Montfort Associação Cultural

27 de dezembro de 2015

Download PDF

Virgindade de Nossa Senhora e Predestinação

Enviada em: 03/12/2015
Nome: Marco Aurélio dos Santos
Religião: Católica
Local: Blumenau SC, Brasil
Mensagem:

Boa Tarde! Tenho 2 grandes dúvidas. Uma delas é sobre uma tradução bíblica, busquei em um site de professores de línguas antigas e me veio esta tradução:“E despertando José do sonho, fez como o anjo do Senhor tinha lhe mandado, e recebeu a sua mulher. E ele não a conheceu , até que ela fez nascer ao filho dela, o primogênito, e lhe pôs por nome Jesus”(Mateus 1:24,25).
Não a conheceu até o nascimento de Jesus.Então, após isso José a conheceu como esposa? Fica claro com esta tradução, e porque na biblia católica está traduzido de forma diferente? E se Jesus foi chamado de primogênito, quer dizer que vieram outros posteriormente.

A segunda pergunta é a seguinte: Se Deus, conhecendo meu presente, passado e futuro, mesmo antes de meu nascimento Ele já o sabe, se Ele sabe que eu irei para o inferno porque me deixa nascer? Mesmo eu tendo livre arbítrio Ele já sabe que irei para o inferno da mesma forma, porém me deixa nascer. Porquê?

Paz e bem!

Resposta:
Data:  26/12/2015

 

Prezado Marco Aurélio, salve Maria!
 
     Lemos no Evangelho:
 
“[José] não a conheceu até que deu à luz um filho, e pôs-lhe o nome de Jesus” (Mateus 1:25),
 
     Este é um hebraísmo traduzido literalmente. Encontramos esta tradução nas bíblias protestantes, geralmente, mas também em algumas bíblias católicas em outros idiomas.
A frase, em seu contexto hermenêutico, não quer dizer que São José coabitou com a Virgem Maria após o nascimento do Menino Jesus, apenas serve para confirmar que a concepção se deu em estado de virgindade. Afinal, será que São Mateus, escritor deste evangelho, estava preocupado em provar que Maria não permaneceu virgem? Essa certamente não era a intenção. O evangelista apenas afirmou que não houve participação de homem na concepção, e nada mais que isso.  A expressão, em si, não indica o que aconteceu depois, não deve ser tomada isoladamente.
 
     Em outros trechos das Sagradas Escrituras vemos o mesmo recurso linguístico. Cito alguns que constam até nas traduções protestantes:
 
Eu mesmo vos trarei até a velhice, e até vos virem às cãs; eu vos criei e vos sustentarei; eu vos trarei e vos salvarei” – Isaías 46:4.
 
     Quer dizer que após a velhice Nosso Senhor mudará? Que após nossos cabelos embranquecerem deixará de nos sustentar?
 
“[...] Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” – (Mateus 28:20).
 
     Após o fim do mundo deixará de estar?
 
Porque é necessário que ele reine ´até que ponha todos os inimigos debaixo de seus pés.`” – I Coríntios 15,25.
 
     E depois deixará de reinar?
 
“[...] os nossos olhos estão fixos para o Senhor nosso Deus, até que tenha misericórdia de nós.” – Salmos 122,2.
 
     Depois que alcançarmos misericórdia, desviaremos nosso olhar do Senhor Deus?
 
     Lendo os trechos onde este mesmo tipo de linguagem é empregado, podemos concluir que a tradução mais adequada para este versículo, segundo reta hermenêutica, é: “sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho”.
 
***
 
     Quanto ao termo “primogênito”, ele não prova que Nosso Senhor teve irmãos, pois nem todo primogênito é filho único, mas todo filho único é primogênito. Primogênito não é necessáriamente aquele que tem irmãos posteriores, mas é aquele que não tem irmãos anteriores, como o Senhor Jesus não teve.
 
     Se o título de primogênito implicasse na necessidade de irmãos, o sacerdote da Lei Mosaica não poderia reivindicar o primogênito segundo os ditâmes cerimoniais, a não ser que fossem gêmeos, já que o mesmo era revindicado logo no primeiro mês de nascido:
 
Tudo o que sai primeiro do seio de qualquer carne, que oferecem ao Senhor, seja de homens, seja de animais, pertencer-te-á por direito; mas com esta condição de que pelo primogênito do homem recebas o preço, e faças remir todo o animal impuro. O seu resgate far-se-á depois de um mês, por cinco siclos de prata segundo o peso do santuário. O siclo tem vinte óbolos.” – Números 18,15-16, destaques nossos
 
 
***
 
Enfim, estes dois pontos, devidamente esclarecidos, não colocam dúvidas sobre o dogma da perpétua virgindade de Nossa Senhora, que sempre foi unanimidade desde os primeiros séculos.
 
Seja cauteloso, pois até o demônio utilizou-se das Sagradas Escrituras para tentar Nosso Senhor, como lemos:
 
“(…) Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo. Porque está escrito: Porque mandou aos seus anjos em teu favor, que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te levarão nas suas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra. [Sl 90,11 grego / 91,11 hebraico]” – Mateus 4,5-6
 
O demônio e seus agentes nos tentam utilizando-se também das Escrituras, com artimanhas diabólicas e raciocínios corrompidos. A Bíblia sem a Tradição é como uma faca sem cabo. Isto constatamos pelo grande número de seitas que afirmam as mais escandalosas heresias, baseando-se na Bíblia.
 
…………..
 
Quanto à segunda questão, Deus conhece o futuro, não porque escreveu tudo, como em um roteiro de filme, mas porque nos conhece tão profundamente, que é capaz de prever as nossas escolhas. Dessa forma, não é a presciência de Deus que origina nossas ações, mas nossas ações, passadas, presentes e futuras é que são patentes à Sua onisciência. 
 
Então, porque o Senhor Deus criaria alguém capaz de rejeitá-Lo?
Porque só há verdadeira liberdade se houver escolha, só podemos amar a Deus se Ele nos der a opção oposta: rejeitá-Lo. Se não houver escolha livre e opção oposta, não é amor, é programação. Nosso Senhor atua para que os homens O conheçam, O amem e O sirvam. Afinal, os criou para esse fim. Mas Ele não os força a esse fim, nem os deixa de trazer à existência, pois a consciência de um homem não é pré-programada, e as escolhas que fará no decorrer da vida não são predeterminadas.
 
Portanto, todos os seres humanos têm a real possibilidade de salvação e negar aos homens a existência, sob o pretexto de impedir que neguem a Deus e escolham o inferno, é negar esta gloriosa e palpável possibilidade.
 
 
Alexandre Gonçalves Andrelino

TAGS

Publicações relacionadas

Vídeos: A meditação ou oração mental (Professor Alexandre Pinheiro) – MONTFORT

Oração e Vida Espiritual: Quarto Domingo depois de Pentecostes

Artigos Montfort: Ante confusiones que confunden y que buscan confundir - Padre Rafael Navas Ortiz

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais