Montfort Associação Cultural

29 de janeiro de 2012

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Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (parte 2 de 3)

Este artigo é uma continuação de Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo – Parte 1

Mario da Silva Martins

Um exemplo de humildade: Santa Maria Madalena de Pazzi.

São Francisco de Sales dizia que “a vida dos santos está para os Evangelhos como a partitura tocada por um músico está para a partitura escrita”. De modo que, depois de termos apresentado para o leitor o Evangelho escrito, queremos mostrar agora o Evangelho vivido. Como o Evangelho brilha mais compreensível, mais palpável nas vidas dos santos!

Santa Maria Madalena de Pazzi teve por pai Camillo Geri de Pazzi, cuja família era aliada à família Médicis e, por mãe, Maria Laurência de Bondelmonte, cuja origem não era menos ilustre.

Ela nasceu no dia 2 de abril de 1566, em Florença, e recebeu o nome de Catarina no momento do batismo, em honra de Santa Catarina de Siena, por quem sempre teve terna devoção. À medida que crescia foi crescendo também em santidade, ficando sempre feliz quando podia ouvir a doutrina católica ou conversas piedosas.

Com sete anos, tendo encontrado num livro o Símbolo de Santo Atanásio, ela o leu com tanto gosto que foi correndo mostrá-lo à sua mãe, o que indica que Deus já lhe dava luzes sobre o mistério da Santíssima Trindade.

Aprendeu o Pai Nosso, a Ave Maria e o Credo com avidez, repetindo-os frequentemente e ensinando-os aos pobres. Quando seu pai a levava ao campo, ela agrupava as jovens à sua volta para ensiná-las a doutrina católica.

Cedo ela começou a se aplicar à oração, antes que tivesse idade para ser formada por diretores. Deus mesmo era seu mestre. Buscava os lugares mais solitários e tranquilos da casa para rezar e concebeu um desejo tão grande de agradar a Deus que não tinha mais nenhum gosto pelas doçuras que o mundo busca tão afoitamente. Seu fervor era tanto, que seu confessor viu-se obrigado a permitir que comungasse com 10 anos, o que na época era excepcional. Fez voto de castidade com 12 anos, sendo tão fiel a ele que durante toda a sua vida nunca cometeu algo que pudesse servir de reprovação nesta matéria.

Alguns anos mais tarde, quando seu pai buscará um marido que lhe seja conveniente, ela não dará seu consentimento e pedirá a permissão de abraçar o estado religioso, o que lhe será concedido.

Catarina escolhe então a Ordem do Carmelo, porque nele se comungava quase todos os dias. Ela ingressou na ordem na vigília da Assunção de Nossa Senhora, mas depois de aí passar quinze dias ela se vê obrigada a sair, por obediência ao seu pai. Ele lhe pedia isso com a intenção de prová-la na sua resolução.

Após uma provação de três meses ela obteve, enfim, a permissão de retornar, com a benção de seus pais. Na vigília do primeiro domingo do Advento, em 1582, com 16 anos, ela voltou ao Carmelo e, no sábado seguinte, dia da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, foi unanimemente recebida como religiosa.

Após sua profissão perpétua ela tinha êxtases quase quotidianos, nos quais Deus lhe ditava coisas tão elevadas que seus superiores designaram duas irmãs que as transcrevessem.

Expulsou o demônio do corpo de uma jovem, mandando imperiosamente que saísse. Foi favorecida por Deus do dom de fazer milagres e também profetizava. Predisse ao cardinal Alexandre de Médicis, arcebispo de Florença, que fora visitá-la, que um dia ele seria Papa. Ela renovou sua predição quando este cardeal foi enviado pelo Papa Clemente VIII à França como legado junto ao rei Henrique, o Grande: “Este prelado possui atualmente uma grande honra, mas ele possuirá uma ainda maior. Ele será elevado ao sumo pontificado, mas não terá esta dignidade por muito tempo. Quando desejará abraçá-la, ela passará num instante”. De fato, Alexandre de Médicis, eleito papa com o nome de Leão XI, em 1605, viverá somente 26 dias após sua eleição.

