Montfort Associação Cultural

31 de julho de 2009

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Só existe repouso em Jesus crucificado

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Sheila
  • Escolaridade: Pós-graduação em andamento

Não é uma crítica nem um agradecimento: é um desabafo.
Tenho quase 40 anos, fui criada em família católica, estudei em colégio católico, participei de grupos católicos, enfim, tenho o catolicismo entranhado nas veias. Mas essa nunca foi uma relação sempre tranquila. Tive (e ainda tenho) muitos momentos de dúvidas e de secura, em que a fé parece me abandonar totalmente. Vivo atualmente um momento assim. Procuro ler e aprofundar o pouco conhecimento teológico que tenho, no intuito de vencer, pelo intelecto, a luta que o meu coração não tem sido capaz de ganhar. Mas parece ainda pior. As dúvidas me angustiam ainda mais, o medo, a solidão… Tudo me desfavorece.
É relativismo pensar que ao homem bastaria seguir os dois principais mandamentos de Jesus (amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo) para encontrar a paz na Terra e a salvação depois da morte? Ou seja, é errado pensar que qualquer pessoa, de qualquer religião (ou até sem religião), que siga esses mandamentos esteja salva? Outra coisa: se Deus é onipotente, onisciente e onipresente, Ele sabe, melhor do que eu mesma, todas as minhas faltas e todas as minhas necessidades. Então, por que devo Lhe pedir? Para quê pedir a Deus uma coisa que Ele, antes mesmo do meu pedido, já sabe que não devo receber (ou o contrário)? Digo, se já é sabido por Ele, antes mesmo da minha concepção, aquilo que terei ou não neste mundo, por que então faço orações pedindo uma açao sua? Se essa ação ocorre, não é por causa da minha oração, mas porque teria de ocorrer, não é verdade? Mais: por que devemos seguir cegamente tudo o que a Igreja diz, se ela é feita por homens que já cometeram erros horrendos no passado e que estão sujeitos a fazer coisas más ainda hoje? Estou atualmente na Itália, estudando, e vejo e ouço coisas muito tristes aqui. O fato de o Vaticano estar ali, bem ao lado, faz com que os italianos se mantenham com um pé muito atrás em tudo o que se refere ao catolicismo. São tantas “politicagens” dentro daquela pequena cidadela! E não há como eu não me sentir triste e ainda mais imersa em dúvidas… A minha fé é muito pouca, quase inexistente – este seria o meu diagnóstico?
Eu sou divorciada e sei que, para a Igreja, o fato de ter um namorado me torna adúltera. Assim, sou eterna pecadora. Sendo eterna pecadora, não posso comungar. Mas um padre pedófilo pode? Aliás, a hóstia consagrada por um padre que atenta contra a inocência de uma criança é realmente transformada na carne de Cristo? E eu, para não ser eterna pecadora, que deveria fazer? Negar-me a chance de ser feliz? Negar que sinto desejo e, para não correr o risco de pecar, enclausurar-me?
Eu me sinto infeliz. Vivo um momento muito turbulento. Em muitas ocasiões, penso que viver é uma obrigação – e não vejo a hora de esta obrigação ter um fim! Não cometeria suicídio, jamais. Não sou tão covarde. Mas vejo na morte a libertação de todas as angústias.
Se estou aqui, escrevendo todas essas coisas, é porque, de alguma forma, ainda acredito que posso sair dessa escuridão… Busco consolo. Busco um pouco de paz. Mas não suporto quando tento conversar com alguém e essa pessoa me dispara um monte de frase pronta de livro de auto-ajuda. Sinto necessidade de algo mais profundo, algo mais místico, algo mais inteligente. Tenho admiração pelos santos João da Cruz e Teresa de Ávila, por tudo o que viveram e que escreveram. Há períodos em que a escuridão me deixa e eu consigo vivenciar a beleza da obra desses dois santos. Mas depois de um tempo tudo volta, todo esse breu, toda essa secura… Eu tento rezar e não consigo. Eu não sinto a oração! Eu não sinto nada! Eu sinto só um vazio imenso…

Muito prezada E., salve Maria!
 
SÓ EXISTE REPOUSO EM JESUS CRUCIFICADO
 
Eis-me aqui, pobre professor, debruçado sobre tua carta e tua angústia. Diante de tua súplica. Súplica comovente e angustiada de uma “filha de Deus”, minha irmã na fé, que nem conheço, e que a mim recorre.
E me vejo impotente, sem forças e sem capacidade, para ajudá-la…
Como poderei eu, sem ao menos conhecer-te, dizer as palavras certas e seguras que te arranquem do abismo em que estás? Como poderá um pecador socorrer a outro?
Mas, como miserável pecador, que um dia alcançou misericórdia, confio que Nosso Senhor completará as palavras que em mim não encontro e que, Ele mesmo, compensará minhas falhas, dizendo-lhe no fundo do coração aquilo que minha incapacidade deixar incompleto.
 
