Montfort Associação Cultural

30 de abril de 2006

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Um padre Moderno contra a Verdade eterna

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Padre Pedro A.
  • Idade: 75
  • Localizaçao: Belo horizonte – MG – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação concluída
  • Profissão: Sacerdote Católico
  • Religião: Católica

Senhor Fedeli,

Alguns seminaristas – por razões não bem identificadas, talvez juvenil provocação ao velho mestre – fizeram com que eu escrevesse ao senhor, para ser quem haveria de expressar o real sentimento de parte – substancial e culta – do clero religioso e não religioso, brasileiros. Já completei meu jubileu de ouro de sacerdócio, e caminho para muito além disso de vida religiosa.Assisti a muitos cismas informais na igreja; mantive-me fiel às minhas convicções – e mais ainda ao núcleo da fé católica. Por tais convicções, sou quem é execrado; mas, mais ainda celebrado! É preciso, senhor Fedeli, dizer que a Igreja tem de se abrir ainda mais! Respeito suas convicções jurássicas, mas temos de caminhar mais para os rumos com que o Espírito quer nos credenciar, para que sejamos sal na terra e luz no mundo. O senhor e seus asseclas são o contrário disto. Estão sim, embuídos do espírito da Inquisição e bebem nas fontes dela.A igreja de vocês não poderia existir há muito tempo, contudo, há ainda bispos e padres que se aproveitam das benesses que o poder lhes faculta para sobreviverem no fausto em que estão.

O que é o Vaticano, senão exatamente isto … Tivemos um papa decrépito, que babava, incapaz de falar e que foi a majestade intocada de uma igreja velha, fechada aos ventos do Espírito (não sou da RCC). Hoje temos um papa que foi nazista, vestiu a farda de Hitler! Temos, igualmente, bispos envelhecidos em seus dogmas particulares que têm como preocupação se sustentar nas facilidades que o “cargo” lhes garante.

Mas temos os profetas: Bispos, padres que nem escutam pessoas como o senhor, porque são vozes (ambos) das catacumbas e não das favelas dos sofredores, dos hospitais e das ruas de desespero.

Senhor Fedeli, deixe de dizer que a Igreja Católica é una. Ela é una porque tem um poder com espadas nas mãos para cortar as cabeças dos profetas de hoje. Ela está fracionada; há muita contrariedade e insatisfação pela aridez de comunhão com o verdadeiro espírito do Evangelho.

Senhor Fedeli, o senhor é a voz da Idade Média. Pobrezinho…

Muito duplamente Reverendo Padre Pedro A.,
salve Maria.
 
     Permita-me explicar, antes de tudo o “duplamente” que usei, para lhe ser respeitável.
     Devo-lhe respeito, em primeiro lugar, como sacerdote de Cristo: Tu es sacerdos in aeternum.
     Segundo, por que o senhor já é um ancião, adiantado em anos e em saber.
     O senhor não calcula como sua carta me honrou. Sem querer, o senhor me concedeu o título de maior glória que recebi em minha vida.
     Certamente, o senhor pode calcular, quantas ofensas tenho suportado.
     Seguramente, o senhor imagina que, em contra partida, tenho recebido apoios, — mais generosos do que justos –, e mesmo alguns aplausos, ainda menos merecidos.
     Mas jamais recebi maior honra do que essa que o senhor, professor “celebrado’, me tributa, expressando “o real sentimento de parte – substancial e culta – do clero religioso e não religioso, brasileiros”.
     O senhor, como digno representante da parte mais substancial e culta do clero brasileiro o senhor declarou que sou, hoje, no Brasil, a voz da Idade Média”.
     Deus lhe pague, Padre a sua generosidade. Não creio que mereça eu esse elogio imenso.
     O senhor mesmo teve a justiça de completar esse enorme elogio, com um “pobrezinho”, para desprezar-me com exatidão, e não sabe também com quanta justiça.
     Sim, sou, um pobrezinho…
     O senhor não imagina quanto!
     Não tenho virtudes, não tenho posses, não tenho fama e nem prestigio nesse mundo que o “celebra”.
     Sou um velho professor, aposentado, e nada celebrado. Pelo contrário, bem odiado, graças a Deus. E o senhor, reparando em minha pobreza, teve pena deste professor e lhe lançou um “pobrezinho” em que se misturam desprezo e uma certa pena.
     Deus lhe pague bem a pena.
     E lhe perdoe o desprezo.
     Mas isso não anula esse título que o senhor me deu e que me honrou: ser a voz da Idade Média, neste mundo surdo e mudo para a verdade.
     Certamente o senhor conhece o que Leão XIII disse da Idade Média, na Immortale Dei: que ela foi o tempo em que a Filosofia do Evangelho governava as nações.
     Ser, então, a voz da Idade Média é fazer ecoar os sinos das Catedrais, a voz de São Bernardo, a beleza dos vitrais, os argumentos de São Tomás, a glória das Cruzadas, o tinir da espada de Santa Joana d´Arc, a doçura da virgem de Siena, e também, o zelo dos Inquisidores como São Pedro de Verona, por exemplo.
     Ah! Pudesse ser totalmente verdadeira a sua palavra!
     Faça-me Deus, por misericórdia, o pálido eco da potente voz da Idade Média, voz da Igreja na História.
     Ah! Pudesse eu ser realmente a voz da Idade Média…
     Se o fosse, talvez…
     …Talvez conseguisse ser essa voz ser bem ouvida nas almas de alguns padres e seminaristas de tão duro ouvido, e de tão duro coração.
 
***
     Se lhe devo duplo respeito, devo-lhe também, Padre, algumas duras verdades.
     O senhor confessa que me enviou essa carta por “provocação de alguns seminaristas”… com vontade ou de assistir uma “briga de galos”, ou desejando que seu celebrado saber — expressão lídima do saber parte mais substancial e culta do clero nacional — me esmagasse.
     Isso me fez lembrar cenas de rua de quando eu era moleque, e alguns atiçavam dois deles a se engalfinharem só para assistir a briga.
     O comportamento de seus seminaristas o fez tomar a atitude de moleque que não fica bem para um velho sacerdote. Sem contar o que isso indica do nível desses seminaristas. O senhor não deveria ter descido a esse nível de moleque de rua, Padre.
 
***
     
     Outra observação é sobre sua ironia a respeito de minhas convicções “jurássicas”, que, como Deputado falando em CPI, o senhor diz democraticamente respeitar. Da boca para fora.
     Padre, permita-me dizer-lhe que esse “jurássicas” com que o senhor apodou minhas convicções, as idéias pelas quais luto — idéias “medievais”, segundo o senhor — para desprezá-las como velhas, fossilizadas, é um slogan de pessoa ignorante, que o desonra.
     O senhor como velho e bem culto Sacerdote sabe muito bem que, classificar idéias como novas ou velhas é uma grosseira tolice própria de evolucionistas e de hereges modernistas. 
     Idéias não se classificam, primeiramente, como novas ou velhas, e sim como certas ou erradas.
     O teorema de Pitágoras é mais “jurássico” que o pensamento católico medieval, entretanto o senhor o considera válido ainda hoje e para sempre.
     E Cristo Deus nos disse que passarão os céus e a terra e que sua palavra não passaria.
     A palavra de Deus, Padre, é mais do que “jurássica”. É eterna.
     O senhor é um sacerdote in aeternum. E isso é bem mais do que “jurássico”
     E não disse também Nosso Senhor Jesus Cristo que nem um só jota será tirado da lei? Jamais se retirará uma letra sequer da lei. Também a lei de Deus é eterna, Padre. Em que pese a nova moral florescente em seminários …
     Nem um jota será, tirado da lei.
     E, falando em jota, por acaso não usou o senhor todo um alfabeto bem feniciamente jurássico para me escrever?
     Que besteira, então, é essa de desqualificar idéias usando o critério infantil — de novo e do velho — que a molecagem seminarística o levou a escrever?
     Julguei que o celebrado saber do clero nacional, do qual o senhor se fez o porta voz amolecado, fosse um pouco mais elevado.
 
***
 
     Uma terceira dura verdade que lhe devo dar é pela sua completa falta de caridade e de respeito por um Papa velho — João Paulo II –, alquebrado pela doença, sem mais controle dos músculos faciais, que o senhor ridiculariza brutalmente escrevendo dele: “um papa decrépito, que babava, incapaz de falar”.
     Padre, escrevendo isso, o senhor perdeu todo o senso da compostura e do respeito.
     Não se fala assim de um velho. Não se fala assim de um doente, achacando suas misérias.
     Sobretudo, não se fala assim de um Papa.
     O senhor também ficará, um dia, cheio de misérias.
     O senhor ficará decrépito, não daqui a muitos anos, pois já é um septuagenário…
     Não se pisoteia desse modo a honra de um doente, pondo em destaque suas misérias físicas, das quais ele não tem culpa.
Por acaso, o senhor está aplicando as normas da Campanha da Fraternidade da CNBB para com os deficientes?
     É essa a moral que o senhor aprendeu nos seminários que não são jurássicos, mas modernisticamente quaternários?
     Padre sua conduta peca contra a caridade, não dando o respeito devido a um Sumo Pontífice. Não se diz isso, que o senhor escreveu, de nenhum doente, de nenhum ancião.
     Muito menos de um Pontífice!
     O senhor, um sacerdote, jogou fora o que se deve à dignidade sacerdotal.
     Bem infeliz a sua carta.
     Infeliz do senhor!
     Pior ainda é sua calúnia contra o Papa Bento XVI, chamando-o de nazista.
     Esta sua acusação ao Papa atual é uma torpe calúnia.
     Se o jovem Joseph Ratzinger foi convocado pelo exército alemão em guerra, durante pouco tempo, e foi soldado no final da Segunda Guerra Mundial, isso não prova que Ratzinger foi nazista.
     Nem todos os soldados alemães eram nazistas.
     Aliás, a maior resistência contra o nazismo foi feita por altos oficiais do exército alemão, que combateram Hitler, esse tirano diabólico e genocida, inclusive tentando um golpe militar contra ele.
     Pio XII estava em contato com esses oficiais.
     Sua acusação ao Papa Bento XVI é uma calúnia vil, contra a qual protesto com toda energia.
     Ela indica ou uma ignorância completa da História ou má fé de sua parte. Certamente indica seu pouco escrúpulo de consciência.
     Usando de tal método para rebaixar a honra do Papa reinante, o senhor mostra bem qual é o seu senso moral nada “jurássico”, mas bem moderno. Tão moderno que parece modernista.
 
***
     Finalmente sou obrigado, pela caridade, a acusar seu pecado maior que foi contra a Fé.
     O senhor me escreveu:
     
Senhor Fedeli, deixe de dizer que a Igreja Católica é una”.
 
     Padre, prefiro morrer a dizer que a Igreja não é una.
     No Credo, cantei e canto, e cantarei toda a minha vida, que creio: 

“Et Unam, Sanctam, Catholicam et Apostolicam Ecclesiam”.

     Deus me ajude a jamais negar que a Igreja é una.
     O senhor, Padre Pedro, não reza, por acaso, na sua Missa, todo dia, o Credo?
     Não diz, então, o senhor a Deus que crê na Igreja Una?
     Ou o senhor mente a Deus, quando pronuncia essas palavras do Credo, em sua Missa?
     Padre, o senhor renegando a idéia — “jurássica? – de que a Igreja é una, o senhor se torna um herege.
                                    
***
 
     Sendo um velho, o senhor me escreveu uma carta de moleque.
     Sendo um professor celebrado, o senhor escreveu uma tolice.
     Sendo sacerdote, o senhor faltou brutalmente com a caridade e com o respeito a um Sumo Pontífice alquebrado e doente.
     Sendo sacerdote da Igreja, o senhor aconselhou a negar um dogma e a confessar uma heresia.
 
     Poderia uma carta escrita “expressando o real sentimento da parte mais substancial e culta do clero brasileiro” ser mais infeliz?
 
     Se a parte mais substancial e culta do clero nacional renegasse realmente o dogma de que a Igreja é una, então essa parte do clero brasileiro teria apostatado. Duvido disso. Duvido que os sacerdotes brasileiros apóiem uma carta com a sua. Que apóiem essas suas palavras heréticas.
     Mas, se isto fosse verdade, se o clero brasileiro pensasse exatamente como o senhor, então maior ainda seria a glória da voz da Montfort.
     Porque permanecer fiel, quando a parte substancial de um clero apostata, é uma glória.
     Deus o ouça, então, Padre, e que faça realmente da voz que clama na Montfort um eco, ainda que fraco e longínquo, mas um eco fiel da voz da Idade Média, por querer apenas repetir o que a Igreja sempre ensinou.
     Até a morte.
     Et in aeternum.
     Deus lhe pague, Padre, e que Ele tenha misericórdia do senhor por suas más palavras.
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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