional permitiu o fortalecimento das sociedades secretas da época, principalmente da maçonaria, grandemente influente desde a revolução francesa e a independência americana, e da ordem rosa-cruz, esta de caráter mais místico que a anterior,  fundamentada no cabalismo e no ocultismo renascentista.

Doreen Valiente, alta sacerdotisa que trabalhou diretamente com Gerald Gardner, o pai da Wicca, coloca em evidência o vínculo da maçonaria e da rosa cruz  com a wicca:

“Outra tradição à qual os rituais de Gardner devem prestar tributo é a da maçonaria. Graças ao trabalho de escritores como Walton Hannah, o leitor ordinário está apto a descobrir muito sobre ritual maçônico que antes estava disponível. Podemos portanto ver que existem termos como ‘ferramentas de trabalho’, a referência ao candidato ter sido ‘propriamente preparado’ para a iniciação, a ‘carga’ que é lida para o novo iniciado, e a existência de três graus através dos quais o iniciado deve avançar, que são todos reminiscências  de procedimentos maçônicos  quando encontrados nos rituais de bruxaria. De fato, tanto os maçons como as bruxas  hoje se referem a seus cultos como”a obra”. O terceiro grau das bruxas se referem aos “cinco pontos da amizade’, exatamente como o terceiro grau da maçonaria faz, apesar de um significado diferente. Na iniciação do terceiro grau, o candidato é vendado, com um corda colocada no pescoço e é admitido sobre a ponta de um instrumento de corte afiado, tanto na bruxaria Gardeniana quanto na maçonaria.”

“E o que tais semelhanças significam? Foi argumentado que existe uma conexão ancestral entre os rituais de bruxaria e da maçonaria. Pode até ser, mas é um fato que Gerald Gardner e Dafo eram membros dos Co-maçons. Co-maçonaria é uma derivada da maçonaria que permite a admissão de mulheres, algo que, é claro, A Grande Loja Unida da Inglaterra proíbe. Ela se originou na França e se espalhou pela Inglaterra em 1902, quando a primeira Loja Britânica foi fundada em Londres. Foi nesta loja que a famosa líder da Sociedade Teosófica,  Annie Besant, foi iniciada e se tornou a delegada nacional para a Grã Bretanha, e em 1922 a Co-Maçonaria era afiliada ao Grande Oriente da França. Quando Annie Besant morreu, sua irmã, Mabel Besant-Scott, se tornou a líder da Co-maçonaria na Grã Bretanha E a senhora Mabel Besant-Scott era vizinha de Gerald Gardner em Highcliffe, próximo a Christchurch, no limiar de New Forest. Ela também era um membro líder da Irmandade Rosacruz de Crotona” (apud Doreen Valiente, The Rebirth of Witchcraft, London: Robert Hale, pp. 55-56).

Outra grande influência no esoterismo dos fins do século XIX foi a Teosofia de Blavatsky.

Ela começou a partir da investigação de fenômenos espirituais falsos, feita pelo Coronel  Henry Olcoltt, de Nova York. Logo, este se associou à auto proclamada médium russa Helena Petrovna Blavatsky, que o enganou por meio de truques, fazendo-o crer na autenticidade de seus dons parapsicológicos. Desta forma, Madame Blavatsky fundou junto com Olcott a Sociedade Teosófica, com grande influência do misticismo oriental, e com o tempo ganhou grande projeção não só nos círculos iniciáticos americanos, como também nos europeus.

A Golden Dawn foi uma sociedade secreta influente nos fins do século 19 e início do século 20, fundada pelo Dr. William Wynn Wescot médico legista de Londres e também  rosacruz. A Golden Dawn possuía uma hierarquia de dez graus correspondentes aos dez sephirots da árvore da vida da Cabala. Seus líderes foram Wescott, Mathers e Dr. W. R. Woodman. Mais tarde a Golden Dawn passaria a ser liderada por W. B. Yeats. Aleisteir Crowley, o avô da bruxaria moderna, iniciou-se no ocultismo nas fileiras da Golden Dawn, onde obteve um avanço vertiginoso em seus mistérios, mas foi expulso por ter travado uma batalha mágica contra Mathers, onde ocorreram invocações de demônios de ambas partes.

Aleister Crowley, ao sair da Golden Dawn, aderiu à O.T.O. (Ordo Templi Orientis), onde se destacou grandemente, e de onde provém a influência de magia sexual que a Wicca acabou recebendo via Gerald Gardner.

A O.T.O. foi fundada por Theodor Reuss e por Carl Kellner, ambos maçons, no início do século XX. Kellner, estudioso de Hatha Yoga e exercícios tântricos, aliou-se a Reuss. Juntos, decidiram cobrir o círculo de Hatha Yoga de Kellner com um círculo externo, de onde eles poderiam selecionar os membros maçônicos com maior potencial para se tornarem praticantes da Yoga. Com a morte de Kellner, em 1904, Reuss organizou a O.T.O. em dez graus, dos quais o 8o e o 9o praticavam magia sexual.

O satanismo organizado, por sua vez, não existia antes do século XVII. No século XIX, o satanista mais famoso foi o Abade Boullan da França, que dirigia uma igreja do Carmelo, onde se dizia que praticava magia negra e sacrifício de crianças. Ela foi fundada por Eugene Vintras em 1839 e condenada pelo papa em 1848. Em 1875, Boullan assumiu o comando da igreja do Carmelo, após a morte de Vintras. Ele dirigiu o grupo por 18 anos, até sua morte. Externamente a seita mantinha praticas piedosas, enquanto secretamente conduzia rituais satânicos. Boullan ensinava aos seus seguidores técnicas sexuais.

Estas seitas ocultistas serviram de “background” para o surgimento do paganismo, que se proliferaria mais fortemente na primeira metade do século XX sob influência dos regimes fascistas e nacionalistas do período.

 

Sistemas totalitários e paganismo na primeira metade do século XX

O nazismo é um fenômeno típico da civilização européia. Ele surgiu a partir das seitas ocultistas do século XIX e do início do século XX, tais como Thulle Geslschaft e a Sociedade do Vrill  alemãs e a Golden Dawn inglesa. O próprio Hitler pertenceu à gnóstica Sociedade do Novo Templo alemã.

No caso específico do nazismo, muitas de suas raízes ocultas levam diretamente a Madame Blavatsky e sua Sociedade Teosófica. Algumas sociedades secretas alemãs abraçaram idéias teosóficas, da mesma forma como adotaram algumas das doutrinas de Nietzche,  notadamente  suas teses eugênicas do superhomem. Aliás, a doutrina de Blavatsky defendia que existiriam seis raças básicas, das quais a Ariana faria parte, e que haveria uma futura raça, evolucionariamente superior.

Contudo, o principal meio de difusão do sentimento pagão vinculado ao nazismo eram os filósofos e figuras influentes tais como Friedrich Nietzche. Nietzche alegava que “quando a Europa se tornou cristã, a humanidade européia se tornou decadente”. De acordo com Nietzche, “o cristianismo suprimiu tão grandemente os impulsos vitais do corpo que a humanidade perdeu sua criatividade” (sic).

Nietzsche ensinou o que Jung vai essencialmente repetir, que o fator irracional não deve nem ser eliminado nem inteiramente controlado pela razão que busca a ordem, mas deve de alguma forma ser integrado em nossas vidas (irracionalismo gnóstico).

Carl Jung, por sua vez, teve um papel de destaque na difusão da cultura pagã na Alemanha nazista, pois tentou reviver os rituais teutônicos e era adepto do paganismo dionisiano, propagador da liberdade sexual naqueles tempos.

A Alemanha nazista promoveu o renascimento do paganismo germânico como forma de dar espiritualidade para o arianismo, buscando uma forma de religiosidade inerente à raça Ariana.

As teorias promovidas pelas sociedades secretas alemãs eram amplamente aceitas por Hitler. ”A missão histórica do povo alemão seria então redescobrir suas raízes pagãs ancestrais ao erradicar da Europa tudo que poderia escondê-las. O ódio implacável dos Nazistas contra toda a tradição judaico cristã,  dessa forma, fica muito mais compreensível. A ênfase que seu evolucionismo darwiniano deu ao aspecto biológico da pureza da raça, e a obsessão por uma nação autenticamente alemã, levou os Nazistas ao projeto contra os judeus (um grupo identificado tanto racialmente quanto espiritualmente como impuro) e à vontade de eliminar um mal concebido como sendo espiritual e racial. Assim, a política de extermínio pelos  nazistas tem uma dupla raiz, a raiz biológica pseudo-científica através do evolucionismo, e a raiz espiritual e satânica através do oculto” (Jean-Marc Berthoud, La foi chretienne et le retour du paganisme, http://www.creationism.org/csshs/v14n4p19.htm).

De acordo com William L. Shirer, em seu livro The Rise and Fall of the Third Reich:

“O regime nazista tentou destruir o cristianismo na Alemanha, se pudesse, e substituí-lo por um paganismo antigo dos deuses tribais germânicos e o novo paganismo dos extremistas nazistas”

“O nazismo é uma manifestação de forças pagãs e românticas em tempos de profunda, e especificamente alemã, humilhação...”

“ Hitler e os nazistas queriam nada menos que a “re-barbarização” do povo alemão. O renomado historiador alemão Hajo Holborn escreveu que “o anti semitismo foi o maior instrumento de sua política de barbarização...”

“Hitler... queria, de fato, reerguer a árvore sagrada pagã dos saxões que São Bonifácio derrubara mil e duzentos anos antes. A fonte deste pensamento, de acordo com Alan Bullock, era um “Darwinismo cruel”,  no qual a luta era a chave da existência...”

“O estado Nazista era uma abominação quase inimaginável para aqueles que não sofreram suas torturas, tanto súbitas quanto terríveis. Como a Rússia stalinista, que Hitler conscientemente copiou, a Alemanha Nacional Socialista repudiou a tradição civilizada de governo que se desenvolveu a partir do período medieval. Hitler e seus acólitos brutal e maliciosamente empregaram os temas liberais de nacionalismo, secularismo anti cristão e devoção ao estado” (Elbridge Clolby, IN HITLER’S SHADOW – The Myth of Nazism’s Conservative Roots, The Harvard Salient).

Curiosamente, como os neo pagãos, os nazistas tinham grande reverência pela natureza e pelas árvores, e chegaram mesmo a promulgar uma lei que condenava à morte quem matasse certo tipo de águia. Entretanto, esses “campeões” da natureza foram capazes de exterminar friamente milhões de seres humanos indefesos...

O fascismo italiano, seguindo em sentido um pouco diverso do nazismo, queria a volta gloriosa do Império Romano, do qual alegava ser herdeiro. Contudo, o fascismo não abraçou as raízes pagãs do antigo Império Romano, sob o protesto de pagãos como Julius Évola, por exemplo, pelo simples fato de a população italiana ser então católica.

 

Como o Indiferentismo religioso e a amoralidade do século XX favoreceram o paganismo

Quando falamos de indiferentismo religioso, imediatamente nos vem à mente a palavra “ecumenismo” tão polêmica hoje entre os católicos.

O ecumenismo despreza tudo o que separa a religião verdadeira (a católica) de todas as outras falsas religiões existentes.

Tal falta de distinção entre as religiões tem sido o cadafalso da moralidade, aumentando assim a confusão e a uma carência espiritual sem precedentes nos homens, principalmente no homem ocidental.

A história nos mostra que durante a pax do Império Romano, Roma pagã permitia liberdade de culto a todas as religiões, indistintamente, inclusive aos monoteístas judeus. A única religião perseguida pelo Império Romano como tal foi a Católica. Este foi o resultado final do ecumenismo romano, que esperamos não ver acontecer novamente.

Numa sociedade globalizada, e devidamente ecumênica, o paganismo teria um habitat completamente amigável. Em contrapartida, o pagão é, via de regra, um indivíduo mais maleável e favorável a mudanças do que um adepto de uma religião que prega verdades absolutas, como é o caso da Igreja Católica.

 

Espírito de rebeldia e de contradição.

 Seguindo o Concílio Vaticano II, o mundo passou por um processo acelerado de mudanças. Uma rebeldia estudantil sem paralelos no mundo ocidental eclode em 1968, iniciando na França e se alastrando pelo resto do ocidente depois.

 Surgiu a minissaia, o satânico rock se estabelecia como música mundial, Hollywood produzia filmes cada vez mais ousados. A revolução cultural de Mao Tsé Tung estava em plena marcha e o comunismo influenciava guerrilhas na América Latina e na África, enquanto sufocava sem piedade as revoltas que surgiam no interior da URSS.

E nesses tempos surgiu Woodstock, o ápice do movimento Hippie. Paz, amor, heroína e nenhuma moral. Era a utopia materializada numa pretensa volta à inocência perdida do paraíso, ao abolir toda moral e esconjurar toda noção de pecado. O próprio movimento Hippie exerceu um certo paganismo anárquico, principalmente ao adotar práticas de meditação oriental e muitas crenças de religiões orientais, principalmente do Hinduísmo.

É curioso notar que a partir dos fins da década de 60 e início da década de 70, a bruxaria teve certo impulso, principalmente em Salem, nos EUA, mas ainda não se tornara um assunto popular como hoje em dia. A Salem dos dias de hoje é uma das cidades americanas com maior número de praticantes de bruxaria declarados, parte por causa da triste fama do julgamento de Salem, ocorrido na América colonial.

