Montfort Associação Cultural

10 de fevereiro de 2005

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"Vigário toma lugar do Santíssimo Sacramento e divide o rebanho"

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Amir Salomão
  • Idade: 51
  • Localizaçao: Cárceres – MG – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído
  • Profissão: Advogado/professor
  • Religião: Católica

Prezados Senhores,

Gostaria de remeter essa matéria para publicação. Havia formatizado em ANEXO, só que vi depois a impossibilidade do anexo… Gostaria de saber se vai ser possível publicá-la com destaque no VERITAS… Descobri essa semana, por acaso, esse site. fiquei feliz.

VIGÁRIO TOMA LUGAR DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO E DIVIDE O REBANHO

Sou filho da cidade de Sacramento, em Minas Gerais. Atualmente residindo em Cáceres, Mato Grosso, onde leciono Direito na Universidade do Estado. Sou historiador, tenho três obras lançadas em Minas Gerais e Goiás. Esta semana, tive o prazer de conhecer esse site católico onde se pode denunciar os desmandos advindos pela má interpretação das normas do Concílio Vaticano II. Assim propus-me a relatar um fato lamentável patrocinado pelo Arcebispo de Uberaba, Dom Aloísio Roque Oppermam e o vigário de minha cidade mineira, Pe. Levy Fidélis Marques, o que passo a fazer.

Há dois anos, desde 23 de dezembro de 2001, que uma atitude audaciosa do vigário de Sacramento, em Minas Gerais, apoiada pelo arcebispo de Uberaba, vem dividindo a população católica da cidade, sendo tema até de livro recentemente lançado nessa cidade.

Para entender a gravidade do ato audacioso que feriu não só o espírito religioso do povo, mas a historicidade local, vamos nos reportar à origem do lugar:

A documentação original de 1820 evidencia a vocação da cidade de Sacramento: “Pasto Espiritual”. Houve, por parte do fundador, Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Brunswick, uma preocupação até mesmo exagerada em firmar o orago do Santíssimo Sacramento nesse lugar.

A cidade foi fundada, como consta, para ser o “Pasto Espiritual em bem das almas ” da gente do antigo sertão. Pasto Espiritual, no princípio do século XIX, referia-se a lugar especial de evangelização.

A expressão foi usada pelo próprio Rei Dom João VI ao autorizar a fundação. Expressão que o Cônego Hermógenes usou para solicitar a autorização. Expressão profética: Sacramento sempre foi Pasto Espiritual, em função do Evangelho de Cristo.

Não há, em nenhuma hipótese, como considerar o contexto da documentação histórica sem adentrar e considerar o padroado, o documento necessariamente trata disso em cada página. Ali só houve a fundação da cidade para abrigar o “Santíssimo Sacramento”, mais nada. Era o pólo do Pasto Espiritual.

A expressão “Capella do Santíssimo Sacramento appresentado pelo Patrocínio de Maria” é repetida 53 vezes nos documentos originais. E isso é muito sério.

Após a fundação e o desenvolvimento do arraial, de longe vinham pessoas em busca dos sacramentos. Era o lugar dos sacramentos. Ostentava no lugar central de sua humilde capelinha o mais sagrado e solene deles: o Santíssimo Sacramento.

Essa capela adquiriu tal importância que, em 28 de fevereiro de 1848, o bispo de Goyáz, Dom Francisco Ferreira de Azevedo, conseguiu com o Papa Pio IX o grande privilégio, ad perpetuam, da “Indulgência da Porciúncula” para ela. O pedido foi ao bispo por iniciativa de Cônego Hermógenes e do bispo a Roma.

A indulgência da Porciúncula é dada às Igrejas Franciscanas como extensão da Basílica de Assis, e, naquela época, por disposição do Papa à outras igrejas de grande e real importância – lugares privilegiados. Consiste em conceder Indulgência Plenária a quem, no dia 02 de agosto – dia de Nossa Senhora dos Anjos – visitar uma dessas igrejas, ali confessar e comungar e ainda rezar nas intenções do Papa. A pequena capela do Santíssimo Sacramento, que nunca foi franciscana, foi distinguida com tal privilégio em 1848, quando nem era paróquia (1857), quando Sacramento nem era vila (1870), mas simples arraial perdido no interior de Minas. Era, no entanto, lugar especial do Sacramento Sagrado. Isso foi e é um privilégio por demais extraordinário que, infelizmente, não tem sido levado em conta.

A ligação dos nossos antepassados com o Santíssimo Sacramento é tão solene e forte que nos comove quando, pesquisando a história, encontramos a doação de terras (uma fazenda do outro lado do Rio das Velhas), por uma mulher, Anna Pereira Dias, em 1796. A doação feita à Igreja foi para que, com a renda das terras, não faltasse “azeite e ceras” (velas) diante do Santíssimo Sacramento na Matriz do arraial do Desemboque, distrito de Sacramento. Doação registrada no Cartório do 2 º ofício de Araxá.

Esse patrimônio, como grande parte das terras doadas para a Capela do Santíssimo Sacramento, foi vendido no fim do século XIX e começo do século XX para construção do Palácio do Bispo, do Colégio Diocesano e da Catedral, todos de Uberaba. O que é uma lástima! A Paróquia de Sacramento ficou por muito tempo suplicando donativos ao povo para reformar sua igreja matriz em 1920; o patrimônio cultural, artístico e histórico foi a total decadência por negligência das autoridades, principalmente eclesiásticas, já que constitui até hoje o dito “patrimônio da Santa”.

Havia, desde o século XIX, um costume interessante, observado pelos moradores do meio rural, até mais ou menos a década de 1960: quando se dirigiam à cidade, ao avistarem a branca capela ou, posteriormente, as torres da Matriz, faziam, persignando-se, uma piedosa saudação: “Deus vos salve lugar santo de Jesus santa morada.

No cálice bento do altar, e na hóstia consagrada”.

Esses versos, com pequenas alterações foram, posteriormente, inseridos no cancioneiro popular, mas neste lugar teve sua origem.

O mesmo se dava entre os negros do antigo Congado; ao passarem defronte a Igreja Matriz, em direção ao Rosário, saudavam, cantando o Augusto Padroeiro do lugar:

“Bendito e louvado seja, o Santíssimo Sacramento, da puríssima Conceição, original, amém, Jesus!”

Em 1846, segundo o Livro do Tombo da Matriz, o visitador ordinário da Câmara Eclesiástica do Novo Sul, bispado de Goyáz, Padre Jerônimo Gonçalves Macedo, visitando a Capela deixou escrito, dentre outros cuidados com o orago o seguinte:

“Que forre o sacrário de damasco ou de cetim branco e mande fazer cortinas também para o mesmo sacrário, seguindo as cores do rito. Que faça vir a Pedra D´Ara para o sacrário. Que mande fazer o turíbulo e navêta e véu de ombros e que não se descuide de mandar vir a pia batismal”.

A documentação refere-se ao Arraial do Santíssimo Sacramento já no dia da fundação, em 1820. Em 1857 foi criada a Freguesia do Santíssimo Sacramento; em 1870 a Vila do Santíssimo Sacramento e, em 1876, a Cidade do Santíssimo Sacramento. Ao que nos consta até hoje não houve uma lei específica que alterasse o nome da cidade. Porém, na reforma federativa de 1911, já encontramos somente o nome “Sacramento”.

No início do século XX ao “Colégio Santíssimo Sacramento” era referência regional.

Todos os documentos antigos da cidade, até a década de 1930, refere-se à “Cidade Do Sacramento”, claramente ligando o nome do lugar ao padroeiro. Isto é: “cidade onde está ou que pertence, de modo especial, ao Santíssimo Sacramento”.

