Montfort Associação Cultural

5 de dezembro de 2011

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Sobre a oração: sermão de São João Crisóstomo

Publicamos esta belíssima homilia de São João Crisóstomo, em tradução de um amigo da Montfort, para nos fortalecer no espírito de oração neste tempo do Advento do Senhor.

 

Homilia sobre a oração

 

Primeira Homilia

 

            Duas razões me convidam a admirar e mais ainda a estimar os bem-aventurados servos de Deus: primeiramente, porque eles colocaram todas as suas esperanças de salvação na santidade da oração: em segundo lugar, porque eles conservaram por escrito os hinos e as orações que ofereciam a Deus com alegria e temor, e que nos transmitiram seu tesouro com a finalidade de inspirar o mesmo zelo a toda posteridade. É conveniente, portanto, que os costumes dos mestres passem aos discípulos, é conveniente que os ouvintes dos profetas tornem-se imitadores de sua justiça a fim que nós consagremos a nossa vida à oração, a honrar e a servir a Deus; dirigindo-nos a Ele, com uma alma inocente e pura, por nossa vida, nossa saúde, nossas riquezas, e pelo aumento da graça.

 

O que a luz do sol é para o corpo, a oração é para a alma: se é uma infelicidade para o cego não ver o sol, que infelicidade não será para o Cristão não rezar incessante, e não atrair a luz de Cristo para a alma? E, entretanto, quem não consideraria com surpresa e admiração a caridade que Deus nos demonstra e a honra que ele concede aos homens de a Ele se voltarem pela oração e com Ele conversarem? Pois é verdadeiramente com Deus que nós falamos durante a oração, a qual, além disso, nos reúne aos anjos e nos eleva bem acima da nossa bruta condição.

A oração é o ato dos Anjos; ela supera mesmo a sua dignidade, pois a dignidade angélica é inferior à dignidade do encontro com Deus. Esta inferioridade, por consequência, os anjos nos ensinam pelo profundo temor com que eles oferecem suas orações a Deus; ensinando a nós mesmos, quando nos aproximarmos de Deus, a estar diante dele com temor e alegria; com temor, pois nós poderemos ser indignos da oração; com alegria, pois devemos ser preenchidos desta honra incomparável que nos é concedida: uma raça mortal sendo admitida a um favor tão alto como conversar com Deus, e de se elevar por este meio acima da corrupção e da morte. Mortais por nossa natureza, pela familiaridade com Deus nós nos aproximaremos de uma condição imortal.        Assim, qualquer um que fale frequentemente com Deus torna-se certamente mais forte que a morte e a corrupção. Do mesmo modo que não temos nada de comum com as trevas quando somos iluminados pelos raios do sol, assim aquele que goza da familiaridade de Deus deve ser necessariamente superior à morte. A honra deslumbrante com a qual nós somos gratificados nos conduz à imortalidade.

Se as pessoas que possuem a consideração do imperador não podem cair na indigência; ainda com maior razão é impossível que as almas que conversam com Deus sejam submetidas à morte. A morte para a alma é a impiedade e uma vida de prevaricações: por consequência, a vida para a alma consistirá em servir a Deus e em uma conduta relacionada a este serviço. Ora, a oração santifica a nossa vida, torna-a digna do culto de Deus, e acumula em nossa alma admiráveis riquezas. Vós que estais encantados com a virgindade, vós que preferiríeis uma união casta e honrosa, se vos falta domar o ressentimento, praticar a doçura, expulsar a inveja, ou praticar outra virtude, se a oração vos guia e vos aplaina o caminho, vós começareis com facilidade e prontidão, uma carreira de piedade. E ela se realizará, somente, se pede- se a Deus, pela oração, a castidade, a justiça, a doçura, a bondade, que não foram ainda alcançadas. “Pedi, dizia Nosso Senhor, e vos será dado, buscai e achareis, batei e a porta se abrirá; pois todo aquele que pede recebe, aquele que busca encontra, e a porta se abre àquele que bate – Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? Se vós, pois que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem.”  (MT VII, 7 , LUC XI 10-13)

É por estas palavras,é por estas esperanças que o Senhor do Universo nos convida a rezar. Fica a nossa parte então, para obedecer a Deus, de passar nossa vida dizendo orações e louvores, e de nos ligarmos mais estreitamente ao culto de Deus que à nossa própria vida. Aquele que não reza, e que não deseja gozar sempre destes encontros, é um cadáver, que não tem nem alma nem sentimento. Um dos sinais mais evidentes de estupidez é, de fato, não entender a grandeza desta dignidade, de não amar e de não considerar como a morte da alma é a indiferença de oferecer a Deus as homenagens devidas.