O ecumenismo relativizador e indiferentista soltou as rédeas da moral, e com a difusão generalizada de ideais igualitários, tudo que desafiasse a ordem estabelecida ou provocasse escândalo virou “moda”. Valores tradicionais e bem enraizados na maioria dos países ocidentais, principalmente nos países católicos, como a castidade, a fidelidade conjugal, a autoridade de pais e professores, passaram a ser abertamente contestados. Experiência e prudência deram lugar à juventude e ousadia, que assumiram os papéis principais no painel comportamental de uma sociedade que queria demolir o passado e construir uma utopia, movida a LSD...

 

O movimento da Nova Era.

Imagine-se uma pessoa que vai a uma hipotética feira da Nova Era. No primeiro local em que entra, ela é convidada a assumir a posição de lótus da yoga e entrar em meditação, enquanto um homem com o torso nu e um cocar na cabeça, fumando um cachimbo e dançando à sua volta, pronuncia palavras e faz gestos estranhos para espantar os maus espíritos.

Logo após esta sessão, numa cabina próxima, essa pessoa tem uma entrevista com uma “médium” famosa por canalizar uma certa “entidade extra dimensional”. Nesta entrevista, a pessoa é avisada de que a humanidade está a uma passo de uma transformação psíquica global: o próximo passo evolutivo do homem; onde todos os problemas e injustiças do mundo moderno serão resolvidos. Depois disto, a pessoa entra em uma cabina onde pode consultar seu futuro, tendo ao seu dispor a quiromancia, mapas astrais ou o tarot. Ao final de sua jornada, ele contrata um eloqüente terapeuta de feng shui, para “energizar” sua casa, e é quase convencido a trocar de nome por um numerólogo.

O quadro pintado acima reflete o que é exatamente a Nova Era: um amálgama de crendices e superstições que tomaram de assalto o mundo ocidental no início da década de oitenta e continua até hoje, porém com força já um tanto debilitada.

Seria ingenuidade de nossa parte dizer que tão anárquico movimento espiritual tenha surgido do nada. Certamente, a New Age teve sua estrada pavimentada por fatores tais como o movimento hyppie e a secularização acelerada do mundo em conseqüência do arrefecimento da fé cristã. Some-se a isto a proximidade da virada de milênio, que causou uma certa histeria, e um vazio espiritual que ansiava ser preenchido.

Os neopagãos, via de regra, deploram e desprezam os aderentes da Nova Era como fúteis e desinteressados numa prática religiosa mais aprofundada. Este desprendimento de qualquer noção de fidelidade religiosa faz com que os adeptos da Nova Era freqüentem grupos carismáticos católicos ou protestantes, participem de rituais animistas nativos, freqüentem sessões espíritas e recorram a todo o tipo de superstições, desde duendes até fada madrinhas. O que importa é uma busca louca por uma espiritualidade que encaixe em suas vidas ocas.

Mas é incontestável que a Nova Era e sua avalanche de superstições, que inundaram o mundo, tornaram fácil a vida dos neopagãos. Ela atenuou as reações do mundo secularizado às superstições do mais diversos calibres, equiparando-a de certa forma com a verdadeira religião. Como a maioria das práticas neopagãs tornaram-se lugar comum, passaram elas a ser encaradas, de uma maneira geral, erroneamente como tão válidas e legitimas como qualquer outra, escoradas pelo relativismo religioso capitaneado pela ala modernista da Igreja.

Segundo o livro Voices from the Pagan Census, de Berger, Leach e Shaffer, existe um vínculo mais do que evidente entre as religiões neopagãs do hemisfério norte e o movimento Nova Era:

“A Nova Era e o Neo Paganismo são sempre categorizados juntos, pois os participantes das duas religiões compartilham a mesma visão mística de mundo, um interesse em rituais de outras culturas – particularmente aquelas de povos indígenas ... uma crença na divindade do indivíduo... Alguns neopagãos aderiram a sua religião a partir do movimento da Nova Era.”

(Berger, Leach e Shaffer, Voices from the Pagan Census, University of South Carolina Press, Carolina do Sul, 2003, pags. 23 e 24).

As religiões neopagãs, oferecendo-se como uma opção esotérica àqueles que rejeitaram consciente ou inconsciente o cristianismo ao adentrarem no “espírito da Nova Era”, foram favorecidas com a adesão por muitos que procuravam uma vida religiosa mais intensa, porém rejeitando a religião verdadeira.

 

O espírito liberal e amoralidade.

É tarefa árdua explicar os fatores que resultaram na amoralidade da sociedade contemporânea, trabalho que foge do escopo deste estudo. Tentamos então resumir em algumas linhas o que na verdade é matéria para um longo tratado.

Obviamente, a base moral para o mundo ocidental é o cristianismo, que foi erguida ao longo dos séculos e fundamentada no Evangelho, nos mártires, nos santos, nos filósofos e teólogos católicos.

O início da dissipação desses valores morais começa no final da Idade Média, com os romances de cavalaria, e se manifesta  na sensualidade escandalosa do livro Roman de La Rose, escrito por Guillaume de Lorris e Jean de Meun, que foi avidamente lido pela nobreza do século XV.

Com a moral medieval tendo sido amolecida, abriu-se espaço para o Renascimento, com as suas obras, tão repletas de significado oculto quanto de imoralidades. E a partir do Renascimento, a arte passaria a um paulatino processo de sensualização, privilegiando os sentidos em detrimento da razão, acabando, com o Romantismo, por adquirir um caráter profundamente irracional. E com o romantismo a imoralidade começou a aparecer mais forte e descaradamente, principalmente na literatura, até chegarmos na literatura Moderna e pós Moderna, francamente pornográficas.

A moral sexual, apesar de ser a mais aparente, não foi a única atingida. Personagens frívolos, imorais e desonestos passaram a protagonizar os romances a partir do modernismo. Macunaíma é um bom exemplo do anti-herói e da inversão dos valores morais.

E a arte influencia profundamente a sociedade...

Já no século XX, as produções de Hollywood, que antes da  década de 60, insinuavam discretamente o erotismo nas telas, passaram a mostrá-lo sem restrições, do sensual passando para o erótico e do erótico passando ao pornográfico. E a TV leva aos lares do mundo inteiro hoje o erotismo das telas do cinema, e faz de bandidos heróis, e dos heróis faz tolos. E hoje chegamos à degradação dos “reality shows” que mostram ao vivo e a cores o nível de corrupção moral que atingiu nossa sociedade, ao mostrar pessoas comuns interagindo ao vivo.

Tudo isto levou a uma anestesia da consciência moral, fazendo de nossa sociedade uma massa de indivíduos sem coesão e praticamente amoral.

E esta amoralidade se torna um habitat muito amigável para seitas neo-pagãs que fazem da libertinagem artigo de fé, e serve mesmo como incentivadora na busca de uma espiritualidade sem regras rígidas, onde o que se busca é principalmente a satisfação pessoal. De fato, parte da teologia Wiccana é arrazoada de forma que a força criadora da vida deve necessariamente inferir um sexo masculino e um sexo feminino, faz enxergar o sexo como uma forma sacramental, aliando a isto a negação do pecado que é típica da sociedade neo-pagã. Tal conjunção explosiva leva a um meio perniciosamente libidinoso, onde a prática sexo grupal, atos homossexuais, e de outros graves desvios sexuais são considerados normais e aceitáveis.

Para a sociedade amoral não importa a Verdade, o que importa são os impulsos instintivos...

 

Porque pessoas instruídas se tornam pagãs?

Uma das características do neo-paganismo, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, é que ele atrai muitas pessoas com formação universitária, sendo que a maioria dos aderentes é formada por mulheres brancas da classe média.

Estudos estatísticos feitos junto à comunidade neo-pagã americana revelam que os neopagãos normalmente são caucasianos (91%), têm curso superior (51% - completo ou não), vivem em grandes centros urbanos (81%) e têm uma renda pessoal anual entre 30.000 e 40.000 dólares. As profissões mais comuns entre os neopagãos são a de estudante (16%) - mostrando que esta nova religião tem uma forte penetração entre jovens e adolescentes – e profissões ligadas à informática (10%), o que explica em parte a enorme quantidade de sites dedicados a difusão do neopaganismo (Berger, Leach e Shaffer, Voices From the Pagan Census, páginas 28 a 33).

De acordo com Berger, “A religião (neopaganismo) ganhou seus primeiros aderentes nos Estados Unidos entre as feministas, entre os ambientalistas e entre aqueles em busca de experiências espirituais alternativas, entre fins da década de 60 e inicio da de 70. A religião se transformou, influenciada pelos movimentos dos quais atraiu aderentes, e pelo individualismo americano(...) Seus participantes têm alto grau de escolaridade, são primariamente brancos e desproporcionalmente do sexo feminino. Uma grande parte é formado por pessoas graduadas ou sub-graduadas. Os neopagãos trabalham em várias ocupações, apesar de tenderem mais a serem programadores de computadores ou analistas de sistemas.”(Berger, Leach e Shaffer, Voices From the Pagan Census, página 34)

Portanto, o neopaganismo arrebanha aderentes principalmente na classe média, entre pessoas de bom nível educacional que simpatizem com seu aspecto feminista e ambientalista. Um fator de peso neste processo é a maciça propaganda favorável que o neopaganismo, e mais especificamente a Wicca, tem recebido nos meios televisivos e em produções cinematográficas,  a avalanche de livros que inundaram as prateleiras de livrarias ao redor do mundo nestes últimos anos, e a enorme quantidade de sites neopagãos existentes na internet. Tudo isto realça a percepção de que todo este aparato de propaganda visa principalmente atingir a classe média, de onde a Wicca, logicamente, recebe a maior parte de seus aderentes.

