Montfort Associação Cultural

26 de agosto de 2004

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Triste realidade do atual ambiente universitário

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Roberto
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil

Prezado Prof. Fedeli, Salve Maria!

Tenho algumas dúvidas a perguntar. Antes, porém, quero relatar-lhe como as coisas estão graves em nosso meio acadêmico em matéria política.

Decidi regressar à vida acadêmica depois de muito tempo. Sou bacharel em Administração e decidi, por hobby, fazer História aqui na UFRJ. Lamentável que nessas duas semanas de aula praticamente só tive aulas de marxismo e História que é bom nada. Apenas uma professora, que parece ser marxista, foi honesta em ensinar verdadeiramente História e não ficou ainda clara a sua verdadeira posição. Espero, pois, estar enganado.

A juventude ali está completamente despersonalizada. O socialismo despersonaliza as pessoas, elas ficam muito mais políticas do que autênticas, ficam receosas de dizerem o que pensam e o que verdadeiramente são, de maneira que para alguém parecer simpático diante da multidão deve alienar suas personalidades em favor deste “eu coletivo”, de uma multidão formatada por modismos em comum e por atitudes que estejam na crista da onda. É comum ver jovens tatuados, com piercings, aqueles cabelos compridos, barba ralada, boinas, roupas velhas, enfim, são jovens que estão a parecer retornar à Idade da Pedra. Eu me sinto como se estivesse vendo ET”s. É, pois, por infelicidade uma juventude fingida e profundamente intimidada. Infelizmente, estou praticamente sozinho ali naquele meio, muito embora Deus esteja sempre do meu lado. Apesar da solidão, não consigo ficar calado em sala de aula diante de algumas injustiças que clamam pronta resposta. Não me calo diante da desonestidade da equipe docente, que não está ensinando, mas doutrinando. Participo das aulas e respondo prontamente. Muitas das vezes os professores fingem me ignorar quando faço algumas observações e perguntas insistentes e quando os coloco contra a parede. Os colegas, ainda muito jovens, ficam meio que estarrecidos diante de minhas argumentações, eis que já saem do segundo grau com a cabeça feita e com uma lavagem cerebral da nova “religião” do momento: o “politicamente correto”. Outros, porém, embora ainda não concordem comigo, admiram minha coragem. Grupos minoritários riem da minha cara, pois entre outras coisas que as pessoas costumam fazer é apelar para argumentos emocionais quando não têm argumentos consistentes, que variam do riso à raiva. Às vezes, as duas coisas juntas. Por enquanto estão apenas rindo…

A universidade está aos pedaços e às moscas. Há bancadas de aliciadores socialistas no lado de fora das salas de aula, esperando os jovens saírem da aula para darem seu bote, vendendo revistinhas subversivas para entorpecer ainda mais os costumes e os pensamentos dos nossos jovens. Os centro acadêmicos estão totalmente partidarizados. O PSTU domina por ali. Tento manter um relacionamento diplomático mas não renuncio às minhas convicções.

Entre algumas coisas que os nossos professores vêm ensinando está a de afirmar que todas as culturas são iguais, que têm o mesmo valor, que todas as expressões coletivas podem tomar o significado de civilização e que o conceito de civilização e barbárie foram apenas construções do mundo Ocidental, rejeitando assim toda forma de progresso para se ter uma noção mais sensata sobre o conceito de civilização. Não existe então o chamado “bom senso”. Para isso, os professores simplesmente estão glamourizando o modo de vida tribal dando a entender que o europeu agiu como que um rolo compressor contra estes povos primitivos. É perceptível que descontentes com o chamado capitalismo, querem requentar o velho regime econômico e político socialista que ceifou a vida de milhões de seres inocentes no século passado, mas agora com um caráter tribal. Os olhos deles brilham quando falam das tribos indígenas e africanas, que entre outras coisas que sei praticavam canibalismo. Na África, pr aticavam até o século XIX. Não sei se praticam até hoje.

O socialismo não se contenta com o velho e requentado Marx e se expressa em suas diferentes formas, como o feminismo e o racismo por exemplo. Sim, porque o racismo é um socialismo na medida em que confere mais valor a um ser humano não pelo que ela representa individualmente, mas enquanto esta pessoa está inserida em um grupo social, o seu valor então passa a ser determinado pela cor de sua pele. Ela simplesmente perde sua verdadeira identidade: o caráter, para dar lugar a um materialismo calcado em questões de pigmentação da pele. Estão criando ali “comunidade negras” com reuniões formais. Indaguei algumas pessoas como se sentiriam se fossem criadas ali “comunidades brancas”… Estão falando em “raça cósmica”, incitando as pessoas à miscigenar-se, ou seja, uma atitude racista, concorda? É pecado, por exemplo, uma pessoa solteira preferir casar-se com uma outra, secundariamente falando, por questões raciais? Acho que não é pecado nenhum a pessoa ter primariamente atraç ão espiritual a uma outra, e em segundo plano manifestar sua atração por uma outra: a questão da raça ou a beleza. O que o sr. acha?

