Montfort Associação Cultural

14 de fevereiro de 2010

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Teologia cristã e dificuldades insolúveis

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Viviane Mosé
  • Localizaçao: Salvador – BA – Brasil
  • Religião: Ateu

Olá.

Gostaria de saber como a teologia cristã lida com as seguintes questões.
Peço que não lance mão do “Tal é a vontade de Deus”.

1. Se Deus é onisciente, então sabe eternamente que o homem pecará e não é possível compreender que o puna por aquilo que, de antemão, sabe que ele fará.

2. Se Deus é onipotente e infinitamente bom, como explicar a existência do mal, isto é, como uma causa infinitamente boa pode dar origem à sua negação?

3. Se Deus possui infinita liberdade para escolher o melhor, por que, entre todos os mundos possíveis, escolheu este?

4. Se Deus não cessa de intervir sobre o mundo (como atestam os milagres), por que deixa que os bons sofram e os maus sejam felizes?

5. Se Deus é plenitude infinita, que necessidade teria de criar um mundo finito e imperfeito?

6. Se Deus é puro espírito e se uma causa só pode produzir um efeito de mesma natureza que ela, como explicar a origem da matéria?

Muito prezada Viviane,
Salve Maria. 

     Você me põe dificuldades que você julga “insolúveis”. E me exige que não argumente com base na afirmação de que “tal é a vontade de Deus”.
     
Com gosto lhe respondo, ou melhor, lhe repito explicações já dadas no site Montfort, respondendo a essas mesmas questões “insolúveis” para um “ateu” como você me diz que é.
 
     Compreendo bem que para um ateu como você, essas questões sejam “insolúveis”.
     Vamos, pois, à solução delas.      
     Pergunta-me você:
       
“1. Se Deus é onisciente, então sabe eternamente que o homem pecará e não é possível compreender que o puna por aquilo que, de antemão, sabe que ele fará”.
       
     Deus criou o homem livre — com liberdade psicológica –, chamada também de livre arbítrio.
     Você, por exemplo, livremente se diz “ateu”. Você escolheu essa posição doutrinaria livremente.
     Por que Deus criou o homem livre?
     Porque só se pode premiar quem é livre. Não se pode premiar uma cadeira pelo fato de que ela nunca saiu do lugar em que a colocaram numa sala. Só se pode premiar quem escolhe e faz o bem livremente.
     Então Deus criou seres inteligentes e livres para que Ele pudesse premiá-los.
     Ora, sendo os anjos e os homens livres, eles podem fazer o bem ou deixar de fazê-lo (omissão) ou fazer o contrário do bem (o pecado) livremente. Aos que fazem livremente o bem, Ele dará prêmio. Aos que livremente pecam, Ele dará castigo.
     Você argumenta ainda que, sendo Deus onisciente, Ele sabe eternamente quem pecará. E sugere que Deus não deveria criar esses homens, que Ele sabe que pecarão. 
 Já respondi a esse sofisma muitas vezes. Repito a explicação, porque, se lhe pedir que você procure as explicações que já dei sobre isso, você livremente deixará de procurá-las. Então livremente as respondo de novo.
 
a) O fato de que Deus conhece eternamente tudo, não significa que Ele conhece antecipadamente o que o homem livremente vai escolher, pois Deus não está no tempo. Deus tudo sabe no agora eterno em que Ele existe.
       
b) O saber eterno de Deus não é a causa do agir livre do homem no tempo. É a ação livre do homem que produz o conhecimento de Deus.
 
    Assim como um professor conhece, desde o primeiro dia de aula, que um aluno está fraco em certa matéria ou que não tem capacidade de aprendê-la, ou outro que é vagabundo e não quer aprendê-la, ainda que o professor se esforce por ajudar esse alunos, eles tomarão bomba – serão reprovados–, ou porque não têm competência ou por não quererem estudar. Não é o saber antecipado do professor (que está no tempo) que vai causar a reprovação do aluno. Será o oposto: esses alunos serão reprovados por culpa própria.
 
c) Dou-lhe ainda outra explicação:
 
   Na equação x = 3.y, o valor de x variará conforme o valor de y.
 
