Montfort Associação Cultural

21 de janeiro de 2005

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Vaticano II x Syllabus

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Marcos Roberto Assunção Marques
  • Localizaçao: – Brasil
  • Religião: Católica

Caro Orlando Fedeli, Eu, Marcos Roberto Assunção Marques, escrevo-lhe novamente, em espírito de caridade, agora para tentar revelar-lhe erros que seu posicionamento acarreta a respeito do Magistério Ordinário da Igreja, do Concílio Vaticano II e da expressão “”Liberdade Religiosa”".

Diante do que o senhor mesmo disse na postulada “”Carta Aberta a Dom Estêvão Bettencourt”", quero me expressar…

“”…Qual ensinamento do Magistério Ordinário o senhor e eu devemos respeitar?

O do Syllabus ou o “Antisyllabus” do Vaticano II, como diz Ratzinger?

A contradição confessada e reconhecida pelo Cardeal Ratzinger, entre o Magistério do Syllabus e o do “Antisyllabus” coloca um problema lógico e doutrinário evidente: um dos dois documentos é certo, o outro é errado, porque o “sim” e o “não” não podem ser aceitos ao mesmo tempo.

Repito, meu caro Dom Estevão, que escolha devo — ou devemos — fazer?

Que ensinamento do Magistério Ordinário devo respeitar e seguir…”" Me atrevo a responder esta sua pergunta dirigida a Dom Estêvão: Primeiramente, quem falou, ou melhor, que lógica evidencia que entre o Syllabus e o Vaticano II, um dos dois deva ser certo e o outro errado? A única lógica que evidencia isso é a de “”infalibilizar”" também – além do Magistério Extraordinário – o Magistério Ordinário da Igreja. Ora, o senhor considera que a Igreja, além de não poder cometer erros de Fé e Moral, também não erra quando exorta em sentido pastoral? Teoricamente o senhor responderá que não, mas não é o que suas entrelinhas demonstram… O Syllabus e os Documentos do Concílio Vaticano II não pertencem ao Magistério Extraordinário da Igreja e, assim sendo, é possível que os dois, cada um a seu tempo e época, estejam certos.

Ambos, por não definirem nada solenemente em questão de Fé e Moral, devem ser acolhidos em sentido pastoral, portanto, não necessariamente de maneira perpétua, mas sim, até segunda ordem do próprio Magistério Ordinário. O senhor pergunta: “”Qual ensinamento do Magistério Ordinário o senhor e eu devemos respeitar?”" Eu respondo: o que o Magistério Ordinário do seu tempo propõe ou impõe! Os fiéis do fim do século XIX e início do século XX deveriam, por respeito ao Magistério, ter obedecido ao que lhes foi imposto ou proposto Extraordinariamente ou Ordinariamente pelo Magistério de seu tempo. Por outro lado, nós, fiéis do fim do século XX e início do século XXI, devemos obedecer ao que nos for imposto ou proposto pelo Magistério do nosso tempo – é óbvio que no dia em que prestarmos conta diante de Deus, ninguém será punido por obedecer com boa intenção às orientações do Magistério Ordinário ou Extraordinário do seu tempo. Deus não instituiu a Igreja apenas para definir, declarar e promulgar dogmas, mas também para guiar seu povo por meio de ordens pastorais e mutáveis, de acordo com o contexto de sua época. Verdadeira é a expressão de Dom Estêvão: “”…O magistério ordinário (que merece sempre reverência, embora não promulgue sempre definições de fé e Moral),…”". Será que o senhor não tem a pretensão de ser mais “”católico”" que o próprio Papa (!), insistindo em desobedecer uma proposição pastoral que ele (o Papa) mantém desde o começo do Pontificado até agora? João Paulo II, faz mais de vinte anos, exorta os católicos a voltarem ao Concilio Vaticano II: na alocução mariana de Domingo, 26 de Novembro de 2000, após a Missa na Praça de São Pedro, ele nos dirigiu (a nós fiéis leigos) estas vigorosas palavras: “”Nesta passagem de época, a lição do Vaticano II mostra-se mais atual do que nunca: as condições hodiernas, de fato, requerem que o vosso empenho apostólico de leigos seja ainda mais intenso e amplo. Estudai o Concílio, aprofundai-o, assimilai o seu espírito e as suas orientações…”"(os sublinhados são meus). Também na recente Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, o Papa fez esta chamada. Portanto, voltando à sua pergunta (“”qual o Magistério Ordinário que devemos seguir?”"), ouso dizer: siga o Magistério ordinário que foi dirigido a você: fiel católico destes nossos dias. Neste contexto, é apropriado agradecer à Divina Providência por nos conceder, nestes tempos tão difíceis, o irrepreensível Pontificado do Papa João Paulo II; de fato, um Papa Santo, Sábio e Douto, que sabe muito bem até que ponto o diálogo Inter-Religioso e o Ecumenismo – com fins de evangelizar e tornar mais explicitada a todos a Verdade plena revelada em Jesus – é salutar e não trai ou desmerece a pura Doutrina revelada pelo Pai, em Jesus e que nos é transmitida através da Única Igreja de Cristo. A Dominus Iesus é uma prova de que o Papa sabe o que faz e tem consciência do que seja a “”Sagrada Tradição”" da Igreja (o sentire cum ecclesiae) e do que sejam suas temporais “”tradições”". Concluo da seguinte forma: Não é à toa ou por ignorância que pessoas sérias e competentes como o Papa João Paulo II e o Cardeal Joseph Ratzinger acolhem e difundem as orientações pastorais do Concílio do Vaticano II.

