Apologética

Caritas in Veritate: valente e surpreendente desafio de Bento XVI ao mundo moderno
Orlando Fedeli

     O Papa Bento XVI, sempre corajoso, desta vez surpreende.
 
     O anúncio de uma nova encíclica de caráter social deixava todos em expectativa. Os modernistas ficaram à espera de uma nova encíclica, promovendo o socialismo “cristão”. Tanto mais que se anunciava que a nova encíclica de Bento XVI se inspirava e se dizia que era continuadora da encíclica Populorum Progressio de conhecido sabor marxistóide. De sua parte, os anti modernistas temiam o que se anunciava.
 
     Pois Bento XVI surpreendeu, de novo, a todos.
 
     Na Caritas in Veritate — uma encíclica longa — podem se distinguir os seguintes temas:
  1. Uma introdução tratando da relação dessa encíclica com a Populorum Progressio de Paulo VI. Introdução que nega autoridade a pontos da encíclica de Paulo VI que não se fundamentariam na doutrina tradicional da igreja.
  2. Fundamento doutrinário: a Verdade objetiva.
  3. Fundamento moral: a Caridade baseada na Verdade.
  4. Problemas morais do mundo atual.
  5. Um problema político: a ONU.
  6. Necessidade de uma conversão geral: mudança de mentalidade e de estilo de vida.
      Infelizmente, alguns colocam o problema político concreto – no qual o Papa não fala infalivelmente, mas dá sua opinião, certamente de grande autoridade –  acima da questão metafísica e da doutrina moral, fundamentos de tudo. Essa visão um tanto vesga faz colocar à sombra o que devia ser exposto mais à luz.
 
 
 
 
 
 
 
I - RELAÇÃO DA NOVA ENCÍCLICA COM A POPULORUM PROGRESSIO
 
 
 
     No capítulo I dessa encíclica, Bento XVI fala da relação dela com a encíclica Populorum Progressio de Paulo VI, escrita em 1967, em circunstâncias - lembra Bento XVI -, hoje, bem diversas das que existiam naquele tempo e que, portanto, foram superadas.
 
 
     “Depois, há que avaliar os termos diferentes em que hoje, diversamente de então, se coloca o problema do desenvolvimento” ( Bento XVI, Caritas in veritate, n0 10).
 
     Mais: Bento XVI lembra que o ponto de vista a partir do qual deve ser focalizada a Populorum progressio e todo ensinamento pontifício deve ser o da Tradição da Fé, fora da qual um documento ficaria sem raízes e, portanto, como mero documento sociológico. Logo, sem valor magisterial eclesiástico. 
 
     “Por isso, o ponto de vista correto é o da Tradição da fé apostólica[13], patrimônio antigo e novo, fora do qual a Populorum progressio seria um documento sem raízes e as      questões do desenvolvimento ficariam reduzidas unicamente a dados sociológicos”. (Bento XVI, Caritas in veritate, n0  10).
 
     A Populorum progressio foi escrita em plena Guerra Fria, um ano antes da revolução de maio de 1968, durante o clímax do conflito entre o capitalismo e o comunismo. Propunha-se ela a defender os povos que passavam fome, os pobres contra os ricos. O leit motif daquele tempo era a idéia marxista dos “sub-desenvolvidos” em luta contra os “desenvolvidos”. Se Paulo VI também falava em verdade e caridade, o tom dominante desse seu documento era fundamentalmente econômico-político, enquanto que o fundamento e o tom da nova encíclica de Bento XVI são muito mais teológicos, filosóficos e doutrinários, sem nada da luta de classes marxista.
 
 
     Apesar disso, Bento XVI preocupa-se em salientar que há continuidade - e não ruptura – nas encíclicas sociais da Igreja, pré conciliares e pós conciliares... Ele nota ainda que há, então, coerência entre as encíclicas sociais da Igreja, mas que Coerência não significa reclusão num sistema, mas sobretudo fidelidade dinâmica a uma luz recebida” (Bento XVI, Caritas in Veritate, n0  12).
 
     Seria, então, essa fidelidade “dinâmica” que permitiria a mudança de tom entre a Caritatis in Veritate e a Populorum Progressio.
 
     Na realidade, a continuidade entre essas duas encíclicas parece bastante tênue e acidental, pois é mantida apenas pelo uso de certas palavras e expressões, e não por seus respectivos núcleos doutrinários.
 
     Como lembramos, a Populorum Progressio, salientava radicalmente a oposição entre os ricos e os famintos, entre os desenvolvidos e os sub desenvolvidos, pois a luta de classes estava na moda em 1967. A preocupação de Bento XVI é totalmente diferente: nada que lembre a luta de classes e a violência, a que a Populorum progressio faz referência. A Caritas in Veritate está centrada no combate à pós modernidade, com sua negação radical de todos os valores criteriológicos e morais.
 
     Bento XVI propõe-se comemorar 42 anos da Populorum progressio:
 
     “Passados mais de quarenta anos da publicação da referida  encíclica, pretendo prestar homenagem e honrar a memória do grande Pontífice Paulo VI, retomando os seus      ensinamentos sobre o desenvolvimento humano integral e colocando-me na senda pelos mesmos traçada para os atualizar nos dias que correm.(...) Passados outros vinte      anos, exprimo a minha convicção de que a Populorum progressio merece ser considerada como «a Rerum novarum da época contemporânea», que ilumina o caminho da      humanidade em vias de unificação”(Bento XVI, Caritas in Veritate, n0  8).
 
     Trata-se, pois, de uma homenagem...
 
     Por isso, Bento XVI destaca pontos muito genéricos da Populorum Progressio. Cita, da Populorum Progressio, coisas evidentes, afirmações incontestáveis, por serem fundamentais. Por exemplo:
 
     [Entre parênteses estão os números das notas da Caritas in veritate citando a Populorum progressio]. 
 
 
     “Paulo VI compreendeu claramente como se tinha tornado mundial a questão social [25]  [ele] viu a correlação entre o impulso à unificação da humanidade e o ideal cristão      de uma única família dos povos, solidária na fraternidade comum. Indicou o desenvolvimento, humana e cristãmente entendido, como o coração da mensagem social cristã e      propôs a caridade cristã como principal força ao serviço do desenvolvimento” (Bento XVI, Caritas in Veritate, n0  13).
 
     Paulo VI, como antes dele Leão XIII na Rerum novarum[35], estava consciente de cumprir um dever próprio do seu serviço quando iluminava com a luz do Evangelho      as questões sociais do seu tempo[36]. 
 
     "A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é «inseparável da caridade» (op cit, n0  1).
     
 
     Ou que a Igreja nâo quer «de modo algum imiscuir-se na política dos Estados »[11] Paulo VI compreendeu claramente como se tinha tornado mundial a questão social[25].
 
 
     «Não há, portanto, verdadeiro humanismo senão o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma vocação que exprime a idéia exata do que é a vida humana»[37].
 
     Os «messianismos fascinantes, mas construtores de ilusões»[38].
 
 
     «cada um, sejam quais forem as influências que sobre ele se exerçam, permanece o artífice principal do seu êxito ou do seu fracasso»[39].
 
 
     «os povos da fome se dirigem hoje, de modo dramático, aos povos da opulência»[40].
 
 
     “A vocação ao progresso impele os homens a «realizar, conhecer e possuir mais, para ser mais»[41].
 
 
     O «desenvolvimento autêntico» (...) «deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo»[42].
 
 
    «O que conta para nós é o homem, cada homem, cada grupo de homens, até se chegar à humanidade inteira»[43].
 
     Instruída pelo seu Senhor, a Igreja perscruta os sinais dos tempos e interpreta-os, oferecendo ao mundo «o que possui como próprio: um desenvolvimento humano integral no plano      natural, enquanto resposta a uma vocação de Deus criador[48],a visão global do homem e da humanidade»[46].
 
 
    “Em áreas mais pobres, alguns grupos gozam duma espécie de superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmissível, com perduráveis      situações de miséria desumanizadora. Continua «o escândalo de desproporções revoltantes»[56].
 
 
     27. Em muitos países pobres, continua — com risco de aumentar  — uma insegurança extrema de vida, que deriva da carência de alimentação: a fome ceifa ainda inúmeras      vítimas entre os muitos Lázaros, a quem não é permitido — como esperara Paulo VI — sentar-se à mesa do rico avarento[64].
 
 
     “É o dano que o « superdesenvolvimento » [72] acarreta ao desenvolvimento autêntico, quando é acompanhado pelo « subdesenvolvimento moral »[73].
 
 
     Muitas vezes pensa-se que o desenvolvimento ou as relativas medidas sócio-econômicas necessitam apenas de ser postos em prática como fruto de um agir comum,      ignorando que este agir comum precisa de ser orientado, porque « toda a ação social implica uma doutrina »[74].
 
 
     «aquele que está animado de verdadeira caridade é engenhoso em descobrir as causas da miséria, encontrar os meios de a combater e vencê-la resolutamente»[75].
 
 
     Paulo VI tinha visto claramente que, entre as causas do subdesenvolvimento, conta-se uma carência de sabedoria, de reflexão, de pensamento capaz de realizar uma síntese      orientadora[78].
 
 
     A dignidade da pessoa e as exigências da justiça requerem, sobretudo hoje, que as opções econômicas não façam aumentar, de forma excessiva e moralmente inaceitável,      as diferenças de riqueza [83].
 
 
     Não há motivo para negar que um certo capital possa ser ocasião de bem, se investido no estrangeiro antes que na pátria; mas devem-se ressalvar os vínculos de justiça,      tendo em conta também o modo como aquele capital se formou e os danos que causará às pessoas o seu não investimento nos lugares onde o mesmo foi gerado[97].
 
 
     O espírito empresarial, antes de ter significado profissional, possui um significado humano[98].
 
 
     Ensinava Paulo VI, não sem motivo, que «todo o trabalhador é um criador»[101].
 
 
     43. «A solidariedade universal é para nós não só um fato e um benefício, mas também um dever»[105].
 
 
     «artífices do seu destino»[109].
 
 
     “Trata-se de um aspeto muito importante do verdadeiro desenvolvimento, porque diz respeito aos valores irrenunciáveis da vida e da família[110].
 
 
     «São os povos os autores e primeiros responsáveis do próprio desenvolvimento. Mas não o poderão realizar isolados»[114].
 
 
     “a imensidade de jovens presentes nos povos pobres, que «reclamam a sua parte ativa na construção de um mundo melhor»[119].
 
 
     “Observava Paulo VI que «o mundo sofre por falta de convicções »[128].
 
 
     “O espírito, « tornando-se assim ‘‘mais liberto da escravidão das coisas, pode facilmente elevar-se ao culto e à contemplação do Criador'' »[150].
 
 
     “75. Paulo VI já tinha reconhecido e indicado o horizonte mundial da questão social[155].
 
 
     «desenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens»[159].
 
     Portanto, são citações, em geral, sem importância maior.
 
     Em contrapartida, notam-se oposições frontais entre as duas encíclicas. Para Paulo VI, na Populorum progressio, “Desenvolvimento é o novo nome da paz(Paulo VI, Populorum progressio,n0 76).
 
     Para Paulo VI, o ter mais seria necessário para o ser mais:
 
     “Ser libertos da miséria, encontrar com mais segurança a subsistência, a saúde, um emprego estável; ter maior participação nas responsabilidades, excluindo qualquer      opressão e situação que ofendam a sua dignidade de homens; ter maior instrução; numa palavra, realizar, conhecer e possuir mais, para ser mais: tal é a aspiração dos      homens de hoje, quando um grande número dentre eles está condenado a viver em condições que tornam ilusório este legítimo desejo”Paulo VI, Populorum progressio, n0      6. Os destaques são nossos).
 