    Se y = 1, x valerá 3
    Se y = 2, x valerá 6
    Se y valer 3, x valerá 9 e etc.
    Nessa equação, x será a variável dependente de y. Y será a variável independente.
    Assim também, o saber eterno de Deus é a variável dependente, enquanto a ação livre do homem é a variável livre, independente.
 
d) Dou-lhe mais um argumento:
 
Se estamos no alto de um monte, e vemos um cego caminhando para um abismo, sabemos que, se ele continuar em sua caminhada, ele irá cair no abismo e que vai morrer. Nós gritamos ao cego que ele pare, porque há um abismo mais adiante à sua frente,
Se o cego recusar atender a nosso aviso, e continuar a caminhar na mesma direção, ele cairá no abismo e morrerá. Mas não morrerá porque sabíamos do fim que ele ia ter. Ele livremente quis continuar em sua marcha em direção ao abismo, e ele quis isso livremente, apesar de nossos avisos.
Assim também, Deus a avisa continuamente para deixar de ser atéia. Caso você não mude, sofrerá as consequências de sua livre escolha.
 
     Sua segunda pergunta “insolúvel” é:
 
“2. Se Deus é onipotente e infinitamente bom, como explicar a existência do mal, isto é, como uma causa infinitamente boa pode dar origem à sua negação?”
 
     Deus é bom e tudo o que existe, enquanto ser, é bom.
     Existir é um bem. Se o mal existisse, enquanto ser, ele teria o bem da existência. Logo não seria mau substantivamente.
     Por isso, se lê na Sagrada Escritura que Deus viu que todas as coisas que Ele fez eram boas, e que o conjunto do que Ele fez era “muito bom” (valde bona).
     O mal então não existe como ser.
     Mal é a falta de existência do que devia existir ou a falta de ordem.
     Assim, se me falta um braço, isso é um mal. Para o homem, não ter asas não é um mal, porque a natureza humana não exige ter asas. Isso é um mal para uma gaivota.
     Mal é a falta de ser. O mal não é ser. O mal não é metafísico. Não é ontológico. O mal, como coisa, como ser, não existe.
     Pode haver mal como falta de ordem.
     Assim, se tenho uma orelha no meio de minha fronte, isso será um mal. Se o veneno da cobra estiver em minhas veias, isso será um mal para mim. Mas, o veneno da cobra, na boca da cobra, não é um mal, mas um bem porque lhe serve de defesa. Como coisa, esse veneno pode ser bem usado, por exemplo, como vacina.
     O que pode existir é o mal moral, isto é podem existir ações más. E ações não são substantivos. São verbos. Verbo é a palavra que indica uma ação e não uma substância.
     Assim, roubar é um mal moral. É uma ação má. Assassinar é pecado, porque é uma ação má.
     Agir mal é inverter a ordem dos bens. Por exemplo: o que é roubar?
     Roubar é amar mais o dinheiro (bem menor) do que a justiça (bem maior).
     O ladrão coloca o dinheiro acima da justiça,
 
                   Dinheiro $ (bem menor)
Roubar =   ————————————–
                     Justiça (Bem Maior)
 
     Por isso roubar, isto é, pegar o que é dos outros, não pagar o que se deve, não pagar o que se prometeu pagar, é pecado.          
     O ladrão é mau moralmente. Mas, enquanto homem ele, por ter um corpo bom, saudável, forte, por ter uma alma inteligente (e isso é bom) ele é bom como ser. Mas é mau moralmente, por suas ações.
     Portanto, Deus nada fez de mal. Ele tira do mal moral um bem. Por exemplo, até de perguntas sofísticas, Deus tira um bem: a explicação que estou dando, que lhe poderá fazer bem, caso você as aceite livremente. Ademais, outros leitores poderão bem aproveitar respostas boas para perguntas más.
 
     Vamos, então, à sua terceira pergunta – que não é má. E é até bem útil:
 
“ 3. Se Deus possui infinita liberdade para escolher o melhor, por que, entre todos os mundos possíveis, escolheu este?”
 
     Deus fez este mundo à sua imagem e semelhança, para que através das qualidades das coisas criadas compreendêssemos suas qualidades em grau infinito.
     Deus poderia criar muitos outros mundos. Criou este, porque, como bom mestre, escolhe os melhores meios para fazer compreender o que Ele quis nos ensinar. Não se multiplicam ações desnecessárias, mas apenas as convenientes e suficiente para o fim almejado.
 
