Montfort Associação Cultural

31 de janeiro de 2005

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Sobre a intercessão dos santos

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Eugênio Palma Avelar
  • Idade: 46
  • Localizaçao: Montes Claros – MG – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação concluída
  • Profissão: Professor
  • Religião: Católica

Caríssimos:

No exercício do magistério,sou, às vezes,interpelado e contestado por protestantes das mais diversas denominações. Acabei descobrindo que em síntese, apenas duas questões afastam as pessoas mais simplórias do catolicismo.
A primeira refere-se à intercessão dos santos, porque remete ao espiritismo e à idolatria – o culto às imagens.
A segunda refere-se ao primado de Pedro e à fundação da Igreja Católica Apostólica Romana. O argumento,de origem Batista, é sobejamente conhecido: O imperador Constantino seria o “fundador jurídico” da Igreja. A intenção óbvia é justificar a fundação da Igreja deles, fazendo-as remontar ao que chamam de “Igreja Primitiva” – também de origem apostólica – sem hierarquias,dogmas.Apenas “comunidades orantes” cujo fundamento é a frase bíblica que diz que “onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome…”
Via de regra,costumo refutar bem as acusações de idolatria, com fundamentação bíblica, já que eles não aceitam a Tradição. Costumo citar a ressureição de um comerciante assassinado,quando em contato com os ossos de Eliseu.Também é fácil comprovar biblicamente, a intercessão dos fiéis – da igreja militante ou gloriosa. A intercessão se dá COM CRISTO, POR CRISTO E EM CRISTO,como se depreende das cartas de São Paulo.
Há aproximadamente uma semana, debati com dois neopentecostalistas, utilizando os argumentos supracitados, além daquela passagem bíblica: “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso”. Não foi suficiente, porque refutaram -me dizendo que o “hoje” de Deus é atemporal, já que Deus também o é. Citaram-me também a parábola do pobre Lázaro e do rico Epulão: “É impossivel que um de nós vá aí atender-te, ó sedento, como também é impossível que um de vós vir até aqui, porque há um abismo entre nós”.Assim, mesmo que São Dimas tenha ido para o céu, de forma alguma poderia comunicar-se conosco ( ainda que não estejamos no inferno ).
Em resumo, gostaria de merecer dos senhores,o obséquio de descobrirem – de preferência no Novo Testamento – argumentos que comprovem que os santos JÁ GOZAM EFETIVAMENTE DA GLÓRIA DE CRISTO. Em outras palavras: Que não será preciso esperar “no limbo” até o Juízo Final, para desfrutarmos da visão beatífica.Outrossim, gostaria de ter acesso a documentos históricos que provem a transmissão do poder papal de São Pedro para São Lino, deste para Santo Anacleto, deste último para São Clemente I e assim a todos os papas pré-constantinopolitanos.Se for trabalhoso o meu pedido, peço indicar-me outras fontes, já que não sou biblista nem exegeta.
Por último, uma sugestão: Concentrem o seu esforço apologético nos pontos citados por mim.Digo isto como humilde sugestão apenas; extraída da minha vivência e não da força dos estudos e títulos acadêmicos, já que não os possuo. Em Jesus e Maria,
Eugênio Palma Avelar

Muito prezado Professor Eugênio,
Salve Maria!

 
    Com prazer li, e atendo, a carta que me mandou. Lendo-a, lembrei-me de meus debates com protestantes, comunistas e ateus em meu tempo de magistério.

    Deus o ajude sempre em seu apostolado, fazendo com que tenha muitos frutos.

    Sobre a intercessão dos santos, aconselho que você comece provando que já no Antigo Testamento ela aparece muito claramente.Portanto, é verdadeira. Por que teria isso mudado no Novo Testamento?
   
    Para provar que os santos zelam e intercedem pelos vivos, você argumentou muito bem citando o caso dos ossos de Eliseu, que ressuscitaram um morto (IV Reis, XIII, 21). 

    Poder-se-iam citar outras passagens ainda.
   
    Lembro-lhe, antes de tudo, que Deus se dizia o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, o Deus DOS VIVOS, quando eles já estavam mortos.

“Lembra-te de Abraão, de Isaac e de Israel, teus servos, a quem por ti mesmo juraste” (Ex. XXXII, 11).

     No livro de Jó se lê que Deus disse aos amigos de Jó que o recriminavam injustamente:

“Tomai, pois, sete touros e sete carneiros, ide ao meu servo Jó e oferecei um holocausto por vós, e o meu servo Jó orará por vós; admitirei propício a sua intercessão para que não se vos impute essa estultícia” (Jó, XLII, 8).

   Portanto, Deus colocou Jó como intermediário entre Ele e os amigos de Jó.

