Montfort Associação Cultural

9 de setembro de 2004

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Texto tratando de bruxaria

  • Consulente: Guilherme
  • Idade: 20
  • Localizaçao: Bauru – SP – Brasil
  • Escolaridade: Superior incompleto
  • Religião: Outras – escreva abaixo

Em um texto do senhor Paulo Sérgio Pedrosa, encontrado no site, tratando de Wicca e satanismo, ficou uma lacuna muito grande, que gostaria de ver esclarecida.

Primeiramente deixo claro que não sigo religião alguma, estarei analisando de forma cética apenas.

O texto como um todo defende a tese de que wicca foi baseado em rituais pagãos com origem satanistas muitas vezes, portanto são tidos como hereges todos que venham a praticar tais rituais.

Logo surge uma indagação simples, mas diria pertinente; como católicos os senhores deveriam seguir os ensinamentos e mandamentos de Deus, o senhor eterno de bondade infinita.

Mas como saída a ameaça pagã, no passado foi escolhido queimar todos, indiscrinadamente(não preciso nem dissertar sobre inquisição não é?), claro que na época, havia uma distorção muito grande do verdadeiro significado da religião católica, então , nos dias de hoje, suponhamos uma religião católica (mutante diria) renovada e novamente centrada em suas bases.

Qual seria então a saída para esse “mal”? Claro que como fonte infinita de bondade, Deus não deixaria novamente nas mãos de homens que não tem capacidade de julgamento, como no passado, para que todos fossem aniquilados, sendo ou não um pagão herege.

Então surge a questão de até onde pode chegar a bondade humana(ética, sempre ela), já que se uma pessoa não fizer mal a ninguém(como se prega no wicca), se ela buscar a paz interior e uma harmonização , talvez poderes que diferentemente do tratado no texto, nem sempre buscam poder sobre os outros, enriquecimento, ou qualquer coisa do tipo, para satisfazer ganâncias mundanas(me parece que o caro colega não acredita em valores humanos mais, ou ele segue catolicismo por alguma ganancia?); sem esses motivos maléficos, a pessoa, segundo as crenças católicas, apenas estaria perdendo sua chance de ir para o céu e viver a felicidade eterna ao lado do Senhor Todo Poderoso.

Então seria o caso de queima-los? ou tentar salva-los?

Talvez isso entre demais em outros valores, mas ficou uma grande lacuna no texto , ao não se apresentar senão uma crítica sem uma solução.

Ficaria muito agradecido de receber uma resposta.

Muito Obrigado pela atenção.

Guilherme

Caro Guilherme,salve Maria!

Em primeiro lugar, há de se estabelecer distinções de alguns termos que me parecem ser confusos para você, e talvez para outros leitores:

Herege são aqueles cristãos que modificam ou negam os ensinamentos de Cristo e a doutrina da Igreja, ferindo assim a ortodoxia. Ário, Martinho Lutero, Calvino e outros foram hereges famosos.

Apóstatas são aqueles que, tendo sido batizados na Igreja Católica, abandonam sua doutrina e abandonam o catolicismo.

Pagãos são aqueles que nunca foram batizados, e seguem uma religião diversa do cristianismo.

Os praticantes da Wicca ou são apóstatas, ou são pagãos. Não se pode considerá-los hereges se eles nunca pertenceram, ou abandonaram completamente, à fé católica.

É preciso notar que, na Idade Média a Inquisição só julgou hereges, quase não existindo o problema da bruxaria.

Essa questão da bruxaria se desenvolveu mais após o século XVI, quando já não existia a Inquisição, e sim o Santo Ofício.

Ademais, a bruxaria se deu muito mais em território protestante que em zonas católicas. Se você quiser conhecer a ação judiciária católica na Itália relativa aos bruxos, recomendo-lhe que leia os livros sobre os Benandanti, no qual se pode ver que praticamente não houve condenações graves a ninguém.

As bruxas eram condenadas não porque fossem pagãs, mas pelo contrário, eram hereges satanistas. Os rituais de Sabath das bruxas do fim da Idade Média eram uma paródia grosseira da Missa, onde uma mulher era a oferenda, o altar e a sacerdotisa, uma afronta acintosa e abominável, onde inclusive eram ditas fórmulas que parodiavam as orações presentes na Missa. (cfr. Solange Hertz, Is the Black Mass Valid?).

Para sua informação, a doutrina católica não muda — NÃO EVOLUI — como alguns equivocados, ou mal intencionados, dizem. Ela é imutável como Deus Onipotente, pois a verdade não muda “Eu sou o Senhor e não mudo”, disse Deus ao profeta Malaquias. Esta mentalidade de que tudo “evolui”, inclusive a religião é típica de nossos tempos, e contamina a muitíssimos, como a você, por exemplo. O que era verdade na antiguidade, o era na idade Média e na Idade Moderna, e continua sendo verdade até hoje.

Você fala de bondade humana e de ética. Ao invés de ética é melhor dizer moral, pois ética é freqüentemente relativa a uma postura apenas profissional, e sem relação direta com o comportamento reto das pessoas perante Deus, sem ter por base a lei de Deus.

Mas note que seu enfoque é puramente natural, e não leva em conta o bem último, que é a salvação das almas. De que adianta a bondade natural, se ela não nos leva a Deus. Pior, ela acaba se tornando o motivo de nossa condenação, se nos afasta de Deus.

Um pai pode querer que sua filha tenha saúde e isto é bom. Mas se ele lhe deseja saúde para que ela se torne uma meretriz, então o desejo do pai é ruim porque subentende um mal que leva a filha à perdição…

E Deus, pela Sagrada Escritura, condenou claramente a bruxaria.

E é por isto que a combatemos, pois é dever de consciência não deixar que as pessoas percam a sua salvação por se associarem a tais práticas abomináveis.

O objetivo da Inquisição não era de “queimar” as pessoas, mas fazer com que elas abandonassem o erro. A propósito, como já dito, a Inquisição nunca teve jurisdição sobre os pagãos. Ela lidava apenas com os católicos hereges. Ademais a Inquisição nunca “queimou” ninguém, porque não imputava penas temporais. Tal pena era executada pelo braço secular do poder medieval, uma vez constatada a heresia sem o devido arrependimento.

O estado, sendo unido à Igreja, considerava que um crime contra a fé acarretava dano a toda sociedade. E se tais duras punições ocorriam era porque o crime de heresia era considerado dos mais graves, pois acarretava a perdição de muitas almas, crime este infinitamente maior que qualquer crime de ordem material.

Se você quiser ter um conhecimento melhor a respeito da inquisição, ao invés de lançar mão de clichês e lugares comuns, recomendo que você leia o livro A Inquisição em Seu Mundo do professor José Bernardino Gonzaga, pela editora Saraiva.

Quanto a sua pergunta ridícula, se eu fosse cético, como você diz ser, não teria outra opção a não ser queimar, pois ao que eu saiba um cético não acredita em Deus, muito menos em salvação.

Mas, como sou católico, e não um cético como você, o que eu quero mesmo é que as pessoas que se perderam no paganismo se salvem, e voltem, ou descubram, à religião verdadeira, que é a praticada pela Santa Igreja Católica.

Sancte Michael Archangele, Defende nos in praelio.
Paulo Sérgio Pedrosa

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