Montfort Associação Cultural

20 de janeiro de 2008

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TFP e Dr. Plinio

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Ibsen Noronha
  • Localizaçao: Brasília – DF – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação concluída
  • Profissão: Professor
  • Religião: Católica

Dr. Fedeli,

Gostei de ler as vossas respostas às dúvidas que giram em torno da TFP.
Muitos dos temas tratados acabam por gerar verdadeiramente grande confusão. Muitos não têm capacidade de discernir diversas nuances e matizes na doutrina expressa pelo pensamento do Dr. Plinio.
Devo dizer que tive a honra de conhecê-lo e ter algumas conversas com ele. Era um aristocrata com uma inteligência superior. De fato, esteve cercado de pessoas muito inferiores em cultura e nascimento, o que deve ter sido uma grande cruz.
Quanto à sua Fé Católica e sua obra me pareceram perfeitamente ortodoxas e não conheço qualquer condenação. Nas conversas que pude manter com Dr. Plinio recebi efetivamente um grande contributo, diria mesmo decisivo, para a minha adesão à Igreja Católica – da qual andei afastado na juventude.
Sinto verdadeiramente por V.Exa. ter estado por várias décadas nas fileiras da TFP e acabar por se sentir marginalizado. De fato o ambiente criado por diversos membros não era compatível com a caridade cristã e nem sequer com o que há de mais básico no que diz respeito à civilidade. Conheci muitos membros que também eram maltratados.
Vita Militia est! Importa lutar efetivamente contra os inimigos da Igreja e combater o bom combate. O resto é vaidade…
Esperando poder manter uma correspondência doutrinária e satutar com V.Exa., despede-se

In Iesu et Mariae

Ibsen Noronha

Muito prezado Professor Ibsen,
Salve Maria.
 
     Antes de tudo, quero lhe agradecer, porque pela primeira vez, publicamente e por escrito, um membro da TFP teve, particularmente com relação a mim, a honestidade de reconhecer que lá se maltratam algumas pessoas, faltando com a caridade, e até com o mais básico do que exige a civilidade.
    Pois o senhor me diz:
 
De fato o ambiente criado por diversos membros não era compatível com a caridade cristã e nem sequer com o que há de mais básico no que diz respeito à civilidade. Conheci muitos membros que também eram maltratados“.
 
    Deus o recompense por sua honestidade e lealdade. Não imagina o senhor o que sofri lá, durante décadas.
    Mais ainda. O senhor eleva sua consideração ao dizer que “Vita Militia est! Importa lutar efetivamente contra os inimigos da Igreja e combater o bom combate. O resto é vaidade…”.
    E foi essa verdade, que o senhor bem salienta, que me levou a suportar, durante décadas, os maus tratos, o “gelo”, e tantas outras coisas bem injustas. Não saí do grupo do Catolicismo, porque me sentia, e me sabia, marginalizado. Muito menos por ambição ou por inveja, como se me acusou. Poderia dizer, como Hipolyte, que graças a Deus: «je n´ai pas des sentiments si bas».
    Permaneci fiel, mesmo marginalizado. Se fosse por causa de maus tratos e pela falta de caridade para comigo, eu nunca teria deixado o grupo do Catolicismo. Sempre tive ante os olhos que era preciso suportar tudo — menos erros doutrinários — para defender a Fé e salvar as almas.
    Sai por razões doutrinárias gravíssimas.
 
    Em sua missiva, tão compreensiva e tão respeitosa, o senhor faz ainda duas considerações, às quais gostaria de colocar algumas observações.
    A primeira é ao tratar do valor pessoal de Dr. Plínio e da relação da aristocracia com pessoas de nível inferior.
    Sobre isso, diz o senhor:
 
Devo dizer que tive a honra de conhecê-lo [a Dr. Plínio] e ter algumas conversas com ele. Era um aristocrata com uma inteligência superior. De fato, esteve cercado de pessoas muito inferiores em cultura e nascimento, o que deve ter sido uma grande cruz“.
   
    Não tenho dúvidas em reconhecer que Dr. Plínio era um homem de inteligência muito grande, uma inteligência superior, com grandes talentos. Outra coisa seria considerar se o uso que ele fez de uma inteligência acima do comum foi também superior.
    Tratei durante décadas com ele, e estudei profunda e pormenorizadamente os seus textos publicados, assim como alguns, ainda inéditos, que me chegaram às mãos. Há muitos outros textos que me são desconhecidos, como — tenho certeza – também lhe são desconhecidos. A maior produção doutrinária dele é mantida, até hoje, em discreta reserva… Et pour cause…
    Com o tempo, porém, muitos documentos que desconhecia enquanto estive lá dentro, vim a conhecer por revelações de pessoas mais entrosadas que de lá saíram, e por publicações feitas pelo Scognamiglio…
    Que surpresas não tive!
    São esses textos, que desconhecia, que proporia analisar com o senhor, se necessário, em conversas pessoais, e com estudo detalhado. 
    Por exemplo, valeria a pena iniciar esse estudo pela análise do livro “Dona Lucília“, publicado ainda em vida de Dr. Plínio, e assinado por João S. Clá Dias (O ”S.” significa Scognamiglio)…
…Le bien nomé.
    Destaquei o termo “assinado“, porque, no livro acima citado, fica patente que ele foi ditado pelo próprio Dr. Plínio, pois há transcrições de diálogos de pessoas falecidas, com as quais Scognamiglio nunca teve contato, assim como se contam “pensamentos” de Dr. Plínio e de Dona Lucília, que Scognamiglio só poderia ter conhecido por lhe terem sido contados. Só Deus conhece pensamentos não expressos. Apesar de suas pretensões, Scognamiglio, agora Padre, ainda não é Deus. Pelo menos ainda não se disse tal.
    Seria muito interessante estudarmos também a obra Revolução e Contra Revolução
    Que preciosas revelações essa obra não traz!… E preciosas não no sentido tefepista. Muito pelo contrário.
 
    Repito a citação de sua frase, para distinguir nela, alguns pontos importantes:
 
Era [Dr. Plínio] um aristocrata com uma inteligência superior. De fato, esteve cercado de pessoas muito inferiores em cultura e nascimento, o que deve ter sido uma grande cruz”.
 
    Sem dúvida, Dr. Plínio nascera de pais oriundos de famílias “quatrocentonas“, como ele lembrava. Sua mãe era de antiga família paulista e seu pai — do qual ele falava muito pouco –, era de antiga família pernambucana.
 
    Aristocrata…
   
    Haveria muito que escrever sobre o significado desse termo, cuja raiz grega — aristê — significa valor.
    Hoje, aristocrata — desgraçadamente — significa grão fino endinheirado.
    Como decaiu a aristocracia antiga!
    Como se desvalorizou!
    Como se tornou anti aristê!
 