O Padre Lourenço Brancácio, de origem toscana e carmelita observante, escreveu uma biografia desta santa admirável, onde nos relata um de seus exames de consciência:

Na tarde de 6 de abril de 1592, ajoelhada em terra para se examinar do decurso daquele dia, foi arrebatada em êxtase, em que começou a rezar o Salmo Domine, quid multiplicati sunt (Salmo 3), etc. Depois do qual disse também o Salmo Qui habitat (Salmo 90). Este acabado, começou a falar com o amantíssimo Jesus, desta maneira:

Ó Jesus meu, qual foi hoje o primeiro pensamento que tive? Sinto muito, que não foi de vós. Temi que já fosse passada a hora de chamar as vossas esposas [chama assim as religiosas do convento] para vos louvarem: e não foi de apresentar-me à Vossa Majestade e glorificar-vos. Depois disso fui para o coro a fim de oferecer-me a vós: porém não o fiz resignando-me em tudo, e por tudo, à vossa vontade. Ó benigníssimo Deus, que misericórdia eu poderei receber de vós, pois me não entrego toda a vós? Tende de mim misericórdia, ainda que eu a não mereça, senão antes mil infernos.

Depois, quando comecei a vos louvar, me deixei levar mais da pena de ver algumas que faltavam nas cerimônias e com as inclinações devidas, que do cuidado de vos honrar e oferecer os meus louvores, em união com os louvores que vos dão os Espíritos bem-aventurados [os anjos]. Bem tenho de quê vos pedir misericórdia, ó grande Deus, pois no que tão imediatamente toca a vós, que são vossos louvores, cometo tantas imperfeições.

Depois, quando cheguei a receber vosso precioso Corpo e Sangue (que devia ser com todo o afeto que me era possível), me pesa de que não tive intenção de recebê-lo em memória de vossa Paixão sagrada, como vós dissestes, nem tampouco tratei de unir a minha alma convosco, mas somente de como faria aquietar o meu coração.

Bem cedo ouvi a palavra divina; porém, mais considerei se era verdade que nos fossemos, como vós fazíeis dizer ao vosso Cristo [chama os pregadores e confessores de “Cristos do Senhor”], do que no amor que me mostráveis. Mas, Senhor meu, eu não sei outra coisa mais que vos pedir misericórdia.

Quando fui receber os frutos de vosso Sangue no Sacramento da Penitência, mais considerei o que havia de dizer ao vosso Cristo, para sossegar o meu coração, do que o benefício que me fazeis em lavar a minha alma no vosso Sangue, e não me confiei de vós, que me daríeis graça com que o meu coração se aquietasse.

O Senhor meu! E quais foram as minhas palavras, que hoje proferi? Foram de repreensão: e o modo pouco pacífico de dizê-las, e suave, foi causa de se inquietar o coração daquela [acusa-se de ter repreendido uma noviça]. E o que pior foi, faltei à caridade, pois vendo o seu coração inquieto, não procurei sossegá-lo, para poder se unir convosco. Eis aqui, Senhor, o que tiro de tanta união e luz que me dais, que se a désseis a qualquer outra criatura, ela vos seria muito mais agradecida. E eu pobre e miserável, nenhum fruto tiro, pois falto à caridade para com vossas esposas. Perdoai-me por amor de vossa Paixão sagrada.

Depois, quando fui falar àquela criatura, acuso-me de que fiz uma grande hipocrisia, fazendo-me ser reputada pelo que não sou. E suposto que fiz aceno às vossas criaturas, não mereci que elas me entendessem. E assim signifiquei ter a minha alma unida convosco [diz isto porque estando no locutório com uma de suas tias, foi alí arrebatada em êxtase; tinha acertado com outras freiras que, quando fizesse certo aceno, levassem-na embora da grade, porque pressentia o êxtase]; e bem sabeis quantas vezes anda distraída fora de vós. Mostrei ser religiosa: e bem sabeis vós o que sou. Clamo a vós misericórdia, e perdão desta grande hipocrisia, e vos ofereço o vosso Sangue, por meu remédio derramado com tanto amor. Se me mandais para o inferno, ó Senhor, como o mereço! O meu devido e próprio lugar será aos pés de Judas, pois tanto vos tenho ofendido.

