Montfort Associação Cultural

5 de setembro de 2011

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Uma parábola sobre o bom uso do dinheiro: o ecônomo infiel

 

Por Mário Silva Martins

O evangelho de São Lucas nos transmitiu duas parábolas de Nosso Senhor a respeito do bom uso dos bens deste mundo: a parábola do ecônomo infiel e a parábola do mau rico e do pobre Lázaro.

Elas fazem parte dos fatos da vida de Cristo que se passaram entre a festa da Dedicação e a ressurreição de seu amigo Lázaro. Este, ao contrário do pobre Lázaro da parábola contada por Nosso Senhor logo em seguida à parábola do ecônomo infiel, era bastante rico. A afluência dos judeus que vêm de Jerusalém para assistir o funeral, o túmulo de Lázaro cavado em uma rocha conforme o costume dos ricos, a comoção que sua morte e sua ressurreição causaram, o perfume de grande valor que Maria, irmã de Lázaro, versará mais tarde sobre a cabeça e os pés de Jesus (S. João XII, 3), tudo leva a concluir que a família de Lázaro pertencia a um alto nível social.

Vale a pena notar que a expressão “os Judeus”, empregada pelo apóstolo São João ao narrar o milagre, designa no seu evangelho os principais judeus, e mesmo freqüentemente aqueles que pertenciam ao Sinédrio. Tanto é que, mais adiante, São João escreverá: “Muitos dos Judeus que foram à casa de Maria, vendo o que havia feito, creram nele. Mas alguns dentre eles foram encontrar-se com os fariseus, e lhes contaram o que havia feito Jesus. Então os sumos sacerdotes e os fariseus convocaram um conselho (…)” (S. João XI, 45-47).

É evidente, então, que Cristo não tinha nenhuma repulsa pelos ricos, como pretendem os adeptos da Teologia da Libertação. Cristo não desprezava os ricos, nem era contrário a que alguém possuisse muitos bens, nem via os ricos como pessoas necessariamente desonestas.

São Lucas nos conta que algumas mulheres ricas ajudavam materialmente a Cristo nas suas pregações: “E aconteceu em seguida que ia por cidades e povoados, pregando e anunciando o Reino de Deus; e os Doze o acompanhavam, bem como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cusa, um administrador de Herodes; Suzana e muitas outras que os ajudavam com seus bens” (S. Lucas VIII, 1-3). Nosso Senhor era pobre, mas também possuía bens, dentre os quais uma túnica de grande valor que será sorteada na sua Paixão ao invés de ser rasgada e dividida.

O que Cristo condenava não era a posse de dinheiro, mas o apego ao dinheiro e o mau uso dele.

Judas era apegado ao dinheiro e quando viu Maria, irmã de Lázaro, ungir Cristo com um perfume de grande valor em gratidão por ter ressuscitado seu irmão, se queixará hipocritamente de que o dinheiro que se ganharia com a venda dele poderia ser distribuído aos pobres: “Então um de seus discípulos, Judas Iscariotes, aquele que o trairia, disse: Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários para dar aos pobres? Ele disse isso, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e como tinha a bolsa, roubava o que nela era colocado”. (S. João XII, 4-6).

Judas escondia sua avareza sob a máscara da compaixão pelos pobres. Quanto maior fosse a quantidade de dinheiro colocada na bolsa, maiores eram as chances de que suas subtrações fraudulentas passassem desapercebidas.

Ao ver aquele perfume riquíssimo ser consumido completamente, seu amor pelo dinheiro pôs em ação sua capacidade contábil com uma velocidade espantosa… Trezentos denários equivaliam ao salário médio anual de um trabalhador. O apóstolo S. Felipe havia calculado que duzentos denários bastavam para dar um pedaço de pão para mais de cinco mil pessoas. Judas teve a audácia de protestar contra um gasto que lhe parecia inútil, mas que na verdade era feito por gratidão.

Faltava gratidão em Judas.

Abundava amor pelo dinheiro.

O amor pecaminoso de Judas pelo dinheiro o conduzirá até o desprezo pela pessoa de seu Mestre.

Judas trairá Cristo por dinheiro.

Quanta avareza se disfarça sob a aparência de amor pelos pobres…

Quantas ofensas são feitas a Deus com o disfarce da caridade…

É contra este amor desordenado pelo dinheiro que Nosso Senhor contará estas duas parábolas, uma do ecônomo infiel, outra do mau rico e do pobre Lázaro.

O discurso se passa em fevereiro do ano 30, aproximadamente dois meses antes de sua paixão e morte. Dirigindo-se diretamente aos seus discípulos, mas sabendo que entre a multidão que o escutava estavam presentes também alguns fariseus, “que amavam o dinheiro” (S. Lucas XVI, 14), Nosso Senhor conta primeiro a parábola do ecônomo infiel, que analisaremos hoje.

O ecônomo infiel

Um homem muito rico tinha um ecônomo que fora acusado diante dele de dissipar seus bens. Ele o chamou e lhe disse: Que ouço dizer de ti? Dai-me conta de tua administração, porque já não poderás continuar administrando” (S. Lucas XVI, 1-2).

Na Antiguidade havia escravos que se ocupavam de outros escravos no trabalho agrícola, mas havia também homens livres que eram chamados procuradores. Eles administravam um grande domínio como, por exemplo, os de um imperador, ou mesmo uma província como eram a Judéia e o Egito no Império Romano. O ecônomo desta parábola se encontra bem neste segundo caso, porque se fosse um escravo ele não seria demitido, mas vendido. Ele é, então, um homem livre ou um antigo escravo que foi libertado e que goza atualmente de liberdade.

Este ecônomo era um administrador geral dos bens de seu senhor, que dispunha de todos eles, tendo no seu trabalho uma liberdade absoluta e quase sem controle.

Uma liberdade tão grande no cumprimento de seu trabalho era uma ocasião constante de tentações de fraude e de mau uso do dinheiro, particularmente na ausência de seu senhor.

Um dia seu senhor o chama e o acusa de dissipar seus bens. A má administração dos bens que lhe haviam sido confiados fora denunciada e seu mestre, longe de fazer uma simples ameaça, toma a decisão firme de demiti-lo.

Cristo não indica o modo como o administrador havia lesado os bens de seu senhor, se com roubos, fraudes ou com despesas inúteis. Porém a continuação da parábola estabelece uma forte presunção de que o administrador era um desonesto. A necessidade de garantir o futuro muito provavelmente não bastaria para transformar um homem honesto, que tivesse usado mal o dinheiro de seu senhor por incapacidade de governo e administração, em um ladrão e em um falsário. Em todo caso a acusação era bem fundada, porque o ecônomo não tentou sequer se desculpar.

Aqui São João Crisóstomo nos ensina que um erro comum nos homens, que faz aumentar os pecados e prejudica a prática das boas obras: é o de se crerem senhores sobre os bens que possuem nesta vida, ao passo que somos somente dispensadores destes bens, dos quais fazemos uso transitório e muito breve. Assim, devemos usar dos bens deste mundo com humildade e modéstia.

Deus nos confiou certos bens, para uns mais e para outros menos. Quem põe neles o seu fim peca gravemente e não edifica nada, antes destrói o que Deus construiu. Quem não faz deles o seu fim, mas os ama mais do que deveria, comete pecado venial e atrasa-se no caminho que deve percorrer até Deus. Todos os bens deste mundo devem servir para dar glória a Deus, e quem os usa com este fim edifica com ouro, prata e pedras preciosas, como nos ensina Santo Tomás de Aquino no seu comentário à Primeira epístola de São Paulo aos Coríntios.

O homem que é bom administrador dos bens que Deus lhe confiou nesta vida tem confiança na sua administração e, como São Paulo, deseja ser separado deste mundo e estar com Cristo (Filip. III, 20). Mas aquele que se apega aos bens deste mundo se vê cheio de angústia na hora da morte, quando deve deixá-los.

O administrador pensou consigo mesmo: Que farei, pois meu senhor me retira a administração? Não tenho força para trabalhar a terra; mendigar me dá vergonha. Já sei o que farei, a fim de, quando for removido da administração, ter pessoas que me recebam em suas casas” (S. Lucas XVI, 3-4).

Nosso Senhor nos expõe aqui o interior da alma desse administrador que, num monólogo curto, faz passar diante de sua inteligência vários meios com os quais poderia ganhar a vida depois de ser demitido de seu cargo.

A sua demissão por motivo de má administração do dinheiro não permite que ele espere ser contratado como administrador por outra pessoa.

A sua vontade se opõe decididamente diante dos dois primeiros meios. Antes tinha se aproveitado de seu cargo para ganhar mais dinheiro sem trabalhar em proporção. Como imaginar que, agora, estaria disposto a fatigar-se no campo trabalhando diretamente a terra? Sua preguiça não está disposta a ceder diante de tal opção.

O seu orgulho protestará contra a segunda opção. Afinal de contas, ele não era um simples subordinado ou um escravo encarregado de cuidar de outros escravos, mas um administrador de um grande domínio, dotado de poderes bem amplos. Passar desta situação a de mendigo seria muito humilhante.

São João Crisóstomo vê nesta passagem uma alegoria do esforço que devemos fazer nesta vida para ganhar o Céu, porque uma vez terminada esta, na outra não teremos como ganhar mérito algum: “A vida presente é para o cumprimento dos mandamentos e a vida futura é para o consolo. Se nada fazemos aqui, é em vão que esperamos merecer na outra vida, porque nem o mendigar nos servirá”.

Na outra vida não é possível mendigar méritos. Levamos para o nosso juízo particular os méritos que ganhamos com nossos sacrifícios e boas obras nesta vida. Morremos e não levamos nem dinheiro, nem roupa, nem títulos, mas somente os méritos que juntamos aqui.

É mentira que o homem vive muitas vezes e tem muitas vidas para merecer, como ensinam o espiritismo e o budismo.

E é também mentira que o homem não terá contas a dar, depois que morrer, do bom ou mau uso de seus dons. Deus pedirá satisfações a cada um do uso que fez do dinheiro que teve, da inteligência e do estudo que lhe foi dado, das penitências que devia ter feito, da misericórdia e da caridade com que tratou seu próximo.

As duas primeiras soluções eram honestas, mas o administrador as rejeita para adotar uma terceira solução, que lhe permitirá viver sem se cansar e sem se humilhar muito. Mais uma vez ele irá prejudicar seu senhor nas suas finanças, mas se o havia feito antes em situação confortável, quanto mais agora em situação difícil. Antes que dê contas de sua administração e seja definitivamente destituído do cargo, ele se apreça a executá-la. Sobra-lhe um pouco de tempo e ele ainda conserva sua autoridade sobre seus subalternos.

E convocando um a um os devedores de seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor? Respondeu: Cem medidas de azeite. O ecônomo disse-lhe: Toma teu recibo, senta rápido e escreve cinquenta. Depois disse a outro: Tu, quanto deves? Respondeu: Cem medidas de trigo. Disse-lhe: Toma teu recibo e escreve oitenta” (S. Lucas XVI, 5-7).

Por que esta diferença de tratamento entre os devedores? Sem dúvida por causa da habilidade do administrador. Ele conhecia seus clientes e previa que podia obter o mesmo benefício com concessões diferentes, conforme as circunstâncias pessoais em que se encontravam cada um deles.

O roubo que o administrador acabara de fazer, com o acordo dos devedores de seu senhor, era imenso e alguns dados fornecidos pela História nos darão uma ideia mais precisa dele.

No texto grego de São Lucas as palavras traduzidas modernamente por “medida” são derivadas do hebreu: para o azeite é o bath, para o trigo é o khôr.

O bath era a maior medida de capacidade para líquidos usada entre os antigos judeus, equivalendo atualmente a 38 litros. O khôr era a maior medida usada entre eles para os cereais e os legumes secos. Um khôr equivalia a dez bath, isto é, 380 litros.

Que o leitor faça os cálculos, e ficará espantado ao concluir que o administrador acabou de reduzir a dívida do primeiro devedor em 1900 litros de azeite, e a do segundo em 7600 litros de trigo. Um prejuízo enorme para o senhor do administrador, e uma vantagem enorme para os devedores!

Para ser mais discreto no seu roubo, o administrador entrega de volta os recibos dos clientes, que indicavam a dívida que tinham, e pede que cada um escreva outro recibo, porque o tempo corre: “Toma teu recibo, senta rápido e escreve…”. Uma correção nos recibos originais acabaria provocando uma rasura que denunciaria muito claramente a fraude.

Nosso Senhor menciona somente estes dois clientes, mas é óbvio que havia outros. O administrador muito provavelmente agiu de modo semelhante com todos os principais devedores de seu mestre. Não tendo mais nada a perder e tendo pouco tempo, o administrador propõe sem dissimulação aos devedores uma fraude evidente, fazendo-os cúmplices do roubo e confiando no interesse que cada um teria de ficar calado.

Esta trapaça lhe garantirá o futuro. Aqueles que foram aliviados em dívidas tão grandes não poderão deixar de abrigá-lo quando ele estiver em situação de necessidade, depois de ser demitido de sua administração.

E o mestre louvou o ecônomo iníquo por ter agido prudentemente; pois os filhos deste século são mais hábeis entre eles do que os filhos da luz. Eu também vos digo: Fazei para vós amigos com as riquezas da iniquidade, a fim de que, quando vós deixardes esta vida, eles vos recebam nos tabernáculos eternos” (S. Lucas XVI, 8-9).

A fraude envolvia muita gente para continuar desconhecida do mestre. “Segredo de três pessoas, segredo de todos” diz o ditado.

Quando o fato chegou ao conhecimento do senhor ele não pôde deixar de admirar a habilidade com que seu administrador havia agido. É o senhor da parábola que elogia a habilidade do administrador. Cristo só falará em seu nome no verso seguinte: “Eu também vos digo…”.

Este elogio da parte do senhor ao seu administrador espanta muitos dos que leem esta parábola. Ele parece aprovar a desonestidade do ecônomo, justificando a conduta injusta dele.

Mas o elogio não cai, evidentemente, sobre o ato do administrador e sim sobre a habilidade com que a fraude fora feita. O que o mestre aprova e louva é a habilidade com a qual o ecônomo soube conduzir sua trapaça e assegurar seu futuro numa situação bem complicada para ele. Ele é chamado de “administrador iníquo”, e isso basta para indicar que não é o ato do administrador que é louvado.

Santo Tomás de Aquino expõe muito claramente o motivo que levou o mestre a elogiar a habilidade do administrador, chamando-a de prudência:

Há três tipos de prudência. Há a falsa prudência, chamada prudência por causa de alguma semelhança com a verdadeira. O homem prudente, com efeito, é aquele que regra bem o que ele deve fazer em vista de um bom fim. Semelhantemente, aquele que em vista de um fim mau regra bem os meios convenientes a esse fim tem uma falsa prudência, porque procura um fim mau. É assim que dizemos que um ladrão hábil é um ladrão prudente, porque encontra os bons meios de roubar. É a respeito desta prudência que São Paulo diz: “A prudência carnal é a morte” (Rom. VIII, 6), pois ela coloca o fim último nos prazeres da carne. O segundo tipo de prudência é verdadeira, porque ela encontra os meios adaptados a um bom fim, mas é uma prudência duplamente imperfeita: primeiramente, porque toma como fim não o fim geral da vida humana, mas o fim de uma questão particular; por exemplo, se alguém toma os bons meios para negociar ou navegar, diz-se que é um negociante ou marinheiro prudente; também porque essa prudência se mostra deficiente no ato prudente ele mesmo, como se, por exemplo, alguém delibera ou julga bem, e interesses mesmos da vida humana toda, mas não sabe prescrever os meios com eficácia. O terceiro tipo de prudência é verdadeiro e perfeito: é aquela que, em vista do fim bom e supremo, delibera, julga e prescreve bem. Somente este último tipo é chamado pura e simplesmente prudência” (Suma Teológica II-II, q. XLVII, a. 13).

Observação de bom senso, que esclarece perfeitamente a palavra de Nosso Senhor no Evangelho de São Lucas XVI, 8, onde certos leitores se impressionam: “E o mestre louvou o ecônomo infiel por ter agido prudentemente”. Trata-se, evidentemente, da falsa prudência, que não é aprovada nela mesma, mas que serve de exemplo e de estímulo para empregar, com mais forte razão, a verdadeira prudência para a salvação.

A expressão “riquezas da iniquidade” não significa que a riqueza seja condenável nela mesma. Nosso Senhor declara mesmo que ela pode conquistar grandes benefícios espirituais aos que sabem utilizá-la para fazer boas obras. Mas como mostra bem esta parábola, a posse de bens temporais é muito frequentemente ocasião de grandes misérias morais. Quando não é usado bem, o dinheiro é causa, nesta vida e na outra, de imensas infelicidades para muitos homens.

O dinheiro tem um papel útil na vida moral e na vida social. Tudo depende do uso que se faz dele.

É aos seus discípulos que Nosso Senhor dá o título de “filhos da luz”.

Os filhos deste século são aqueles que são tomados pelas preocupações terrenas. Os filhos da luz são aqueles que elevam o olhar para o que é mais alto e que se preocupam com as coisas espirituais. Os primeiros dirigem seus esforços para as coisas temporais e são bem sucedidos, não se preocupando com a moralidade dos meios empregados.

Nosso Senhor manifesta que gostaria de ver os seus discípulos tão inteligentes e tão hábeis no aproveitamento espiritual que se pode tirar das riquezas deste mundo, quanto os mundanos o são para fazer crescer suas fortunas.

Jesus Cristo quer fazer com que seus discípulos vejam o quanto seria radiante a Igreja, a vida dos fiéis e do clero, se os bons fossem tão atentos aos seus interesses espirituais e às coisas da vida futura quanto os mundanos o são para com os seus interesses passageiros. Os filhos da luz devem colocar nas suas próprias ações uma prudência sobrenatural igual à habilidade que os filhos deste século colocam nos seus negócios temporais.

Se o mestre da casa, ainda que prejudicado nos seus bens, soube louvar a habilidade de seu administrador, quanto mais Deus, que nada pode perder, elogiará a prudência espiritual de seus filhos.

Os filhos da luz têm, nas riquezas que Deus lhes disponibilizou nesta vida, meios frutuosíssimos de aquisição de méritos sobrenaturais: “Fazei para vós amigos com as riquezas da iniquidade, a fim de que, quando vós deixardes esta vida, eles vos recebam nos tabernáculos eternos”.

O dinheiro empregado na ajuda aos pobres, gasto na realização do culto católico, na difusão da doutrina e na aplicação de tantos meios que impeçam os homens de cometer novos pecados, nos prepara no Céu amigos que nos receberão quando deixarmos esta vida.

É a existência de ricos e de pobres que permite a caridade. A Teologia da Libertação, com seu ódio pela diferença no mundo e na sociedade, destrói toda possibilidade de ajuda entre os homens.

Partilhando com os pobres – de corpo e de alma – nós conquistamos amigos. E graças à intercessão deles nós podemos obter não uma hospitalidade humilhante e de pouca duração como a que o administrador infiel se esforçou por ganhar com a fraude e o roubo, mas um lugar e uma felicidade sem fim no Céu. O rico ajuda o pobre neste mundo, e o pobre ajuda o rico no outro. E os protestantes terão grande dificuldade em negar o valor das boas obras diante desta passagem do Evangelho, a não ser que eles, fazendo uma análise de tesoura, resolvam desconsiderá-la.

Mas o bom uso dos bens terrenos não é somente uma garantia para a vida futura. Ele dispõe o católico a receber, já nesta vida, os bens espirituais em uma medida ainda maior.

Logo após expor a parábola do mau ecônomo, Nosso Senhor faz aos seus discípulos em geral uma aplicação dela.

Quem é fiel nas pequenas coisas é fiel nas grandes, e quem é desonesto nas pequenas coisas é desonesto também nas grandes. Se vós não fostes fiéis com o dinheiro da iniquidade, quem vos confiará o bem verdadeiro? E se vós não fostes fiéis com um bem que vos é estranho, quem vos dará aquele que é vosso? Nenhum servo pode servir dois mestres: pois ou ele odiará um e amará o outro, ou ele se unirá a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.

Não se é fiel nem justo nas grandes coisas se, nas pequenas, não se observa nem fidelidade, nem justiça.

Quando se é suficientemente consciencioso para ser honesto até nas menores coisas, será fácil sê-lo naquelas coisas de maior importância. O contrário é também verdadeiro: a falta de delicadeza nas coisas mínimas é uma indicação de que não se será capaz de cuidar das grandes.

A fidelidade nos pequenos deveres da vida quotidiana dá mais forças para cumprir as obrigações importantes. Se a vontade não se habitua a respeitar a ordem nas pequenas coisas, então ela se dispõe insensivelmente a desprezar o que se relaciona mais diretamente com a salvação da alma.

Com os pecados veniais cometidos sem preocupação, voluntariamente, nós diminuímos o fervor e o zelo das boas obras. Também diminuímos a prática das ações virtuosas pelas quais a graça santificante é aumentada, e acendemos em nós as más paixões, que tornam a resistência às tentações cada vez mais difícil e que dificultam também a prática das boas obras. Assim, de pouco em pouco, a pessoa se dispõe a cair em um pecado grave.

Deus nos confia uma pequena coisa, o dinheiro, e Ele o faz como um depósito: se somos infiéis a este respeito, se fazemos de nosso dinheiro um mau uso, então o verdadeiro bem, o bem espiritual, que é nosso bem próprio, não nos será dado.

Se nós formos fiéis no uso das riquezas, dando esmolas, por exemplo, e sendo completamente desapegados dos bens da terra, então seremos julgados dignos de receber os bens espirituais.

Nosso Senhor pergunta: “E se vós não fostes fiéis com um bem que vos é estranho, quem vos dará aquele que é vosso?” Isto é, se vós fostes infiéis na gestão dos bens temporais, quem vos confiará os bens espirituais? Os bens temporais são chamados estranhos porque são exteriores à nossa pessoa, e os bens espirituais são os bens verdadeiros, nossos bens próprios.

Não é possível que seja de outro modo: nós nos desapegamos de Deus na mesma medida em que nos apegamos ao dinheiro, considerando-o como se não estivesse em nossas mãos somente como um depósito.

Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.

Deus e o dinheiro são dois senhores opostos um ao outro, e ambos exigem o homem inteiro.

São Jerônimo pede para levarmos em consideração o termo “servir”. Trata-se de uma verdadeira dependência, honrosa quando se trata de Deus, desprezível quando se é escravo do dinheiro, isto é, quando se está disposto a fazer de tudo para obtê-lo.

É necessário tomar partido entre dois senhores inimigos, e é assim quanto a Deus e ao dinheiro. Se os dois senhores são inimigos, necessariamente os servos compartilharão a ira do senhor que escolheram.

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