Assim como o corpo separado da alma é somente cadáver e podridão, assim nosso coração quando não se abandona à oração é somente um cadáver miserável e infecto. Que a privação da oração deve ser considerada mais amarga que a morte, o grande profeta Daniel nos ensinou de forma bem clara, ele que preferira morrer que passar três dias sem rezar. E não foi por impiedade que o rei dos persas lhe impôs esta ordem, mas unicamente para ter três dias inteiros para seu próprio culto. Sem a assistência divina, nenhum bem entraria em nossas almas. Deus, pela sua assistência, partilha nossas penas e as torna mais leves, quando Ele vê que nós amamos a oração, que nós imploramos a Ele assiduamente, e que esperamos obter por esta via toda espécie de bens.

Quando eu vejo uma alma que não ama a oração e que não tem por ela uma afeição viva e ardente, é uma prova para mim que não há nada de grande nesta alma. Quando eu vejo, ao contrário, que não se sacia nunca de honrar a Deus, e que coloca entre o número de suas grandes infelicidades a de não poder rezar constantemente, eu descubro nesta alma o culto sólido de todas as virtudes e o templo mesmo de Deus. Se, segundo o sábio Salomão, a veste de um homem, sua conduta, seu sorrir, publicam o que ele é, com maior razão as orações e a piedade serão um índice de uma justiça perfeita: vestes espirituais e divinas, elas espalham em nós a graça e a beleza. Elas ordenam a vida de cada um de nós, não permitindo que nenhum sentimento de malicia ou de loucura reine em nossos corações; elas nos enchem de temor a Deus e das honras que ele nos concede, nos ensinam a espantar todas as ilusões do espírito perverso, a afugentar os pensamentos indignos e vergonhosos, e nos inspiram a todo o desprezo dos prazeres. É o único orgulho que convém aos servos de Cristo de se negar a servir à ignomínia, e de conservar sua alma pura e livre.

Por fim, todo mundo entende com facilidade, acredito, a impossibilidade absoluta de praticar a virtude sem a oração, e de praticá-la durante toda a vida. E como praticar a virtude, se não se vai se prostrar frequentemente aos pés Daquele que as entrega e doa? Como desejar sinceramente ser casto e justo, se não se é feliz de estar com Aquele que nos concede estas virtudes e ainda outras? Eu quero vos mostrar brevemente que, fôssemos cobertos de pecados, a oração logo nos purificaria deles. Após isto, o que poderia haver de mais nobre, mais divino que a oração, pois que ela é para os doentes espirituais um soberano remédio? Em primeiro lugar, são os Ninivitas que nos aparecem como aqueles que foram livres pela oração dos inumeráveis crimes contra Deus. Desde que a oração penetrou em seus corações, ela trouxe consigo a justiça arrancou em um momento da cidade a impureza, a iniquidade, e as prevaricações nas quais ela estava mergulhada; mais forte que os costumes inveterados, ela aí estabeleceu o reino das leis celestes, e implantou consigo a castidade, a humanidade, a mansidão, e o cuidado dos pobres.

É o cortejo sem o qual a oração não habitaria em uma alma: em todas as almas onde ela estabelece sua morada, ela traz consigo toda a justiça, ela as forma para a virtude banindo o vício. Se alguém entrou na Cidade de Nínive, conhecendo o que ela era em outros tempos, certamente não a reconheceria, vê-se como a passagem de uma vida de crimes à piedade foi rápida. Assim também não reconheceria uma mulher pobre e coberta de farrapos, se a reencontrasse em seguida coberta de ricas vestes; logo alguém que viu antigamente Nínive em sua indigência e pobreza de tesouros espirituais, tivesse ignorado o que foi esta cidade, onde a oração renovou a moral e todos os costumes, e que por ela foi introduzida na virtude. Também uma mulher, após passar toda sua vida na impureza e na imoralidade, somente por se jogar aos pés de Cristo, obteve a salvação.

 Mas a oração não se limita a apagar os pecados, ela conjura os perigos e os males presentes. Davi, rei e profeta igualmente admirável, obteve pela oração numerosas e difíceis vitórias; entregando aos seus soldados esta única arma, a oração, e lhes permitindo  vencer na segurança e na calma. Os outros reis confiavam suas esperanças de vitória à habilidade e à experiência dos generais e dos arqueiros, da sua infantaria e dos seus cavaleiros; mais o grande rei Davi dava como escudo ao seu exército, as santas orações: ele não voltava seu olhar sobre o orgulho de seus generais e dos chefes de sua infantaria e de sua cavalaria, ele não acumulava riquezas e nem se preocupava com as armas; era do Céu que ele esperava todas as armas divinas. Pois a oração é em verdade um arsenal divino e celeste, e não há necessidade de outros meios para proteger eficazmente os que se abandonam à conduta de Deus. Constantemente, a habilidade e a coragem da infantaria, a experiência e a artimanha dos arqueiros são desconcertadas pela vigilância do inimigo, pela força dos adversários, por vários outros meios. Quanto à oração, é uma arma irresistível, um escudo impenetrável, que repele um soldado e milhares de legiões com a mesma facilidade. Este Davi triunfou sobre Golias, e se precipitou sobre ele como um demônio terrível, não pela espada ou por meio de armas, mas pela oração.