Estou me munindo de argumentos para responder às calúnias históricas em relação particularmente à Igreja. Alguns alunos, naturalmente “ensinados” pelos seus mestres, disseram-me que a Igreja pregava que o negro não tinha alma, o que refutei facilmente dias depois através da bula Romunus Pontifex que revelava justamente o contrário: que a Igreja queria a salvação de todas as almas, inclusive do negro. Em cima disso lhe pergunto: este documento fala em escravidão perpétua para os povos pagãos: saracenos e negros. Escravidão perpétua não significa escravidão eterna de um povo, concorda? A escravidão perpétua não se transmite de pai para filho, pois a pena de prisão perpétua por exemplo é uma pena pessoal e não social. Quero saber: a Igreja contribuiu para eternizar a escravidão, ou seja, transmitir a escravidão de pai para filho? Filhos de escravos nasciam escravos, isso eu sei e há documentos civis provando isso, mas a Igreja autorizou, foi complacente, omissa ou colabora cionista da escravidão de crianças negras aqui no nosso Brasil? Os religiosos contribuíram para isso efetivamente? Há documentos da Igreja autorizando isso?

Uma outra coisa: estão ensinando por lá também que o conceito de raça não existe biologicamente e que isso também é uma construção social. Ora, acho isso um absurdo, pois é só observar esteticamente as pessoas para ter evidências insofismáveis de suas diferenças físicas pelos padrões de suas raças. Já li artigos de geneticistas afirmando diversas diferenças entre brancos e negros, por exemplo, em questões anatômicas e medicinais. Quero entender isso do ponto de vista teológico também. Como surgiram as raças para o criacionismo? Qual seria a raça de Adão? Adão teria genes recessivos que determinavam a qualidade de uma raça específica: caucasiana, negróide e mongolóide?

Pergunto-lhe também: o que é inteligência para nós católicos? Um pagão ou um não católico pode ser considerado plenamente inteligente? Inteligência é a mesma coisa que sabedoria? Só é plenamente inteligente quem é católico e quem não é católico tem apenas potencial intelectual? O que a tradição católica pensa a respeito da questão da inteligência? Inteligência tem a ver com o Espírito da Sabedoria?

Outra questão: é lícito (teologicamente) atacar homossexuais que fazem apologia pública de seu pecado? Seria expressão de legítima defesa da família, com o intuito de preservar intactos os bons costumes? Por exemplo: gays se beijando na rua. É justo e lícito agredi-los com a intenção de interromper aquele ato? Por favor, sem rodeios!

Por último, outra questão teológica: Jesus é a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Quero entender como Ele pode ser Deus se não sabe nem o dia e nem a hora do juízo final?

Bom, caro Professor Fedeli, estou reorganizando minha vida, de mudanças, e quando puder ir até São Paulo, onde também tenho parentes, gostaria de assistir a uma de suas palestras e conhecer um pouco mais do trabalho da Associação Cultural Montfort. Até porque gostaria muito de indicar futuramente o seu trabalho aos jovens universitários. Isso, contudo, deverá ser feito em doses homeopáticas, pois ainda estou quebrando resistências, ainda dialogando mais racionalmente, e só será possível dar testemunho de Cristo em separado, quando várias barreiras forem quebradas. Mas estou evangelizando como posso, sem que eles percebam, negando qualquer doutrina que ataque o “livre-arbítrio”, que afirme a bondade do homem, que afirme que o mundo é uma abstração entre outras bobagens, heresias que vêm bem embaladinhas para enganar os mais incautos.

Fico por aqui e desejo-lhe toda a paz e sorte do mundo!

Um abraço de seu irmão em Cristo,

Roberto

Prezado Roberto, salve Maria.

Fico contente em tornar a receber uma mensagem sua, prova que você bem compreendeu o que lhe escrevi em minha última carta. Que Deus lhe dê muitas graças.

Quero parabenizá-lo por sua lúcida e pitoresca “fotografia” do atual ambiente universitário, assim como pela descrição perfeita da doutrinação ideológica que se promove nas Faculdades e escolas, hoje em dia.

Você disse muito bem: a juventude vem sendo “formatada”. Ela sofre uma corrosão da capacidade intelectual. Não digo que ela deixa de ter sabedoria, mas ainda mais: ela perde a capacidade intelectual.

E aqui já passo a responder suas questões.

