Montfort Associação Cultural

7 de fevereiro de 2012

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Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (parte 3 de 3)

Este artigo é uma continuação de Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano - parte 1 e parte 2.

Mário Silva Martins

O reconhecimento teórico de nosso nada diante de Deus e de que, por causa de nossos inúmeros pecados, não temos direito nenhum de presumir de nós mesmos em nosso interior ou diante de nossos semelhantes, é coisa fácil e simples.

Mas o reconhecimento prático destas verdades e as consequências que saem delas e que atingem nossa conduta diante de Deus, de nós mesmos e de nossos próximos é uma das coisas mais árduas e difíceis da vida cristã, na qual naufragam inúmeras almas. Com frequência, se dá o fato curioso de que uma alma, que acaba de tomar a determinação de ser “humilde de coração” ou de “aceitar com alegria qualquer espécie de humilhações”, pouco depois queixa-se imensamente se alguém cometeu a imprudência de lhe causar um pequeno incômodo ou uma humilhação involuntária e insignificante.

Para ajudar a prática da humildade, recomendamos a leitura do Filotéia, ou Introdução à vida devota, de São Francisco de Sales, que trata dela na terceira parte de sua obra.

Os autores espirituais nos oferecem três meios principais para chegar à verdadeira e autêntica humildade de coração:

a) Pedi-la incessantemente a Deus

Todo dom perfeito vem do alto e desce do Pai das luzes” (S. Tiago I, 17).

A humildade perfeita é um grande dom de Deus, que Ele costuma conceder aos que o pedem com oração incessante e fervorosa. É um dos pedidos que deveriam ser feitos com maior frequência em nossas orações.

Dom Columba Marmion recitava a Ladainha da Humildade

Dom Columba Marmion costumava, com frequência, recitar uma “ladainha da humildade”. Ainda que a eficácia da oração não esteja ligada a uma fórmula determinada, muitas almas tiram grande proveito de uma oração já estruturada. Por isso copiamos imediatamente abaixo o texto usado por Dom Columba Marmion:

Senhor, tende piedade de nós; Jesus Cristo, tende piedade de nós; Senhor, tende piedade de nós.

 

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-nos.

Jesus, manso e humilde de coração, atendei-nos.

 

Do desejo de ser estimado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser amado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser buscado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser louvado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser honrado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser preferido, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser consultado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser aprovado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser elogiado, livrai-me, Senhor!

 

Do temor de ser humilhado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser desprezado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser rechaçado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser caluniado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser esquecido, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser ridicularizado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser debochado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser injuriado, livrai-me, Senhor!

 

Ó Maria, Mãe dos humildes, rogai por mim!

São José, protetor das almas humildes, rogai por mim!

São Miguel, que fostes o primeiro a combater o orgulho, rogai por mim!

Todos os santos justificados pela humildade, roguem por mim!

 

Oração.  Ó Jesus, cujo primeiro ensinamento foi este: ‘Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração’, ensinai-me a ser humilde de coração como Vós”.

b) Colocar os olhos em Jesus Cristo, modelo de humildade

Jesus Cristo nos deixou exemplos sublimes de humildade, eficacíssimos para nos mover a praticar esta grande virtude, apesar de todas as resistências de nosso amor próprio desordenado. Nosso Senhor mesmo pede que tenhamos os olhos nele: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (S. Mateus XI, 29).

A vida de Nosso Senhor pode ser dividida em quatro etapas e, em todas elas, a humildade brilha com caracteres impressionantes:

1) Na sua vida oculta:

a) Antes de nascer: se aniquilou no ventre de Maria; se submeteu a um decreto caprichoso de César; à pobreza; à ingratidão dos homens (“e os seus não o receberam”)…

b) Em seu nascimento: pobre, desconhecido, de noite, num presépio, com pastores e animais…

c) Em Nazaré: vida escondida, trabalhando manualmente, pobre aldeão, sem estudos em universidades, sem deixar brilhar um só raio de sua divindade, obedecendo São José e Nosso Senhora, talvez até mesmo a um patrão depois da morte de São José…

Motivos abundantes para fazer com que morramos de vergonha por nosso orgulho.

2) Em sua vida pública:

a) Escolhe seus discípulos entre os mais simples: pescadores e um publicano!

b) Busca e procura converter não só ricos como Lázaro e José de Arimatéia, mas também  os pobres, pecadores, afligidos, as crianças, os pouco favorecidos.

c) Vive pobremente, prega com simplicidade, usa figuras e comparações humildes ao alcance do povo, não busca chamar a atenção…

d) Faz milagres para provar sua missão divina, mas sem qualquer ostentação, exige silêncio, foge quando querem fazê-lo rei…

e) Inculca continuamente a humildade: a parábola do fariseu e do publicano, a simplicidade da pomba, a pureza das crianças, “Não busco minha própria glória”, “Não vim ser servido, mas servir”.

