Montfort Associação Cultural

14 de janeiro de 2015

Download PDF

Mais Sobre o Uso do Véu

Autor: Ivone Fedeli

A não utilização do véu, generalizada hoje em dia, é arbitrária, sem fundamento canônico e contrária à tradição de dois mil anos.

 

08 de janeiro de 2015

Fiquei com pena de ter respondido curto demais sobre o véu no site, atendendo unica e exclusivamente à dúvida que aquele senhor tinha no momento.
Acho que vale a penas fazer mais alguns comentários, que podem esclarecer outros leitores sobre a questão da obrigatoriedade do uso do véu.
É preciso notar que, durante aproximadamente dois mil anos, as mulheres cobrirem a cabeça para participar do culto católico foi costume universal, sobre o qual se legislou quanto houve alguma controvérsia, reafirmando que era obrigatório.
A primeira legislação que conheço foi feita pelo Papa São Clemente. Você sabe, o do texto da Missa, “Lino, Cleto e Clemente…”. Os três, São Lino, São Cleto e São Clemente, foram secretários de São Pedro e Papas um depois do outro, quando o anterior foi martirizado.
Pois é, esse São Clemente, que portanto foi o quarto Papa, entre 88 e 97, teve que fazer uma lei dizendo que o uso de véu pelas mulheres era obrigatório na Igreja, porque havia em Roma um grupo gnóstico que afirmava que as mulheres tinham por natureza um acesso direto e privilegiado à divindade (bobagem que será reeditada pela gnose romântica, aliás) e que, portanto, não deviam usar o véu, que segundo São Paulo, é sinal de submissão e não de superioridade (I Cor 11; 1-16).
Aliás, ao que parece, sempre houve mulheres para quem esse uso pesava, pois o texto de São Paulo que mencionei tem um tom de controvérsia. Evidentemente havia gente que não queria usar, e ele faz questão de dizer que isso é contrário à tradição da Igreja. Já naquele tempo!
Enfim, de bom ou de mau grado, o uso do véu sempre foi obrigatório e universal até o Concílio Vaticano II. O Código de Diretio Canônico que vigorava então, publicado em 1917,  obrigava, no cânon 1262, as mulheres a cobrirem a cabeça no culto e “especialmente quando se aproximam da mesa sagrada”.
Durante o Concílio, jornalistas perguntaram ao então Padre Annibale Bugnini – o que fez o texto da missa de Paulo VI – se o uso do véu ia continuar sendo obrigatório. Ele teria dito que “o Concílio tinha coisas mais importantes com que se preocupar” e muitos jornais do mundo publicaram que o Secretário da Comissão Preparatória da Liturgia, cargo que ele ocupava então, tinha dito que “o uso ou não do véu não era um assunto importante“.
No clima de liberação geral que impregnava aqueles tempos – um padre amigo nos contou que o pároco de uma igreja perto de nós tinha já trazido a mulher e os filhos para perto da Paróquia, durante o Concílio, porque como também o celibato o Concílio ia liberar, ele poderia passar a viver com eles publicamente? – enfim, no clima do tempo, o véu foi lançado à urtigas, embora o Código de Direito Canônico continuasse dizendo que era obrigatório e o Concílio não tenha dito nada a respeito. Nenhum padre nem Bispo, praticamente, impôs o uso, que continuava obrigatório por lei, e as mulheres foram simplesmente parando de usar.
Em 1983 veio o novo Código de Direito Canônico. Nele, o tema simplesmente não existe. Não se fala do véu. Logo, foi abolido oficialmente, certo? Não. Pelo contrário.
O próprio Código de 1983 afirma, nos cânones 20 e 21 que para abrogar uma lei canônica anterior (no caso, o uso do véu, obrigatório no código de 1917), a lei canônica posterior deve obrigatoriamente fazê-lo explicitamente e que, em caso de dúvida, não se deve supor a abrogação da lei anterior.
Aliás, quando eu estava em Roma em 2010, para o encontro Summorum Pontificum, houve uma missa num certo dia e no dia seguinte haveria uma missa na Basílica de São Pedro. À tarde, veio um encarregado das cerimônias e disse que tinha notado que algumas mulheres não tinham usado a cabeça coberta durante a missa e que ele queria avisar que isso era obrigatório “para o Rito Romano Tradicional”, disse ele. O Código de Direito Canônico nunca fez distinção entre ritos, porém.
Enfim, acho que fica claro que o não uso do véu, generalizado hoje em dia, é arbitrário, não tem nenhum fundamento canônico e é contrário a uma tradição de dois mil anos.
Se você achar que vale a pena, num outro dia comento algo sobre as razões doutrinais e espirituais dessa obrigatoriedade. Por hoje, é só isso.
Salve Maria.
Ivone.

 

Véu de renda, branco para solteiras; preto, cinza ou outro para senhoras. E também capuz, xale, chapéu, lenço podem cobrir a cabeça durante a Missa. 


  • Consulente: Anônimo
Professor, sobre o uso do véu, que é um costume piedoso para as mulheres, estou tentando convencer a minha mulher a usá-lo durante as missas, mas uma dúvida me veio a cabeça, qual tipo de véu? Caso eu consiga convencê-la, ela poderia usar como véu, visto que é de uso comum hoje em dia, uma pashmina? E se usasse um hijab em um dos muitos estilos usado pelas muçulmanas, seria lícito? Ou uma dupatta (véu indiano)?
Gostaria de saber qual o melhor tipo ou modo de usar o véu, se é que há, para que, convencendo-a, ela possa usar sem errar.

Prezado Consulente,

Qualquer coisa que cubra a cabeça serve. Veú, manto, chapéu, lenço, não importa. O costume no Brasil é o véu de renda, branco para moças solteiras, preto, cinza ou de outra cor para senhoras. Mas é só um costume. Cobrindo a cabeça, está bem.

Salve Maria.

Ivone.

17 de dezembro de 2010

Leia também sobre a fundamentação teológica do uso do véu pelas mulheres na Igreja Católica em carta respondida pelo Professor Orlando Fedeli em 2005.

——————————-

TAGS

Publicações relacionadas

Cartas: Adoração ao Santíssimo - André Palma

Cartas: Palmas na missa - Orlando Fedeli

Cartas: Fora da Igreja Católica não há salvação - Orlando Fedeli

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais