Montfort Associação Cultural

28 de dezembro de 2011

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Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (Parte 1 de 3)

Mário Silva Martins

Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (Parte 1 de 3)

 

Introdução

A humildade é uma das virtudes mais importantes da vida cristã. Ela é tão importante que os autores espirituais costumam consagrar páginas abundantes a tratar dela.

A humildade não é, certamente, a maior de todas as virtudes. Várias virtudes estão acima dela, dentre as quais a fé, a esperança e a caridade. Mas, em certo sentido, ela é a virtude fundamental de todo o edifício espiritual, um fundamento negativo, removendo os obstáculos para receber o influxo da graça, que seria impossível sem ela.

Neste sentido, a humildade e a fé são as duas virtudes fundamentais de todo o edifício sobrenatural. Este edifício apoia-se sobre a humildade como sobre um fundamento negativo (removendo os obstáculos) e sobre a fé como sobre um fundamento positivo, estabelecendo um primeiro contato com Deus.

Davi louva grandemente a humildade no Salmo 118:

Foi bom para mim ser humilhado, para que eu aprenda vossos preceitos” (Salmo CXVIII, 71).

Muitas pessoas que eram puras e simples de coração, sem falsidade, terminaram com a alma estragada depois de acolherem o orgulho, que é um vício bem sorrateiro.

Observemos que não são as humilhações que santificam, mas a humildade. Por isso São Tiago escreve que “Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes” (S. Tiago IV, 6).

Os maus endurecem nas provações, mas os bons se corrigem.

Alguns padecem humilhações com rancor, outros com generosidade. A estes últimos, Deus concede graças abundantes.

Foi para mostrar o quanto a humildade é agradável aos olhos de Deus que Nosso Senhor contou a parábola do fariseu e do publicano. Esta parábola é um exemplo do qual cada um deve tirar proveito, seja ele fariseu, seja ele publicano.

Estamos no começo do mês de março do ano 30, algum tempo depois de Nosso Senhor ter contado a parábola do ecônomo infiel e antes da ressurreição de Lázaro, a aproximadamente um mês da sua crucificação e morte. Estando antes na Galileia, Nosso Senhor percorre agora a fronteira entre a Galileia e a Samaria, descendo até o vale do rio Jordão.

O fariseu e o publicano

E ele disse também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos como justos e desprezavam os outros” (S. Lucas XVIII, 9)

Aqui também, como na parábola do ecônomo infiel, a finalidade é anunciada antes. Os ouvintes aos quais Jesus dirigia esta parábola eram ou fariseus ou discípulos imbuídos do espírito farisaico, e que manifestavam os dois grandes sintomas de uma das mais graves doenças morais: o orgulho. Jesus queria curá-los.

Aos seus próprios olhos eles eram justos, tendo atingido a santidade perfeita, e “desprezavam os outros”. São Lucas, na versão original de seu evangelho, em grego, usa aqui um termo muito expressivo e que não é usado por nenhum outro evangelista. Este termo, traduzido comumente por “desprezar”, significa propriamente “aniquilar, tratar como nada”.

O conceito de excelência própria e o desprezo dos outros andam juntos, como a humildade e a caridade. Jesus mostrará a estes orgulhosos, do modo mais dramático, o horror com que Deus os vê.

Dois homens subiram ao templo para orar: um fariseu e outro publicano” (S. Lucas XVIII, 10).

Estes dois personagens são modelos bem conhecidos, diametralmente opostos na sociedade judaica da época de Nosso Senhor. O primeiro, o fariseu, representa a perfeição dos costumes, a ortodoxia completa da fé. O outro, o publicano, a desmoralização e a indiferença religiosa. Na medida em que o primeiro era estimado, venerado, o segundo era sumamente desprezado.

O termo “fariseu” vem do adjetivo aramaico “perishaiia”, que significa “separados, distintos”. Provavelmente o termo foi cunhado pelos seus adversários, porque os fariseus se chamavam a si mesmos de “companheiros” e de “santos” (Mons. Francesco Spadafora, Diccionario Bíblico, vocábulo Fariseos, p. 211, 1959, Editorial Litúrgica Española, Barcelona).

O templo era, como as nossas igrejas, “uma casa de oração” (S. Lucas XIX, 46) e os israelitas devotos gostavam de frequentá-lo para invocar o nome de Deus, sobretudo durante certas horas, como na oferta do incenso. Esta oferta era feita duas vezes ao dia, antes do sacrifício da manhã e depois do sacrifício da noite, sendo o ponto culminante dos ritos realizados ao longo do dia.

O termo “subir” é bem exato, porque o templo havia sido construído sobre o monte Moriá.

O fariseu, de pé, orava em seu interior desta maneira: Ó Deus, vos dou graças porque não sou como os demais homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem mesmo como este publicano” (S. Lucas XVIII, 11).

Nosso Senhor nos apresenta os retratos dos dois personagens, fariseu e publicano, ambos rezando. Os detalhes são poucos, mas foram escolhidos com grande fineza psicológica.

Ambos estão de pé, conforme o uso que prevalecia entre os judeus:

Salomão colocou-se de pé diante do altar do Senhor em presença de toda a assembleia de Israel e extendeu as mãos” (II Crônicas VI, 12).

Encontramos também no Antigo Testamento o exemplo de Ana, curada de sua esterilidade por sua oração, e que deu à luz Samuel. Quando ela vai ao Templo oferecer a Deus a criança de sua promessa, ela lembra ao sumo sacerdote Heli: “Eu sou a mulher que se encontrava de pé, diante de ti, orando a Deus aqui” (1 Samuel I, 26).

E quando vós estiverdes de pé para orar, se vós tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, a fim de que vosso Pai que está nos céus vos perdoe vossas ofensas”. (S. Marcos XI, 25).

Mas Nosso Senhor utiliza dois termos diferentes, conforme o texto grego, para descrever esta atitude, o que nos permite ver uma intenção particular no uso de cada um deles.

Para o fariseu, Nosso Senhor utiliza um termo que carrega muita ênfase, parecendo indicar uma postura forçada, afetada. É o mesmo termo que Jesus emprega no sermão da montanha ao dizer:

E quando orardes, não sejais como os hipócritas que amam orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das praças para serem vistos pelos homens; em verdade vos digo, eles já receberam seu prêmio” (São Mateus, VI, 5).

Diversos comentadores, analisando a construção do texto grego, tiram das palavras de Nosso Senhor uma interpretação que permite construir uma cena um pouco mais rica, na qual o soberbo fariseu isola-se voluntariamente da multidão das pessoas que rezam para evitar o contato com elas para, assim, não ficar impuro. São Jerônimo, porém, ao traduzir esta passagem, escolheu uma interpretação mais natural e perfeitamente possível do texto grego. Assim, o fariseu estaria de pé orando interiormente.

Seja como for, as duas cenas possíveis de construir a partir das palavras de Cristo, ainda que ligeiramente diferentes, são perfeitamente compatíveis e de modo algum opostas.

O fariseu inicia a sua oração com as palavras “Ó Deus, vos dou graças”. Este começo é irrepreensível, pois a ação de graças é uma parte essencial da oração. Infelizmente, sob o pretexto de exprimir a Deus o seu reconhecimento, o fariseu faz o seu elogio pessoal nos termos mais audaciosos:

Buscai nas palavras dele o que ele quis pedir a Deus; não quis orar, mas louvar-se” (Santo Agostinho, Sermão 115).

O fariseu continua: “…não sou como os demais homens…”.

Ele divide a humanidade inteira em duas categorias. Sozinho, ele forma a primeira delas – perfeita, evidentemente –, amontoando “os demais homens” na segunda.

Mas quem são, para ele, os outros homens? Ele os caracteriza com o auxílio de três palavras que designam três dos vícios mais vergonhosos: ladrões, injustos, adúlteros.

Depois, fixando seus olhos no publicano que orava à distância, o inclui na sua suposta oração, usando-o como um fundo obscuro sobre o qual as cores brilhantes de suas próprias virtudes brilhariam com maior esplendor. Santo Agostinho chega a considerar este ato como um “insulto” (Santo Agostinho, Comentário aos Salmos, 1º. Comentário ao Salmo 70, 2).

Jejuo duas vezes por semana, dou o dízimo de tudo o que possuo” (S. Lucas XVIII, 12).

O fariseu passa, agora, do elogio de sua pessoa para o elogio de suas obras. Antes mostrou o que não faz e agora mostra o que faz. É o lado positivo de sua santidade, depois de examinar o lado negativo dela.

Ele menciona com agrado duas obras que excedem os deveres obrigatórios de um judeu. A primeira é a de jejuar duas vezes por semana. Jejuns de devoção eram freqüentes entre os judeus, e quem queria aparecer como piedoso jejuava duas vezes por semana, de preferência nas segundas e quintas.

No Evangelho de São Mateus Nosso Senhor descreve a afetação com que os fariseus praticavam o jejum: “E, quando jejuais, não o façais com um aspecto triste, como os hipócritas, que desfiguram o rosto para que os homens vejam que jejuam; em verdade vos digo, que já receberam sua recompensa” (S. Mateus VI, 16).

A segunda obra do fariseu é dar o dízimo. O termo usado por São Lucas e que comumente é traduzido por “tudo o que possuo” significa mais precisamente aquilo que se ganhava ao longo de um ano, e não a propriedade total de alguém. Assim, aqui o fariseu não se refere ao dízimo restrito aos produtos que vinham do campo e do gado e que era imposto pelo legislador: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e descuidais do mais importante da lei, a justiça, a misericórdia e a fé!” (São Mateus XXIII, 23).

A oração do fariseu mais parece o discurso de um credor que deseja relembrar seus direitos a quem lhe deve. Entretanto, tais disposições não eram raras no mundo farisaico. A oração que o rabi Nechunia ben Hakana costumava fazer ao sair de suas aulas nos mostra bem este espírito:

Eu vos dou graças, Senhor meu Deus, porque a minha parte me foi destinada entre aqueles que visitam a casa do conhecimento, e não entre aqueles que trabalham nos cantos das ruas; pois me levanto cedo e eles se levantam cedo: desde a aurora eu me dedico às palavras da lei, mas eles se aplicam a coisas vãs; eu trabalho e eles trabalham: eu trabalho e recebo uma recompensa, eles trabalham e não recebem nada; eu corro e eles correm: eu corro para a vida eterna, mas eles correm em direção ao abismo” (Berachoth, f. 28, 2).

E o publicano, estando de pé à distancia, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito dizendo: Ó Deus, tem piedade de mim pecador!” (S. Lucas XVIII, 13).

Contraste admirável! Temos aqui o desenho de uma humildade perfeita manifestada por muitas coisas. Primeiramente, na escolha do lugar: “estando de pé à distancia”. Ele está longe do santuário, perto do qual, ao contrário, encontra-se o fariseu. Depois, na atitude: “não ousava sequer levantar os olhos ao céu”. Seu sentimento de miséria era tão vivo que ele não fazia nem mesmo um ato tão natural àqueles que oram: elevar os olhos aos céus. Além disso, “batia no peito”, como um verdadeiro penitente. Mas é, sobretudo, nas suas palavras que vemos a diferença em relação ao fariseu. Sua oração é profunda e sai de um coração contrito e humilhado: “Ó Deus, tende piedade de mim pecador!”.

Nosso Senhor, conforme a versão grega original, coloca na boca do publicano palavras mais fortes do que aquelas que chegaram até nós por nossas traduções: “Eu, o pecador por excelência!”.

É dizer muito com poucas palavras. De fato, fala muito diante de Deus quem se reconhece como pecador.

Eu vos digo: este desceu para sua casa justificado, e o outro não; pois quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado” (S. Lucas XVIII, 14).

Nosso Senhor afirma cheio de majestade: “Eu vos digo”, isto é, afirmo isto porque eu o sei. São palavras cheias de peso na boca de quem é Deus e conhece perfeitamente o mais profundo das almas.

O publicano voltará para sua casa puro de todo pecado, tendo sido justificado, completamente justificado, conforme a expressão usada por Nosso Senhor. Sua oração humilde ultrapassou as nuvens, sua contrição foi um sacrifício de agradável odor a Deus, que lhe concedeu perdão.