Em 31 de maio de 1982, no momento em que as autoridades civis de Sacramento trasladavam para a Praça da Igreja Matriz os restos mortais do fundador, Cônego Hermógenes, o velho arcebispo Dom Alexandre Gonçalves do Amaral, já falecido, ocupou a tribuna instalada na praça. É comovente rever hoje a filmagem e a gravação sonora da cena. Naquela manhã banhada de sol e ventania, ele proclamou, a todo pulmão, repetidas vezes: “Carne de Cristo, Carne de Maria, Sangue de Cristo, Sangue de Maria!” A repetição de tais expressões, numa alocução maravilhosa, chamava a atenção do povo de Sacramento para o legado especial do fundador: o Santíssimo Sacramento e a Virgem Maria! Como profundo conhecedor da história local, D. Alexandre, na verdade dizia: Este é o legado do que ora é sepultado! Isto ele deixou, como maior riqueza, esta é a razão da existência desse lugar!

O Santíssimo Sacramento ocupou desde o pequeno Oratório de 1819 o lugar mais digno do templo: – o centro. Essa foi a vontade manifesta do fundador no ato da fundação. Embora tenha silenciado quanto a esse assunto no seu testamento, nada nos impede de ver essa disposição como um legado.

Por 182 anos de história essa vontade foi respeitada pelo povo e pelas autoridades eclesiásticas que passaram por Sacramento: o Santíssimo Sacramento, como epicentro da história e como principal orago da capela, ocupou solenemente o lugar central da Matriz a Ele dedicada. Essa reverência foi reafirmada pelo Papa Paulo VI, no final do Concílio Vaticano II. Na encíclica “Mysterium Fidei” de 03/09/1965, o Santo Padre apregoou:

“Durante o dia, os fiéis não deixem de visitar o Santíssimo Sacramento, que se deve conservar nas igrejas, no lugar mais digno e com as honras devidas, segundo as leis litúrgicas” (g.n.) (AAS 57 (1965),771).

Em todas as reformas da Igreja Matriz, desde a capela de 1820, os vigários tiveram a dignidade de observar e respeitar, religiosamente, essa disposição – o lugar mais digno ao Santíssimo Sacramento – o centro! E essa disposição não se prende somente à piedade do lugar, mas a particularidade do templo: IGREJA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO SOB O PATROCÍNIO DE MARIA!

As autoridades civis de Sacramento sempre entenderam e respeitaram isso, pois os símbolos do município, o brasão e a bandeira, criados por lei em 1971, seguindo o pensamento do fundador, mostram de fundo um círculo branco central, simbolizando, a historicidade local sobre uma hóstia: o Santíssimo Sacramento. Por cima do círculo branco a inserção da Estrela de David, lembrando a Virgem Maria. A lei que criou esses símbolos foi aprovada por unanimidade contando inclusive com o voto de 04 vereadores não católicos, pessoas cultas que entenderam e, sobretudo, respeitaram o contexto histórico, verídico, irrefutável, inalienável, intocável e sagrado.

**

A mais alta honraria do município, concedida pelo Poder Executivo, foi criada pela Lei 173/80 é a “Comenda da Ordem de Nossa Senhora do Patrocínio do Santíssimo Sacramento”. A mais alta homenagem que o Poder Legislativo presta a uma pessoa foi criada pela Resolução 158/99: é a “Comenda do Mérito Legislativo” que reproduz o ostensório com o Santíssimo Sacramento.

Tudo isso é o reflexo da centralidade do Santíssimo Sacramento entre o povo de Sacramento. Essa beleza, essa simbiose centenária do povo mineiro para com seu Deus é como águas cristalinas, puras que descem da serra, numa manhã fresca e primaveril. No entanto, há que se considerar o reverso dessa moeda – a vaidade humana que macula, turva a beleza das águas claras que jorram da serra. Foi o que aconteceu recentemente.

Em 23 de dezembro de 2001 o atual vigário de Sacramento, vindo de fora e não filho do lugar, Pe. Levy Fidélis Marques, apoiado pelo arcebispo de Uberaba, Dom Aloísio Roque Oppermam, retirou o Santíssimo Sacramento do lugar central da Igreja Matriz e o colocou de lado no altar, apesar do protesto de muitos e muitos sacramentanos.

No lugar solene, ocupado por quase 200 anos pelo Santíssimo Sacramento, o vigário colocou sua cadeira.

Essa atitude, em nenhum momento visou a evangelização, pelo contrário, além de causar mal estar geral, causou divisão dentro da igreja local.Tanto o vigário como o arcebispo sabia previamente que esse ato causaria divisão entre os católicos da cidade. O jornal local fez matéria sobre a insatisfação do povo. Eles receberam cartas e protestos antecipados.

Respondendo ao protesto e a mágoa de muitos sacramentanos, o arcebispo disse em entrevista ao jornal que aquela cadeira, onde o vigário descansa suas pudendas, representa o Cristo no meio do povo! Tal justificativa suscitou um pressuposto surrealista: Aquele que foi escanteado, na hóstia consagrada, não seria então o Cristo…

Disse, no jornal ainda, que o vigário descentralizou o Santíssimo Sacramento apoiado por normas do Concílio Vaticano II. Qualquer cristão, minimamente informado sabe que esse argumento não procede, e que nada mais foi que um subterfúgio para não voltar atrás. A orientação do Papa Paulo VI, no encerramento do concílio, transcrita acima, reafirmada pelo atual papa, é a contradição mais explícita do pretexto invocado pelo arcebispo de Uberaba.

O homem no princípio da criação, induzido pela serpente da vaidade, também quis o lugar de Deus; foi amaldiçoado e expulso do paraíso; aqui recebeu a bênção do arcebispo. “O tempora, o mores!” A simbologia é forte, mas a analogia se aplica nesse caso. E a “bênção” não se deu apenas em forma de anuência ao disparate que se praticava; traduziu-se em gestos concretos: o arcebispo de Uberaba prorrogou por mais seis anos a permanência do referido vigário à frente da paróquia de Sacramento. Aquele povo que ousou levantar a voz contra o que julga ser a violação de sua cultura e de sua tradição cristã não mereceu do arcebispo a disposição de ouvi-lo. Ele já havia recebido, em 1998, uma comissão de pessoas de Sacramento – professores, profissionais liberais e outros – solicitando a remoção desse mesmo vigário. Além de não os atender, irritou-se com essas pessoas.

Ainda na referida entrevista, o arcebispo de Uberaba, Dom Aloísio Roque Oppermam, declara que a história é secundária à vontade do vigário. O que todos perguntavam, atônitos, é se poderia uma vontade subjetiva, egoísta, narcisista, submeter a história de um povo…?!? E ainda: como é possível um pastor de almas ignorar a história de seu rebanho? Desconhece-la? Menospreza-la? Saberia, Sua Excelência, mensurar o valor da história? Teria ele se lembrado de que as Sagradas Escrituras são a história do povo de Deus? Que os Evangelhos, nos quais o cristão pauta sua vida, são a história da redenção? Como então menosprezar a história de um povo e subjuga-la à vontade de uma pessoa?

Atitude dessa natureza pode ser comparada a de alguém que adentra casa alheia, macula a paz dos moradores, revira gavetas e guardados, depois vai embora, deixando para trás a divisão e a amarga sensação de um estupro, pois a cultura é um bem privativo, inviolável e, para os estranhos, muitas vezes insondável. Insondável mais ainda quando ela se manifesta profundamente unida ao sagrado, como em Sacramento.

A cultura, nesse caso, tem estatuto divino. O respeito ao patrimônio cultural de um povo não é apenas uma questão ética, é preceito irrefutável e universal dos direito humanos, é recomendação das encíclicas papais e é item primordial das Constituições de todas as nações. O Papa João Paulo II tem, publicamente, pedido perdão a muitos povos pela falta de respeito de dignitários da Igreja para com suas culturas, no decorrer dos séculos. Por tudo isso, causa perplexidade o fato de que a cultura da gente sacramentana esteja sendo audaciosamente violada por pessoas que deveriam, pela honra de seu ministério, preserva-la e ensinar aos outros a respeita-la. Por tudo isso, torna-se perfeitamente compreensível a indignação dos sacramentanos que têm consciência histórica e que nutrem o sentimento de preservação e guarda de seus bens culturais.

Outra declaração do arcebispo que causou espécie foi a de que a ação do vigário foi apoiada por uma comissão de paroquianos (dos quais nunca se soube os nomes) e que o protesto era de um pequeno grupo. Mesmo que assim fosse, bastaria o protesto de um só, sendo filho do lugar, a quem foi legado esse bem espiritual, para que Sua Excelência se dignasse nomear uma comissão com o fim de avaliar os fatos. Mas isso não foi feito. O Cristo disse que o Bom Pastor deixa noventa e nove ovelhas e sai em busca de um só, desgarrada. O que dizer de um “grupo”, se assim foi entendido?

O povo de Sacramento, historicamente, é pacífico, hospitaleiro e espiritualizado. Por isso mesmo, sempre reverenciou seus líderes religiosos. As visitas de bispos e arcebispos sempre foram eventos altamente concorridos e festejados. Quantas vezes se vêem as pessoas, numa atitude quase medieval, ajoelhadas na Matriz à passagem de alguma Excelência Reverendíssima, que deixa seu palácio de Uberaba para honrar a cidade com tão “augusta e incensada” presença. Filas intermináveis se formando para o humilde beijamento do anel episcopal. Festas, banquetes, espórtulas e homenagens públicas sendo oferecidas à Excelência… O respeito reverente faz crer que os fiéis realmente enxergam nesse homem o representante do Cristo e de sua missão. Assim sendo, não estranha que essa gente esperasse receber, em reciprocidade, um mínimo de respeito. Porém o que aconteceu foi que, ao bater à porta do palácio, reivindicando providências contra os desmandos abusivos do vigário e em favor do resguardo dos valores culturais e espirituais do lugar, as pessoas receberam a indiferença e a intolerância daquele que, na condição de pastor e autoridade, poderia (e deveria) reverter a situação e restabelecer a paz na comunidade dividida.

Num momento histórico da Igreja, quando o Papa João Paulo II, entrega ao mundo a encíclica “Ecclesia de Eucharistia” (Igreja da Eucaristia), totalmente voltada para a suma importância do Santíssimo Sacramento, vê-se o contrário em Sacramento. Nesse lugar – por excelência TERRA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO – o ato audacioso do vigário, apoiado incontinenti pelo Arcebispo de Uberaba, desmerece essa verdade essencial. Nesse lugar a população assiste, entre estarrecida, magoada e indignada, a remoção do Santíssimo Sacramento do seu lugar quase bicentenário, para que o vigário possa se assentar, soberano, no centro do templo. Esclareça-se ainda que o Santíssimo Sacramento não foi removido para uma “capela especial”, mas para uma lateral do presbitério. Em Sacramento não comportaria capela especial, todo o templo, desde 1820, é consagrado ao Santíssimo Sacramento, razão de existir do lugar.

Como historiador, como filho da terra, estive envolvido nessa luta, movido pela convicção de que minha voz – assim como a de todos os que tentaram impedir esse vandalismo espiritual e cultural – foi mais que uma súplica por respeito: foi um ato de fé, herdado de nossos antepassados e aprendido no seio de nossa Igreja.

Em extensas e fundamentadas cartas, cheias de argumentos verídicos, irrefutáveis, tentei impedir o fato, escrevendo ao arcebispo e ao vigário, dois meses antes do intento ser cumprido. Nem respostas deram.

Lamentável é que, desde aquele fatídico dia, toda desventura que se abate sobre aquela cidade o povo atribui como “castigo” pelo desrespeito ao padroeiro do lugar. É errado esse pensamento, pois Deus não nos impõe castigos, mas isso reflete a insegurança e a insatisfação do povo do lugar que vivia, espiritualmente feliz, até que alguém, vindo de fora, em franco abuso aos costumes do lugar desejou sentar no lugar do Cristo. E,o que é mais absurdo, como o Santíssimo Sacramento ficou ao lado, as reverências dos padres ao adentrarem o altar se vão para a cadeira do vigário e não para o sacrário. O povo do lugar, “centenariamente”, acostumado a dobrar os joelhos na nave central do templo, o faz agora diante da dita cadeira, já que o sacrário ficou oculto, de lado, e atrás de colunas. Há ainda um outro fato lamentável com relação ao Santíssimo Sacramento naquele lugar, que, talvez volto a mencionar neste site.