    A aristocracia foi enervada e corrompida nas cortes dos Reis absolutistas, e, estiolada, foi facilmente guilhotinada na Revolução Francesa. Poucos aristocratas combateram com os camponeses. Somente onde a aristocracia continuou ligada ao povo, vivendo junto a seus vassalos camponeses, é que houve combate heróico de nobres e camponeses, juntos. Até o martírio. Refiro-me à Vendée.
    Como era bela a nobreza católica! Com era admirada e amada pelo povo! E como ela amava o povo corretamente! Como a aristocracia se dedicava ao povo!
    O Conde de Artois admirava o camponês Cadoudal, que lutava por Deus e pelo Rei. Mas, infelizmente, não o imitou. Jamais desembarcou na Vendée. Chegou perto.
    Os Orléans …
    Os Orléans votaram a morte de Luis XVI — foi o caso do “aristocrata” Duque de Orléans, que trocou seu nome nobre pelo de Philippe Égalité – e foi o caso de Luis Felipe de Orléans, o rei guarda chuva, traidor de Deus e da aristocracia. Sem falar no nosso republicano Dom Pedro II.
    Noutra carta, poderei lhe contar algo da palestra-conversa que tive, um dia em Viena, sobre Aristocracia e Povo, na casa do Príncipe Kinsky, presentes uma Esterhazy, um Príncipe de Liechtenstein, um Habsburgo, e outros ainda, ouvindo um filho de operário — “um italianão grosseiro” — explicar-lhes como o povo amava a nobreza e em que consistia ser nobre. Que era a verdadeira nobreza católica.
    Entre aristocracia e povo há uma relação semelhante àquela que existe entre uma raiz e a flor de uma planta. A raiz se mete na terra suja. Ela é grosseira, enfiando-se no lodo, para sugar da terra a seiva que alimenta a planta. Mas ao nascer a flor, que alegria teria a raiz se pudesse ver balouçar ao vento e ao sol de Deus aquilo que ela produziu.
    Como ela, ela tão grosseira e tão suja, produziu aquela beleza plena de fecundidade e de delicadeza, balouçando ao vento e ao sol, em cor e perfume?
    Por sua vez, se a flor pensasse, ela se extasiaria com a compreensão da raiz, vendo em si, o efeito do trabalho e da humilhação da raiz oculta na terra. E a flor, se a flor pudesse cogitar, ela amaria a sua mãe, a raiz, grosseira e humilde, metendo-se, cada vez mais fundo, no solo úmido e negro, para lhe dar vida, cor, perfume e delicadeza.
    Que diálogo sublime não haveria entre a raiz e a flor.
    Que diálogo sublime não houve entre nobreza e povo, durante séculos.
    A Corte absolutista separou a raiz da flor. E a flor feneceu e apodreceu. E a raiz morreu. O povo sempre amou a nobreza. E a nobreza sempre viveu, enquanto viveu, para o povo humilde. O suserano para o vassalo, e vice versa.
    Porque, para um verdadeiro aristocrata, não há felicidade maior do que dedicar-se aos vassalos, mesmo os mais humildes. Especialmente aos mais humildes.
    Dedicar-se não é uma cruz. Cristo Deus, o Rei dos Reis, conviveu e amou a companhia dos filhos dos homens. A Sabedoria de Deus conviveu com rudes pescadores ignorantes.  “A Sabedoria de Deus amou a companhia dos filhos dos homens”, está escrito no Livro da Sabedoria. A Sabedoria encarnada Jesus, amou João e Pedro pescadores do Mar da Galiléia, homens rudes e naturalmente grosseiros. E São Tomás na Suma Teológica, logo no seu início, ensina que o dever do sábio é ensinar os principiantes, os ignorantes (Cfr. São Tomás de Aquino, Prólogo à SummaTeológica).
    Todo bom mestre tem sua felicidade em conviver com alunos ignorantes que ele eleva através de seu ensino. A glória e a dedicação de um verdadeiro mestre está em viver “cercado de pessoas muito inferiores em cultura“, que o mestre eleva por meio de seu magistério. Do mesmo modo que um artista escultor olha com carinho e esperança a pedra bruta, ou a tora de madeira que vai esculpir, assim um bom mestre olha com carinho e esperança o jovem inculto que ele vai elevar pelo conhecimento da verdade.
     Um mestre verdadeiro se compraz em construir catedrais nas almas de seus alunos. Especialmente na alma daqueles alunos que eram pecadores, tornando-os virtuosos. Que eram ignorantes, tornando-os sábios. Que eram grosseiros elevando-os. Não é uma cruz, para um bom mestre, conviver com inferiores. É uma honra e uma glória.
    Um bom mestre, ao ver seus alunos, antes brutos, pecadores e ignorantes, mudados, pela graça de Deus, em dedicados, virtuosos, e sábios, um bom mestre experimenta, em sua alma, uma alegria semelhante à do camponês que vê a terra, antes bruta, coberta pelo verde, e depois dourado trigal. Ele o plantara na dor e no cansaço. E o colherá na alegria.
    Como é causadora de santa alegria a vista de uma classe de jovens que é preciso cultivar, esculpir e lapidar!
    A alegria do aristocrata é a sua mesnada. Alegria do mestre são seus alunos. Se Dr. Plínio sofreu por ter alunos de baixa extração social e ignorantes, ele não foi bom mestre.
    Passo à segunda questão que o senhor toca: a ortodoxia de Dr. Plínio…
    Diz-me o senhor:
 
Quanto à sua Fé Católica e sua obra me pareceram perfeitamente ortodoxas e não conheço qualquer condenação. Nas conversas que pude manter com Dr. Plinio recebi efetivamente um grande contributo, diria mesmo decisivo, para a minha adesão à Igreja Católica – da qual andei afastado na juventude“. (O sublinhado e negrito são meus)
 
    Deixe-me inicialmente concordar com o senhor.
    Também a mim, quando era eu apenas um jovem jogador de futebol e de ping-pong na Faculdade de História da PUC, um rapaz filho de operários, afastado de Deus, ignorante da verdade católica, e carregado de pecados, também a mim pareceu-me que recebia de Dr. Plínio palavras de fé católica. E pensava então eu que foram essas palavras – ainda não compreendia a ação da graça de Deus — que me levaram de volta ao confessionário e à mesa da Sagrada Comunhão.
    Pareceram-me serem palavras de Fé católica as que ouvia nas aulas de Dr. Plínio. Pelo menos, Deus mas fez entender assim.
  
    “Pareceram [lhe, ao senhor] perfeitamente ortodoxas” as palavras de Dr. Plínio, em suas obras e conversas.
    Acredito bem que essas palavras lhe pareceram ortodoxas.
    Mas como atuou bem Deus Nosso Senhor ao lhe fazer escrever providencialmente esse “pareceram-me“.
    Pareceram-lhe…
    Eram?
 
    É o que conviria discutir e analisar.
    Afinal, o senhor nota muito bem que “Muitos não têm capacidade de discernir diversas nuances e matizes na doutrina expressa pelo pensamento do Dr. Plinio”.
    Sim, ele falava com nuances e matizes que tornavam difícil perceber qual era o seu verdadeiro pensamento…
    Para isso, recomendo-lhe que leia a revista “Dr. Plínio” da Editora Retornarei – Que nome sugestivo !!! —  que tem publicado textos inéditos de Dr. Plínio. Textos muito surpreendentes. Convido-o a lê-los. E repare bem nos matizes. Causar-lhe-ão surpresas.
    Aproveito o ensejo para lhe desejar um santo ano novo, e, colocando-me à sua disposição, despeço-me muito amistosamente.
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

Replica

Dr. Fedeli,

Agradeço penhoradamente a resposta que recebi. Resposta longa que denota dedicação e cuidado com as palavras. Agradeço ainda por saber-vos extremamente sobrecarregado de trabalhos. Lembrei-me do velho Acúrsio e suas glosas marginais e interlineares, elucidando tantos textos… Obrigado pela exegese das poucas linhas que escrevi, que nada mais desejavam senão expressar o compadecimento pelo que vós sofrestes outrora.
Também agradeço a condescendência para com as minhas palavras que foram consideradas por V. Exa. inspiradas por Deus – pelo menos em uma breve passagem assinalada.

Mas sinto-me na obrigação dolorosa de desapontá-lo. V.Exa. inferiu das minhas palavras que sou membro da TFP. Infelizmente, como disse, terei de desapontá-lo. Nunca fui membro deste movimento. Não conheço efetivamente tão bem a estrutura interna como a conheceu em outro tempo o Dr. Fedeli que foi, de fato, membro durante certo tempo. Desta forma, lamento não poder ser o membro que, pela primeira vez, publicamente e por escrito[...} teve a honestidade de reconhecer os maus tratos que se recebem internamente na TFP. De resto, para deixar clara a minha observação, os maus tratos e a incivilidade eram notáveis ao tempo do consulado joanino, antes da cisão – período que me permitiu a afirmação, pois, então, tive amigos que ingressaram na instituição.

Acerca das observações que V.Exa. fez, à maneira de glosa, das minhas considerações sobre o Dr. Plínio, devo dizer que são ricas em conteúdo e verdadeiramente interessantes. O vosso reconhecimento dos talentos naturais do fundador da TFP demonstram uma posição lúcida. Quanto ao uso superior desta inteligência as opiniões divergem. Muitos consideram a sua obra extraordinária e já foi estudada em diversas teses acadêmicas cá no Brasil. A biografia do Professor Roberto De Mattei também parece(e este verbo aparece novamente com caráter providencial?) considerar a obra do Dr. Plínio também como uma obra superior. Conheci alguns Cardeais e Arcebispos que teceram elogios ao pensador brasileiro. Veja V.Exa. que apenas refiro alguns casos, e de pessoas que não fazem parte, ou sequer fizeram, da TFP. Por outro lado, muitos consideram a sua obra deletéria. Do progressismo é excusado falar. Da intelligentia brasileira também seria inútil discorrer. V.Exa., que freqüentou – ou freqüenta – os meios acadêmicos, sabe perfeitamente o ódio incompreensível que manifestam à sua produção intelectual e à TFP.

No que respeita aos textos heterodoxos que o Dr. Fedeli sugere tenho alguma dificuldade em consultá-los como pode bem entender. Também tenho bastante renitência em utilizar como fonte fidedigna o que quer que saia do trabalho do Pe. Clás. De maneira que sigo recebendo Catolicismo e não encontro, no que eles publicam, qualquer sinal de heterodoxia. Mas afirmo que V.Exa. faria muito bom serviço à Santa Igreja se produzisse uma obra denunciando tudo o que diz conhecer em torno dos erros doutrinários que, porventura, existam.

Gostei muito de ler sobre a temática da Nobreza, que uma breve frase do meu escrito suscitou. A vossa descrição da palestra-conversa em Viena, com alguns Príncipes realmente me interessa profundamente. Tenho muitas ligações com a Áustria e admiro deveras o apostolado que V.Exa. fez. A série de mitos que envolve a formação de muitos aristocratas sobre a relação com o Povo – que muitos acham deve ser a mais democrática possível – precisa ser revista. Efetivamente as metáforas que utilizou para explicitar a relação Nobreza-Povo são formidáveis. Rezemos para que tenham frutificado e frutifiquem ainda. E a relação Professor-aluno também participa desta doutrina. Santo Tomás escreveu não apenas no prólogo da Summa, mas aprofundou o assunto magistralmente em outros escritos.