A inteligência é a faculdade de nossa alma que nos permite conhecer a realidade. Se não tivéssemos corpo, nossas almas seriam iguais. É nosso corpo que limita nossas capacidades. Nossa inteligência é como um software que utiliza um hardware, constituído por nosso sistema cerebral e nervoso. Quanto mais perfeito for esse sistema, melhor atuará nossa inteligência.

Recentemente, um médico, amigo meu, me dizia que, quanto mais uma pessoa estuda, mais ligações sinápticas ela realiza em seu cérebro, facilitando o aprendizado, e permitindo um verdadeiro “crescimento” da inteligência.

Por outro lado, quanto mais se deixa de aprender por abstração, menos ligações sinápticas se realizam, e como os homens, naturalmente, estão continuamente perdendo neurônios, continuamente eles vão perdendo capacidade de pensar.

Todo o emocionalismo e o sensualismo modernos vão destruindo as inteligências e embrutecendo os homens. Por isso a descrição dos universitários quase como trogloditas é tão cogente.

A Sabedoria é distinta de nossos intelecto e de nossos conhecimentos. Ter sabedora é ter uma compreensão da ordem das coisas. Sábio é aquele que tem um conhecimento ordenado.

Permita-me um exemplo quase infantil, mas elucidativo. Uma lista telefônica — ou uma enciclopédia — tem muitas informações, mas não é sábia. Um homem que tivesse apenas conhecimentos, sem que eles fossem ordenados, sem que eles permitissem uma visão ordenada dos seres, esse homem não seria sábio.

Haveria que distinguir ainda entre sabedoria natural e a virtude sobrenatural da sabedoria , e ainda do Dom da Sabedoria, que é o primeiro Dom do Espírito Santo. Sempre, porém, a sabedoria consiste na compreensão da ordem dos seres.

Quanto ao racismo, hoje tão condenado, ele é um pecado, porque todos nós homens, enquanto descendentes de Adão e Eva somos todos irmãos. Nosso valor não está jamais em elementos corporais de qualquer tipo, mesmo raciais. Os valores reais humanos são de ordem espiritual e não física. Houve santos negros e mestiços de alto valor. Por exemplo São Martinho de Porres que foi um mulato peruano de uma santidade e de uma sabedoria inacreditáveis.

As raças humanas surgem por variações ou mutações genéticas. As causas dessas mudanças genéticas ainda não são claramente conhecidas. Possivelmente agora, com a abertura do genoma humano, se consiga elucidar essa origem.

Há quem suponha, erroneamente, que os negros, descendentes de Cham, teriam sido castigados pelo pecado desse filho de Noé. Essa interpretação é completamente falsa, pois o nome Cham significa negro. Portanto, mesmo antes de cometer pecado contra Noé, Cham já era negro. Sua cor nada teve a ver com seu desrespeito a Noé.

O casamento deve ser feito fundamentando-se, em primeiro lugar, considerando os valores espirituais, morais, intelectuais, embora os fatores físicos devam também ser levados em conta, pois o casamento é de corpos também. Lamentavelmente, hoje, só se levam em conta os fatores físicos e sensuais. Daí, o fracasso de tantos casamentos.

Sobre o homossexualismo, a doutrina católica é claríssima: para a Teologia Moral católica o homossexualismo é pecado contra a natureza.

Ainda recentemente o Papa João Paulo II voltou a condenar esse pecado.

Outra coisa é agredir alguém, ação condenada pela virtude da Prudência, e mesmo proibida e punida pelo Código Penal vigente em nosso país.

Quanto à escravidão, ela é má em si mesma, e a Igreja sempre a condenou como um mal.

Na Idade Média, não havia escravidão. Quando o Renascimento fez ressurgir a “cultura” pagã greco-romana, voltou a escravidão. Foi a Modernidade que restabeleceu a escravidão, que a Igreja fizera desaparecer.

No século XVI, a Igreja procurou combater o quanto pôde a escravidão, mas não conseguiu senão atenuá-la Ela se opôs até excomungando quem fizesse escravos os selvagens da América. Como, na África, os negros já conheciam e viviam como escravos, como essas tribos selvagens estavam habituadas à escravidão, e como a escravidão, na América, era muito mais branda do que na África, a Igreja tolerou a escravidão negra como um mal menor. Mas a Igreja sempre procurou proteger o escravo, elaborando leis que o protegessem contra abusos, e buscando civilizá-los e libertá-los o quanto antes dessa sua situação injusta.

Você vindo a São Paulo, colocá-lo-ei em contato com uma professora de História ligada à Montfort, que tem feito estudos interessantes sobre esse problema. Ela poderá fornecer-lhe documentos interessantes, mostrando como a Igreja sempre combateu a escravidão.

Esperando tê-lo atendido, e aguardando a sua visita, me subscrevo atenciosamente

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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