   Outro exemplo é o de Abraão que intercedeu por Sodoma, e Deus aceitou a sua intercessão (Gen. XVIII, 26-32).

   Também Lot intercedeu por Segor (Gen XIX, 21).E o próprio Deus disse a Abimelec:

“Agora, pois, entrega a mulher a seu marido, porque ele [Abraão] é profeta; e rogará por ti e tu viverás (Gen XX, 7).

    Portanto, Deus anuncia que Abraão será intercessor por Abimelec e que Deus, por isso, o atenderá.

    E no livro dos Números se lê que Moisés intercedeu pelo povo e que Deus o atende:

“Entretanto levantando-se uma murmuração do povo contra o Senhor, como de quem se queixava de fadiga. O Senhor, tendo ouvido isso, irou-se. E o fogo do Senhor, aceso contra eles, devorou uma extremidade do acampamento. O povo tendo chamado Moisés, Moisés orou ao Senhor e o fogo extinguiu-se” (Num. XI, 1-3).

     E quando Israel combatia, se Moisés intercedia pelo povo, Deus dava a vitória às armas de Israel;

E quando Moisés tinha as mãos levantadas, Israel vencia, mas se as abaixava um pouco, Amalec levava vantagem” (Ex. XVII, 11).
   
      No Novo Testamento você poderá ler que os dois primeiros milagres de Cristo foram feitos a rogo de Nossa Senhora, por intercessão da Virgem Maria.

   O primeiro milagre de Cristo, na ordem da graça foi o perdão do pecado original em São João Batista, antes que ele nascesse.

   Quando a Virgem Maria logo depois da encarnação de Cristo, foi visitar sua prima Santa Isabel, foi só ouvir a voz de Maria para que fosse feito um milagre em São João Batista no seio de Santa Isabel:

“Aconteceu que, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou em seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Exclamou ela em alta voz e disse: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto de teu ventre. Donde me vem a mim esta dita, que mãe de meu Senhor venha a ter comigo?” (Luc. I, 41-44).

   E o primeiro milagre de Cristo na ordem natural foi a transformação da água em vinho em Caná da Galiléia, milagre que Ele fez a pedido da Virgem Maria (Jo. II, 1-10).

   Deus faz assim porque quer que nos amemos mutuamente por amor de Deus, e peçamos e intercedamos uns pelos outros as graças de que temos necessidade.

   E ainda, na passagem do rico e Lázaro, onde o pobre vai para o seio de Abraão, no céu. O pobre Lázaro não fica “dormindo”aguardando o dia do Juízo final, no fim do mundo (S. Lucas, XXIII, 42-43), como você  bem lembrou.

    E o que argumentaram seus contendores protestantes sobre a não comunicação se refere à impossibilidade de sair do inferno e a incomunicabilidade dos condenados com os vivos. E, depois, deve-se notar que não comunicação não significa impossbilidade de intercessão.

   Portanto as almas dos santos não estão “dormindo”, ignorando o que acontece, mas, ao contrário, estão junto a Deus, e com mais razão ainda — pois não podem mais pecar ou desobedecer a Deus em absolutamente nada — podem interceder pelos seus parentes, amigos, pela Igreja, e mesmo pela conversão daqueles que nem imaginam ou que negam que isso seja possível.

    Quanto ao  ”hoje” que Cristo disse ao bom ladrão, de fato, ele significa a eternidade, o dia que não cessa, o hoje eterno.

    Mas, então, aquele “ainda hoje estarás comogo no paraíso” significava que o bom ladrão iria ao ceú com Cristo, gozando desde então a felicidade eterna, e não aguardando por essa felicidade “dormindo” até o fim dos tempos.

    Se São Paulo constantemente pedia a oração dos fiés uns pelos outros, e até por ele, como ao morrer se passa para o HOJE eterno, — que não é um estado de zumbinismo, e sim “o seio de Abraão”, o céu, –é claro que esse poder da oração diante de Deus continua, e é até mais poderoso, após a morte, porque senão teríamos mais poder de inteceder pela oração quando vivos do que quando estivéssemos com Deus no céu, no “seio de Abaraão”.
 
    Por isso, a  Igreja sempre acreditou na intercessão dos que haviam “morrido em Cristo,” isto é, santamente.

    Daí o culto aos mártires desde o tempo das catacumbas. 

    Veja, caro professor Eugênio estas inscrições encontradas nas lápides  túmulares, nas catacumbas:
   
    “Ático, dorme em paz seguro de tua salvação e pede solícito por nossos pecados (Inscrição em lápide, hoje no Museu Capitolino)

    “Vicência, pede em Cristo por Febe e por seu esposo ( Catacumba de São Calixto).
 
    “Sabácio, doce alma, PEDE E ROGA  PELOS IRMÃOS E COMPANHEIROS TEUS” ( Catacumba de São Gordiano).

    “Genciano, fiel, em paz, que viveu 21 anos, 8 meses e 16 dias.    QUE EM  TUAS ORAÇÕES ROGUES POR NÓS, PORQUE TE SABEMOS EM CRISTO” ( Lápide encontrada na via Salária).
 
     E veja, Professor, esta outra inscrição como mostra a crença dos cristãos primitivos no Purgatório:
” Ó Cristo, tem presentes a Marcelino pecador e a Jovino, que sempre vivais em Deus”( Cemitério de São Pedro)
 
     [ Todas estas inscrições estão citadas no livro de Lúcio Navarro, Legítima Interpretação da Bíblia,p. 542]
 
     Quanto à sucessão petrina.

        Como sua dúvida é mais voltada à continuidade do Primado, dou-lhe, a seguir, algumas indicações, tiradas da excelente coletânea de artigos de São Francisco de Sales, reunidas e compiladas sob o título de Controvérsias. Sobre a primazia de Pedro concedida pelo próprio Cristo, favor consultar nosso pequeno artigo “O Primado de Pedro” (www.montfort.org.br/cadernos/primado.html):
        “São Pedro foi o Bispo de Roma, como provam as fontes antigas. Apesar de ter sido antes Bispo de Antioquia, a sucessão dessa Sé não implicava em sucessão papal, mas em sucessão episcopal apenas. E o motivo é simples: São Pedro continuava vivo e em Roma quando se deu a sucessão em Antioquia, e portanto conservava ainda seu poder Papal, condicionando-o a Roma e aos sucessores da capital do Império.
        Pois a sucessão deve se dar para que o poder Papal continue guiando a Igreja. O poder Papal não é pessoal, mas é exercido por aquele que legitimamente sucede São Pedro, que por sua vez recebeu o poder do próprio Cristo.
        Como dissemos, então, Pedro se encontrava em Roma, exercendo seu poder Papal, quando com sua morte se deu a necessidade de sucessão.”
        Assim nos refere S. Irineu (iii, 3): “Para a maior e mais antiga a mais famosa Igreja, fundada pelos dois mais gloriosos Apóstolos, Pedro e Paulo.” e depois “Os bem-aventurados Apóstolos portanto, fundando e instituindo a Igreja, entregaram a Lino o cargo de administrá-la como Bispo; a este sucedeu Anacleto; depois dele, em terceiro lugar a partir dos Apóstolos, Clemente recebeu o episcopado.”
        E citemos ainda Tertuliano (Pr. xxxii): “A Igreja também dos Romanos publica – isto é, demonstra por instrumentos públicos e provas – que Clemente foi ordenado por Pedro.” e no mesmo livro (xxxvi): “Feliz Igreja, na qual os Apóstolos verteram seu sangue por sua doutrina integral!” – e falando da Igreja Romana, “onde a paixão de Pedro se fez como a paixão do Senhor.”
         Eusébio (Chron. ann. 44): “Pedro, de nacionalidade Galiléia, o primeiro pontífice dos Cristãos, tendo inicialmente fundado a Igreja de Antioquia, se dirige a Roma, onde, pregando o Evangelho, continua vinte e cinco anos Bispo da mesma cidade.”
        Epifânio (ii. 27): “A sucessão de bispos em Roma é nesta ordem: Pedro e Paulo, Lino, Cleto, Clemente, etc…”
        Dorotheus (in Syn.): “Lino foi Bispo de Roma após o seu primeiro guia, Pedro.”
        Optato de Milevio (de Sch. Don.): ” Você não pode negar que sabe que na cidade de Roma a cadeira episcopal foi primeiro investida por Pedro, na qual Pedro, cabeça dos Apóstolos, a ocupou.” e um pouco adiante: “Pedro a ocupou primeiro, e a ele sucedeu Lino, e a Lino, Clemente.”
        S. Jerônimo (ad. Dam.): “Com o sucessor do pescador e o discípulo da cruz que eu me comprazo: Eu estou unido em comunhão com Sua Santidade, na cadeira de Pedro.”
        Santo Agostinho (Ep. 53, ad. Gen.): “A Pedro sucedeu Lino, a Lino Clemente.” (todas as citações em: Sales, St. Francis de, The Catholic Controverse, Tan Books and Publishers Inc., USA, 1989, págs. 280-282)
       
        A Enciclopédia Católica também traz mais  referências históricas sobre o assunto, e vale a pena ser consultada para aprofundamento. (http://www.newadvent.org/cathen/)

In Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli

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