Aqui, contudo, tenho de esclarecer as minhas palavras. Afirmei que para o Dr. Plínio deve ter sido uma Cruz estar cercado de pessoas inferiores em nascimento e cultura. Não sei se V.Exa. considera este deve providencial. Mas de fato a afirmação exigiria maior desenvolvimento e demonstração. Não posso afirmar categoricamente que foi uma Cruz. Dr. Plínio era um homem que conhecia e praticava as virtudes cristãs, de maneira que talvez considerasse certas situações muito úteis para a ascese. Dr. Plínio era uma pessoa bem nascida e educada. Para além disso(e estamos de acordo) com dotes superiores de inteligência e que desejava elevar tanto intelectualmente, quanto no que respeita à compreensão da realidade, vivendo a lei da Nobreza. Devia ao menos ser duro sentir incompreensões, traições e mesmo negações. Como a quase totalidade dos membros da TFP de então era formada por gente simples... Duríssimo mesmo devia ser suportar as manifestações de igualitarismo – algo que ele odiava profundamente!

Mas, voltando ao tema da Aristocracia. Não creio que hoje a palavra signifique grão-fino endinheirado. No estado atual da Civilização a palavra foi conspurcada. Os endinheirados geralmente são mal nascidos e deblateram o mais possível contra alguém(provavelmente papalvo) que os alcunhe de aristocratas. A Aristocracia de sangue, em geral, empobreceu, decaiu e sente um misterioso receio de ser aristocrática. Temos muitos fidalgos envergonhados e democratizados e arrivistas sem arquétipos. Temos também nobres que gostam de falar da sua linhagem – o que é tolo – e um Presidente que se ufana de ser operário – o que não é menos pateta. Enfim, uma série de mal-entendidos.

Uma das perguntas que interessa na problemática da Nobreza é a questão do aspecto sobrenatural do nascimento. Deus oscula todos os berços, mas não os iguala, afirmou um Papa. A distinção que o Todo-Poderoso confere no nascimento é um Mistério belíssimo. Santo Tomás defende que Deus ama de maneira desigual – os dons que recebemos são dons de Deus, como são desiguais os dons... É belo! Amar as hierarquias é verdadeiramente belo!

Outra questão interessante é a traição à condição que nos foi dada por Deus. Falemos do Nobre, dos Príncipes – que V. Exa. se apressou a citar como exemplos de maus aristocratas – que, recebendo mais acabam por trair a sua condição. A Idade Média com o seu Direito nobiliárquico criou a degradação. Simples e Complexo! Degrada-se sim o Príncipe regicida, mas não deixa de ter a superioridade concedida no momento da sua concepção. A pena deve ser pesadíssima. Mas poderia readquirir novamente a sua condição? De que forma? V. Exa. deve ter refletido sobre estes temas. Já o plebeu, como Fouché, também regicida, seu crime é menos grave? Parece(providencial) que sim! E poderia algum dia elevar sua descendência à Nobreza?

Napoleão, que destruiu tanto o Direito Público como o Privado, também enlameou o Direito nobiliárquico – e transformou o regicida Fouché em Duque.

Reitero a minha alegria e admiração pelo apostolado feito em Viena d´Áustria com aqueles Príncipes. Quando puder envie um relato pormenorizado e farei a leitura com atenção e prazer. É belo ver um brasileiro divulgando boas doutrinas e belas idéias na Velha Europa. Lembra-me as vezes que estive no Palazzo Palavicini e vi centenas de Grandes da Europa refletindo sobre o pensamento de Pio XII, comentado pelo Dr. Plínio. E também no avoengo Portugal onde um grande número de jovens, descendentes daqueles que o Épico cantou maravilhosamente, começava a perceber o que eram verdadeiramente. Rezemos, Dr. Fedeli, para que uma metanóia traga de volta a Nobreza para ser exemplar no campo temporal!

Desejando a V. Exa. e ao vosso movimento um Ano de Chistãos atrevimentos, despede-se

In Iesu et Maria

Ibsen Noronha

Muito prezado Professor Ibsen,
Salve Maria.

    Eu é que agradeço a muito boa compreensão que o senhor revela, em sua segunda carta para mim. 
    Esta carta me trouxe, de novo, uma grande alegria, pois que nela o senhor me diz que eu “faria muito bom serviço à Santa Igreja se produzisse uma obra denunciando tudo o que diz – [que digo]- conhecer em torno dos erros doutrinários que, porventura, existam” [na obra de Dr. Plínio].

