Montfort Associação Cultural

1 de setembro de 2004

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Uso do latim na liturgia

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Gustavo
  • Localizaçao: Natal – RN – Brasil
  • Escolaridade: Superior concluído

Caro senhor Orlando Fedelli, Pax Domini!

Recentemente fui presenteado (por um padre da Administração Apostólica de Campos) com um missal Dominical Popular, onde há orações e a liturgia (Ordinário ) da Missa de São Pio V. Nunca assistí a uma missa tradicional, por isso, lí o Missal e sua tradução. Lendo a tradução, ví que essa liturgia (tradicional) é enormemente rica, em orações e em beleza cúltica.

Cheguei a uma conclusão: por que não se realizar missas conforme o rito de S. Pio V, mas na língua vernácula? Dessa forma, se manteria a riqueza da Tradição litúrgica e o povo poderia estudar e entender a Missa dominical. O que o senhor acha dessa idéia?

Há comunidades vétero- católicas que fazem exatamente isso em suas missas.

Penso que dessa forma talvez se poderia pensar num fim desses problemas ( e polêmicas e divisões) relativos à Ordem da Missa, desde a década de 60.

Agradeço a atenção, me despeço e aguardo vossa resposta!

Muito prezado Professor Gustavo, salve Maria!

A Missa sempre foi rezada com palavras latinas, hebraicas (Amén, Hosanah, Aleluiah) e gregas (o Kyrie), porque a sentença de Pilatos, condenando Cristo à morte, foi escrita nessas três línguas.

A Igreja manteve o latim, na Missa, em primeiro lugar por ser uma língua morta, pois nas línguas mortas as palavras não mudam de sentido, como nas línguas vivas.

Em português, quando o Padre diz: “Ide, a Missa está acabada”, o povo responderia: “Graças a Deus”, que hoje pode significar: “Ufa! Até que enfim. Estava na hora! Não agüentava mais!”.

Ora, se as palavras e expressões mudam de sentido nas línguas vivas, que se na Missa se usasse uma língua viva, seria fácil que nela se introduzissem erros doutrinários graves, pela mudança de sentido das palavras. O latim, como língua morta, não apresenta esse perigo.

Os protestantes acabaram com a distinção sacerdote e povo. Rezada a Missa em língua vulgar muitos interpretarão que é o povo que reza a Missa e não o sacerdote.

Os jansenistas queriam que a Missa fosse rezada em vernáculo, porque afirmavam que o povo era quem rezava a Missa.

Por causa desse erro protestante o Concílio de Trento condenou quem afirmasse que a Missa deve ser rezada somente em vernácula:

“Se alguém disser que o rito da Igreja Romana pelo qual parte do cânon e as palavras da consagração se pronunciam em voz baixa, deve ser condenado; ou que somente deve celebra-se a Missa em língua vulgar(…) seja excomungado” (Concílio de Trento, Cânones sobre o Santíssimo Sacrifício da Missa, cânon 9, Denzinger 956).

O erro protestante de que o povo é quem celebra a “ceia” introduziu-se rapidamente no meio dos teólogos e do povo depois da reforma da liturgia por Paulo VI, que adotou a língua vulgar, na Missa. Tanto que, ainda agora, o Papa João Paulo II teve que advertir, na encíclica Ecclesia de Eucharistia, contra o erro de que é a”comunidade” que reza a Missa, e não o sacerdote. Ademais, o latim, tendo sido usado pela Igreja durante séculos, adquiriu uma grande sacralidade e santidade. Assim como a roupa de Cristo, tocada pela hemorroíssa a curou, o latim, veste da Igreja, adquiriu um poder extraordinário, tanto que, nos exorcismos, certos demônios, somente são expulsos se o exorcismo for rezado em latim.

Além disso, o latim tem uma beleza que as línguas vulgares não possuem, e para Deus deve-se dar o melhor. Convém ainda muito que os mistérios da liturgia sejam rezados em língua sagrada e não vulgar, porque isso aumenta o respeito e a veneração pelo mistério que é realizado. Tanto isso é verdade, que muitas religiões, mesmo pagãs, usam, em seus ofícios religiosos, língua sagrada, distinta da vulgar.

Esperando ter atendido a sua dúvida, me despeço atenciosamente

in Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli.

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