Ecce Homo de Juan De Juni (1560)

3) Na sua paixão:

a) Um triunfo tão simples no domingo de Ramos, com um pobre burrinho, com ramos de oliveira, mantos que se estendem a seus passos, povo humilde que o aclama, os fariseus que protestam…

b) Lava os pés dos discípulos, inclusive os de Judas! É traído no Getsemani: “Amigo, a que viestes?”, amarrado como um malfeitor perigoso, abandonado por seus discípulos…

c) Esbofeteado, ridicularizado, insultado, escarrado, açoitado, coroado de espinhos, vestido de branco como um louco, Barrabás lhe é preferido…

d) Na cruz: blasfêmias, risadas: “Pois não era o Filho de Deus?”. Podia ter feito a terra engoli-los, mas aceita o espantoso fracasso humano…

4) Na Eucaristia:

a) À mercê da vontade de seus ministros, exposto, contido no sacrário, visitado, esquecido…

b) Completamente escondido: na cruz ainda se deixava ver na sua humanidade…

c) Falta de respeito, afrontas, sacrilégios, profanações horríveis, sacerdotes que não tomam cuidado com as partículas que se desprendem das hóstias e mesmo com hóstias inteiras, fiéis que vêem a hóstia como um pão qualquer…

Sem dúvida, a consideração frequente destes sublimes exemplos de humildade que nosso divino Mestre nos deu tem enorme eficácia para conduzir-nos até a prática heroica desta virtude fundamental.

Os santos não ousavam sonhar com grandezas e triunfos humanos vendo seu Deus tão humilhado. Uma alma que deseja verdadeiramente santificar-se deve ver, definitivamente, o seu nada e começar a praticar a verdadeira humildade de coração, seguindo Nosso Senhor: “Quem quiser vir depois de mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga” (S. Lucas IX, 23).

c) Imitar Nossa Senhora, Rainha dos humildes

Depois de Jesus, Nossa Senhora é o modelo mais sublime de humildade. Sempre viveu na atitude de uma pobre escrava do Senhor. Raramente fala, não chama a atenção em nada, se dedica às tarefas próprias de uma mulher na pobre casa de Nazaré, aparece no Calvário como mãe do grande fracassado, vive escondida e desconhecida sob os cuidados de São João depois da ascensão de Nosso Senhor, não faz qualquer milagre, não se sabe exatamente onde morreu…

Sob seu olhar maternal devemos praticar a humildade de coração para com Deus, para com nosso próximo e para conosco.

Para com Deus, submetendo-nos a Ele e adorando-o sempre, agradecendo-o por tudo o que temos, trazendo sem cessar em nosso espírito que viemos do nada, do limo da terra, que sozinhos não podemos nada e dependemos absolutamente de Deus.

Por isso, nossa origem mais ou menos nobre ou importante neste mundo não tem valor algum, vindo do limo da terra. Pesar nossas qualidades é uma perda de tempo: tudo o que somos e temos vem de Deus e podemos perder tudo do dia para a noite. O orgulho é uma grande mentira e Santa Teresa de Ávila dizia que a humildade é andar na verdade (Moradas sextas 10, 7).

Para com o próximo, admirando nele, sem inveja ou ciúmes, os dons naturais e sobrenaturais que Deus lhe deu, não observando intencionalmente seus defeitos, desculpando suas faltas com caridade, salvando ao menos a boa intenção e considerando-nos inferiores a todos. As incontáveis vezes nas quais não aproveitamos as graças que Deus nos deu são motivos mais que suficientes para que cada um de nós se tome verdadeiramente como o último dos pecadores, “o pecador por excelência”, como dizia o publicano em sua oração. Qualquer outra pessoa teria sido mais fiel com as graças que temos recebido.

Finalmente, para conosco, amando nossa miséria, nunca esquecendo que, se cometemos um só pecado mortal, fomos resgatados do inferno, éramos prisioneiros do demônio. Nunca nos humilharemos o suficiente. Aceitemos as ingratidões, o esquecimento, o desprezo da parte dos outros. Nunca falemos de nós mesmos, nem bem, nem mal. Se falarmos mal existe o perigo de hipocrisia. Somente os santos sabem fazê-lo bem. Se falarmos bem, existe o perigo da vaidade e soa mal diante de quem nos ouve. A melhor coisa a fazer é calar, como se não existíssemos no mundo.

E assim, quanto mais uma alma subirá até Deus pela prática das boas obras e pela oração, tão mais estável estará pelo profundo fundamento da humildade, referindo a Deus tudo o que é, tem e recebe.

A humildade é andar na verdade, e a verdade nos libertará.

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