 
     Só o senhor reconhecer a possibilidade de — “porventura” — existirem erros doutrinários na obra de Dr. Plínio – E os há! E bem graves – já é um grande passo para nosso entendimento. Isso provaria que o senhor não é da TFP. Para um membro da TFP reconhecer essa possibilidade equivale a blasfemar. A menos que diga isso como desafio a alguém, como que tendo a certeza absoluta da impossibilidade que isso possa ser provado.
    
Qual é o seu caso?
    
Reconhece o senhor a possibilidade de que Dr. Plínio tenha dito e escrito coisas heterodoxas? 
    
Ou simplesmente me pede – ou desafia — a que prove isso?
    
Mas o senhor nega ser da TFP.    
    Que bom!
     Graças a Deus!
    
Esse é um ponto importante a elucidar, que facilitará nossa correspondência. É bom termos bem claro quem somos.
    
Diz o ditado francês que “les bonnes comptes font des bons amis”.« Faisons donc nos comptes. Et soyons des bons amis ». Porque quero bem ser um seu bom amigo.

    Explique-me, então, se não for eu indiscreto: qual foi o seu relacionamento com a TFP. O senhor me diz que não é da TFP — graças a Deus! — e afirma que não conhece tão bem quanto eu sua estrutura interna. Portanto, algum conhecimento dela o senhor teve.

    Diz-me ainda, o senhor, que não é ligado ao Scognamiglio, o atual padre João Clá. Duas vezes graças a Deus!!! Excelente!!! Deus o preserve desse padre…
    Mas qual o seu relacionamento com os assim chamados “Provectos”?
    O senhor é ligado à Associação dos Antigos Fundadores da TFP?
    Pois é também evidente que o senhor conhece muitas particularidades e pessoas ligadas a esse grupo, que é a real TFP, ainda que o Judiciário os tenha afastado e proibido de usar, numa sentença ainda em juízo, a sigla e os símbolos da antiga TFP. A Justiça brasileira, por enquanto, entregou sigla, propriedades, sedes da ex TFP, com leão rampante e tudo o mais, ao Scognamiglio, que lá botou um cazuesco. Um arauto do longínquo Oriente, que serve só de camuflagem para scognamigliar a situação…
    
Que o senhor é um monarquista, me fica claríssimo.
    Será então ligado ao “Movimento Monárquico” de Dom Bertrand, um simples prolongamento da associação dos Provectos, isto é, da real — não jurídica — TFP?
    
Pergunto isso, pois não compreendo que uma pessoa ligada aos Provectos, ou a Dom Bertrand, leia com interesse e simpatia o que tenho escrito sobre Dr. Plínio e a TFP. De modo que seu posicionamento doutrinário me deixa um tanto perplexo.
    
E, creia-me bem, não me decepciona que o senhor nada tenha a ver com a TFP ou com Provectos. Antes, pelo contrário. Fico bem contente com isso. Pois mais vale o bem de sua alma, do que um proveito político (muito secundário) meu. E o senhor não ser ligado a qualquer um deles só ajuda nosso relacionamento. Importa-me mais esse relacionamento pessoal nosso, pelo bem que pode advir dele, do que questões políticas inferiores. Interessa-me servir a Igreja, e defender a honra e a glória de Cristo Rei. Interessa-me ajudar sua alma.

    De minha parte, deixe-me elucidar um ponto, — secundário, é verdade –, mas para o qual dou certa importância. 
    
Para que nossa correspondência prossiga com franqueza e bom fruto, caro Professor Ibsen, gostaria de lhe explicar que não tenho direito ao tratamento de Excelência, que o senhor tão gentilmente me proporciona. Esse tratamento é reservado a Bispos, ou a figuras com cargos oficiais.
 
     
Io non Enea, non Paulo sono: 
     
me degno a cio nè io, nè altri crede” (Dante, Divina Commedia, I, Canto II, 31-32).

    O título que tenho, e prezo muito, é o de Professor. E nenhum professor de nível secundário é Excelência. Muito menos um “simples professor secundarista“, ginasiano, como bem observava Dr. Plínio…Ou como chamar de Excelência a “um italianão grosseiro, etc …”, como alguém, com alguma autoridade na TFP, dizia de mim?
    
Nada tenho de excelência.
    
É verdade que fiquei bem tardiamente na vida – e o tardiamente foi por causa de Dr. Plínio – Doutor em História pela Universidade de São Paulo, onde defendi a tese de que há inúmeros erros gnósticos e cabalísticos na obra de Anna Katharina Emmerick, que Dr. Plínio tanto louvava…
   
 Mas prefiro o título de Professor ao de Doutor, porque toda a minha vida lecionei, e sempre fui conhecido simplesmente como “Professor”. Só Professor. Sem mais nada.
    A propósito, o senhor é Professor de que matéria? Dá aulas? Onde?
    É
bom sabê-lo colega de profissão.
    
Creio que isso também facilitará nosso entendimento.
 
    
O senhor faz uma certa defesa de Dr. Plínio em quatro aspectos, que coloco em ordem crescente de importância:
 
1-  Quanto aos modos aristocráticos dele;
2-  Quanto às virtudes dele;
3- Quanto ao valor intelectual de suas obras;
4- Quanto à ortodoxia de sua doutrina;
 
    
Bem sucintamente vejamos algo desses pontos.
 
1- Quanto aos modos aristocráticos da TFP e dele.
 
    
Não narrarei aqui coisas que contrariam essa idéia. Minha bem pouca educação ficava escandalizada com certas coisas, que jamais ocorriam nas casas do bairro operário, onde cresci. 
    
Por caridade, por discrição — e por educação — não as direi.
    
É certo que lá aprendi a ordem dos talheres e copos numa mesa de banquete, e em que seqüência se deveria utilizá-los.
    
Mas não consegui compreender – e muito menos apreender – como se deveria sorrir com os lábios, ao mesmo tempo em que se odiava com os olhos, como Dr. Plínio explicava e recomendava que se deveria fazer, usando, como exemplo, uma foto de Dona Lucília, na qual ela aparecia sorrindo, e com o olhar fuzilante de ódio… 
    
Essa contradição entre olhar e sorriso nunca tive, e peço a Deus que não me permita jamais tê-la. No Cambuci, o bairro operário em que fui mal educado, o povinho era grosseiro, mas sincero. Olhar e sorriso não se contradiziam.
    
Como também jamais fiz restrições mentais, muito admitidas, até em livros, pela TFP, como “recurso excepcional” (Cfr. Átila Sinke Guimarães, Refutação a Uma Investida Frustra, p. 373). Aliás, esse autor — que pretendia ter modos aristocráticos — falsificou textos de minhas cartas a Dr. Plínio. Claro que com a anuência dele, por quem, tudo que se fazia na TFP, tinha que ser aprovado.
 
2- Quanto ao segundo ponto, isto é, quanto à falta de caridade e de civilidade na TFP

   Permita-me, agora, por minha vez, desapontá-lo. 
   
A falta de caridade na TFP era deveras tradicional. Houve lá até quem dissesse: “Eu sei que sou do grupo, enquanto posso pisar em alguém”. 
   
E os fatos ocorridos durante a crise da separação dos scognamilhescos e provectianos demonstraram que a caridade era coisa inexistente na TFP de Dr. Plínio.
   
Particularmente posso lhe garantir que os maus tratos e a incivilidade para comigo começaram por volta de 1961, quando o Scognamiglio não era nada na TFP. Era ele então apenas um membro, até medíocre, do grupo da Aureliano, liderado então por mim. Depois, quando ele se tornou a menina dos olhos do Dr. Plínio, ele só executava o que lhe mandavam fazer, e só tinha autoridade, porque Dr. Plínio lhe dava todo apoio. Dr. Plínio criava serpentes.
   N
ão se atribua então a falta de caridade, a incivilidade, e a deslealdade, comuns na TFP, apenas ao Scognamiglio. Isso não seria justo. Este foi apenas o discípulo perfeito da caridade, sinceridade, incivilidade e deslealdade que era ensinada, por meio de exemplos e doutrina, na TFP.
    Aliás, se se quiser fazer o histórico da incivilidade e deslealdade tefepista, dever-se-ia dizer que ela vinha desde muitos anos.
   
De 1928 ?… 
   
“Le mal vient de plus loin…”. Como diz Phèdre, na tragédia que leva o nome dela. 
   
Mas não pense que me move a vingança. Nosso Senhor a proíbe. “Amor mi muove che mi fa parlare” (Dante, Divina Commedia, I, Canto II, 72). 
 
3 – Quanto ao valor intelectual da obra de Dr. Plínio

    O que dizer?
    O senhor me fala de teses acadêmicas a respeito de Dr. Plínio e de sua obra intelectual…
    
Admira-me que o senhor creia no valor de teses acadêmicas brasileiras…
    
Claro que algumas há, de valor.  
    
Algumas… 
    
Não nego.
    
Mas há cada tese doutoralesca apresentada em Faculdades!
    
E há cada Doutor com tese aprovada !…
    
Como há até, no Brasil, Doutores sem tese… 
    
Como dizia o Eça, “No Brasil, todos são doutores”.
    
Como isso é verdade, hoje, quando há uma Faculdade em cada esquina.
    
Hoje, o Sarney é membro da Academia Brasileira de letras. Junto com o Jorge Amado, e até com a mulher do tal Jorge odioso.