     Enquanto, pois, a Populorum Progressio acentua a questão da riqueza e da pobreza — a questão do ter mais – Bento XVI acentua o fim transcendente do homem, relativizando o ter, salientando o ser. Por isso, Bento XVI, ao contrário de Paulo VI, não considera que o desenvolviemnto traga a paz que vem do alto:
 
     “Sem a perspectiva duma vida eterna, o progresso humano neste mundo fica privado de respiro. Fechado dentro da história, está sujeito ao risco de reduzir-se a simples      incremento do ter; deste modo, a humanidade perde a coragem de permanecer disponível para os bens mais altos, para as grandes e altruístas iniciativas solicitadas      pela caridade universal. O homem não se desenvolve apenas com as suas próprias forças, nem o desenvolvimento é algo que se lhe possa dar simplesmente de fora. Muitas      vezes, ao longo da história, pensou-se que era suficiente a criação de instituições para garantir à humanidade a satisfação do direito ao desenvolvimento. Infelizmente foi      depositada excessiva confiança em tais instituições, como se estas pudessem conseguir automaticamente o objetivo desejado. Na realidade, as instituições sozinhas      não bastam, porque o desenvolvimento humano integral é primariamente vocação e, por conseguinte, exige uma livre e solidária assunção de responsabilidade      por parte de todos. Além disso, tal desenvolvimento requer uma visão transcendente da pessoa, tem necessidade de Deus: sem Ele, o desenvolvimento ou é      negado ou acaba confiado unicamente às mãos do homem, que cai na presunção da auto-salvação e acaba por fomentar um desenvolvimento desumanizado.      Aliás, só o encontro com Deus permite deixar de « ver no outro sempre e apenas o outro »[17], para reconhecer nele a imagem divina, chegando assim a descobrir      verdadeiramente o outro e a maturar um amor que «se torna cuidado do outro e pelo outro»[18].(Bento XVI, Caritas in veritate,nO 11. Os destaques são nossos).
 
     Bento XVI coloca-se, portanto, em posição diametralmente oposta ao Paulo VI da Populorum progressio.
 
     Outro reparo feito por Bento XVI é contra o utopismo e o milenarismo que sonham com um mundo feliz sem pobres, sem males e sem miséria pela absolutização do progresso técnico:
 
 
     “Absolutizar ideologicamente o progresso técnico ou então afagar a utopia duma humanidade reconduzida ao estado originário da natureza são dois modos opostos de      separar o progresso da sua apreciação moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade” (Bento XVI, Caritas in Veritate, n0 14).
 
     Citamos com especial alegria este texto acima, porque ele repete o que havíamos escrito há mais de vinte anos em nosso trabalho sobre Utopias panteístas e Milenarismo gnóstico. (Cfr. Elementos messiânicos na seita ismaelita de Alamut
 
     Também quanto ao próprio desenvolvimento em si mesmo, a encíclica de Bento XVI diverge da Populorum progressio.
 
     Diz Bento XVI: 
 
     “Paulo VI tinha uma visão articulada do desenvolvimento.  Com o termo «desenvolvimento», queria indicar, antes de mais nada, o objetivo de fazer sair os povos da fome, da      miséria, das doenças endêmicas e do analfabetismo. Isto significava, do ponto de vista econômico, a sua participação ativa e em condições de igualdade no processo      econômico internacional; do ponto de vista social, a sua evolução para sociedades instruídas e solidárias; do ponto de vista político, a consolidação de regimes democráticos      capazes de assegurar a liberdade e a paz”.(Bento XVI, Caritas in veritate, n0 21).
 
     E Bento XVI indica como as expectativas de Paulo VI no desenvolvimento e no progresso não aconteceram:
 
     “Depois de tantos anos e enquanto contemplamos, preocupados, as evoluções e as perspectivas das crises que foram sucedendo neste período, interrogamo-nos até que      ponto as expectativas de Paulo VI tenham sido satisfeitas pelo modelo de desenvolvimento que foi adoptado nos últimos decênios”(Bento XVI, Caritas in veritate, n0 21).
 
     Bento XVI aponta ainda uma contradição no lema revolucionário da igualdade e da Fraternidade:
 
 
     “A razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade” (Bento XVI, Caritas      in Veritate, no 19).
 
     Logo, o ideal igualitário é irrealizável.
       
     Poder-se-ia lembrar ainda que a igualdade dos homens foi sempre condenada por todos os Papas, que sempre demonstraram que a igualdade é um mito e que ela não pode existir junto com a liberdade. Dando liberdade completa aos homens, eles se diferenciam. Se se impõe a igualdade, nega-se a liberdade. A igualdade, sendo contra a natureza, ela só pode tentar ser imposta pela violência, o que destrói a liberdade. Stalin e Hitler provaram isso. Os paraísos igualitários sempre tiveram cerca de arame farpado e ninhos de metralhadoras. A igualdade completa só existiu entre os prisioneiros de Auschwitz.
 
     E o Papa atual restringe a sua manifestação magisterial ao âmbito doutrinário, sem pretender dar soluções especificamente econômicas:
 
     “A Igreja não tem soluções técnicas para oferecer [10] e não pretende «de modo algum imiscuir-se na política dos Estados »[11](Bento XVI, Caritas in Veritate, n9).
 
 
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II - FUNDAMENTO DA CARITAS IN VERITATE:
 
 
A VERDADE
 
 
 
     O que se constata na leitura dessa encíclica “social” de Bento XVI é que ele se aproveitou do tema da economia globalizada para pôr os pingos nos "is" em problemas candentes do mundo atual que envolvem o triunfo da pós modernidade com a destruição de todos os valores. Por isso, o ponto fundamental em que o papa coloca sua encíclica é o da verdade e o do dever que tem o Papa e a Igreja de defenderem a verdade, combatendo o achismo, o subjetivismo e o relativismo da sociedade atual.
 
     Por isso, logo de início, o Papa lembra que:
 
     
     “defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade” (Bento XVI, Caritas in Veritate, n0 1).
 
     Bento XVI prossegue então sua luta pelo restabelecimento da primazia da verdade, objetivo fundamental de seu pontificado, para restabelecer a ortodoxia católica arruinada desde o pós Concílio Vaticano II.
 
     Daí, imediatamente, ele procurar corrigir a distorção da idéia de caridade da idéia de amor, palavra tão prostituída em nossos tempos pós conciliares.
 
     Sem a verdade não existe a caridade. A caridade - "o amorrr”, como dizem hoje os padres, em seus sermões vazios, é mero sentimentalismo. E Bento XVI fala em “amor vazio”:
 
     “Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade. Esta luz é simultaneamente a luz da razão e a da      fé, através das quais a inteligência chega à verdade natural e sobrenatural da caridade: identifica o seu significado de doação, acolhimento e comunhão. Sem verdade, a      caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba      prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que é realmente. A verdade liberta a      caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de conteúdos relacionais e sociais, e do fideísmo, que a priva de amplitude humana e universal. Na verdade, a      caridade reflete a dimensão simultaneamente pessoal e pública da fé no Deus bíblico, que é conjuntamente «Agápe» e «Lógos»: Caridade e Verdade, Amor e Palavra”.      (Bento XVI, Caritas in Veritate, n0 3).
 
     E Bento XVI, argutamente, aproveita a oportunidade para atacar as pragas criteriológicas disseminadas, hoje, no mundo, e particularmente entre os católicos:  o opinionismo, o achismo, o subjetivismo, e o relativismo, que tanto devem sua seiva atual aos ambíguos textos do Concílio Vaticano II.
 
     Diz o Papa:
 
     “A verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjetivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do      valor e substância das coisas. A verdade abre e une as inteligências no lógos do amor: tal é o anúncio e o testemunho cristão da caridade. No atual contexto social e cultural,      em que aparece generalizada a tendência de relativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a compreender que a adesão aos valores do cristianismo é um elemento      útil e mesmo indispensável para a construção duma boa sociedade e dum verdadeiro desenvolvimento humano integral. Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser      facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social mas marginais. Deste modo, deixaria de haver verdadeira e propriamente lugar      para Deus no mundo. Sem a verdade, a caridade acaba confinada num âmbito restrito e carecido de relações; fica excluída dos projetos e processos de construção dum      desenvolvimento humano de alcance universal, no diálogo entre o saber e a realização prática” (Bento XVI, Caritas in Veritate, n0 4).
 
     Portanto, a caridade na verdade objetiva é o princípio fundamental que deve reger a justiça defendida pela Igreja Católica nas questões sociais.
 
     Nessas questões, a justiça é coroada pela caridade, e a justiça se baseia na verdade, visando o bem comum.
 
     Para Bento XVI, o Papa restaurador da fé, tão arruinada nestes tempos dominados pela mentalidade conciliar de completa ruptura com o passado, a defesa da verdade – mesmo nas questões econômico-sociais - é imprescindível. Daí, ele dizer que, sem a verdade, se cai no empirismo ativista e mesmo na escravidão, pois, como Jesus nos lembrou, é a verdade que nos liberta.
 
 
     “Sem verdade, cai-se numa visão empirista e cética da vida, incapaz de se elevar acima da ação porque não está interessada em identificar os valores — às vezes nem      sequer os significados — pelos quais julgá-la e orientá-la. A fidelidade ao homem exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da      possibilidade dum desenvolvimento humano integral”(Bento XVI, Caritas in Veritate, , n0  9).
 
     E conclui Bento XVI a introdução de sua encíclica reafirmando o dever “Irrenunciávelda Igreja de servir, defender e difundir a verdade.   
 
     E se veja com que linguagem e com que tom, bem diferentes do Vaticano II, ele diz isso:
 
 
     “É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é      irrenunciável. A sua doutrina social é um momento singular deste anúncio: é serviço à verdade que liberta. Aberta à verdade, qualquer que seja o saber donde provenha, a      doutrina social da Igreja acolhe-a, compõe numa unidade os fragmentos em que frequentemente a encontra, e serve-lhe de medianeira na vida sempre nova da sociedade dos      homens e dos povos[12](Bento XVI, Caritas in Veritate, n0 9).
 
     A pregação da verdade é, então, irrenunciável. E só na verdade se encontra a unidade. Este princípio é diametralmente contrário ao que se buscou com o ecumenismo: a unidade no amor e não na verdade. Ora, contra isso, vale o que afirmou Bento XVI nesta sua nova encíclica ao reconhecer que:
 
     “A verdade une os espíritos entre si e fá-los pensar em uníssono, atraindo-os e unindo-os nela(Bento XVI, Caritas in veritate, no 54).
 
     Sem a verdade é impossível a caridade. Sem o conhecimento da verdade é impossivel agir. Mas o agir sem a caridade é estéril. Assim diz Bento XVI lapidarmente:
 
     
     “A ação é cega sem o saber, e este é estéril sem o amor” (Bento XVI, Caritas in veritate, n0 30).
 
     Viva o Papa!
 
 
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III - CARIDADE E LEI NATURAL
 
     A caridade – o amor - exige a obediência estrita da lei natural, que é expressa pelos dez mandanentos da lei de Deus. Não existe caridade a não ser na observância da lei de Deus. No mundo atual, a grave crise que está levando a humanidade ao maior desastre da história tem como causa a negação da verdade objetiva e da lei de Deus, impressa como lei natural no coração de todos os homens. Por isso, não pode haver cultura verdadeira sem a observância dessa lei divina.
 
     “Existem, em todas as culturas, singulares e variadas convergências éticas, expressão de uma mesma natureza humana querida pelo Criador e que a sabedoria ética da      humanidade chama lei natural[140]. Esta lei moral universal é um fundamento firme de todo o diálogo cultural, religioso e político e permite que o multiforme pluralismo das      várias culturas não se desvie da busca comum da verdade, do bem e de Deus. Por isso, a adesão a esta lei escrita nos corações é o pressuposto de qualquer colaboração      social construtiva. Em todas as culturas existem pesos de que libertar-se, sombras a que subtrair-se” (Bento XVI, Caritas in veritate, n0 59).
 
     Portanto, há religiões que não obedecem a lei natural e que não respeitam a lei da caridade. Poderá se dar liberdade de propaganda a tais religiões? Note-se: liberdade de propaganda, já que ninguém pode ser forçado em sua consciência a praticar uma religião.
 
 
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IV - ERROS DOUTRINÁRIOS E MORAIS DE NOSSOS DIAS
 
 
 
1-PANTEÍSMO E GNOSE EM FACE DA NATUREZA: A ECOLOGIA
 
     Outra surpresa se nos depara nessa encíclica, quando, ao tratar da ecologia, Bento XVI corajosamente enfrenta quer o materialismo econômico, quer a gnose adoradora de uma divindade oculta na natureza. Estes dois posicionamentos errôneos em face do ser contrariam a verdade e a caridade, por isso, ao tratar da ecologia – problema da moda, hoje -, Bento VI ataca esses dois erros dialeticamente contrários e iguais, nesta encíclica sobre a caridade na verdade.
 
     Sem dúvida, notam-se, hoje, duas posições face ao problema ecológico:
  1. Uma atitude materialista que vê a natureza apenas como fonte de lucro, sem se proecuoar com as conseqüências de sua exploração sistemática sem medir as conseqüências da sua devastação;
     2.  Uma atitude idolatrizadora na natureza, como se ela fosse habitada por espíritos que chega até ao culto daquilo que os pagãos chamavam de ”Mãe Terra, a Gea.
 
     Ambas posições são condenadas pela Igreja:
 
     “Na natureza, o crente reconhece o resultado maravilhoso da intervenção criadora de Deus, de que o homem se pode responsavelmente servir para satisfazer as suas      legítimas exigências — materiais e imateriais — no respeito dos equilíbrios intrínsecos da própria criação. Se falta esta perspectiva, o homem acaba ou por considerar a      natureza um tabu intocável ou, ao contrário, por abusar dela. Nem uma nem outra destas atitudes corresponde à visão cristã da natureza, fruto da criação de Deus”(Bento      XVI, Caritas in veritate, n0 48).
 
 
     Num segundo trecho, o Papa Bento XVI torna a repetir a condenação quer da posição materialista, que vê no universo apenas matéria eterna, infinita e onipotente, portanto, divina - panteísmo -, quer de uma posição religiosa que seria gnóstica e não panteísta:  
 
     “A natureza está à nossa disposição, não como «um monte de lixo espalhado ao acaso»[116], mas como um dom do Criador que traçou os seus ordenamentos intrínsecos      dos quais o homem há-de tirar as devidas orientações para a «guardar e cultivar» (Gn 2, 15). Mas é preciso sublinhar também que é contrário ao verdadeiro desenvolvimento      considerar a natureza mais importante do que a própria pessoa humana. Esta posição induz a comportamentos neo-pagãos ou a um novo panteísmo [na realidade a um      posicionamento gnóstico e não panteísta]: só da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, não pode derivar a salvação para o homem. Por outro lado, há que      rejeitar também a posição oposta, que visa a sua completa tecnicização, porque o ambiente natural não é apenas matéria de que dispor a nosso bel-prazer posicionamento      materialista panteísta], mas obra admirável do Criador, contendo nela uma « gramática » que indica finalidades e critérios para uma utilização sapiente, não instrumental nem      arbitrária” (Bento XVI, Caritas in veritate, n48).
 
     Dessas duas posições errôneas, advêm quer a destruição da natureza, por sua exploração materialista (panteísta), quer a consideração gnóstica de que a salvação porviria do contato com o espirito divino sepultado em toda a natureza e que seria preciso libertar.
 
 
     “Advêm, hoje, muitos danos ao desenvolvimento precisamente destas concepções deformadas. Reduzir completamente a natureza a um conjunto de simples dados reais      acaba por ser fonte de violência contra o ambiente e até por motivar ações desrespeitadoras da própria natureza do homem” (Bento XVI, Caritas in veritate, n48).
 
     Para a concepção católica, a natureza foi dada ao homem para servi-lo e para lhe fornecer vestígios de Deus por meio dos quais ele pode conhecer qualidades invsíveis de Deus através das qualidades das coisas criadas, como diz São Paulo na epístola aos Romanos (I, 20).
 
     Daí escrever Bento XVI:
 
     “Esta [a natureza], constituída não só de matéria mas também de espírito e, como tal, rica de significados e de fins transcendentes a alcançar, tem um caráter normativo      também para a cultura. O homem interpreta e modela o ambiente natural através da cultura, a qual, por sua vez, é orientada por meio da liberdade responsável, atenta aos      ditames da lei moral. Por isso, os projetos para um desenvolvimento humano integral não podem ignorar os vindouros, mas devem ser animados pela solidariedade e a justiça      entre as gerações, tendo em conta os diversos âmbitos: ecológico, jurídico, econômico, político, cultural[117]”. (Bento XVI, Caritas in veritate, n48).
 
 
 
2 - PROBLEMA DAS RELIGIÕES E A LIBERDADE DE RELIGIÃO
 
     Este último ponto sobre a colaboração entre os povos, na caridade e na verdade, leva então à questão candente da liberdade de religião.
 
     O Vaticano II tomou uma atitude de aproximação e de abertura para todas as formas de religião, chegando a afirmar que, em todas elas, o Espírito Santo podia atuar – sem distinguir se com a graça atual ou a habitual - e que, por isso mesmo, em todas as religiões, se poderia alcançar a salvação.
 
     Muito diferente é o posicionamento de Bento XVI face à liberdade em si mesma, pois ele recusa a noção corrente de liberdade absoluta do homem.
 
     Para a correta aplicação do conceito de liberdade às religiões, Bento XVI exige, antes, que se compreenda o verdadeiro conceito de liberdade.
 
     “Deve-se recuperar o verdadeiro sentido da liberdade, que não consiste no inebriamento de uma autonomia total, mas na resposta ao apelo do ser, a começar pelo ser que      somos nós mesmos”(Bento XVI, Caritas in veritate, no  70).
 
     E Bento XVI mostra como muitas religiões faltam com relação à verdade e ao bem verdadeiro:
 
 
     “A revelação cristã sobre a unidade do gênero humano pressupõe uma interpretação metafísica do humanum na qual a relação seja elemento essencial. Também outras      culturas e outras religiões ensinam a fraternidade e a paz, revestindo-se, por isso, de grande importância para o desenvolvimento humano integral; mas não faltam      comportamentos religiosos e culturais em que não se assume plenamente o princípio do amor e da verdade, e acaba-se assim por refrear o verdadeiro desenvolvimento      humano ou mesmo impedi-lo. O mundo atual regista a presença de algumas culturas de matiz religioso que não empenham o homem na comunhão, mas isolam-no na      busca do bem-estar individual, limitando-se a satisfazer os seus anseios psicológicos. Também uma certa proliferação de percursos religiosos de pequenos grupos ou      mesmo de pessoas individuais e o sincretismo religioso podem ser fatores de dispersão e de apatia. Um possível efeito negativo do processo de globalização é a tendência a      favorecer tal sincretismo[132], alimentando formas de «religião» que, em vez de fazer as pessoas encontrarem-se, alheiam-nas umas das outras e afastam-nas da realidade.      Simultaneamente às vezes perduram legados culturais e religiosos que bloqueiam a sociedade em castas sociais estáticas, em crenças mágicas não respeitadoras da      dignidade da pessoa, em comportamentos de sujeição a forças ocultas. Nestes contextos, o amor e a verdade encontram dificuldade em afirmar-se, com prejuízo para o      autêntico desenvolvimento” (Bento XVI, Caritas in veritate, n55).
 
     O Vaticano II defendeu ainda – contra todos os ensinamentos pontificios anteriores e contra a Sagrada Escritura — a liberdade de religião tal qual ela foi exigida pela Revolução Francesa e pela democracia liberal. Para o laicismo liberal, todas as religiões seriam iguais. Nenhuma poderia se arvorar como a única verdadeira. Dessa tomada de posiçao liberal e modernista do Vaticano II, nasceu o atual indiferentismo e sincretismo religioso, que faz o mundo de hoje não ter de fato nenhuma religião e a nenhuma considerar realmente verdadeira.
 
     Exatamente este polêmico ponto doutrinário é um dos que estará no centro das discussões entre a Fraterndade Sacerdotal São Pio X e os teólogos do Vaticano, a partir do próximo outono.
 
     Nesta sua encíclica, Bento XVI já apresenta matizes diferentes do que foi dito e decretado pelo Vaticano II.
 
     Ao tratar da liberdade de religião em nossos dias, Bento XVI lembra, antes de tudo, que ela não significa indierentismo religioso. E disso não há dúvida. Pois a liberdade de religião causa o indiferentismo religioso, e são os indiferentes à religião que defendem essa liberdade.
 
 
     “A liberdade religiosa não significa indiferentismo religioso, nem implica que todas as religiões sejam iguais[133]” (Bento XVI, Caritas in veritate, n56).
 
     Curiosamente, Bento XVI afirma que os governantes, para dar liberdade de religião à sociedade, devem levar em conta a caridade e a verdade, para bem avaliar as culturas e as religiões.
 
     Ora, se for assim, se verá que só o catolicismo é que traz consigo esses valores:
 
 
     “Para a construção da comunidade social no respeito do bem comum, torna-se necessário, sobretudo para quem exerce o poder político, o discernimento sobre o contributo      das culturas e das religiões. Tal discernimento deverá basear-se sobre o critério da caridade e da verdade. Dado que está em jogo o desenvolvimento das pessoas e dos      povos, aquele há-de ter em conta a possibilidade de emancipação e de inclusão na perspectiva de uma comunidade humana verdadeiramente universal. O critério  “o homem      todo e todos os homens» serve para avaliar também as culturas e as religiões. O cristianismo, religião do «Deus de rosto humano»[134], traz em si mesmo tal critério” (Bento      XVI, Caritas in veritate, n55).
 
     Estabelecido esse critério, o Papa diz que dois erros - o fundamentalismo e o laicismo — combatem a verdadeira religião, prejudicando as pessoas e o progresso da humanidade. Ao falar de fundamentalismo é claro que o Papa está se referindo ao Islã, que exclui a razão, como ele muito bem lembrou em seu famoso discurso de Regensburg. E quando ele fala de laicismo, ele se refere à sociedade democrática ocidental racionalista que, através de uma liberdade de religião indiferentista, exclui todo diálogo entre razão e fé, pois seu racionalismo é ateu: 
      
     “A exclusão da religião do âmbito público e, na vertente oposta, o fundamentalismo religioso impedem o encontro entre as pessoas e a sua colaboração para o progresso da      humanidade. A vida pública torna-se pobre de motivações, e a política assume um rosto oprimente e agressivo. Os direitos humanos correm o risco de não ser respeitados,      ou porque ficam privados do seu fundamento transcendente ou porque não é reconhecida a liberdade pessoal. No laicismo e no fundamentalismo, perde-se a possibilidade      de um diálogo fecundo e de uma profícua colaboração entre a razão e a fé religiosa. A razão tem sempre necessidade de ser purificada pela fé; e isto vale também para a      razão política, que não se deve crer omnipotente.(56)(Bento XVI, Caritas in veritate, n0 56. Os destaques sâo nossos).
 
 
 
3 - ÉTICA OU MORAL
 
     Há décadas já, se tem notado que, por toda a parte, se procura substituir o termo moral pela palavra "ética". Moral seria o que está relacionado com os dez mandamentos. Ética seria um sistema convencional para regular relações humanas, por exemplo, no trabalho, no comércio, na vida social em geral.
 
     Ética seria a moral humanista convencionada e sem relação com a lei natural. Ética nada teria a ver, então, com a moral. E é o que prova a Comissão de Ética do Senado Nacional e da Câmara de Deputados, para as quais todos são inocentes, mesmo que haja provas em contrário. A ética absolve o que a moral condena.
 
     Bento XVI condena a ética laicista seprada da lei natural e dos dez mandamentos, sem relação com a dignidade da pessoa humana e com a origem transcendente, divina, da moral:
 
     
 
     “Nota-se um certo abuso do adjetivo «ético», o qual, se usado vagamente, presta-se a designar conteúdos muito diversos, chegando-se a fazer passar à sua sombra      decisões e opções contrárias à justiça e ao verdadeiro bem do homem.
 
     
     Com efeito, muito depende do sistema moral em que se baseia. Sobre este argumento, a doutrina social da Igreja tem um contributo  próprio e específico para dar, que      se funda na criação do homem «à imagem de Deus» (Gn 1, 27), um dado do qual deriva a dignidade inviolável da pessoa humana e também o valor transcendente das normas      morais naturais. Uma ética econômica que prescinda destes dois pilares arrisca-se inevitavelmente a perder o seu cunho específico e a prestar-se a instrumentalizações;      mais concretamente, arrisca-se a aparecer em função dos sistemas econômico-financeiros existentes, em vez de servir de correção às disfunções dos mesmos. Além do      mais, acabaria até por justificar o financiamento de projectos que não são éticos. Por outro lado, não se deve recorrer ao termo « ético » de modo ideologicamente      discriminatório, dando a perceber que não seriam éticas as iniciativas não dotadas formalmente de tal qualificação. Um dado é essencial: a necessidade de trabalhar não só      para que nasçam setores ou segmentos « éticos » da economia ou das finanças, mas também para que toda a economia e as finanças sejam éticas: e não por uma      rotulação exterior, mas pelo respeito de exigências intrínsecas à sua própria natureza. A tal respeito, se pronuncia com clareza a doutrina social da Igreja, que recorda como a      economia, em todas as suas extensões, seja um setor da atividade humana[113] (Bento XVI, Caritas in veritate, n045).
 
                       
 
4 - DIREITOS E DEVERES
 
     Da questão moral e do acatamento completo da lei natural, deve-se passar para a discussão dos deveres e dos direitos do homem, estabelecidos pela lei natural. E não se deve falar em direitos sem falar falar dos deveres, porque são coisas correlatas.
 
     Na questão dos direitos e deveres, há que salientar, antes de tudo, os deveres que o homem tem para com Deus e, depois, os para consigo e para com o próximo.
 
     Entre esses deveres, há antes de tudo e fundamentalmente, os direitos e deveres para a manutenção da vida física, que incluem não só o não matar, como ainda o de não violar a propriedade alheia. A seguir, vêm os direitos e deveres que visam o bem da espécie humana, que são os da concepção e da transmissão da vida. Finalmente, os direitos e deveres para manter a vida intelectiva. Tudo isso está codificado nos dez mandamentos, que todo homem tem inscritos em sua natureza, e que, portanto, todos conhecem.
 
     Desde a Revolução Francesa se lançou a idéia dos direitos do homem. Hoje, essa idéia é a fundamental da Comissão de Justiça e Paz, nascida da Populorum progressio de Paulo VI.
 
     No mundo atual, a noção dos direitos humanos se tornou mais que um tabu. Ela se tornou um Baal moderno. Só se fala em direitos do homem e do cidadão. Nunca em deveres do homem. E ai de quem critique essa noção moderna dos direitos humanos, lembrando os deveres dos homens!
 
     Pois Bento XVI teve essa coragem.
 
     Em sua nova encíclica, Bento XVI teve a bravura doutrinária de se erguer atacando esse Baal Moderno. Ele denuncia, na Caritas in veritate, que os direitos sem os deveres correspondentes se transformam em arbítrio.
 
     Eis como:
 
     “É importante invocar uma nova reflexão que faça ver como os direitos pressupõem deveres, sem os quais o seu exercício se transforma em arbítrio[106]. Assiste-se hoje a      uma grave contradição: enquanto, por um lado, se reivindicam presumidos direitos, de caráter arbitrário e libertino, querendo vê-los reconhecidos e promovidos pelas      estruturas públicas, por outro existem direitos elementares e fundamentais violados e negados a boa parte da humanidade [107]”(Bento XVI, Caritas in veritate, n0 43).
 
     Evidentemente, Bento XVI aí está se referindo à reivindicação atual de ser reconhecido legalmente o casamento gay, como se ele não contrariasse a lei natural.
 
     Bento XVI mostra que os direitos, desvinculados dos deveres correspondentes, enlouquecem e se tornam arbitrários. E não é a aprovação de uma maioria legislativa que poderá mudar a lei natural.
 
     A lei positiva humana civil sempre tem que estar subordinada à lei natural e, quando a lei positiva humana civil contraria a lei natural, ela não é lei e não deve, nem pode ser obedecida. Por exemplo, uma lei que legitime o aborto não tem valor jamais. Como não tinha valor a lei positiva nazista anti semita por ser contra a lei natural. Nenhum católico tinha direito de acatar às leis racistas de Hitler.
 
     “Aparece com frequência assinalada uma relação entre a reivindicação do direito ao supérfluo, senão mesmo à transgressão e ao vício, nas sociedades opulentas e a falta de      alimento, água potável, instrução básica, cuidados sanitários elementares em certas regiões do mundo do subdesenvolvimento e também nas periferias de grandes      metrópoles. A relação está no fato de que os direitos individuais, desvinculados de um quadro de deveres que lhes confira um sentido completo, enlouquecem e alimentam      uma espiral de exigências praticamente ilimitada e sem critérios. A exasperação dos direitos desemboca no esquecimento dos deveres. Estes delimitam os direitos porque      remetem para o quadro antropológico e ético cuja verdade é o âmbito onde os mesmos se inserem e, deste modo, não descambam no arbítrio. Por este motivo, os deveres      reforçam os direitos e propõem a sua defesa e promoção como um compromisso a assumir ao serviço do bem. Se, pelo contrário, os direitos do homem encontram o seu      fundamento apenas nas deliberações duma assembleia de cidadãos, podem ser alterados em qualquer momento e, assim, o dever de os respeitar e promover atenua-se      na consciência comum” (Bento XVI, Caritas in veritate, n0 43).
 
 
 
5 - OS ERROS DA PSICOLOGIA MODERNA
 
     Não se pode dar ao homem a dignidade a que ele tem direito, se ele é tratado, de um lado, como mero animal, ou, de outro lado, como um deus em exílio. Noutras palavras, hoje, o materialismo cientificista vê o homem como um animal sem alma espiritual, enquanto, noutro extremo, as seitas gnósticas, como por exemplo, as orientais, ensinam que a ponta mais fina de sua alma seria uma partícula divina sepultada no calabouço da matéria.
 
     O materialismo evolucionista darwiniano ou de qualquer outro tipo que seja, assim como o gnosticismo fizeram considerar que o homem não tem alma livre e que, portanto, todos os seus atos são determinados. O que o torna sem responsabilidade moral. O materialismo defende que o homem não tem outro fim além desta vida terrena. Todos os atos humanos seriam determinados por problemas químicos, que regiriam seu comportamento de modo determinístico.
 
     Por sua vez, a Gnose afirma que o exílio do homem no mundo material foi causado por uma culpa metafísica anterior, que ele necessariamente paga neste mundo. Daí, seus atos serem tidos como determinados por um fado divino, que causa os impulsos inconteníveis de uma misteriosa partícula divina — identificada por Freud com o Id. Em qualquer desses dois ramos da heresia, panteísta ou gnóstica, que influenciaram toda a ciência moderna, o homem deixa de ser tido como ser livre e responsável.
 
     Panteísmo darwiniano e Gnose freudiana negam a liberdade humana e fazem do homem um mero objeto sem responsabilidade moral. Portanto, sem valor moral e sem culpa. A técnica ou a magia dirigiriam e libertariam o homem.
 
     Desse modo, perde-se consciência do valor ontológico do ser humano.
 
     Por isso, Bento XVI ensina  que o homem é um ser livre e responsável, que, por isso mesmo, é senhor de uma dignidade pessoal única, que ele pode levar, com o auxílio da graça sobrenatural, até a santidade:
 
     “Um dos aspectos do espírito tecnicista moderno é palpável na propensão a considerar os problemas e as moções ligados à vida interior somente do ponto de vista      psicológico, chegando-se mesmo ao reducionismo neurológico. Assim esvazia-se a interioridade do homem e, progressivamente, vai-se perdendo a noção da consistência      ontológica da alma humana, com as profundidades que os Santos souberam pôr a descoberto. O problema do desenvolvimento está estritamente ligado também com a      nossa concepção da alma do homem, uma vez que o nosso eu acaba muitas vezes reduzido ao psíquico, e a saúde da alma é confundida com o bem-estar emotivo. Na      base, estas reduções há uma profunda incompreensão da vida espiritual e leva-nos a ignorar que o desenvolvimento do homem e dos povos depende verdadeiramente      também da solução dos problemas de caráter espiritual. Além do crescimento material, o desenvolvimento deve incluir o espiritual, porque a pessoa humana é «um ser uno,      composto de alma e corpo»[156], nascido do amor criador de Deus e destinado a viver eternamente. O ser humano desenvolve-se quando cresce no espírito, quando a sua      alma se conhece a si mesma e apreende as verdades que Deus nela imprimiu em gérmen, quando dialoga consigo mesma e com o seu Criador. Longe de Deus, o homem      vive inquieto e está mal. A alienação social e psicológica e as inúmeras neuroses que caracterizam as sociedades opulentas devem-se também a causas de ordem espiritual.      Uma sociedade do bem-estar, materialmente desenvolvida mas oprimente para a alma, de per si não está orientada para o autêntico desenvolvimento. As novas formas de      escravidão da droga e o desespero em que caem tantas pessoas têm uma explicação não só sociológica e psicológica, mas essencialmente espiritual. O vazio em que a      alma se sente abandonada, embora no meio de tantas terapias para o corpo e para o psíquico, gera sofrimento. Não há desenvolvimento pleno nem bem comum universal      sem o bem espiritual e moral das pessoas, consideradas na sua totalidade de alma e corpo (Bento XVI, Caritas in veritate, n0 76).
 
 
 
6 - A EDUCAÇÃO
 
     O subjetivismo e o relativismo da sociedade moderna destruíram a certeza da verdade. E, sem a verdade, não podem existir nem civilização nem ordem; nem respeito pela lei, nem caridade real; nem o amor a Deus, nem amor ao próximo, como a si mesmo, por amor a Deus. Ao se afastar de Deus, a sociedade moderna vê se estiolar o amor e a própria civilização. Daí, a difusão da imoralidade, a cupidez do dinheiro, a violência, os crimes bábaros e monstruosos. A destruição da Cristandade trouxe de volta a barbárie e até a selvageria.
 
     Não é, então, de espantar a falência generalizada da educação nas escolas, nas universidades e nos seminários. A barbárie avança e, como ela, o crime.
 
     Bento XVI aborda também a calamidade da educação em nossos dias, calamidade que, a médio prazo, prepara a decadência da própria economia:
 
     “Com o termo «educação», não se pretende referir apenas à instrução escolar ou à formação para o trabalho — ambas, causas importantes de desenvolvimento — mas à      formação completa da pessoa. A este propósito, deve-se sublinhar um aspecto do problema: para educar, é preciso saber quem é a pessoa humana, conhecer a sua      natureza. A progressiva difusão de uma visão relativista desta coloca sérios problemas à educação, sobretudo à educação moral, prejudicando a sua extensão a nível      universal. Cedendo a tal relativismo, ficam todos mais pobres, com consequências negativas também sobre a eficácia da ajuda às populações mais carecidas, que não têm      necessidade apenas de meios econômicos ou técnicos, mas também de métodos e meios pedagógicos que ajudem as pessoas a chegar à sua plena realização humana.     (Bento XVI, Caritas in veritate,n0 61).
 
 
 
7 - A MÍDIA  E A DESTRUIÇÃO DA MORAL
 
     Os grandes meios de comunicação social, especialmente a televisão, desempemnham um imenso papel na destruição da moral e da família, primeiro foco da educação. Hoje, a TV reina em todos os lares, estereotipando as mentes, difundindo falta de pudor e até vícios de modo explícito. Isso sem falar dos efeitos deletérios que a escravidão das mentes às imagens causa na capacidade de abstração do homem. A diminuição espantosa da capacidade intelectiva, constatada nas escolas, é notória.

     Bento XVI constata como os meios de comunicação — inventados para difundir conhecimentos, providenciar o desenvolvimento humano - fracassaram completamente, originando males opostos aos bens que pretendiam difundir.
 
     “Os meios de comunicação social não favorecem a liberdade nem globalizam o desenvolvimento e a democracia para todos, simplesmente porque multiplicam as      possibilidades de interligação e circulação das ideias; para alcançar tais objetivos, é preciso que estejam centrados na promoção da dignidade das pessoas e dos povos,      animados expressamente pela caridade e colocados ao serviço da verdade, do bem e da fraternidade natural e sobrenatural. De fato, na humanidade, a liberdade está      intrinsecamente ligada a estes valores superiores. Os mass-media podem constituir uma válida ajuda para fazer crescer a comunhão da família humana e o ethos das      sociedades, quando se tornam instrumentos de promoção da participação universal na busca comum daquilo que é justo” (Bento XVI, Caritas in veritate, n0  73).
 
     Aos males da TV deveriam ser, hoje, acrescidos — e talvez com maior grau de nocividade ainda — a internet e os novos celulares, a que os jovens, especialmente, estão mais que fascinados, escravizados. Nesses meios, a pornografia se tornou acesível de modo totalmente descontrolado.
 
     Daí, o Papa – veremos isso mais adiante - falar da necessidade de mudar de mentalidade e de estilo de vida. Mais: daí, a necessidade de conversão.
 
 
 
8 – A GRANDE MENTIRA DA CIÊNCIA MODERNA: A EVOLUÇÃO
 
     Bento XVI aproveita toda ocasião para combater os ídolos modernos e mostra como os anti valores do mundo atual formam um sistema doutrinário anti católico. E ele surpreende o leitor também ao enfrentar o tema da ecologia e do progresso. Surpreende, sim, porque ele passa inesperadamente do tema ecológico para o da evolução. 
 
     Tratando de economia e da ecologia, habilmente ele aborda a questão do evolucionismo, afirmando que o homem não é fruto do acaso e nem de um processo evolutivo: 
 
     “Deus é o garante do verdadeiro desenvolvimento do homem, já que, tendo-o criado à sua imagem, fundamenta de igual forma a sua dignidade transcendente e alimenta o seu      anseio constitutivo de « ser mais ». O homem não é um átomo perdido num universo casual[70], mas é uma criatura de Deus, à qual quis dar uma alma imortal e que desde      sempre amou. Se o homem fosse fruto apenas do acaso ou da necessidade, se as suas aspirações tivessem de reduzir-se ao horizonte restrito das situações em que vive,      se tudo fosse somente história e cultura e o homem não tivesse uma natureza destinada a transcender-se numa vida sobrenatural, então poder-se-ia falar de incremento ou      de evolução, mas não de desenvolvimento“ ( Bento XVI, Caritas in veritate, n0 29).
 
     Portanto, porque se deve reconhecer ao homem uma vocação à transcendência, não se pode admitir que ele seja fruto do acaso ou da evolução.
 
     Este foi um golpe bem duro ao evolucionismo darwinista ou de qualquer outro tipo.
 
     Mais tarde, ao tratar da ecologia —imagine-se, da ecologia! -, Bento XVI volta a afirmar que o homem não é fruto da evolução, pois se assim fosse, não haveria fundamentação para um comportamento moral livre e responsável:
 
     “Quando a natureza, a começar pelo ser humano, é considerada como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo, a noção da referida responsabilidade debilita-se nas      consciências” (Bento XVI, Caritas in veritate, n0 48).
  
 
9 - CIÊNCIA, TECNOLOGIA E MORAL
 
     A mentalidade evolucionista moderna e a absolutização da técnica geraram a moderna Biotecnologia, para a qual o homem teria direito — como defendia o nazista Mengele —de manipular o ser humano.
 
     Bento XVI condena os novos procedimentos dessa manipulação tecnicista da vida que nega qualquer valor superior no ser humano. O Humanismo moderno, querendo substituir o Teocentrismo católico medieval, criou o monstro-centrismo, o Frankstein-centrismo:
 
     “É preciso afirmar que hoje a questão social tornou-se radicalmente antropológica, enquanto toca o próprio modo não só de conceber mas também de manipular a vida,      colocada cada vez mais nas mãos do homem pelas biotecnologias. A fecundação in vitro, a pesquisa sobre os embriões, a possibilidade da clonagem e hibridação humana      nascem e promovem-se na atual cultura do desencanto total, que pensa ter desvendado todos os mistérios porque já se chegou à raiz da vida. Aqui o absolutismo da técnica      encontra a sua máxima expressão. Em tal cultura, a consciência é chamada apenas a registar uma mera possibilidade técnica. Contudo não se pode minimizar os cenários      inquietantes para o futuro do homem e os novos e poderosos instrumentos que a «cultura da morte» tem à sua disposição. À difusa e trágica chaga do aborto poder-se-ia      juntar no futuro — embora sub-repticiamente já esteja presente in nuce — uma sistemática planificação eugenética dos nascimentos. No extremo oposto, vai abrindo      caminho uma mens eutanásica, manifestação não menos abusiva de domínio sobre a vida, que é considerada, em certas condições, como não digna de ser vivida. Por detrás      destes cenários, encontram-se posições culturais negacionistas da dignidade humana. Por sua vez, estas práticas estão destinadas a alimentar uma concepção material e         mecanicista da vida humana. Quem poderá medir os efeitos negativos de tal mentalidade sobre o desenvolvimento? Como poderá alguém maravilhar-se com a indiferença      diante de situações humanas de degradação, quando se comporta indiferentemente com o que é humano e com aquilo que não o é? Maravilha a seleção arbitrária do que hoje      é proposto como digno de respeito: muitos, prontos a escandalizar-se por coisas marginais, parecem tolerar injustiças inauditas. Enquanto os pobres do mundo batem às      portas da opulência, o mundo rico corre o risco de deixar de ouvir tais apelos à sua porta por causa de uma consciência já incapaz de reconhecer o humano (Bento XVI,      Caritas in veritate, n0 75).
 
 
     “Trata-se de um âmbito delicadíssimo e decisivo, onde irrompe, com dramática intensidade, a questão fundamental de saber se o homem se produziu por si mesmo ou      depende de Deus”(Bento XVI, Caritas in veritate. No 74).
 
     Mais uma vez, Bento XVI insiste, nessa encíclica, que o dilema atual entre o catolicismo e a ideologia moderna está numa aceitação do criacionismo ou na defesa da evolução.
 
     Prossegue o Papa, colocando a escolha entre a noção de trascendência e a da imanência. Ou se opta, hoje, pelo Catolicismo, ou pelo imanentismo panteísta ou gnóstico.
 
 
     “As descobertas científicas neste campo e as possibilidades de intervenção técnica parecem tão avançadas que impõem a escolha entre estas duas concepções: a da razão      aberta à transcendência ou a da razão fechada na imanência. Está-se perante uma opção decisiva” ”(Bento XVI, Caritas in veritate. No 74).
 
     Mostra ele, a seguir, que o racionalismo cientificista, na realidade, é irracionalista:
 
     “No entanto a concepção racional da tecnologia centrada sobre si mesma apresenta-se como irracional, porque implica uma decidida rejeição do sentido e do valor. Não é por      acaso que a posição fechada à transcendência se defronta com a dificuldade de pensar como tenha sido possível do nada ter brotado o ser e do acaso ter nascido a      inteligência[153]. Face a estes dramáticos problemas, razão e fé ajudam-se mutuamente; e só conjuntamente salvarão o homem: fascinada pela pura tecnologia, a razão sem      a fé está destinada a perder-se na ilusão da própria omnipotência, enquanto a fé sem a razão corre o risco do alheamento da vida concreta das pessoas[154]” (Bento XVI,      Caritas in veritate, n0    74).
 
 
 
10- CRIMES CONTRA A LEI NATURAL NA BIO TECNOLOGIA
 
     Postas estas premissas introdutórias, Bento XVI inicia seu ataque aos crimes praticados em nome do progresso e promovidos por organizações internacionais bem conhecidas, por trás das quais está a ONU.
 
 
     “Não só a situação de pobreza provoca ainda altas taxas de  mortalidade infantil em muitas regiões, mas perduram também, em várias partes do mundo, práticas de controle      demográfico por parte dos governos, que muitas vezes difundem a contracepção e chegam mesmo a impor o aborto. Nos países economicamente mais desenvolvidos, são      muito difusas as legislações contrárias à vida, condicionando já o costume e a práxis e contribuindo para divulgar uma mentalidade antinatalista que muitas vezes se procura      transmitir a outros Estados como se fosse um progresso cultural.
 
     “Também algumas organizações não governamentais trabalham  ativamente pela difusão do aborto, promovendo nos países pobres a adopção da prática da esterilização,           mesmo sem as mulheres o saberem. Além disso, há a fundada suspeita de que às vezes as próprias ajudas ao desenvolvimento sejam associadas com determinadas      políticas sanitárias que realmente implicam a imposição de um forte controle dos nascimentos. Igualmente preocupantes são as legislações que prevêem a eutanásia e as      pressões de grupos nacionais e internacionais que reivindicam o seu reconhecimento jurídico” ”(Bento XVI, Caritas in veritate, n0 28).
 
     Ricardo Caccioli, comentando a nova encíclica de Bento XVI, colocou à luz, e bem claramente, que é a ONU quem promove o morticínio de nascituros em todo o mundo, hoje:
 
     [...] “o humanismo sem Deus é um humanismo desumano e não há dúvida que hoje a ideologia humanitária, encarnada, por exemplo, nas agências da ONU e por tantos      organismos humanitários internacionais, seja responsável por tantos  crimes contra a humanidade. De fato, como esquecer que os 50 milhões de abortos que se cometem      cada ano no mundo são ativamente promovidos e financiados por agências humanitárias?" (Ricardo Caccioli, O Desenvolvimento é uma vocação, in messainlatino.it, 12 de      Julho de 2009).
 
     É à ONU a que o Papa visa nesse ataque. Mais ainda: ele visa a quem está por trás da ONU.
 
     “A abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento.  Quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motivações e      energias necessárias para trabalhar ao serviço do verdadeiro bem do homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham também      outras formas de acolhimento úteis à vida social[67]. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna-nos capazes de ajuda recíproca. Os povos ricos, cultivando a      abertura à vida, podem compreender melhor as necessidades dos países pobres, evitar o emprego de enormes recursos econômicos e intelectuais para satisfazer desejos      egoístas dos próprios cidadãos e promover, ao invés, ações virtuosas na perspectiva duma produção moralmente sadia e solidária, no respeito do direito fundamental de cada      povo e de cada pessoa à vida”(Bento XVI, Caritas in veritate, n0 28).
 
     O Papa aponta os abismos para os quais corre a humanidade, hoje, dirigida pelos que lhe impingem a “cultura da morte”, e que busca constituir, o quanto for possível, um modo de vida indigno da natureza humana.
 
     É a ONU que incentiva o aborto, a eugenia nazistóide, a eutanásia, a concepção in vitro, e outros horrores anti naturais.
 
     “é preciso afirmar que hoje a questão social tornou-se radicalmente antropológica, enquanto toca o próprio modo não só de conceber mas também de manipular a vida,      colocada cada vez mais nas mãos do homem pelas biotecnologias. A fecundação in vitro, a pesquisa sobre os embriões, a possibilidade da clonagem e hibridação humana      nascem e promovem-se na atual cultura do desencanto total, que pensa ter desvendado todos os mistérios porque já se chegou à raiz da vida. Aqui o absolutismo da técnica      encontra a sua máxima expressão. Em tal cultura, a consciência é chamada apenas a registar uma mera possibilidade técnica. Contudo não se pode minimizar os cenários      inquietantes para o futuro do homem e os novos e poderosos instrumentos que a «cultura da morte» tem à sua disposição. À difusa e trágica chaga do aborto poder-se-ia      juntar no futuro — embora sub-repticiamente já esteja presente in nuce — uma sistemática planificação eugenética dos nascimentos. No extremo oposto, vai abrindo      caminho uma mens eutanasica, manifestação não menos abusiva de domínio sobre a vida, que é considerada, em certas condições, como não digna de ser vivida. Por      detrás destes cenários encontram-se posições culturais negacionistas da dignidade humana. Por sua vez, estas práticas estão destinadas a alimentar uma concepção      material e mecanicista da vida humana” (Bento XVI, Caritas in veritate, n0 75. Os destaques são nossos).
 
 
 
11 - CONTROLE DA NATALIDADE E EUTANÁSIA
 
     Surpeendentemente, como grande esgrimista com a espada da dialética – da capacidade de discutir e de argumentar, não da dialética gnóstica –, Bento XVI salta do problema ecológico para a defesa da vida humana, condenando a contracepção, a eutanásia e o aborto. Pois: como o mundo atual exige o respeito à natureza e, depois, defende o controle da natalidade, o aborto e a eutanásia?
 
     Como se defende o mico leão e se quer o aborto de nascituros? Como quem defende a vida de uma árvore e protesta se alguém derruba uma delas, depois, preconiza a eutanásia? O Ibama pode tolerar a eutanásia? Como se afirma que destruir ovos de tartaruga é crime e se defende a contracepção humana?
 
     Acima – muito acima - da ecologia ambiental, deve ser colocada a “ecologia humana”.
 
     Sem a moral católica, fundamentada na lei natural, não há salvação para o meio ambiente. Mas isso implica na criminilização do aborto, da eutanásia, e na condenação religiosa da contracepção. Isso implica a recusa de todos os planos da ONU para institutir a “cultura da morte”.
 
     Eis o que diz Bento XVI:
 
     “Para preservar a natureza não basta intervir com incentivos ou penalizações econômicas, nem é suficiente uma instrução adequada. Trata-se de instrumentos importantes,      mas o problema decisivo é a solidez moral da sociedade em geral. Se não é respeitado o direito à vida e à morte natural, se se torna artificial a concepção, a gestação e o      nascimento do homem, se são sacrificados embriões humanos na pesquisa, a consciência comum acaba por perder o conceito de ecologia humana e, com ele, o de ecologia      ambiental. É uma contradição pedir às novas gerações o respeito do ambiente natural, quando a educação e as leis não as ajudam a respeitar-se a si mesmas. O livro da      natureza é uno e indivisível, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrimônio, da família, das relações sociais, numa palavra,      do desenvolvimento humano integral. Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e      em relação com os outros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros. Esta é uma grave antinomia da mentalidade e do costume atual, que avilta a pessoa, transtorna o      ambiente e prejudica a sociedade” (Bento XVI, Caritas in veritate, n0 51).
 
                               
 
12 - O CONTROLE DA NATALIDADE É CONTRA O PROGRESSO
 
     Durante décadas, e contrariando todos os estudos econômicos e sociais, se impingiu a mentira de que uma família que tivesse muitos filhos seria pobre e de que as nações só alcançariam o desenvolvimento econômico, caso aplicassem, de modo eficiente, políticas anti natalistas. Ora, até um comunista chinês condenou essa tolice, dizendo que, a cada boca a mais, são dois braços a mais trabalhando.
 
     Malthus continua alimentando o egoísmo e o hedonismo modernos.
 
     Bento XVI tem a coragem de defender, hoje, ante a modernidade materialista e malthusiana, o direito à natalidade, escrevendo com clareza e definitivamente:
 
     “A concepção dos direitos e dos deveres no desenvolvimento deve ter em conta também as problemáticas ligadas com o crescimento demográfico. Trata-se de um aspecto muito importante do verdadeiro desenvolvimento, porque diz respeito aos valores irrenunciáveis da vida e da família[110]. Considerar o aumento da população como a primeira causa do subdesenvolvimento é errado, inclusive do ponto de vista econômico: basta pensar, por um lado, na considerável diminuição da mortalidade infantil e no alongamento médio da vida que se registra nos países economicamente desenvolvidos, e, por outro, nos sinais de crise que se observam nas sociedades onde se registra uma preocupante queda da natalidade”(Bento XVI, Caritas in veritate, n0 44).
 
     Tratando desse ponto, Ricardo Cacciolli escreveu:
 
     “Para os países pobres, demonstrou-se “incorreto do ponto de vista econômico” “considerar o aumento da população como causa primeira do sub desenvolvimento”. Com      efeito, nas últimas décadas todos os países do mundo – salvo raríssimas exceções – experimentaram uma drática diminuição de nascimentos. Mas nenhum país saiu da      pobreza e do sub-desenvolvimento graças a essas políticas. Pelo contrário, foram desperdiçadas pelo controle dos nascimentos importantes recursos necessários para      promover verdadeiros projetos de desenvolvimento. Além da aplicação selvagem de tais políticas – veja-se a China, a Índia e outros países asiáticos – provocaram graves      desequilíbrios sociais, dos quais a falta de cem milhões de mulheres para casar é apenas o aspecto mais notável” (Ricardo Caccioli, O Desenvolvimento é uma vocação,      in messainlatino.it, 12 de Julho de 2009).
 
     E Bento XVI:     
 
     “A Igreja, que tem a peito o verdadeiro desenvolvimento do homem, recomenda-lhe o respeito dos valores humanos também no uso da sexualidade: o mesmo não pode ser      reduzido a um mero fato hedonista e lúdico, do mesmo modo que a educação sexual não se pode limitar à instrução técnica, tendo como única preocupação defender os      interessados de eventuais contágios ou do «risco» procriador. Isto equivaleria a empobrecer e negligenciar o significado profundo da sexualidade, que deve, pelo contrário, ser      reconhecido e assumido responsavelmente tanto pela pessoa como pela comunidade. Com efeito, a responsabilidade impede que se considere a sexualidade como uma      simples fonte de prazer ou que seja regulada com políticas de planificação forçada dos nascimentos. Em ambos os casos, estamos perante concepções e políticas      materialistas, no âmbito das quais as pessoas acabam por sofrer várias formas de violência. A tudo isto há que contrapor a competência primária das famílias neste      campo  [111], relativamente ao Estado e às suas políticas restritivas, e também uma apropriada educação dos pais. A abertura moralmente responsável à vida é uma      riqueza social e econômica. Grandes nações puderam sair da miséria, justamente graças ao grande número e às capacidades dos seus habitantes. Pelo contrário, nações      outrora prósperas atravessam agora uma fase de incerteza e, em alguns casos, de declínio precisamente por causa da diminuição da natalidade, problema crucial para as      sociedades de proeminente bem-estar. A diminuição dos nascimentos, situando-se por vezes abaixo do chamado « índice de substituição », põe em crise também os      sistemas de assistência social, aumenta os seus custos, contrai a acumulação de poupanças e, consequentemente, os recursos financeiros necessários para os      investimentos, reduz a disponibilização de trabalhadores qualificados, restringe a reserva aonde ir buscar os « cérebros » para as necessidades da nação. Além disso, as      famílias de pequena e, às vezes, pequeníssima dimensão correm o risco de empobrecer as relações sociais e de não garantir formas eficazes de solidariedade. São      situações que apresentam sintomas de escassa confiança no futuro e de cansaço moral. Deste modo, torna-se uma necessidade social, e mesmo econômica, continuar a      propor às novas gerações a beleza da família e do matrimônio, a correspondência de tais instituições às exigências mais profundas do coração e da dignidade da      pessoa.” (Bento XVI, Caritas in veritate, n44. Os destaques são nossos).
 
     Bento XVI aproveita, então, a exposição desse direito à procriacão para condenar indiretamente o chamado “casamento” gay”:
 
     “Nesta perspectiva, os Estados são chamados a instaurar políticas que promovam a centralidade e a integridade da família, fundada no matrimônio entre um homem e uma      mulher, célula primeira e vital da sociedade[112], preocupando-se também com os seus problemas econômicos e fiscais, no respeito da sua natureza relacional” (Bento      XVI, Caritas in veritate.n44. Destaque nosso).
 
 
     O Papa mostra ainda como as concepções modernas sobre a sexualidade – sobre a chamada “educação” sexual — e sobre os metodos imorais de controlar os riscos de Aids são inaceitáveis para a moral católica:
 
     “A Igreja, que tem a peito o verdadeiro desenvolvimento do homem, recomenda-lhe o respeito dos valores humanos também no uso da sexualidade: o mesmo não pode ser      reduzido a um mero fato hedonista e lúdico, do mesmo modo que a educação sexual não se pode limitar à instrução técnica, tendo como única preocupação defender os      interessados de eventuais contágios ou do «risco» procriador. Isto equivaleria a empobrecer e negligenciar o significado profundo da sexualidade, que deve, pelo contrário, ser      reconhecido e assumido responsavelmente tanto pela pessoa como pela comunidade. Com efeito, a responsabilidade impede que se considere a sexualidade como uma      simples fonte de prazer ou que seja regulada com políticas  de planificação forçada dos nascimentos” (Bento XVI, Caritas in veritate,n44. Destaque nosso).
 
     Como, então, tantos Bispos defendem o uso de preservativo para evitar “riscos” de contágio da Aids sem dizer uma palavra sobre a obrigação de guardar a castidade?
 
     Como o Papa parece só diante da multidão dos Bispos que ensinam o oposto do que ele ensina!
  
 
 
13 - O MERCADO
 
     Enquanto, na Populorum progressio, se fazia uma análise de tendência claramente socialista da ordem econômica mundial, Bento XVI admite o mercado.
 
     Claro que o Papa Bento XVI não aprova a livre concorrência absoluta do capitalismo liberal que dá a vitória do forte sobre o fraco, do grande capital sobre o pequeno, que leva à absorção de todos os pequenos negociantes pelas grandes empresas de capital gigantesco. Mas ele não considera que o mercado seja, de si, prejudicial ao progresso. É a livre concorrência absoluta, e separada da moral, que danifica a sociedade mesmo do ponto de vista econômico. É o egoismo que prejudica a economia e a sociedade.
 