 

A ONU e a nova religião mundial

A ONU promove e financia muitas iniciativas ecumênicas mundiais, que na maioria das vezes são lideradas por setores da Igreja católica, ainda que setores influentes da mesma façam severas restrições ao ecumenismo posto em prática nos últimos 40 anos.

Para se conseguir uma Nova Ordem Mundial tão sonhada por muitos e capitaneada provavelmente pela ONU, seria necessária, inicialmente, uma confluência econômica do mundo, seguida por uma confluência política e por fim uma confluência religiosa.

E a tal confluência religiosa é justamente o Ecumenismo de nossos dias.

Planejadores globais concluíram que as guerras nunca seriam eliminadas a não ser que alguma forma de governo mundial substitua a era das nações estado. Segundo seu entendimento, a desejada unidade política do mundo nunca será alcançada sem se dar um fim aos conflitos religiosos.

Por isso os planejadores globais da Nova Era fizeram silenciosamente nascer a United Religions Organization (Organização da Religiões Unidas). Eles acreditam que o futuro de nosso mundo depende sobretudo de que nos tornemos tolerantes e respeitosos uns com as crenças dos outros.

Essa nova religião mundial será o Interfaithism – a crença de que todas as religiões, apesar de diferentes na superfície , são  caminhos válidos para Deus.

Eles pretendem convencer vários dos líderes religiosos do mundo a abrir mão de suas doutrinas de exclusividade por um bem maior, que os globalistas dizem estar vindo para a humanidade. Uma atmosfera de tolerância e de respeito deve ser criada.

A criação de tal atmosfera tem sido sigilosamente levada a cabo por muitas décadas. Só agora, uma vez que isto foi virtualmente alcançado, tais planejadores estão vindo a público.

Isto também explica porque o Papa João Paulo II  urgiu em declarar em 1994 que os muçulmanos também podem ser salvos (vide Catecismo da Igreja Católica, pg. 242-243)

Desde a década de 50, a ONU, liderada por seu “profeta” visionário, Robert Muller, está num curso específico e premeditado para unir as religiões do mundo. No seu livro, New Genesis: Shaping a Global Spirituality, Muller não esconde sua agenda. Ele explica como seu antecedente católico o levou a por fim abraçar ao budismo, a religião atéia do antigo Secretário Geral da ONU U. Thant, que foi seu superior imediato na ONU por muitos anos. Muller diz que um governo mundial liderado pela ONU e uma religião global são a única esperança do homem.

Outro  de grande influência na ONU é o guru indiano Sri Chimnoy, que disse: “ Nenhuma força humana nunca será capaz de destruir a ONU, pois ela não é um simples edifício ou uma mera idéia; ela não é uma criação feita pelo homem. A ONU é uma visão luminosa do Absoluto Supremo, que está vagarosamente, continuamente, e infalivelmente iluminando a ignorância, a noite de nossa vida humana. O sucesso divino e supremo progresso da ONU está para se tornar realidade. Na hora de sua escolha, o Absoluto Supremo tocará seu próprio sino da vitória aqui na Terra através do coração amável e servil das Nações Unidas.”

O Parlamento das Religiões Mundiais é outra organização que exerce tremenda influência no novo movimento inter religioso global. Sua conferência em 1993 foi o maior encontro de líderes religiosos da história.

Junto com cristãos, hindus, judeus e muçulmanos,  na conferência de 1993 estiveram presentes sacerdotes vudu e druidas, bruxas, encantadores de serpentes, zoroastristas adoradores do sol, e representantes da Lucis Trust, uma organização cujo nome original era Lucifer Publishing Company. Dentre os conceitos promovidos pela conferência estão a necessidade por uma ordem internacional de paz, desarmamento mundial, cortes mundiais, controle global sobre direito de propriedade e recursos naturais.

Outra instituição foi fundada em 1948, o Conselho Mundial de Igrejas (World Council of Churches). Em 1994, em Jerusalém, a WCC declarou, “Depois da Segunda Guerra Mundial, o estabelecimento do Conselho Mundial de Igrejas sinalizou a resolução da comunidade ecumênica tanto para trabalhar pela completa unidade da igreja e para participar pela luta de uma nova ordem mundial justa”.