Também são suas palavras: “”O que o Concílio Vaticano I definiu como dogma é que o Papa é infalível quando fala ex cathedra, e que, portanto, quando o Papa não fala ex cathedra ele pode não ser infalível. E que, embora o que ele ensine deva ser aceito respeitosamente também no Magistério Ordinário, nem tudo o que ele ensina desse modo é infalível. Portanto, que ele pode errar, e não que ele erra quando não fala ex cathedra.”" Ora, sabendo que o Papa não se pronuncia levianamente, faço o seguinte complemento: o Papa pode errar quando não fala ex cathedra, mas, por outro lado, ninguém será culpado por seguir, com boa intenção, uma ordem falível (falível no sentido de mutável; p.ex: uma ordem pastoral) dirigida por ele, afinal, o Magistério Ordinário “”merece sempre reverência”" – claro, para quem ele foi dirigido; não temos o dever de seguir as ordens pastorais do Magistério de outros tempos, a não ser quando este não é contrariado pelo do tempo atual. Assim, é, mais do que nunca, hora oportuna para seguirmos o espírito e as orientações do Concílio Vaticano II; são atualíssimas as palavras do Papa João Paulo, na alocução já citada: “”Encorajo os fiéis leigos a estudarem o ensinamento do Concílio, a amarem e viverem a sua mensagem”". Será que o senhor, Orlando Fedeli, enxerga mais que o Papa? Será que, depois de trinta e cinco anos, o Papa continua cego e inconseqüente, ou, pior ainda, medroso e bonachão? Será que o Papa está tão desnorteado, que uma hora é traidor da Igreja – reafirmando o Diálogo-Religioso e o Ecumenismo – e outrora, contradizendo a si próprio, é fiel ao sentire cum ecclesiae assinando a Dominus Iesus? Será que o Papa não sabe o que faz? Não creio, antes repugno tais colocações… Como fiel católico, prefiro me guiar pelo “”Doce Cristo na terra”"…

É lamentável e maldosa a interpretação que o senhor deu à afirmação de Paulo VI: “”por algum lado a fumaça de Satanás havia entrado no Templo de Deus”".

Tenho para comigo que esta afirmação não tem em mente o conteúdo do Vaticano II, mas sim, o desprezo que muitos eclesiásticos tiverem – e infelizmente, ainda hoje têm – com relação a tal riquíssimo conteúdo. Creio que, se o Papa Paulo VI estivesse realmente persuadido de que o conteúdo do Vaticano II tem algo de diabólico, teria, o mais rápido possível, tratado de exortar abertamente aos fiéis: “”Esqueçam o Vaticano II! Foi um grave engano, uma sedução de Satanás! Etc…”" Sua interpretação é apelativa e covarde; não condiz com a verdade.

Com relação ao termo “”Liberdade Religiosa”", uma coisa é tal termo ser ambíguo, outra, muito diferente, é o Concílio Vaticano II, por usar tal termo ser ambíguo também. O Vaticano II quando usa tal expressão – ambígua -, não é, de forma alguma, ambíguo, pois deixa claro que: “”a única verdadeira Religião subsiste na Igreja Católica e Apostólica.”"(Dignitatis Humanae,1) Isso é ambigüidade? O senhor, quando chama o Concílio Vaticano II de ambíguo, ignora a “”mente e vontade”" deste, se apegando à letra (que pode, às vezes, ser ambígua) e ignorando o espírito (que claramente não é ambíguo).

Paulo VI e João Paulo II sempre consideraram – e com convicção! – que o conteúdo do Vaticano II não nega ou trai – antes, confirma e retoma de maneira nova – o autêntico sentire cum ecclesiae; ambos os Papas são claros em afirmar que, para os nossos dias, o Concílio do Vaticano II é uma benção de Deus.

Contrariar essa realidade é desprezar o Magistério Ordinário que nos foi confiado.

Concluindo: em sentido pastoral, o primeiro Papa a que devemos atenção, docilidade e confiança é o dos nossos dias; é às orientações pastorais do Magistério Ordinário dirigido a nós que devemos atenção, mesmo que sejam falíveis, ou melhor, mutáveis; tais orientações estão acima das proferidas por Magistérios Ordinários «de» outros tempos, «em» outros tempos e «para» outros tempos.

Tais palavras não demonstram que o Magistério Ordinário da Igreja seja infalível; antes, demonstram que devemos referência ao Magistério Ordinário dirigido a nós. Também não querem dizer que: nada do que foi dito pastoralmente pelo autêntico Magistério da Igreja outrora, deve ser seguido nos nossos tempos. Nem um extremo, nem outro… Somente quando uma ordem pastoral é contrariada, ou melhor, atualizada, é que a antiga deixa de vigorar. Repito: ninguém pode ser julgado por atender, de boa intenção, a uma ordem pastoral dirigida a ele pelo autêntico Magistério da Igreja. Jesus não instituiu a Igreja “”somente”" para definir, declarar e promulgar dogmas…

A seguir, exponho o Discurso feito por João Paulo II no Encerramento do Congresso Internacional sobre a Atuação dos Ensinamentos Conciliares; peço que leia – ou talvez, releia – as palavras do “”nosso”" Papa com atenção:

(Esta transcrição é feito do Jornal L”Osservatore Romano; edição em português, de Portugal) “”27 de Fevereiro de 2000 Senhores Cardeais Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio Dilectos Irmãos e Irmãs 1. Estou feliz por me encontrar convosco no final da Assembleia que nestes dias se celebrou no Vaticano sobre o tema, deveras comprometedor e estimulante, da actuação do Concílio Ecuménico Vaticano II. Saúdo o Senhor Cardeal Roger Etchegaray, a quem agradeço as palavras que me dirigiu em nome de todos. As minhas boas-vindas dirigem-se, outrossim, aos Prefeitos de Dicastérios e aos demais Purpurados, assim como aos Arcebispos e Bispos que, com a sua presença, sublinham a importância deste encontro. Enfim, saúdo os especialistas que aqui vieram das várias partes do mundo, para oferecer a contribuição das suas experiências e reflexões. O Concílio Vaticano II constituiu uma dádiva do Espírito à sua Igreja. É por este motivo que permanece como um evento fundamental não só para compreender a história da Igreja no fim do século mas também, e sobretudo, para verificar a presença permanente do Ressuscitado ao lado da sua Esposa no meio das vicissitudes do mundo. Mediante a Assembleia conciliar, que viu chegar à Sé de Pedro Bispos de todas as partes do mundo, pôde-se constatar que o património de dois mil anos de fé se conservou na sua originalidade autêntica.

2. Juntamente com o Concílio, a Igreja fez sobretudo uma experiência de fé, abandonando-se a Deus sem reservas, na atitude de quem confia e tem a certeza de ser amado. É precisamente este acto de abandono a Deus que, segundo um sereno exame das Actas, emerge com força. Quem desejasse aproximar-se do Concílio prescindindo desta chave de leitura, privar-se-ia da possibilidade de penetrar na sua alma mais profunda. É só numa perspectiva de fé que o evento conciliar se abre aos nossos olhos como um dom, do qual é necessário saber captar a riqueza ainda escondida. Entretanto, voltam à mente as significativas palavras de São Vicente de Lérin: “A Igreja de Cristo, cuidadosa e cauta guardiã dos dogmas que lhe foram confiados, jamais os altera; em nada os diminui e nada lhes adiciona; não a priva do que é necessário, nem lhe acrescenta o que é supérfluo; não perde o que é seu, nem se apropria do que pertence aos outros, mas com todo o zelo, recorrendo com fidelidade e sabedoria aos antigos dogmas, tem como único desejo aperfeiçoar e purificar aqueles que antigamente receberam uma primeira forma e esboço, consolidar e reforçar aqueles que já foram evidenciados e desenvolvidos, salvaguardar aqueles que já foram confirmados e definidos” (Commonitorium, XXIII).

3. Aos Padres conciliares apresentou-se um verdadeiro desafio, que consistia no compromisso de compreender mais intimamente, num período de rápidas transformações, a natureza da Igreja e a sua relação com o mundo para prover à oportuna “actualização”. Enfrentámos este desafio também eu me encontrava entre os Padres conciliares e demos-lhe uma resposta, procurando uma compreensão mais coerente da fé. No Concílio, tornámos manifesto o facto de que também o homem contemporâneo, se quiser compreender profundamente a si mesmo, tem necessidade de Jesus Cristo e da sua Igreja, que permanece no mundo como sinal de unidade e de comunhão. Na realidade a Igreja, Povo de Deus que percorre os caminhos da história, é o perene testemunho de uma profecia que, enquanto atesta a novidade da promessa, torna evidente a sua actuação. O Deus que prometeu é o Deus fiel que cumpre a sua palavra. Não é isto porventura o que a Tradição que remonta aos Apóstolos nos permite verificar todos os dias? Não nos encontramos acaso num constante processo de transmissão da Palavra que salva e leva ao homem, onde quer que ele esteja, o sentido da sua existência? Depositária da Palavra revelada, a Igreja tem a missão de anunciá-la a todos. Esta sua missão profética comporta a assunção da responsabilidade de tornar visível aquilo que a Palavra anuncia. Devemos pôr em prática os sinais visíveis da salvação, para que o anúncio que transmitimos seja compreendido na sua integridade. Anunciar o Evangelho ao mundo é uma tarefa que os cristãos não podem delegar a outrem.

Trata-se de uma missão que os identifica na responsabilidade própria da fé e da sequela de Cristo! O Concílio quis restituir esta verdade fundamental a todos os fiéis.

4. Para recordar o aniversário dos primeiros vinte anos do Concílio Vaticano II, em 1985 convoquei um Sínodo Extraordinário dos Bispos, com a finalidade de celebrar, verificar e promover o ensinamento conciliar. Na sua análise, os Bispos falaram das “luzes e sombras” que caracterizaram o período pós- conciliar. Por este motivo, na Carta Tertio millennio adveniente escrevi que “o exame de consciência não pode deixar de incluir também a recepção do Concílio”
(n. 36). Hoje agradeço a todos vós que aqui viestes de várias partes do mundo para dar uma resposta a este pedido. O trabalho que realizastes nestes dias evidenciou o facto de que o ensinamento conciliar está eficazmente presente na vida da Igreja. Sem dúvida, ele exige um conhecimento cada vez mais profundo.

Todavia, no interior desta dinâmica é necessário que não se perca de vista a intenção genuína dos Padres conciliares; pelo contrário, esta deve ser recuperada superando as interpretações desconfiadas e parciais que impediram de exprimir da melhor forma a novidade do Magistério conciliar. A Igreja conhece desde sempre as regras para uma recta hermenêutica dos conteúdos do dogma.

Trata-se de regras que se colocam no interior do tecido da fé e não fora dele.

Interpretar o Concílio pensando que ele comporta uma ruptura com o passado, enquanto na realidade ele se põe na linha da fé de sempre, é decididamente desviar-se do caminho. Aquilo que foi acreditado por “todos, sempre e em cada lugar” é a autêntica novidade que permite a cada época sentir-se iluminada pela palavra da Revelação de Deus em Jesus Cristo.

5. O Concílio constitui um acto de amor: “Um grande e tríplice acto de amor”
como disse Paulo VI no Discurso de abertura do IV período do Concílio um acto de amor “a Deus, à Igreja e à humanidade” (Insegnamenti, Vol. III [1965], pág.

475). A eficácia deste acto não se esgotou de forma alguma: ela continua a actuar através da rica dinâmica dos seus ensinamentos. A Constituição dogmática Dei Verbum colocou com renovada consciência a Palavra de Deus no âmago da vida da Igreja. Esta centralidade deve-se à mais viva percepção da unidade da Sagrada Escritura e da Santa Tradição. A Palavra de Deus, que é mantida viva pela fé do santo povo dos fiéis sob a orientação do Magistério, exige também que cada um de nós assuma a própria responsabilidade, conservando íntegro o processo de transmissão. A fim de que a primazia da Revelação do Pai à humanidade perdure com todo o vigor na sua novidade radical, é necessário que a teologia seja a primeira a tornar-se um instrumento coerente do seu entendimento. Na Encíclica Fides et ratio, escrevi: “Enquanto compreensão da Revelação a teologia, nas sucessivas épocas históricas, sempre sentiu como próprio dever escutar as solicitações das várias culturas, para as permear depois, através de uma coerente conceptualização, com o conteúdo da fé. Também hoje lhe compete uma dupla tarefa. Por um lado, deve cumprir a missão que o Concílio Vaticano II lhe confiou: renovar as suas metodologias, tendo em vista um serviço mais eficaz à evangelização (…) por outro lado, a teologia deve manter o olhar fixo na verdade última que lhe é confiada por meio da Revelação, não se contentando com paragens em etapas intermediárias” (n. 92).

6. Aquilo em que a Igreja acredita é o que ela assume como objecto da sua oração. A Constituição Sacrosanctum concilium explicou quais são as premissas para uma vida litúrgica que preste a Deus o verdadeiro culto que Lhe é devido por parte do povo, chamado a exercer o sacerdócio na nova Aliança. A acção litúrgica deve permitir a cada fiel entrar no íntimo do mistério para captar a beleza do louvor ao Deus uno e trino. Com efeito, na terra ela constitui uma antecipação do louvor que as plêiades dos Beatos prestam a Deus no céu. Por conseguinte, em cada celebração litúrgica deveria oferecer-se aos participantes a possibilidade de antegozar, não obstante seja sob o véu da fé, um pouco das doçuras que hão-de provir da contemplação de Deus no Paraíso. É por isso que cada ministro, consciente da responsabilidade que tem por todo o povo que lhe é confiado, deverá ater-se fielmente ao respeito pela sacralidade do rito, crescendo na compreensão daquilo que ele mesmo celebra.

7. “Cremos ter chegado a hora em que a verdade acerca da Igreja de Cristo há-de ser aprofundada, ordenada e expressa”, afirmou o Papa Paulo VI no Discurso de abertura do II período do Concílio Insegnamenti, Vol. I [1963], pp. 173-174). O inolvidável Pontífice identificou a principal tarefa do Concílio nesta expressão. A Constituição dogmática Lumen gentium foi um genuíno cântico de exaltação da beleza da Esposa de Cristo. Naquelas páginas, completámos a doutrina expressa pelo Concílio Vaticano I e imprimimos o selo para um renovado estudo do mistério da Igreja. A communio é o fundamento no qual está assente a realidade da Igreja. Uma koinonia que tem a sua fonte no mistério mesmo de Deus uno e trino e alarga-se a todos os baptizados, que por isso são chamados à plena unidade em Cristo. Esta comunhão torna-se evidente nas várias formas institucionais em que se realiza o ministério eclesial e na função do Sucessor de Pedro como sinal visível da unidade de todos os fiéis. A ninguém passará despercebido o facto de que, com grande impulso, o Concílio Vaticano II fez seu o anélito “ecuménico”. O movimento de encontro e clarificação, que se actuou com todos os irmãos baptizados, é irreversível. É a força do Espírito que chama os fiéis à obediência, para que a unidade seja um eficaz manancial de evangelização. A comunhão que a Igreja vive com o Pai, o Filho e o Espírito Santo é uma indicação do modo como os irmãos são chamados a viver juntos.

8. “O Concílio, que nos ofereceu uma rica doutrina eclesiológica, uniu organicamente o seu ensinamento acerca da Igreja àquele sobre a vocação do homem em Cristo”: é quanto eu disse na Homilia para a abertura do Sínodo dos Bispos, no dia 24 de Novembro de 1985 (Insegnamenti, Vol. VIII, 2, pág. 1371).

A Constituição pastoral Gaudium et spes, que levantava os interrogativos fundamentais aos quais cada pessoa é chamada a dar uma resposta, dirige hoje também a nós palavras que nada perderam da própria actualidade: “O mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado” (n. 22).

Trata-se de palavras que me são mais caras do que nunca, e quis repropô-las nas passagens fundamentais do meu magistério. Aqui está a verdadeira síntese para a qual a Igreja deve sempre olhar, enquanto dialoga com o homem deste e de todos os tempos: ela está consciente de que possui uma mensagem que é síntese fecunda da expectativa de cada homem e da resposta que Deus lhe dirige. Na Encarnação do Filho de Deus, que este Jubileu deseja celebrar no bimilenário deste evento, torna-se evidente a chamada do homem. Ele não renuncia à sua dignidade quando se abandona fielmente a Cristo, porque assim a sua humanidade é elevada à participação na vida divina. Cristo é a verdade que não conhece ocaso: n”Ele Deus encontra cada homem, e é n”Ele que todo o homem pode ver Deus (cf. Jo 14, 9-10). Nenhum encontro com o mundo será fecundo, se o fiel deixar de fixar o olhar no mistério da Encarnação do Filho de Deus. O vazio que hoje muitos experimentam diante do interrogativo acerca do porquê da vida e da morte, sobre o destino do homem e o sentido do sofrimento só pode ser colmado com o anúncio da verdade que é Jesus Cristo. O coração do homem será sempre “inquieto”, enquanto não repousar n”Ele, que é o verdadeiro alívio para os “cansados e oprimidos” (cf. Mt 11, 28).

9. A “pequena semente” que João XXIII lançou “com a alma e a mão trepidantes”
(Constituição Apostólica Humanae salutis, 25 de Dezembro de 1961), na Basílica de São Paulo fora dos Muros no dia 25 de Janeiro de 1959, anunciando a intenção de convocar o XXI Concílio Ecuménico na história da Igreja, cresceu e deu vida a uma árvore que já alarga os seus ramos majestosos e frondosos na Vinha do Senhor. Ele já deu numerosos frutos nestes 35 anos de vida e ainda dará muitos outros nos anos vindouros. Uma nova estação abre-se diante dos nossos olhos: trata-se do tempo do aprofundamento dos ensinamentos conciliares, o período da colheita daquilo que os Padres conciliares semearam e a geração destes anos cuidou e esperou. O Concílio Ecuménico Vaticano II constitui uma verdadeira profecia para a vida da Igreja; e continuará a sê-lo por muitos anos do terceiro milénio há pouco iniciado. A Igreja, enriquecida com as verdades eternas que lhe foram confiadas, ainda falará ao mundo, anunciando que Jesus Cristo é o único verdadeiro Salvador do mundo: ontem, hoje e sempre!”"

Espero que tais palavras tenham algum peso para o senhor.

Repleto de admiração por vosso trabalho em vista do bem da Igreja, desejo que fique com Deus.

Prezado Marcos, Salve Maria.

Recebi seu e-mail, que o identifica como ligado à entidade Canção Nova.

Já havia recebido outra mensagem, de Felipe de Aquino Rinaldo, também ligado à Canção Nova. Ele também começou, como você, ecumenicamente agressivo, e depois, graças a Deus e lealmente, me pediu desculpas.

É curioso como os ferrenhos defensores do ecumenismo e da benevolência dos hereges, e para com os hereges, se mostram tão ferozmente agressivos contra os que têm como ponto de honra a defesa intransigente da Fé.

Digo isso porque você começa afirmando que me escreve “em espírito de caridade“, e pouco depois me diz que sou “malévoloe que atuo comocovarde, para terminar afirmando que está “Repleto de admiração por vosso trabalho em vista do bem da Igreja, desejo que fique com Deus.” (O negrito é meu).

Decididamente, você ou não é muito coerente, ou está muito indeciso…

Em todo caso, prefiro antes pensar que sua caridade para comigo apenas não se expressou bem.

Antes de examinar sua carta, quero me congratular com você por concordar que o Concílio Vaticano II não foi infalível, e sim meramente pastoral.

Você escreveu:

“Ambos [Syllabus e Vaticano II], por não definirem nada solenemente em questão de Fé e Moral, devem ser acolhidos em sentido pastoral, portanto, não necessariamente de maneira perpétua, mas sim, até segunda ordem do próprio Magistério Ordinário”.

Devo pedir-lhe, porém, que vá mais devagar na afirmação de que o Syllabus foi meramente pastoral, porque não foi. O Syllabus foi feito com autoridade bem maior do que a de um simples documento pastoral: ele exige uma adesão de fé. E é bem mais provável que o Syllabus, ao contrário do que você pensa, seja infalível. Não coloque então Syllabus e Vaticano II no mesmo nível pastoral.

Sua longa carta poderia ser mais resumida, visto que os argumentos que você apresenta são poucos e repetitivos.

Você admite que o Magistério Ordinário da Igreja não é igual ao Magistério ex cathedra, e o afirma falível.

De novo, você se precipita, pois se esquece de notar que esse Magistério Ordinário, embora não seja ex cathedra, pode ser também infalível, quando constante e universalmente ensina as mesmas verdades (Cfr Cardeal Journet, L’Église du Verbe Incarné, Vol I, p. 454 nota 2; vol I , p.568, nota 1; vol I , p.534, nota 2).

Daí seu erro relativista ao afirmar que o Magistério Ordinário dos Papas, no passado, não precisa ser aceito na atualidade, caso o Papa reinante contrariar, em documentos pastorais, o que foi ensinado outrora pela Igreja.

Você escreveu:

“O Syllabus e os Documentos do Concílio Vaticano II não pertencem ao Magistério Extraordinário da Igreja e, assim sendo, é possível que os dois, cada um a seu tempo e época, estejam certos”.

Isso, meu caro, é puro relativismo, erro condenado por João Paulo II na Dominus Iesus, na Veritatis Splendor e na Fides et Ratio. A verdade de um tempo não pode ser erro noutro tempo.

Mas lhe agradeço sua admissão indireta de que o Vaticano II ensina o contrário do Syllabus.

Tanto é certo que o Magistério Ordinário — quando constante e universal — obriga, e pode ser infalível, é que os Papas fazem questão de mostrar que o seu ensinamento não é novo, mas que foi sempre ensinado por seus antecessores. Daí as citações contínuas de documentos de outrora, para demonstrar que os Papas reinantes não estão contrariando o ensino e a doutrina tradicionais, proclamadas pelos seus antecessores no sólio de São Pedro.

Tenho que lhe agradecer também sua admissão de que o Vaticano II usou linguagem ambígua em vários documentos.

Você escreveu:

“O senhor, quando chama o Concílio Vaticano II de ambíguo, ignora a “”mente e vontade”" deste, se apegando à letra (que pode, às vezes, ser ambígua) e ignorando o espírito (que claramente não é ambíguo)”. (O negrito é meu. A contradição é sua.) Só os textos que usam linguagem ambígua é que são ambíguos.

Pois meu caro, só o que é expressado é que pode ser ambíguo. A intenção, só Deus conhece. A “mente e a vontade” não são a intenção interior inexpressa, e sim o que a autoridade disse expressamente sobre o grau de autoridade que ela dá a um seu pronunciamento. Assim, Paulo VI expressou a mente e a autoridade com que se pronunciou o Concílio Vaticano II, ao dizer que ele foi um Concílio meramente pastoral. Também a Comissão Teológica do Concílio Vaticano II afirmou que só seriam infalíveis as decisões do Vaticano II que expressamente fossem declaradas como tais (cfr o texto em minha carta a Dom Estevão).

E, me explique, como é que você “viu o espírito” do Vaticano II?

Meu caro, se você tiver como demonstrar que há meios de “ver” ou constatar o “espírito do Vaticano II” sem ser pelo que nele está escrito, você terá solucionado a crise atual de Episcopados inteiros que se opõem ao Papa João Paulo II em nome da letra do Vaticano II.

E como prova de que o Vaticano II não foi ambíguo, embora use a expressão – que você reconhece ambígua -, “liberdade religiosa”, você me escreve:

“Com relação ao termo “Liberdade Religiosa”", uma coisa é tal termo ser ambíguo, outra, muito diferente, é o Concílio Vaticano II, por usar tal termo, ser ambíguo também. O Vaticano II quando usa tal expressão – ambígua – não é, de forma alguma ambíguo, pois deixa claro que: “a única verdadeira Religião subsiste na Igreja Católica e Apostólica.”(Dignitatis Humanae,1) Isso é ambigüidade?”

O fato de ter explicitado a doutrina verdadeira, depois de usar uma expressão que você mesmo reconhece como ambígua — “liberdade religiosa” — não exime o texto de ambigüidade. Tanto que muitos, apesar da explicitação correta citada por você, muitos, levados pela expressão ambígua anterior acabaram defendendo que outras religiões, além da Católica, podem ser vias de salvação. Foi o que fez o Padre Dupuis, na Índia, que acaba de ser obrigado a assinar um documento de retratação.

E nesse documento recentíssimo da Congregação da Doutrina da Fé se lê:

“A propósito do valor e da função salvífica das tradições religiosas: “É legítimo sustentar que o Espírito Santo realiza a salvação nos que não são cristãos também mediante aqueles elementos de verdade e de bondade presentes nas distintas religiões; mas não tem nenhum fundamento na teologia católica considerar estas religiões, enquanto tais, como vias de salvação, porque além disso, nelas, há lacunas, insuficiências e erros acerca das verdades fundamentais sobre Deus, o homem e o mundo” (Documento da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé).

Utilizar expressão ambígua é tanto mais grave, quanto maior for a autoridade de quem usa de ambigüidade. Foi dessas ambigüidades que nasceram todas as crises posteriores ao Vaticano II.

E se você quiser mais provas disso, leia o que escreveu o Cardeal Biffi – Arcebispo de Bolonha – contra a Teologia Pós Conciliar.

Para citar apenas um ponto, o Cardeal Biffi diz que o Concílio Vaticano II defendeu o antropocentrismo, que a Teologia Pós Conciliar transformou em Antropolatria.

Ora, fazer o Homem centro de todas as coisas é dar-lhe o lugar devido apenas a Deus. O Antropocentrismo só podia levar à Antropolatria.

Para comprovar o que digo, fico obrigado a lhe citar um documento longo de Paulo VI mostrando que ele tinha noção clara da tendência antropocentrista do Vaticano II, e não a repeliu, mas, pelo contrário, a confirmou, escrevendo:

“4. Mas não podemos deixar de lado uma observação capital no exame do significado religioso deste Concílio: ele se interessou vivamente pelo estudo do mundo moderno. Nunca, talvez, como nesta ocasião, a Igreja sentiu a necessidade de conhecer, de aproximar-se, de compreender, de penetrar, de servir, de evangelizar a sociedade circunstante, e de colhê-la, quase de ir ao seu encalço em sua rápida e continua mutação.”

Esta atitude, determinada pelas distâncias e pelas fraturas ocorridas nos últimos séculos, no século passado e especialmente neste, entre a Igreja e a civilização profana, e sempre sugerido ela missão salvadora essencial da Igreja, foi forte e continuamente operante no Concílio, até o ponto de sugerir a alguns a suspeita de que um tolerante e excessivo relativismo para com o mundo exterior, para com a história fugaz, para com a moda cultural, com as necessidades contingentes, para com o pensamento de outros, tenha dominado pessoas e atos do Sínodo ecumênico, tenha trazido prejuízo à fidelidade devida à tradição e trazido dano à orientação religiosa do próprio Concílio.

Nós não acreditamos que este mal deva ser imputado ao Concílio nas suas verdadeiras e profundas intenções e em suas autênticas manifestações.

“5. Queremos antes notar como a religião de nosso Concílio tenha sido principalmente a caridade, e ninguém poderá repreender o Concílio por irreligiosidade ou por infidelidade ao Evangelho por tal precípua orientação, quando recordamos que foi o próprio Cristo a nos ensinar ser a dileção pelos irmãos o caráter distintivo de seus discípulos (Cfr Jo. XIII, 35). Por este sinal todos conhecerão que sois meus discípulos: pelo amor que tiverdes uns pelos outros”.

(…) “O humanismo laico profano por fim apareceu em sua terrível estatura e, em certo sentido, desafiou o Concílio. A religião do Deus que se fez Homem encontrou-se com a religião (porque ela é tal) do homem que se fez Deus. Que aconteceu?

Um confronto? Uma luta? Um anátema? Poderia ter ocorrido, mas não aconteceu.

A antiga história do Samaritano foi o paradigma da espiritualidade do Concílio. Uma simpatia imensa penetrou todo o Concílio. A descoberta das necessidades humanas (e elas são tanto maiores quanto maior se faz o filho da terra) absorveu a atenção de nosso Concílio. Reconheçam-lhe pelo menos este mérito, vós humanistas modernos, que renunciastes à transcendência das coisas supremas, e reconhecereis o nosso novo humanismo: também nós, nós mais que todos, temos o culto do homem.

(Permita-me um parênteses, meu caro Marcos Roberto. Repare que admitir que se tem um “culto do homem” não exclui a antropolatria; antes a sugere. Como se espantar que a Teologia pós Conciliar caísse na adoração do homem?).

Continua o discurso de Paulo VI, na véspera do encerramento do Vaticano II:

“6. E que foi o que considerou este augusto senado na humanidade, que ele, sob a luz da divindade se pôs a estudar?

“Considerou ainda seu rosto eternamente bifronte: a miséria e a grandeza do homem, o seu mal profundo, inegável, por si mesmo incurável, e o seu bem restante, sempre assinalado por arcana beleza e por invencível soberania.

“Mas, é preciso reconhecer que este Concílio, colocando-se a julgar o homem, se deteve bem cedo nesta face feliz do homem, e não naquela infeliz. Sua atitude foi muito e propositalmente otimista.

“Uma corrente de afeto e de admiração se derramou do Concílio sobre o mundo humano moderno.

“Reprovados os erros, sim, porque isto exige a caridade, não menos do que a verdade, mas pelas pessoas apenas apelo, respeito e amor. Ao invés de deprimentes diagnósticos, encorajadores remédios; em vez de funestos presságios, mensagens de confiança partiram do Concílio em direção do mundo contemporâneo: os seus valores [do mundo] foram não só respeitados, mas também honrados, os seus esforços sustentados, as suas aspirações purificadas e abençoadas.

“7. Mas uma coisa agrada notar: o Magistério da Igreja, embora não querendo pronunciar-se com sentenças dogmáticas extraordinárias, difundiu o seu autorizado ensinamento sobre uma quantidade de questões, que hoje empenham a consciência e a atividade do homem; desceu, por assim dizer, a dialogar com ele… falou ao homem de hoje, qual ele é.

“E uma outra coisa deveremos frisar: toda esta riqueza doutrinal se dirigiu a uma única direção: servir o homem. O homem digamos, em qualquer sua condição, em qualquer sua enfermidade, em qualquer sua necessidade. A Igreja quase se declarou a serva da humanidade. “Tudo isto e tudo aquilo que poderemos dizer sobre o valor humano do Concílio desviou talvez a mente da Igreja em Concílio em direção a posições antropocêntricas da cultura moderna?

“Desviou, não, dirigiu, sim… tal interesse é devido ao CARÁTER PASTORAL que o Concílio escolheu quase como um programa. “8. A mentalidade moderna, habituada a julgar cada coisa sob o aspecto de valor, isto é, por sua utilidade, quererá admitir que o valor do Concílio é grande pelo menos por isto: que nele tudo foi dirigido para a utilidade humana, não se diga portanto que é inútil uma religião como a Católica, a qual, na sua forma mais consciente e mais eficaz, qual é a conciliar, toda ela se declara a favor e a serviço do homem.