    Para compreender o que ensinava Dr. Plínio, é preciso “estudar” muito. E é preciso mais que estudar muito, saber ler. 
    
Como é difícil encontrar, hoje, aqui, Doutor que saiba ler! Ainda mais que saiba ler um autor como Dr.Plínio, que, como o senhor muito bem observou, era homem habilíssimo em fazer… “nuances”, “matizes”, distinções” e sub sentidos, restrições…, anfibologias, analogias, e o que ele chamava de ”metáforas”.
    
Ah! As “metáforas” de Dr. Plínio!
    
Quanta coisa cabia em suas “metáforas”…
    
Mas eram metáforas mesmo?
    Que é, afinal, uma metáfora?
    
Quanto à biografia feita pelo De Matei — pessoa que levei para a TFP — ela é baseada em documentos públicos da TFP. Documentos ad usum delphini. Ou ad usum… marketing
    
Uma biografia objetiva de Dr. Plínio deveria ser feita com o que ele contou dele mesmo, em reuniões discretas…, que o Scognamiglio muito indiscretamente publicou, na revista “Dr. Plínio”. São confissões super interessantes, e que colocarei à sua disposição, se quiser. Também há confissões para lá de super importantes no livro Dona Lucília, ditado por Dr. Plínio ao Scognamiglio.
    
Que indiscrições não publicou o Scognamiglio!
    
Para começar a compreender o valor intelectual da obra de Dr. Plínio, sugiro então ao senhor, que examinemos a obra Revolução e Contra Revolução. Certamente o senhor possui essa obra, e já a leu, e estudou. 
    
Como primeiro exercício para conhecer o valor intelectual de Dr. Plínio, peço-lhe que constate qual é a causa eficiente da Revolução, segundo Dr. Plínio. 
    
O senhor vai ter uma surpresa.
    
Veja também os fatos históricos apontados por Dr. Plínio, como preparadores da Revolução.
    
Procure esses fatos.
    
Peço-lhe que os analise
    
Observe as omissões muito denunciadoras, e as deturpações muito reveladoras.Se lhe apresentar, desde já, os erros históricos — incríveis — que Dr. Plínio cometia em seus escritos, aulas e palestras, o senhor ficará estupefato. 
    E eles existem. Enormes. Primários. 
Como ele dizia, “batatadas”. Enormes. Que dariam outro livro. Enorme.

 
    Deixemos isso para outras cartas, assim como outros temas, que o senhor aborda. 
    
Vamos devagar.
    
Vejamos as causas da Revolução, segundo Dr. Plínio. Estudemos a decadência da Idade Média…
    
Quem sabe saia, deste nosso estudo, um bom livro.
 
4 – Quanto ao quarto ponto, isto é, a ortodoxia de Dr. Plínio, permita-me, de novo, citar e agradecer sua frase, que me é uma concessão muito valiosa, afirmando que eu faria “bom serviço à Santa Igreja,” caso escrevesse um livro denunciando tudo o que conheço de erros doutrinários existentes “porventura”, na obra de Dr.Plínio.
    
Deveras me congratulo com sua afirmativa
    
E se fizer, um dia, tal livro, que acontecerá?
    
Haveria muito que tratar.
    
O livro seria grosso. 
    
Por exemplo, teria que tratar se a causa da Fé é o sentimento. Se isso é Modernismo. Teria que discutir sobre a impossibilidade da existência de seres criados ab aeterno. Teria que discorrer sobre o milenarismo e a utopia…. Sobre a teoria do conhecimento… Ah”! A teoria do conhecimento de Dr. Plínio… Que interessante!… Deveria discorrer sobre o martinesismo e o martinismo… Sobre o ultramontanismo… Sobre Júlio Franck… Sobre o Romantismo de Dr. Plínio e da TFP… Sobre o catarismo de Anna Katharina Emmerick… São tantos os temas que deveria tratar, nesse livro, bem possível…E teria que falar das sociedades secretas por trás da TFP, das quais a Sempre Viva seria… a penúltima?
    
Por enquanto, muito por enquanto, “deixemos tudo isso pra lá”, — (Que expressão horrível! — expressão muito vulgarmente usada, hoje em dia, coloquialmente. E que detesto).

    …Por enquanto… 
    
Estudemos a RCR de Dr. Plínio.
    
…Por enquanto…
 
    Um livro sincero e objetivo sobre Dr. Plínio abriria os olhos de muitos.
    
Inclusive os seus. 
    
Clamo então a Nossa Senhora que me ajude a fazê-lo, e desde já lhe digo: 
    
Epheta, quod est aperire…!

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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