Em seu livro, Nova Genesis, Muller diz: “Eu apoiaria de todo o coração a criação de um arranjo institucional na ONU ou na UNESCO para o diálogo e cooperação entre as religiões” A visão de Muller se tornou realidade com a assinatura da Iniciativa das Religiões Unidas (United Religions Initiative). A iniciativa, assinada pelo diretor, William Swing, um bispo episcopaliano, e pelo próprio Muller, busca “... trazer as religiões e as tradições espirituais para uma mesa comum, uma assembléia global permanente e diária. Lá, respeitando-se uns aos outros sem distinção,  eles irão buscar a paz entre as religiões para que possamos trabalhar juntos pelo bem de toda vida e pela cura da terra”.

“A Organização das Religiões Unidas é uma construtora de pontes e não uma religião.”

Religião se preocupa com o relacionamento dos seres humanos com sua Origem espiritual. Nós acreditamos na universalidade e eternidade do Espírito. Nós acreditamos que todas as religiões derivam sua sabedoria desta Fonte última”.

A UR endossa a Corte Criminal da ONU. “Nos unimos para apoiar a liberdade de religião e credos e os direitos de todos indivíduos, como estabelecido pelas leis internacionais.”

UR defende uma economia socialista?

 A carta da UR define como Economia Sustentável: “um sistema econômico que utiliza os recursos finitos do mundo prudentemente e parcimoniosamente”. E tal economia é “um sistema no qual a riqueza criada é distribuída de maneira justa e equitativa...”

UR e ambientalismo:

A comunidade humana e o mundo natural entrarão no futuro como uma única comunidade sagrada, ou irão ambos perecer...”

“Vivemos numa teia interdependente de vida; todos seres viventes são tanto sagrados quanto conectados... Desmatamento, perda de territórios selvagens, superpopulação, perda de terras agrícolas produtivas, degradação dos recursos de água do planeta, dependência de fontes de energia não renováveis, e extinção das espécies”.

(Nesse sentido, é curioso que a CNBB, a Conferência Católica dos Bispos do Brasil, tenha lançado, em 2.004, uma campanha da Fraternidade defendendo as “águas”...)

A UR propõe que o mundo festeje “festivais de solstício e equinócio que celebrem as mudanças do planeta” (querendo assim festivais pagãos de adoração do sol e da lua, usados pela Wicca, em substituição de festas religiosas como o Natal e a Páscoa, por exemplo).

A ONU precisa da UR: “Existe uma necessidade pungente de revisar o sistema econômico global a partir de uma perspectiva religiosa/espiritual de forma a fazer algumas mudanças fundamentais... Ainda, a prática domínio corporativo do mundo econômico demanda uma fundação moral e socialmente responsável. Sem unidade religiosa, o governo mundial não tem chance. Então – Religiões Unidas.” (Querem se fazer substituir ao catolicismo).

 

O papel da Mídia na propagação de valores pagãos.

Quando éramos crianças, nossas avós sempre contavam histórias de contos de fadas onde o maior vilão invariavelmente era uma bruxa. A bruxa má, velha, enrugada e feia, que comia criancinhas, era uma imagem bem viva no inconsciente da maioria das pessoas. Entretanto, ao longo da última década, a bruxa, como num passe de mágica, passou a ser retratada, principalmente na mídia televisiva e nos cinemas, como sendo jovem, simpática, politizada, preocupada com o meio ambiente, e não comendo mais criancinhas (apesar de pensarem que elas possam ser assassinadas ainda no útero materno, pois a grande maioria das auto proclamadas bruxas modernas são favoráveis ao aborto).

Na televisão, ainda na década de 60, a famosa série “A feiticeira” (Bewitched) retratava uma bruxa simpática que era uma dona de casa casada com um marido rabugento, e com uma mãe que era uma sogra terrível. Depois de um lapso de 20 anos, na década de 90 começaram a surgir outros programas. “Sabrina”, que tem o mesmo estilo de “A feiticeira”, porém a bruxa é uma estudante colegial. Também se tornou muito popular um outro programa chamado “Buffy – a caça vampiros”, que mistura bruxos, vampiros, demônios, da forma mais absurda possível, e ainda conta com uma personagem secundária que é uma bruxa lésbica “do bem”.

