Montfort Associação Cultural

24 de janeiro de 2005

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Sobre a vida de Deus na alma

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Sérgio
  • Localizaçao: – Brasil

Orlando Fedeli, Gostaria que o Sr. me explicasse o significado da Conversa de Jesus com Nicodemus, em João 3:1-15, sobre o “novo nascimento”. De que maneira a Igreja procede para que uma pessoa possa nascer da água e do Espírito? Por que, quem não nascer, não poderá ver o Reino de Deus? Quando uma pessoa é nascida da água e do Espírito?

Obrigado, Sérgio

Muito prezado Sérgio, salve Maria.

Obrigado por seu bom desejo a meu respeito.

Ao nascer começamos a ter uma nova vida. É claro que a criança, no seio da mãe, já tinha vida. Mas o nascer, o vir à luz, significa, de certo modo, principiar uma nova vida por participar da vida humana manifestamente.

Assim, é como se houvesse, com o nascimento, uma nova vida.

Com efeito, há, de fato, vários tipos de vida: a vida vegetal das plantas, a vida animal, a vida humana. Em nossa vida humana mesmo, podemos distinguir a simples vida biológica da vida racional, e na vida racional podemos distinguir a vida intelectual. Acima da vida humana existe a vida angélica. E, finalmente, Deus que é VIDA.

Ora, Deus bondosamente concedeu a Adão o dom de participar da vida divina, de participar da vida da própria Divindade. Essa participação da vida divina foi dada a Adão gratuitamente, sem mérito, pela pura bondade de Deus e, por isso, se chama graça santificante.

Por meio dessa graça santificante, Deus passou a habitar na alma de Adão. Não entenda que Deus passou a fazer parte de Adão. Deus não passou a ser um elemento constitutivo de Adão. Apenas habitava em sua alma.

Faço-lhe duas comparações para que você compreenda melhor.

Se colocamos um ferro no fogo, ele fica em brasa. O fogo entra no ferro, mas o ferro continua ferro. O ferro adquire apenas duas qualidades naturais do fogo: a luz e o calor. Mas continua a ser substancialmente ferro. Assim Adão, ao receber a graça santificante, a vida de Deus em sua alma, Adão continuou simples homem. Mas participando da vida divina, tornou-se semelhante a Deus.

Outra comparação pode ser feita com o ar.

A luz penetra no ar e o ilumina totalmente. Mas o ar continua composto apenas de oxigênio, nitrogênio, etc. e não é composto de luz. Embora a luz penetre profundamente no ar, não passa a ser parte constitutiva do ar. O ar iluminado continua a ser simplesmente ar com luz. Mas ar apenas.

Adão perdeu a graça santificante, a vida de Deus em sua alma, quando ele pecou. Pôde recuperá-la pelo arrependimento perfeito, tendo em vista os futuros méritos de Cristo, mas não pôde entrar no céu, até que Jesus pagasse efetivamente a dívida do pecado do homem, através da Redenção pela cruz, no Calvário.

Foi a redenção de Cristo no Calvário que nos obteve, de novo, a possibilidade de recebermos a graça santificante, a vida divina na alma, pelo Batismo. Se voltamos a perder a vida divina, na alma, pelo pecado mortal, recebemo-la, de novo, pelo sacramento da confissão.

A vida divina em nós é então a graça santificante que recebemos no Batismo. Porque no Batismo recebemos uma vida que não tínhamos. O Batismo nos dá um novo nascimento: o nascimento à vida divina, à vida sobrenatural, porque é uma vida superior à nossa natureza. Quando estamos em estado de graça, somos semelhantes a Deus, pois que temos a Ele vivendo em nossa alma, como o ferro no fogo.

Se o ferro em brasa pudesse falar, ele poderia dizer: “Já não sou eu que existo, é o fogo que existe em mim”. Como São Paulo disse: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”.

Quando estamos em estado de graça, Deus vive em nossas almas, e tudo o que fazemos então, fazemo-lo com Cristo e, por isso, tudo o que fazemos em estado de graça tem valor infinito, por causa de Cristo Deus, que vive então em nossa alma.

Quando pecamos, perdemos essa vida divina, perdemos a semelhança com Deus. Daí o horror do pecado: quem peca recusa ter a Deus em sua alma. Expulsa Deus de si, por amor a uma criatura. O pecado nos faz perder a vida divina em nós, pela graça. Daí o pecado ser chamado de mortal. Ele dá a morte a nossa alma.

Por isso, Cristo Senhor disse a Nicodemos que era preciso nascer, de novo, pela graça do Batismo para uma vida superior, a vida divina, através da água (do Batismo) e do Espírito Santo, cujos dons e carismas nos são concedidos, ao mesmo tempo que a graça santificante, quando somos batizados.

É isto que significa então “nascer de novo”: nascer para a vida divina.

Esperando tê-lo esclarecido, coloco-me à sua disposição para esclarecimentos ulteriores.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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