“Que, se… nós recordamos como no rosto de todo homem, particularmente se tornado transparente por suas lágrimas e por suas dores, possamos e devamos divisar o rosto de Cristo (Cfr. Mt. XXV, 40: “Toda vez que tiverdes feito qualquer coisa de semelhante a um destes mínimos entre meus irmãos, te-lo-eis feito a Mim”) possamos outrossim dizer: pra conhecer a Deus é preciso conhecer o homem.” (Paulo VI, Discurso no encerramento da IV Sessão do Vaticano II- 7 — XI–1965. Os negritos e a tradução são nossas).

Vejamos, agora, alguns pontos secundários de sua carta. Você me diz:

“Ora, sabendo que o Papa não se pronuncia levianamente, faço o seguinte complemento: o Papa pode errar quando não fala ex cathedra, mas, por outro lado, ninguém será culpado por seguir, com boa intenção, uma ordem falível (falível no sentido de mutável; p.ex: uma ordem pastoral) dirigida por ele, afinal, o Magistério Ordinário “merece sempre reverência”.

Evidentemente, concordo com você nesse dois pontos:

1) Ninguém será culpado por seguir, com boa intenção, uma ordem falível, ainda que fosse errada.

A culpa só Deus conhece. Não devemos julgar a culpa alheia, que só a Deus cabe julgar, pois a culpa depende de muitas circunstâncias que podemos desconhecer.

2) O Magistério do Papa merece sempre respeito, porque o Papa é a fonte da verdade.

Mas este respeito pelo Papa nos obriga também a respeitar o Magistério dos Papas de outrora, principalmente quando esse Magistério Ordinário dos Papas foi constante e universal. Em minha carta para Dom Estevão citei muitos documentos papais do Magistério Ordinário que dizem o contrário do que foi dito no Vaticano II. Você recusa os documentos que citei de Pio VI, de Pio VII, de Gregório XVI, de Pio IX, de Leão XIII, de Pio XI?

Se os rejeita, supondo-os não mais válidos para nossa época, você caiu em relativismo, condenado por João Paulo II, e não respeita o Magistério nem dos Papas de outrora, nem do atual.

***

Você me diz “malévolo”… Malévolo é o que tem má vontade.

Você me chama — caridosamente , é claro — de covarde, por ter citado o discurso de Paulo VI sobre a famosa “fumaça de Satanás” que entrou no templo de Deus, e que Gregório XVI profetizara que entraria no mundo caso se permitisse a ambígua “liberdade de religião”.

O Concílio usou a ambígua expressão “liberdade religiosa” (você admite isso).

Paulo VI afirmou que depois do Concílio esperava uma manhã de sol. Veio o oposto. E ele mesmo afirmou que, por algum lado, depois do Vaticano II, “a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus”.

Onde está minha covardia citando esse texto de um Papa?

Onde minha má vontade?

Permita-me dizer-lhe que ir com todo o mundo pela estrada larga do ecumenismo — que não quer briga com ninguém (exceto com os que se opõem ao erro) — é que não exige muita coragem. Coragem é exigida para ir contra a corrente — não contra o Papa — afirmando que o inferno é que é ecumênico, enquanto o céu, exigindo Fé íntegra – ainda que em desejo – o céu é católico, pois para ele vão somente os que pertencem à Igreja, (ainda que só por desejo, por estarem em ignorância invencível).

Sim, o inferno é ecumênico, pois para lá podem ir até os maus católicos.

Para ir ao céu, Nosso Senhor disse que é preciso ser batizado, ter fé e obedecer a sua lei. Para ir ao céu é preciso pertencer ao corpo da Igreja, ou, pelo menos, à alma da igreja.

Resta sublinhar a contradição de me chamar de malévolo, covarde, de pretender ser mais católico que o papa, com sua afirmação final de despedida: “Repleto de admiração pelo seu trabalho em vista do bem da Igreja”.

Como você pode dizer que sou “malévolo”, “covarde” e outras “amabilidades”, e afirmar que está repleto de admiração por meu trabalho?

Certamente, o caso é digno de registro pela sua originalidade única: ficar repleto de admiração pela covardia e malevolência de outrem…

Mas deixemos essa contradição por conta de seu relativismo: no começo da carta era eu malévolo e covarde. No final, da carta, a afirmação certa de “outrora”, ficou errada, o que lhe permite, no presente, estar repleto de admiração pelo meu trabalho.

Em todo o caso, saiba que apesar de meus defeitos, apesar de minhas culpas — de que Deus tenha misericórdia — não me considero melhor do que ninguém. E só quero, com toda a minha alma, servir o papa e defender o que os Papas sempre ensinaram. Só quero ser um filho fiel à Igreja. Um católico comum – pecador, é verdade – mas que quer ser sempre fiel e respeitoso ao Papa, quem quer que ele seja, e jamais desrespeitá-lo.

Especialmente, quero defender o Papa João Paulo II, nesta hora em que tantos Bispos, e mesmo Cardeais, o desafiam e o contestam, e negam sua autoridade, exigindo até a sua renúncia, e contestando sua orientação na Dominus Iesus. Por isso lhe digo que teria alegria bem sincera se todos os católicos gritassem juntos, sempre Viva o Papa! Viva o Papa de hoje! E Viva o Papa em toda a História!

Porque o Papa é Pedro na terra. Porque o Papa é “Il dolce Cristo nella terra”, como você bem lembrou, como dizia a grande Santa Catarina de Siena. De Santa Catarina de Siena que defendeu sempre o Papa, mesmo quando combatia o Papa por não ter coragem de voltar a Roma. Viva o Papa. Sempre.

In Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli.

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