Fruto da degradação acelerada que o mundo vem sofrendo nos últimos 40 anos, tais programas tem servido, intencionalmente ou não, ao propósito de mostrar a bruxaria como algo simpático e divertido, e indubitavelmente serve para formar uma mentalidade liberal nos jovens e catapultá-los em direção à armadilha da Wicca, que obviamente nem de longe se assemelha às rocambolescas aventuras encenadas nestes programas.

Caríssimas produções de Hollywood, como as séries de filmes campeãs de bilheteria “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter”, ou mesmo filmes de menor sucesso com grandes estrelas, como “Da Magia à Sedução”, com Sandra Bullock e Nicole Kidman, e o filme “Jovens Bruxas” que, apesar de fantasioso, encena um ritual de Wicca típico, favoreceram a difusão do movimento mágico.

O filme “Jovens Bruxas” mostra um coven (pequeno grupo ritualístico de bruxas) formado por quatro adolescentes desajustadas e reproduz com um certo grau de fidelidade um ritual Wicca, com o traçado do circulo e do pentagrama, com a invocação de torres de proteção, e uso de ferramentas de acordo com a prática moderna da Wicca (baseada nos rituais de Alesteir Crowley).

O Filme “Da Magia à Sedução” se baseia na mentira corrente de que a Wicca é uma religião passada de mãe para filha em núcleos familiares.

O Filme “Senhor dos Anéis” apesar de ser uma obra de fantasia, puramente ficcional, e de não ter nenhum vínculo com a prática moderna de bruxaria, investe pesado no uso de magia. Isto, de certa forma, contribui para que haja um aumento do interesse e um despertar da curiosidade pela magia, já vista por muitos, em nosso tempo, como algo real, bom e desejável.

Por fim, a série de filmes “Harry Poter” parece ter um papel mais destacado na difusão da bruxaria. Ela trata a bruxaria de uma forma extremamente simpática, associando-a à inocência e a infância, misturando elementos do mundo real com um mundo completamente imaginário. Consta que vários adolescentes ao acessarem o site oficial de Harry Poter, pediram para ser matriculados em “Hogwarts”,  a escola de bruxaria do filme. Existem também muitos relatos de jovens que passaram a praticar bruxaria inspirados pelo filme.

Outra coisa digna de nota é a quantidade enorme de sites dedicados à bruxaria na Internet. Nos milhares de sites dos mais diversos tipos de Wicca e Neopaganismo podem ser encontrados feitiços, encantamentos, receitas de poções e até acessórios para os praticantes e aprendizes.

 

Literatura moderna e bruxaria

A literatura é uma forma de expressão que tem um poder de influência enorme tanto na formação da mentalidade das pessoas, quanto no material divulgado e trabalhado no cinema e na televisão.

Pode-se dizer que livros tais como “As brumas de Avalon”, e a série de livros “Harry Potter” e “Senhor dos Anéis” deram o pontapé inicial para a verdadeira “febre” da bruxaria da atualidade.

Hoje pouco lembrado, o livro “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley,  foi lançado ainda na década de 80, e conta a lenda do Rei Arthur inglês sob uma ótica feminina, ou melhor dizendo, sob uma ótica wiccana. Neste livro, baseado na maioria dos lugares comuns inventados pela wicca, a autora relata desde feitiços e covens comuns à wicca, até festivais orgiásticos, bastante fiéis aos que são praticados hoje pelos adeptos da wicca nos solstícios de verão e de inverno. Este livro teve um grande sucesso editorial e serviu para impulsionar outros projetos que seguiam a sua linha pseudo-mística, dentre eles a série “Harry Potter”.

Já na seção de não ficção da maioria das livrarias hoje em dia, encontramos uma quantidade enorme de livros dedicados à Wicca e ao Neopaganismo. Inicialmente, as magias da wicca e seus rituais eram secretos. Contudo, alguns de seus adeptos começaram a publicar seus rituais e magias à medida que o Neopaganismo foi ficando mais popular. Hoje uma enxurrada de autores escrevem livros sobre estes assuntos, e são poucos os rituais que permanecem secretos. Tais livros são de qualidade baixíssima, e a maioria se aventura na tentativa de dar um embasamento histórico à sua religião, quase sempre repetindo as mesmas mentiras relativas à ancestralidade e ao mito de religião secreta que sobreviveu ao longo dos séculos. Tudo já devidamente desmentido  por historiadores sérios e até mesmo por adeptos mais esclarecidos, como se poderá constatar mais adiante neste trabalho, no capítulo 3, no tópico A mitológica ancestralidade da Wicca.

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    Para citar este texto:
"Neo Paganismo e Bruxaria"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/apologetica/neopaganismo/
Online, 25/05/2017 às 22:44:10h