    E agora sua quarta pergunta – um pergunta bem velha e não “insolúvel”, pois que Deus a respondeu nos Salmaos e no livro de Jó.
 
4. Se Deus não cessa de intervir sobre o mundo (como atestam os milagres), por que deixa que os bons sofram e os maus sejam felizes?
 
    Sendo Deus bom e justo, Ele deve premiar todo bem que o homem faz livremente.
    Ora, até gente assassina pode fazer algum bem natural, como por exemplo, cuidar da mãe na velhice. Deus então precisa premiar esse bem. Vendo que a pessoa má não vai se emendar, Deus então recompensa os bens materiais que os maus fazem dando-lhe saúde, vida longa e dinheiro nesta vida. Pelo contrário, Deus dá dores e cruzes para os bons, para que eles sofram já na terra o castigo de seus pecados, a fim de premiá-los com o bem eterno na outra vida. Deus dá cruzes aos bons como penitência, para lhes dar a recompensa na outra vida.
     Por isso, os bons sofrem dores e humilhações nesta vida e os maus na outra vida.
     Cristo sofreu. Nero gozou e teve fama…
     Mas… Na outra vida…
     Além disso, os bons sofrem por amor às almas dos maus para que se emendem, porque o amor se vê na capacidade de sofrer por amor do outro.
     Quem é mau tem ódio do bem, tem inveja do homem bom, e, por ódio o acusa caluniosamente. Podendo, o escarnece, difama e humilha, como os fariseus fizeram com Jesus.
 
     Quinta pergunta “insolúvel”:
 
“5. Se Deus é plenitude infinita, que necessidade teria de criar um mundo finito e imperfeito?”
 
     Deus nada criou por “necessidade”.
     Deus criou tudo por amor.
     Deus não podia criar outro ser infinito. Necessariamente a criatura tinha que ser finita.
     Deus não pode criar outro Deus, porque este segundo seria criado. Portanto inferior a seu Criador.
     Perfeito significa completo, acabado. Deus tudo fez perfeito. Os defeitos são causados pelo homem.
     Perfeito absoluto só pode ser Deus. Deus não pode fazer outro ser absoluto igual a Ele mesmo, pois que, como já disse, esse Absoluto criado seria menos que o absoluto criador.
 
     Finalmente sua última pergunta “insolúvel”:
 
“6. Se Deus é puro espírito e se uma causa só pode produzir um efeito de mesma natureza que ela, como explicar a origem da matéria?”
 
     Como ficou provado anteriormente, Deus só poderia fazer criaturas finitas, portanto menos que ele mesmo enquanto ser. Deus como causa de tudo tinha que fazer criaturas finitas, mas semelhantes a Ele mesmo.
     E Ele fez o universo com seres puramente espirituais (os anjos) puros espíritos como Deus, mas finitos; depois fez os homens, inferiores aos anjos, porque os homens embora tenham alma espiritual têm um corpo animal; por isso fez animais que se movem por instinto, e não pensam; a seguir fez os vegetais que tem vida, mas não instintos e nem movimento; por fim fez os minerais que apenas existem, como pura matéria.
     Como você vê minha cara Viviane, o universo possui desde seres puramente espirituais (os anjos) até seres puramente materiais (as pedras). Há, pois, no universo, uma gama ordenada de seres que refletem a Deus em graus diversos:
     Deus então criou todas as coisas desde um pedregulho até o sol. Desde uma formiga até o elefante. Do grão de areia até a Virgem Maria. E tudo fala dEle. Por isso é preciso compreender o canto das criaturas.
     E criou também a nós dois. Você para me por perguntas “insolúveis”. E a mim, velho professor cansado, mas ainda e sempre pronto para a luta, para procurar lhe ajudar, respondendo com paciência e com meu pouco saber às perguntas que lhe pareciam insolúveis. E por isso também Deus seja louvado que nos fez com boca para falar, e com ouvido para ouvir.
     Que Deus a faça então bem ouvir, e que a converta. E a mim que me ajude a bem responder, para que faça o bem que me for possível. E seja Deus sempre louvado por todo o bem que existe e que Ele só faz.
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli
 

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