 
     “Desde sempre a Igreja defende que não se há-de considerar o agir econômico como anti-social. De per si o mercado não é, nem se deve tornar, o lugar da prepotência do      forte sobre o débil. A sociedade não tem que se proteger do mercado, como se o desenvolvimento deste implicasse ipso fato a morte das relações autenticamente humanas.      É verdade que o mercado pode ser orientado de modo negativo, não porque isso esteja na sua natureza, mas porque uma certa ideologia pode dirigi-lo em tal sentido. Não se      deve esquecer que o mercado, em estado puro, não existe; mas toma forma a partir das configurações culturais que o especificam e orientam. Com efeito, a economia e as      finanças, enquanto instrumentos, podem ser mal utilizadas se quem as gere tiver apenas referimentos egoístas. Deste modo é possível conseguir transformar instrumentos de      per si bons em instrumentos danosos; mas é a razão obscurecida do homem que produz estas consequências, não o instrumento por si mesmo. Por isso, não é o      instrumento que deve ser chamado em causa, mas o homem, a sua consciência moral e a sua responsabilidade pessoal e social. (36)
 
 
 
14 - O UTOPISMO E O TECNICISMO
 
     Vimos que Bento XVI, em sua última encíclica, condenou quer a utopia tecnicista e racionalista, quer a idéia de retorno ao éden, comum nas seitas irracionalsitas anti tecnicistas, mas gnósticas:
 
     “Absolutizar ideologicamente o progresso técnico ou então afagar a utopia duma humanidade reconduzida ao estado originário da natureza são dois modos opostos de      separar o progresso da sua apreciação moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade” (Bento XVI, Caritas in veritate, n14).
 
     Paulo VI, na Populorum progressio, não escapou dessa acusação de utopismo tecnicista. Mas Bento XVI, nesta encíclica que estamos focalizando, condena expressamente o tecnicismo:
 
     “Quando prevalece a absolutização da técnica, verifica-se uma confusão entre fins e meios: como único critério de ação, o empresário considerará o máximo lucro da      produção; o político, a consolidação do poder; o cientista, o resultado das suas descobertas”(Bento XVI, Caritas in veritate, N0 71).
 
     Depois da morte das ideologias totalitárias do século XX, Bento XVI aponta a tentativa de substituí-las pela absolutização da técnica. Quando isso ocorre, a verdade passa ser o factível:
 
     “O desenvolvimento tecnológico pode induzir à ideia de auto-suficiência da própria técnica, quando o homem, interrogando-se apenas sobre o como, deixa de considerar os           muitos porquês pelos quais é impelido a agir. Por isso, a técnica apresenta-se com uma fisionomia ambígua. Nascida da criatividade humana como instrumento da liberdade      da pessoa, pode ser entendida como elemento de liberdade absoluta; aquela liberdade que quer prescindir dos limites que as coisas trazem consigo. O processo de      globalização poderia substituir as ideologias com a técnica[152], passando esta a ser um poder ideológico que exporia a humanidade ao risco de se ver fechada dentro de um      a priori do qual não poderia sair para encontrar o ser e a verdade. Em tal caso, todos nós conheceríamos, avaliaríamos e decidiríamos as situações da nossa vida a partir do      interior de um horizonte cultural tecnocrático, ao qual pertenceríamos estruturalmente, sem poder jamais encontrar um sentido que não fosse produzido por nós. Esta visão      torna hoje tão forte a mentalidade tecnicista que faz coincidir a verdade com o factível. Mas, quando o único critério da verdade é a eficiência e a utilidade, o desenvolvimento      acaba automaticamente negado. De fato, o verdadeiro desenvolvimento não consiste primariamente no fazer; a chave do desenvolvimento é uma inteligência capaz de pensar      a técnica e de individualizar o sentido plenamente humano do agir do homem, no horizonte de sentido da pessoa vista na globalidade do seu ser” (Bento XVI, Caritas in      veritate, n70).
 
     O mundo pós moderno pretende viver de novo o desafio de Prometeu, mas, desta vez, contra o Onipotente, contra “Aquele que é”.
 
     Contra o Deus que se afirmou "Eu sou o que sou”, levanta-se o homem do pecado, afirmando-se “Eu sou o que faço. E o que me faço”.
 
 
     41 - A economia integrada de nossos dias não elimina a função dos Estados, antes obriga os governos a uma colaboração recíproca mais intensa. Razões de sabedoria e      prudência sugerem que não se proclame depressa demais o fim do Estado (41)
 
 
     “O desenvolvimento da pessoa degrada-se, se ela pretende ser a única produtora de si mesma. De igual modo, degenera o desenvolvimento dos povos, se a humanidade      pensa que se pode re-criar valendo-se dos «prodígios» da tecnologia. Analogamente, o progresso econômico revela-se fictício e danoso quando se abandona aos «prodígios»      das finanças para apoiar incrementos artificiais e consumistas. Perante esta pretensão prometeica, devemos robustecer o amor por uma liberdade não arbitrária, mas tornada      verdadeiramente humana pelo reconhecimento do bem que a precede. Com tal objetivo, é preciso que o homem reentre em si mesmo, para reconhecer as normas      fundamentais da lei moral natural que Deus inscreveu no seu coração (Bento XVI, Caritas in veritate, n0 68).
 
 
 
 
V – BENTO XVI PROPÕE A REFORMA OU A LIQUIDAÇÃO DA ONU?
 
 
     Vejamos agora o que Bento XVI diz como recado aos “homens de boa vontade”. Como dissemos, trata-se de uma opinião política do Papa. E, em política, não entra a infalibilidade papal.
 
     Pela primeira vez em suas encíclicas, o Papa reinante inclui os famosos “homens de boa vontade” — os maçons — “et pour cause”, ao tratar da reforma da ONU.
 
     Mas a ONU pode ser reformada?
 
     Ou deve ser aniquilada?
 
     É ser realista esperar uma reforma da ONU, em sentido católico?
 
     Depois de, em toda a sua encíclica, Caritas in veritate, Bento XVI atacar profundamente o que a ONU está promovendo no mundo com relação ao aborto e à bioengenharia, surpreende – e, desta vez, causando perplexidade — que ele fale da possibilidade de um  governo mundial com uma reforma da ONU.
 
     Este parece ser o ponto mais delicado e problemático desta encíclica de Bento XVI. Ponto de política concretaque, evidentemente, está fora dos limites da infalibilidade papal. Portanto, podendo ser discutido.
 
 
     Em primeiro lugar, tratemos da questão de um governo mundial. Não - é claro - da República Universal almejada pelas forças secretas que visam destruir a Igreja Católica e a Cristandade. Mas tratemos da possibilidade da existência de um governo de caráter mundial, e de acordo com as normas da doutrina católica.
       
     Ainda no tempo de Cristo, havia o Império romano que tinha um caráter universal, enquanto abarcava o mundo civilizado. E Cristo mandou pagar tributo a César. Portanto, o Império romano, enquanto respeitador da lei natural, era um poder mundial legítimo.
 
     Houve, depois, na Idade Media, no mundo civilizado, a instituição de um governo para toda na Cristandade: foi o Sacro Império, sagrado pela Igreja.
 
     Na Cristandade, no Império cristão, havia um poder supremo de ordem espiritual, exercido pelo Papa, que podia depor, se necessário, até mesmo o Imperador. Por sua vez, a ordem civil tinha como pedra de fecho, no sistema feudal, o Imperador.
 
     Entretanto, na Cristandade, o poder do Imperador não se exercia em cada reino. Todo reino se autogovernava, como também cada ducado e cada feudo se governava a si mesmo. Cada senhor feudal governava o seu território feudal, prestando vassalagem ao senhor feudal superior, sem, porém, jamais perder sua autonomia. No sistema feudal, cada um era senhor de seu território, exercendo nele jurisdição. Havia, no feudalismo, uma  participação de todos no poder, subordinando-se cada um a seu superior sem perda de seu senhorio. Essa ordem feudal natural, durou séculos, dando frutos excelentes.
 
     A partir do século XIV, o equilíbrio político feudal foi rompido. Os Reis tenderam a se rebelar contra o Papado, recusando ter o Papa como o suserano mais alto da terra e repudiando seu poder jurisdicional oriundo do próprio Cristo. Em 1303, o Rei da França, Felipe IV, o belo, fez prender e esbofetear o Papa Bonifácio VIII. Foi esse o primeiro triunfo do absolutismo do Estado Moderno.
 
     Desde então, o Estado Moderno — a monarquia absoluta — liberta do controle da Igreja, foi tudo invadindo, cuidando e pretendendo cuidar de todas as esferas da atividade humana. Com o Renascimento e com a Reforma  — pai e mãe do humanismo, que trocou Deus pelo homem — os Reis tornaram-se efetivamente senhores do Estado e da Igreja.
 
     A Revolução Francesa de 1789 guilhotinou os Reis e fez, do Estado Liberal, um César mais autocrático que Nero.
 
     Finalmente, com Lênin, o Estado bolchevista se atribuiu direitos sobre tudo, sobre a economia e sobre a família, sobre os esposos e sobre os filhos.
 
     E a segunda guerra mundial permitiu instituir um poder mundial maçônico e anticristão: a ONU, que está hoje impondo ao mundo o que estava já escrito na nota de um dólar: Novus Ordo Saeculorum. A Nova Ordem do Mundo, que Roosevelt propusera a Pio XII em carta que esse Papa incluiu em sua primeira Mensagem de Natal (Cfr. Mensagem de Natal de Pio XII, em 1939).
 
     E a ONU, a cada ano, mata mais pessoas antes do nascimento - 50 milhões - do que Hitler e Stalin juntos.
 
     O Papa Bento XVI, nesta sua última encíclica, trata da questão do governo mundial. O que o leva a tratar dessa questão é a crise política atual do Oriente Médio, que ameaça a terra de destruição maciça; a crise economico-financeira universal; a imposição de decisões pela força pelos Estados que detêm o poder atômico, além da impotência política da ONU e de sua nefasta difusão de leis antinaturais, assim como a propulsão de um hedonismo geral anticristão. Por tudo isso, o Papa exige uma “reforma da ONU”, muito contrária ao que a ONU é concretamente, hoje.
 
     Seria possível uma “reforma da ONU”?
 
     Parece-nos claro que não.
 
     Delenda est ONU!
 
     Essa coisa lá de Nova York, como dizia De Gaulle.
 
     Em que pese Paulo VI, ONU e Catolicismo não podem ter conciliação:
 
 
     “Perante o crescimento incessante da interdependência mundial, sente-se imenso — mesmo no meio de uma recessão igualmente mundial — a urgência de uma reforma      quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitetura econômica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de      nações. De igual modo sente-se a urgência de encontrar formas inovadoras para atuar o princípio da responsabilidade de proteger [146] e para atribuir também às nações      mais pobres uma voz eficaz nas decisões comuns. Isto se revela necessário precisamente no âmbito de um ordenamento político, jurídico e econômico que incremente e      guie a colaboração internacional para o desenvolvimento solidário de todos os povos” (Bento XVI, Caritas in veritate, n 67).  
 
     Nesse texto, o Bento XVI não aprova a ONU. O que, aliás, seria uma contradição com tudo o que ele afirmou nessa encíclica e em sua vida.
 
     Mas reformar a ONU não adianta nada e é impossível. Uma reforma católica da ONU significaria destruir a ONU. Portanto, urge destruir a ONU, e substituí-la por algo oposto a ela.
 
     Quebrar e anular a ONU, nada mais auspicioso e necessário na política internacional.
 
     Porém, ao falar em governo mundial, Bento XVI assusta a todos os que sabem o quanto a ONU e o poder mundial estão nas mãos dos inimigos de Deus, e como sempre foram eles que defenderam a tese de um governo único mundial e laico. E o susto e o espanto crescem, quando se lê o que Bento XVI escreveu:
 
 
     “urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial, delineada já pelo meu predecessor, o Beato João XXIII. (...) e que se dê finalmente atuação a uma ordem      social conforme a ordem moral e àquela ligação entre esfera moral e social, entre política e esfera econômica e civil que aparece já perspectivada no Estatuto das Nações      Unidas. (Bento XVI, Caritas in veritate, n 67).  
 
     Que haja um organismo universal em que “se dê finalmente atuação a uma ordem social conforme a ordem moral e àquela ligação entre a esfera moral e social, entre política e a esfera econômica e civil” , sem dúvida, isso é bem desejável.
     
     Mas isso é impossível com a ONU, cujos princípios são maçônicos e opostos à ordem moral católica.
 
     A ordem católica exige que a unidade se encontre na verdade. Só com a unidade na única Fé católica (universal) se encontrará a unidade universal (católica). Só com a união da Igreja e do Estado, haverá a unidade universal. E, nessa unidade, a esfera civil terá que estar unida e submetida à esfera eclesiástica, como o corpo está unido à alma e submetido a ela. O Império era submisso à Igreja. Só, na unidade da Cristandade, haverá unidade universal dos homens em Cristo, e sob seu Vigário na terra, o Papa.
 
     Sem o Papa não há unidade.
 
     O que João XXIII pediu, o que Paulo VI elogiou e afirmou em seu incrível discurso na ONU, considerando-a a única instituição capaz de dar a paz ao mundo, espantou e escandalizou todos os católicos verdadeiros, porque a paz só pode vir de Cristo e nunca da ONU, que é incapaz de fazer qualquer justiça. A paz da ONU é a falsa paz do mundo, oposta à paz que vem de Cristo.
 
     E o que está “perspectivado” nos estatutos das Nações Unidas é oposto ao que a Fé católica exige.
 
     É bem verdade que Bento XVI afirma que esse novo poder mundial deve visar um desenvolvimento humano integral, inspirado na caridade e na verdade. Mas como esperar dos políticos atuais que visam exatamente destruir esses valores da verdade e da caridade?
 
     A ONU nega que exista a verdade objetiva, nega que exista Deus transcendente, e nega que haja lei natural.
 
     Como conciliar a ONU com o que ensinou Bento XVI nessa encíclica?
 
     Eis o que Bento XVI quer como necessário para um autêntico governo mundial:
 
     “A referida Autoridade deverá regular-se pelo direito, ater-se coerentemente aos princípios de subsidiariedade e solidariedade, estar orientada para a consecução do bem      comum [147], comprometer-se na realização de um autêntico desenvolvimento humano integral inspirado nos valores da caridade na verdade. Além disso, tal Autoridade      deverá ser reconhecida por todos, gozar de poder efetivo para garantir a cada um a segurança, a observância da justiça, o respeito dos direitos [148]. Obviamente, deve gozar      da faculdade de fazer com que as partes respeitem as próprias decisões, bem como as medidas coordenadas e adotadas nos diversos fóruns internacionais. É que, se isso      faltasse, o direito internacional, não obstante os grandes progressos realizados nos vários campos, correria o risco de ser condicionado pelos equilíbrios de poder entre      os mais fortes. O desenvolvimento integral dos povos e a colaboração internacional exigem que seja instituído um grau superior de ordenamento internacional de tipo      subsidiário para o governo da globalização [149]” (Bento XVI, Caritas in veritate, n67).
 
     Nas atuais circunstâncias isso é impossível. Se isso for realizado será com a destruição da ONU.
 
     A ONU é contra o princípio de subsidiariedade, eminentemente feudal e anti-igualitário.
 
     Os católicos sempre quiseram a restauração da Cristandade, a implantação do Reino social de Nosso Senhor Jesus Cristo e é apenas isso que o Papa pode querer.
 
     É evidente, porém, que esse Reinado Social de Nosso Senhor só pode ser instaurado com a conversão geral dos povos a uma verdadeira vida católica. O que é obra de séculos e não de um decreto.
 
     O poder mundial maçônico quer uma república universal laica, sem Deus e sem lei natural, sem autonomia alguma dos Estados nacionais.
 
     Ora, o Papa Bento XVI previne que:
 
     “A economia integrada de nossos dias não elimina a função dos Estados, antes obriga os governos a uma colaboração recíproca mais intensa. Razões de sabedoria e      prudência sugerem que não se proclame depressa demais o fim do Estado”. (Bento XVI, Caritas in veritate, N41).
 
     Além disso, Bento XVI, num discurso aos participantes da Assembléia das Nações Unidas, já prevenira que:
 
     ”A ação da comunidade internacional e das suas instituições, suposto o respeito dos princípios que estão na base da ordem internacional, nunca deve ser interpretada      como uma imposição indesejada e uma limitação de soberania” (Bento XVI, Discurso aos participantes na Assembléia Geral das Nações Unidas (18 de Abril de 2008):      Insegnamenti IV/1 (2008), 618-626 Os destaques são nossos).
 
     Ora, de novo, o que a ONU visa é exatamente o fim dos Estados nacionais, particularmente dos que não admitem o socialismo chavista. É o que se vê agora no caso de Honduras. Honduras tem que engolir um governo socialista. Mas a Venezuela comunista, como Cuba, é intocável.
 
     “A subsidiariedade é, antes de qualquer coisa, uma ajuda à pessoa, na autonomia dos corpos intermédios. Tal ajuda é oferecida quando a pessoa e os sujeitos sociais não        conseguem operar por si sós, e implica sempre finalidades emancipativas, porque favorece a liberdade e a participação enquanto assunção de responsabilidades. A      subsidiariedade respeita a dignidade da pessoa, na qual vê um sujeito sempre capaz de dar algo aos outros. Ao reconhecer na reciprocidade a constituição íntima do ser      humano, a subsidiariedade é o antídoto mais eficaz contra toda a forma de assistencialismo paternalista. Pode motivar tanto a múltipla articulação dos vários níveis e      conseqüentemente a pluralidade dos sujeitos, como a sua coordenação. Trata-se, pois, de um princípio particularmente idôneo para governar a globalização e orientá-la      para um verdadeiro desenvolvimento humano. Para não se gerar um perigoso poder universal de tipo monocrático, o governo da globalização deve ser de tipo subsidiário,      articulado segundo vários e diferenciados níveis que colaborem reciprocamente. A globalização tem necessidade, sem dúvida, de autoridade, enquanto põe o problema de um      bem comum global a alcançar; mas tal autoridade deverá ser organizada de modo subsidiário e poliárquico[138], seja para não lesar a liberdade, seja para resultar      concretamente eficaz” ( Bento XVI, Caritas in veritate, n57).
 
     Desejar um governo mundial, obtido pela reforma da ONU, que seja poliárquico e que admita o princípio de subsidiariedade com a permanência da autonomia dos Estados é desejar um círculo quadrado. Impossível com a ONU. Somente com o fim completo da ONU e de seus princípios anti-cristãos, isso seria possível.
 
     De todo modo, passar-se-ão séculos antes que possa surgir uma Cristandade que abarque todo o mundo habitado. Que é só o que tornaria um poder mundial de caráter católico.
 
     Para isto seria necessária uma completa mudança de mentalidade. Seria preciso uma conversão geral. 
 
     E profunda.
 
     A começar do Clero, sem o qual nada pode ser feito.
 
 
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Em síntese:
  1. A existência de um governo universal não é contra a doutrina católica. O Império romano era universal no mundo civilizado. E Cristo mandou pagar tributo a César. E o  Império medieval foi sagrado pela Igreja em Carlos Magno.
  2. Mas a ONU é o contrário do Império católico.
  3. Não é possível cristianizar a ONU.
  4. Se Bento XVI considera possível uma simples reforma da ONU, essa é uma opinião dele relativa a um fato concreto, no qual não entra a infalibilidade.
     Bento XVI dirigiu a Caritas in veritate também aos famosos e misteriosos “Homens de Boa vontade”, os membros das sociedades secretas que estão por trás da ONU.
 
     Bento XVI, em toda a sua encíclica, acusou os malefícios que a ONU propaga no mundo, e que levaram a uma crise sem saída e sem igual na História.
 
     Daí ele afirmar ou a ONU se reforma ou…
 
     Cabe então a pergunta: Bento XVI quer a reforma ou a destruição da ONU?
 
     A “hermenêutica da continuidade”, aplicada tão radicalmente à ONU, não seria na verdade a sua destruição?
 
     Depois disso, os sedevacantistas abertos ou camuflados acusarem Bento XVI de que essa sua opinião prova que ele não é Papa, ou que ele está abrindo as portas para o Anticristo, parece-nos um  grande delírio.
 
     Somos contra a ONU e consideramos que ela é irreformável. Mas continuamos crendo que Bento XVI é o Papa legítimo a quem todo católico deve obedecer e acatar.
 
     Rezemos, pois, pelo Papa.
 
 
 
 
VI - REVER O ESTILO DE VIDA ATUAL
 
 
     Uma completa mudança de mentalidade e de estilo de vida é necessária no mundo atual. Isso significa que uma conversão é necessária.
 
     Hoje, mesmo os católicos fiéis que mantêm a Fé vivem segundo o mundo. Poucos seguem a Cristo, negando-se a si mesmos e carregando sua cruz. Mesmo grande número dos católicos particantes e que procura manter a Fé, vivem segundo o mundo à beira do mar e das piscinas. Vivem fugindo da cruz, buscando diversões, misturados com os ateus práticos, nos mesmos lazeres e com a  mesma mentalidade deles. Uma vida hedonista contrária à cruz de Cristo. Até nos seminários, há piscinas e João Paulo II mandou fazer uma para ele tomar banho, no Vaticano. No Osservatore Romano agora saíram artigos louvando Michael Jackson e Harry Potter.
 
     Bento XVI não tem imensa razão? É preciso uma nova mentalidade. É necessário mudar o estilo de vida. E isso vale também para o clero. Sobretudo para o clero.
 
     Uma das causas da enorme decadência do Catolicismo vem do fato de que, mesmo sacerdotes corretos quanto à doutrina, muitas vezes, aceitam o estilo de vida hedonista e pagão da modernidade. Eles jamais condenam as modas indecentes (que Nossa Senhora de Fátima previu que viriam: “Virão modas indecentes que ofenderão muito a Nosso Senhor”); esses padres, mesmo tradicionalistas, não condenam os bailes e as músicas modernas (rocks e etc), alguns até as ouvem e gostam delas; não advertem os fiéis contra ocasiões próximas de pecado, como a freqüência às praias e piscinas; não condenam os programas de televisão destruidores da vida familiar e da vida moral. E tantas outras coisas mais.
 
     Bento XVI lembra que é preciso mudar de estilo de vida. Mais: mudar de mentalidade. Uma mentalidade que considera que se pode ser católico e ter vida espiritual vivendo como todo mundo um paganismo prático. Isso somente pode levar aos poucos a adotar o paganismo como modo de pensar e, portanto, só pode levar à perda da fé, embora a pessoa se diga ainda católica. Porque, quando não se pratica o que se crê, acaba-se crendo no que se pratica.
 
     Qual a diferença concreta, na vida prática, entre os poucos que vão às Missas dominicais e os que não acreditam em mais nada? Na vida concreta, fazem as mesmas coisas, divertem-se nos mesmos lugares, usam as mesmas modas, ouvem as mesmas músicas, usam os mesmos piercings e as mesmas tatuagens. Bento XVI adverte a esses católicos aparentes. Só nominais. Só de casca.
 
     O Papa considera que o homem, hoje, precisa fazer uma: 
 
     “séria revisão do seu estilo de vida que, em muitas partes do mundo, pende para o hedonismo e o consumismo, sem olhar aos danos que daí derivam[122]. É necessária uma      real mudança de mentalidade que nos induza a adoptar novos estilos de vida, « nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens      para um crescimento comum sejam os elementos que determinam as opções dos consumos, das poupanças e dos investimentos »[123] (Bento XVI, Caritas in veritate, n0      51).
 
      Sem essa mudança de mentalidade, não se dará o triunfo do Imaculado Coração de Maria. É preciso que os católicos voltem a ter uma vida espiritual que os faça tender à santidade.
 
     “Sem Mim, nada podeis fazer”, disse Nosso Senhor.
 
São Paulo, 14 de Julho de 2009.
Orlando Fedeli
 
 
 

    Para citar este texto:
"Caritas in Veritate: valente e surpreendente desafio de Bento XVI ao mundo moderno"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/apologetica/bento_xvi_valente_caritas_in_veritate/
Online, 17/01/2017 às 04:54:30h