O fariseu também deixou o templo, sem dúvida acreditando ter dado muita honra a Deus e tendo ganhado maiores méritos. Mas como as palavras de Nosso Senhor, que é Deus, são terríveis em relação a ele: “o outro não”!

Santo Agostinho escreveu belas páginas a respeito desta parábola:

O publicano não ousava levantar os olhos aos céus. Por que ele não olhava o céu? Porque ele se olhava a si mesmo. E eis que, examinando-se a si mesmo, começou a ter desgosto e é assim que ele agradou a Deus.

Tu, ao contrário, tu te elevas, tu elevas a cabeça. Ora, o Senhor diz ao orgulhoso: Tu não queres olhar tua miséria? Pois bem, eu a olharei! Tu queres que eu desvie meus olhos dela? Então, não desvie os teus.

O publicano não ousa levantar os olhos aos céus: ele se examina, ele se condena. Ele faz de si mesmo seu próprio juiz, e Deus defende sua causa. Ele se pune, e Deus lhe faz misericórdia. Ele se acusa, e Deus o defende. Deus o defende tão bem que seu juízo foi: O publicano desceu para sua casa justificado, e o outro não; pois quem quer que se exalte será humilhado e quem quer que se humilhe será exaltado. Ele examinou sua consciência, diz o Senhor, e Eu, Eu não quis examiná-la. Eu o ouvi clamar em minha direção: Desviai os olhos de meus pecados! (Salmo L, 11). Mas quem pode pronunciar tais palavras, a não ser aquele que diz também: Minha falta, eu a conheço (Salmo L, 5)?

Quanto ao fariseu, ele também, meus irmãos, era um pecador. Ele podia dizer: Eu não sou como o resto dos homens, desonestos, ladrões, adúlteros; ele podia jejuar duas vezes por semana e dar o dízimo de seus lucros, mas ele não deixava de ser um pecador. E mesmo quando ele não tivesse um só pecado na sua consciência, seu orgulho teria bastado para acusá-lo. E, entretanto, ele ousava falar deste modo!…

Mas então, quem é sem pecado? Quem poderá se gloriar de ter um coração puro, ou de ser inocente de toda falta (Provérbios XX, 9)? Este não o era, é verdade; mas, no seu erro, ele não sabia o que tinha ido fazer no templo. Ele se encontrava na casa do médico, como que para se curar e, dissimulando suas chagas, ele apresentava os membros que estavam sadios…

Deixa, então, o Senhor cobrir as tuas chagas: não o faça tu mesmo. Pois, se tu tens vergonha de mostrá-las, o médico não as curará. Que Ele as cubra com um bom remédio e as cure. A chaga que o médico cobre será curada. Mas se o doente quer cobri-las por si mesmo, a única coisa que conseguirá fazer é escondê-la. E de quem ele a esconde? Daquele que tudo conhece” (Santo Agostinho, Comentário aos Salmos, 2º. Comentário ao Salmo XXXI) .

Pois quem quer que se exalte será humilhado e quem quer que se humilhe será exaltado”.

Jesus conclui a parábola com esse grande princípio moral, o qual aparece também em outras ocasiões: quando Nosso Senhor observara que alguns convidados escolhiam os primeiros lugares (São Lucas XIV, 11) e ao repreender os escribas e fariseus (São Mateus XXIII, 12).

Esta insistência quanto à humildade é outro sinal de quanto ela é importante aos olhos de Deus. Pois quando Deus, na Sagrada Escritura, insiste muito a respeito de algo, é porque é coisa de grande importância. É o caso da esmola, da penitência e também da humildade.

Uma vez que Deus nos mostra o quanto a humildade lhe agrada, achamos necessário tratar um pouco mais dela. Depois de termos apresentado o comentário da parábola do fariseu e do publicano, vamos dar um exemplo de humildade na vida de uma grande santa, Santa Maria Madalena de Pazzi. Por fim, daremos ao leitor alguns instrumentos que permitam a obtenção desta virtude tão fundamental da vida cristã.

Continua em Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo – parte 2

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