Nesse 23 de dezembro a cidade lembra magoada a atitude menor e desrespeitosa do arcebispo de Uberaba, Dom Aloísio Roque Oppermam e do vigário, Pe. Levi Fidélis Marques. Muitos foram os filhos de Sacramento que deixaram de freqüentar a igreja, outros estão buscando missas nas cidades vizinhas (como é o meu caso quando lá estou), enquanto isso o vigário ocupa o lugar sagrado e solene que nossos antepassados destinaram ao Santíssimo Sacramento.

Solicito aos que lerem essa manifestação, sincera e honesta, que remetam seu repúdio tanto ao Arcebispo de Uberaba, como ao vigário de Sacramento.

Laus Deo et Mariae.

Amir Salomão

Muito prezado Dr. Amir, salve Maria.

Publicaremos com destaque no site Montfort seu depoimento de protesto contra o desrespeito ao Santíssimo Sacramento cometido pelo Pe. Levy Fidélis Marques, vigário de Sacramento, em Minas Gerais, infelizmente apoiado pelo Arcebispo de Uberaba, Dom Aloísio Roque Oppermam.

Lamentavelmente, esses atos praticados pelo vigário de Sacramento com apoio do Arcebispo de Uberaba demonstram, de modo patente, que o clero progressista — isto é, modernista — é mais cioso de seu próprio valor e autoridade do que crê na presença real de Cristo na hóstia consagrada.

Esse clero modernista que tanto fala em igualdade e respeito aos direitos dos homens, só desrespeita os direitos de Deus.

Esse padre, sentado no centro do presbitério, no local antes ocupado pelo Santíssimo Sacramento, é um símbolo da heresia antieucarística que grassa hoje, na Igreja, e é claramente um usurpador das honras devidas a Cristo.

Em segundo lugar, embora infinitamente menos importante do que a honra devida a Jesus Sacramentado, essas autoridades eclesiásticas, que tanto falam em respeitar a cultura até de selvagens idólatras, passam por cima, sem nenhum respeito, da História e da cultura católica de um povo fiel às suas tradições, como o povo de Sacramento, como o senhor Doutor bem demonstrou, em seu relato histórico tão interessante e vivo.

Para esses membros do Clero tão despreocupados com a honra do Santíssimo Sacramento, o que valeria mais do que a Hóstia consagrada seria o Vaticano II, que eles só levam em conta enquanto permite destruir as tradições católicas, e, mais do que a História, dar valor ao capricho pessoal de um padre e a sua vaidade.

As coisas sagradas e as tradições de um povo nada valem para eles, se esse povo é católico e fiel.

Escrevendo isto, e vendo a luta desse bom povo simples e católico de Sacramento, lembrei-me de que na Sagrada Escritura se conta algo parecido, e que se pode aplicar, de alguma forma pacífica, é claro, mas firme, e não em termos de guerra de fato e nem — é claro — de violência que seria descabida e desrespeitosa, aquilo que os Macabeus disseram contra o paganismo grego:

“Preparai-vos, sêde homens de valor, para amanhã de manhã pelejardes contra (…) os que querem nos destruir e às coisas santas, porque é melhor morrer (…), do que ver os males de nosso povo e do nosso santuário ( I. Mac. 3,57-60).

Isto cabe bem — analogicamente, é claro, e não literalmente – à luta pacífica e respeitosa que o senhor e seus conterrâneos estão desenvolvendo em defesa da Eucaristia e da gloriosa tradição da Cidade do Santíssimo Sacramento.

Prezado Dr. Amir, quero ter a honra de participar dessa luta sagrada, pacífica, ordeira e firme do povo de Sacramento, na defesa dos direitos do Santíssimo Sacramento e da honra que lhe é devida, assim como na defesa das tradições dessa fiel cidade mineira de Santíssimo Sacramento, que luta denodadamente por suas tradições conspurcadas por um padre que age como um herege, e que se demonstra inculto e desrespeitoso das tradições das ovelhas de que deveria cuidar. Tenha todo o meu apoio, que com prazer e honra se manifesta publicando o seu relato.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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