Montfort Associação Cultural

20 de janeiro de 2005

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Virgindade, pureza e beleza

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Marcello
  • Localizaçao: – Brasil

Prezados Amigos ,

Gostaria de saber o verdadeiro significado da virgindade de uma mulher, algo tão desvalorizado nos dias de hoje. Pureza e Beleza agora são meras palavras do dicionário?

Sinceramente,
Marcello

Prezado Marcello,

Pelo que entendi, você quer saber o significado de três coisas: virgindade — não só da mulher –, pureza e beleza.

Deus, no quarto, sexto e nono mandamentos nos manda honrar os pais, não cometer atos impuros, e não cometer adultério. A castidade no casamento e fora do casamento é, pois, um dever moral imposto por Deus.

Citei, em primeiro lugar, o quarto mandamento que nos manda “Honrar pai e mãe”, porque a pureza e a castidade é que explicam o mais fundo de nossa gratidão e de nosso amor por nossos pais. Por que usou Deus o verbo “honrar”, e não os verbos obedecer, ajudar, que estão incluídos nos deveres filiais? Por que “Honrar”? Devemos honrar nossos pais, porque o seu ato conjugal que nos deu vida é honroso para eles. Dá honra para eles. Materialmente, o ato conjugal e o ato de um homem qualquer com uma meretriz são iguais. Entretanto, esses dois atos se diferenciam formalmente. Dou-lhe um exemplo, para que isso fique mais claro: Um homem abre o peito de outro com um objeto cortante, e, mais tarde, ao invés de considerá-lo inimigo, o que sofreu o golpe agradece e paga ao que o cortara. Como? Não foi ele um agressor violento ? Não. Era um médico que abriu-lhe o peito para fazer uma cirurgia e assim o salvou. O médico, como o assassino, abre o peito de alguém com aparelho cortante. Materialmente, os atos são iguais. O que os diferencia é a intenção, que no médico é a de salvar, e no assassino é de matar. Assim também, o ato dos esposos visa dar vida é o mesmo ato de um homem impuro com uma meretriz. Entretanto, o primeiro tem em vista a também a procriação, enquanto o outro não visa senão o prazer.

Por isso, o ato dos esposos é legítimo é honroso, pois visa um fim bom, e é feito de acordo com a razão e a lei natural. Já o ato praticado com a meretriz é contra a razão e a ordem moral. Por isso, o ato dos esposos é honroso, distinto do ato de uma meretriz. Deus estabeleceu a união conjugal como meio de transmitir a vida, assim como estabeleceu que a vida da alma, a vida sobrenatural, é gerada pela união entre Cristo e a Igreja. Por isso o matrimônio é imagem da união de Cristo com a Igreja, como bem explica São Paulo. Ora, a esposa de Cristo é santa e fiel, e só tem filhos do próprio Deus. Assim, a esposa só pode ter relações com seu esposo. A Igreja não teve aventuras com ídolos antes de se unir a Deus. A esposa deve então ser virgem e casta, como a Igreja. E o esposo deve ser também virgem e puro como Cristo.

A virgindade feminina tem um valor especial, porque ela é a garantia da pureza familiar. A fidelidade conjugal – prometida solenemente diante de Deus, no altar, na cerimônia matrimonial — é a garantia da unidade da prole, e, portanto , da unidade de valor familiar de uma estirpe. Até os pagãos reconheciam o valor da virgindade para a manutenção da família e da própria pátria. Em Roma, exigia-se a virgindade das vestais, sacerdotisas do culto dos deuses familiares, símbolo da virgindade que mantinha as famílias e a própria Roma. Os romanos diziam que Roma se manteria, enquanto ela fosse capaz de suscitar homens e mulheres virgens, e que Roma pereceria quando não tivesse mais força de gerar virgens. E isso é muito sábio. Com efeito, um povo que despreze a virgindade e a castidade formará uma juventude ávida de prazer sexual. Ora, o moço que só busca o prazer detestará a dor, e não terá força para sofrer. E então, o país que só tiver uma juventude luxuriosa não terá jovens capazes de dar a vida pela pátria. Roma pereceu depois que se tornou tão impura que não havia mais nem vestais virgens, nem heróis. Teve então que contratar, entre os bárbaros que a atacavam, os mercenários que a defendessem por dinheiro. Por isso disse bem um poeta, que não foi tão bom como católico: “A juventude não foi feita para o prazer, e sim para o heroísmo”. O heroísmo exige luta e aceitação da dor, e até da morte, por amor a um valor mais alto. Hoje, pureza e virgindade são menoscabadas, desprezadas e ridicularizadas, porque os homens não crêem em valor mais alto do que seu prazer e do que o dinheiro. Por isso, também se perdeu a noção de beleza verdadeira. Belo, hoje, é, no máximo, o que tem apelo sexual. A Beleza – “splendor veritatis” — “o bem claramente conhecido”, “o resplendor da forma , na proporção da matéria”, exige para ser conhecida e amada, que se tenha para ela um “occhio chiaro ed affeto puro“, como diz outro poeta, com verdade, (mas ao qual se devem fazer tantas restrições, infelizmente), Dante.

Sim, a Beleza existe. Ela não é uma simples palavra do dicionário. Existe sim, a Beleza absoluta, que coincide com a Verdade absoluta e com a Bondade absoluta, que é o próprio Deus Nosso Senhor. Mas, para conhecer a Beleza, é preciso olhá-la com olhar claro, isto é, com olhar desinteressado, sem a obscuridade produzida pela paixão, especialmente pela paixão impura. E só quando se conhece a Beleza com olhar claro, sabiamente, é que se pode ter por ela um afeto puro.

É de estranhar que hoje, quando não se crê nem em beleza, nem em verdade, nem em bondade, nem em virtude, se deixe de acreditar em Deus? Os impuros não conseguem ver a Deus, e nem acreditar sequer em sua existência. Só crêem no que vêem. E eles nada vêem, porque são cegos espiritualmente. São cegados pela paixão impura. Por isso Nosso Senhor Jesus Cristo nos disse: “Bem aventurados, –  isto é, felizes,-  os puros de coração, porque verão a Deus“. Sim, só os puros são felizes, e já neste mundo, porque sua pureza lhes permite ver tudo com olhar claro, e lhes permite amar tudo com afeto puro. Por isso, eles vêem a Deus em todas as coisas.

Corneille escreveu uma bela poesia em que diz: “Si ton coeur étair droit…” Se teu coração fosse reto…” Se teu coração fosse reto, verias em todas as coisas a Deus, criador de tudo, porque em todas as coisas Ele colocou algo dEle mesmo (ou como vestígio, ou como imagem, ou como semelhança). Todas as coisas falam dEle, e Ele é ainda mais admirável nas menores. Tudo nos fala dEle, desde o pequeno grão de areia até ao imenso elefante. Desde o vagalume , até o sol. Desde o átomo até a Virgem Maria, tudo só fala dEle. Mas, para ver Deus em todas as coisas, e compreender a maravilha do Universo criado, é preciso ter “occhio chiaro ed affeto puro” É preciso que tenhamos um coração puro.

Pureza, Castidade Beleza não sejam para nós apenas palavras do dicionario, e sim dos mais altos dons de Deus e de nossos mais altos valores.

Roguemos a Deus que nos dê, ou mantenha sempre, o coração puro, para que o vejamos desde agora, nesta vida, e, para sempre, na eternidade.

É o que desejo para mim mesmo e para você, meu prezado Marcelo. E que um dia nos encontremos no seio da eterna Verdade e Bondade e Beleza.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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