 Assim, a oração é para os reis uma arma temível contra os demônios. Assim o rei Ezequias triunfou na guerra contra os persas sem mesmo ter posto o exército na campanha, somente utilizando a oração conta a multidão dos seus inimigos. Assim, ele escapou da morte se prostrando com uma piedade tocante diante do Senhor, de modo que somente a oração chamou este príncipe à vida. O exemplo do publicano nos prova ainda que a oração purifica com facilidade a alma pecadora; pois, tendo pedido a Deus o perdão de suas faltas, ele o obteve logo; nós o aprendemos ainda pelo exemplo do leproso, que se apresentando diante de Deus, foi curado imediatamente. Se Deus dá a cura imediatamente ao corpo doente, com maior razão ele a dará misericordiosamente à alma sofredora: tanto a alma sobressai em excelência sobre o corpo que Deus atende com mais solicitude. Seria fácil de citar uma infinidade de traços antigos e recentes, se se quisesse enumerar todos os homens que deveram sua salvação à oração.

Uma destas pessoas negligentes, que não têm nenhum zelo nem fervor na oração, colocará talvez objeções a estas palavras do Salvador: “Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.” (MAT VII, 21) Se eu pretendesse que a oração bastasse para a nossa salvação, com muita razão me oporiam estas palavras: como eu reconheço na oração a fonte de todos os bens, o fundamento e a raiz de toda a vida virtuosa, que não se vá usar estas palavras para se justificar da negligência. Nem a castidade sozinha e privada dos outros bens, não saberia nos salvar, nem mesmo o cuidado com os pobres, nem a bondade, nem qualquer outra virtude; é preciso que todas elas permaneçam em nossas almas. Ora, é a oração que lhes serve de fundamento e principio. Assim como a  solidez de um vaso e de um edifício depende da solidez das partes inferiores, assim nossa vida recebe sua consistência da oração: sem a oração nada de bom, nada de útil à salvação nos seria concedido.

É por esta razão que Paulo não cessa de nos exortar com insistência. “Sede perseverantes e vigilantes na oração, acompanhada de ações de graças. Orai sem cessar em todas as circunstâncias, dai graças, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo. Rezai continuamente pelo Espírito, multiplicando invocações e súplicas. Perseverais em vossas vigílias, suplicando pelos cristãos” (Col IV 2 IThess V 17 18 Eph VI 18).  Por estas presentes e divinas palavras, o grande apóstolo nos convida à oração. Pois que nós somos seus discípulos, não cessemos, durante nossas vidas, de rezar e de regar continuamente nossas almas com seu frescor.

Pois a oração não nos é menos indispensável, a nós homens, que a água é para as árvores. Nem as árvores, podem produzir frutos se elas não bebem por meio de suas raízes, assim nós mesmos não poderemos produzir o fruto precioso da piedade fora das águas da oração.

 Também é preciso que, ao levantar do leito, ofereçamos a Deus nossas homenagens, e que o ofereçamos do mesmo modo no momento da refeição ou à hora de dormir: preferencialmente, a todo o tempo nós deveríamos oferecer a Deus uma oração e observar esta regra durante o dia inteiro. No inverno, consagremos à oração a maior parte da noite, dobremos os nossos joelhos com temor e recolhimento profundo, e procuremos a alegria no culto divino. Como, eu vos pergunto, vós olhareis o sol, sem antes ter adorado Aquele que envia aos vossos olhos esta luz tão doce?  Como podeis comer sem ter adorado o autor e distribuidor de tantos bens? Com qual esperança abordareis o tempo noturno, e a quais sonhos esperareis se, em lugar de revestir a armadura da oração, vós vos jogais sem nenhum cuidado no sono? Tornareis-vos facilmente o brinquedo e vítima dos demônios perversos, que rondam sem parar e esperam a ocasião em que  poderão nos surpreender, e retirar rapidamente de nosso meio aquele que não possui as armas da oração. Quando eles nos vêem protegidos pela oração, logo se afugentam, como se fossem bandidos e malfeitores percebendo a espada do soldado suspendida sobre suas cabeças. Quando encontram alguém desnudado da oração, eles o agarram, o carregam e o precipitam no pecado, nos desastres e em todos os males.

 Que o temor destes perigos nos determine a sempre nos munirmos das armas defensivas dos louvores e orações, afim de que Deus, tendo piedade de todos nós, nos faça merecedores do Reino dos Céus, pelo seu Filho único ao qual seja a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amem.

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