Fui depois dar o sustento necessário ao meu corpo. Porém, que intenção tive eu de vos agradar e honrar nesta ação? Não me lembrei de apresentar-vos tantos pobrezinhos, que porventura andam muito tempo batendo pelas portas em busca de um bocado de pão, e talvez que não acham quem lhes o desse. E eu miserável e indigna, sem algum trabalho meu (e o que é pior, sem merecimento), me provê a religião [a Ordem Carmelita] de tudo o necessário. E não só cometi contra vós esta ofensa, senão de mais a mais outra, que fui ocasião daquela vossa esposa falar tantas palavras em lugar onde eu sabia não ser lícito falar. Eis aqui, Senhor, como em todas as minhas obras não acho mais que ofensas vossas. Como, pois, poderei aparecer em vossa presença e pedir-vos mercês e graças, e a encomendar-vos vossas criaturas, sendo tantas as minhas culpas que não mereço useis comigo de misericórdia? Porém, Senhor, aquele amor que vos moveu a baixar à terra, e derramar vosso Sangue, ele vos mova a ter misericórdia com a minha alma.

Depois, quando não fui louvar-vos em companhia das outras vossas esposas, foi só por minha culpa. Porque tanto que aquela criatura me disse, que não fosse, logo me acomodei a ficar. Ah Jesus meu! Se ela me pedira outra qualquer obra de caridade, não me acharia tão pronta. Ó Deus meu, como quero eu ter confiança de chegar onde para sempre vos louve em companhia dos Anjos, se tão facilmente falto em vos louvar em companhia de vossas esposas? Eu vos ofereço o vosso Sangue, para que mediante seu valor infinito, me concedais misericórdia.

E nas obras que fiz, que intenção tive, Deus meu, de vos honrar e glorificar; pois vejo que mais me pesa do tempo que vós com vosso favores me levais, do que do tempo em que falo em vos oferecer a minha alma? É verdade que fiz sinal àquelas vossas virgenzinhas de que era hora de silencio, mas não considerei quanto mais obrigada era eu a estar em silêncio unida convosco.

Depois, quando houve de invocar o Espírito Santo, estava com a mente tão desviada de vós, que me não lembrava o como se havia de fazer: de sorte que as outras que não têm tanto tempo de religião, tiveram mais prudência que eu. Eis aqui, meu Jesus, como em todas as obras tenho faltas. Como poderei, pois, aparecer em vossa presença, tendo-vos tão ofendido? Torno a oferecer-vos o vosso Sangue, que só mediante o seu valor, espero perdão.

E que grande falta foi aquela outra, quando houve de fazer aquela obra? Por poupar-me a um pouco de trabalho em dar alguns passos, faltei ao que era obrigada a fazer, e vali-me de outra que me fizesse caridade, e eu não fiz caridade com a minha alma. Mais interesse tive em não me cansar um pouco, do que em que vós não vos afastásseis de mim. Em todas as minhas obras acho defeitos. Porém vós, não olhando para vossas ofensas, senão para vossa bondade, de novo me atraístes a vós, onde me destes tanta luz, que se a désseis a outra qualquer alma, faria mais fruto, do que em mim miserável.

Depois fui dar refeição ao meu corpo, e não me lembrei de tantos pobrezinhos que não têm de que sustentar-se, e a mim, Senhor, me dais provisão com tanta largueza. De novo vos apresento vosso Sangue por tantas ofensas, que contra vós cometo.

Ai de mim, Jesus meu, que estamos no fim do dia, e não fiz coisa alguma sem ofensa vossa! Pois agora, que farei? Ó meu Deus, se tanto vos tenho ofendido neste dia, não quero eu acrescentar mais outra ofensa, qual seria não confiar em vossa misericórdia. E suposto, Senhor, que a não mereço, todavia o vosso Sangue, que por mim derramastes, me fará confiar em vós, que me haveis de perdoar”.

E o seu biógrafo, no relato de sua vida, continua:

Feito este exame, ainda sem sair do êxtase, se retirou a um lugar oculto do Convento, onde tomou uma aspérrima disciplina [isto é, flagelou-se], em castigo destes levíssimos defeitos. Deste modo examinava esta alma a sua consciência cândida, e assim a sacudia do mínimo pozinho que a pudesse manchar”.

O reconhecimento de nossa miséria

Depois de vermos este exame de consciência de uma santa, como aparecerão diante de Deus as distrações voluntárias que temos durante nossas orações e nossos terços, recitados com a pronúncia toda atropelada, com os olhos curiosos de ver o que se passa a nossa volta, com falta de modéstia do corpo e cheios de impaciência no espírito, interrompendo-o pelo menor motivo?

Como aparecerão as missas que assistimos sem preparação, tendo a memória ocupada com muitas coisas que não têm importância na hora da missa? E os padres que rezam missa com tanta negligência na observação dos ritos, com pressa e inquietação?

Como aparecerá o modo com que tratamos nossos próximos, quando estimamos maliciosamente suas ações ou, o que é pior, suas intenções? Como aparecerá nosso interesse por seus defeitos naturais e morais, nossas desculpas para não ajudá-los nas suas necessidades, o fato de criarmos atrito com eles por um motivo leve e mesmo por nenhum motivo ou por amor próprio ferido?

E nossas palavras de queixas, mentirosas, inúteis, de orgulho, de elogio próprio, murmurações? Como aparecerão nossos pensamentos tidos longe da presença de Deus, nossas obras feitas com intenções menos retas?

E se não encontramos tantas faltas assim em nosso exame, é porque nos falta diligência em fazê-lo e humildade. Se uma grande santa como Santa Maria Madalena de Pazzi, que tinha todas as suas ações bem cercadas pela santa regra do Carmelo, encontrava no fim do dia tantas coisas para se penitenciar, o que será de nós, que vivemos no mundo? Assim como não há rio que não recolha lodo, galhos e folhas nas suas margens, assim também não há homem que não cometa faltas nas suas relações com os outros homens ao longo de um dia.

E, se neste exame de consciência, Santa Maria Madalena de Pazzi pede perdão a Deus até de coisas que não são pecados e que não são coisas a serem acusadas em confissão, mas de coisas que podiam ter sido feitas com maior perfeição, o que será de nossa negligência em fazer penitência pelas faltas grandes que cometemos?

Não há dúvida de que nenhum de nós tenha qualquer motivo para se orgulhar e para se crer virtuoso. Ao contrário, depois de examinarmos nossas consciências – e nelas encontraremos misérias em maior número e gravidade do que as que Santa Maria Madalena de Pazzi via em si mesma e das quais fazia grandes penitências –, devemos nos humilhar diante de Deus e nos inclinar à compaixão das misérias e desgraças do próximo, considerando-as de certo modo como próprias, enquanto prejudicam nosso irmão e enquanto podemos nos encontrar em situação semelhante ou pior: “Por que tu olhas a palha que está no olho de teu irmão, e tu não vês a trave que está no teu olho?” (S. Mateus VII, 3).

Que grande exemplo de humildade nos dá Santa Maria Madalena de Pazzi. Ela compreendeu bem a parábola do fariseu e do publicano.

Deus mesmo manifesta em máximo grau a sua onipotência compadecendo-se misericordiosamente de nossos males e remediando nossas necessidades.

A humildade e a caridade andam juntas. Tendo maior luz de nossas misérias, compadeçamo-nos também das de nossos próximos e busquemos ajudá-los, sobretudo pelo exemplo. Quantos de nós, para não dizer todos, fomos levados ao amor de Deus e a uma vida melhor depois de conhecermos alguém exemplar, que mostrava na sua vida a luz e a beleza que existem em servir a Deus, e que suportou nossas misérias com paciência e misericórdia para nos conduzir até um lugar mais alto?

A prática da humildade

O reconhecimento teórico de nosso nada diante de Deus e de que, por causa de nossos inúmeros pecados, não temos direito nenhum de presumir de nós mesmos em nosso interior ou diante de nossos semelhantes, é coisa fácil e simples.

Mas o reconhecimento prático destas verdades e as consequências que saem delas e que atingem nossa conduta diante de Deus, de nós mesmos e de nossos próximos é uma das coisas mais árduas e difíceis da vida cristã, onde naufragam inúmeras almas.

Assim, para dar ao leitor alguns instrumentos que permitam a obtenção desta virtude tão fundamental da vida cristã e sua prática, apresentaremos, na próxima parte (e última) deste artigo, os principais meios para chegar à verdadeira humildade de coração.

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