Tua carta bem me comoveu.
E se ela comoveu até um coração miserável como o deste velho professor, impotente para o bem que tento lhe escrever, como então sua carta–súplica deixará sem comoção e sem piedade o Coração dAquele que se inclinou sobre os pecadores confusos e arrependidos? Como não comoverá o Coração de Jesus, do Deus que morreu de amor por nós pecadores?
Porque sua carta pede e implora, mesmo quando diz que não compreende o por quê se deve pedir e implorar. Sim, Deus conhece tua miséria. Mas a misericórdia quer ser rogada pelos miseráveis para lhes fazer misericordosa justiça.
Em tua carta, ao declarares ter-te como infeliz, mesmo levando – em Roma! – a vida de prazer a que te apegas para não te “enclausurar” com Cristo e na sua lei, tua carta é um pedido profundo de ajuda e de perdão. Para te crucificares com Cristo e na sua cruz.
Tu me dizes ter uma fé fracamente bruxoleante… Mas Jesus disse que não veio apagar a tocha que ainda fumega.
Que pede a chama bruxoleante, no seu bruxolear incerto, senão um sopro de misericórdia que a reavive? Para que ela de novo se inflame, brilhe e aqueça?
Flama inflamada é vida.
Brilho da chama é a luz da Verdade.
Calor amoroso da chama é a Caridade.
 
É, pois, nessa tua tocha fumegante que quero – tão fracamente como sou,  tão fortemente quanto possa— soprar, pedindo a Deus que complete meu sopro. E que, como no dia primeiro e virginal da criação, Ele mesmo soprou num corpo de barro e numa costela inerte, sopre Ele mesmo uma Palavra em tua alma. E se de seu sopro surgiram o homem e a mulher “no esplendor da manhã original”, que do sopro que Deus lançar em tua alma, renasça “E”. como na manhã original do teu Batismo.
E onde? E como receber esse sopro de Deus, que renova a nossa alma, senão no confessionário?
Sopro talvez provindo da boca de um padre pecador, mas de cuja boca humana ouvimos as divinas palavras sacramentais: “Eu te perdou os teus pecados, em nome do Pai, e do Filho e do Esp[irito Santo”. O sacerdote pode ser pecador. As palavras dele vêm da Trindade divina.
 
Sua carta, disse-te já, é comovente. E bem escrita.
Deus te galardoou com uma inteligência clara. E tu não escondes de ti mesma a verdade dura. Até sobre ti mesma. Pois que tu não surrupias de teus olhos a tua própria miséria.
Pois saibas tu que é para a miséria dos miseráveis (que se reconhecem como tais) que existe a misericórdia infinita do Coração de Jesus. Pois o Coração de Deus tem sede de nossa misericórdia que suplica.
Pois o que mais deseja quem ama realmente – não com amor material rastejante – mas com amor puramente elevado, que se põe de joelhos, amor feito de justiça e de misericórdia, senão ser atendido?
E que deseja o Coração de misericórdia infinita, senão ser suplicado, para bem atender, e com prontidão de misericórdia, aquele que compreendeu pronta e francamente a sua justiça?
Misericórdia e justiça encontraram-se, e se beijaram na face.
Jesus quer que lhe peçamos o que Ele silenciosamente suplica que lhe peçamos. Tudo Ele nos quer dar por amor pleno de misericórdia. Porque é na miséria reconhecida com justiça pelo pecador que vai repousar com justiça a misericórdia infinita de um Deus, que nos ama infinitamente, até mesmo por causa de nossa miséria bem justamente reconhecida pelos pecadores que somos.
Ó filha de Deus, que O procuras no vazio de tua alma, vazio que só o infinito pode cumular!
Ó filha de Deus, em cuja alma bruxoleia uma tênue chama que clama, em seu próprio apagamento, pelo sopro da boca de Deus. Sopro que é a Sua Palavra, o Verbo eterno que se encarnou no seio de Maria Virgem.
Ó filha de Deus, que imploras teu Pai, como Ele não te ouvirá?
Tua palavra implora uma Palavra. A Palavra. O Verbo.
Escuta, filha de Israel, escuta…
Pede, pede que Ele te dará por misericórdia, o que pedes sem justiça.
Ele mesmo te falará.
Na cruz.
Na cruz, onde se está sempre só, porque quando nela estamos, não há lugar para outro. É preciso, pois antes de tudo, deixar… o outro. Deixar o outro, para que tu te encontres só.
Só.
Contigo.
 Só.
Com Cristo.
Estejas só, para poderes estar para sempre só com Cristo, Paz e Plenitude, no qual se encontra nosso fim que é conhecer e amar a Verdade.
Pois só quando compreendemos que devemos amar a Deus sobre todas as coisas e sobre todos os outros é que nos conhecemos e amamos reta e puramente, unindo-nos à Verdade. Verdade que é tão grande tesouro, Bem infinito, Beleza inefável, que desejamos, então, mais que tudo, honrar Deus-Verdade e dar essa Verdade aos outros.
 
*****
 
Depois desta exortação confusa e pobre, respondo tuas dúvidas concretas que ainda não focalizei diretamente.
 
Vamos pois à primeira que me colocas:
 
É relativismo pensar que ao homem bastaria seguir os dois principais mandamentos de Jesus (amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo) para encontrar a paz na Terra e a salvação depois da morte?”
Não. Isso não é relativismo, desde que se entenda que esses dois mandamentos fundamentais resumem todos os demais mandamentos.
Todos os dez mandamentos estão inseridos no mandamento do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.
Quando buscamos amar a Deus sobre tudo, devemos amar o que Ele é: a Verdade, o Senhor e o Bem. Daí, sermos obrigados a adorar a Deus como nosso único Senhor, Verdade, Bem e Beleza. E este é o primeiro mandamento: aceitar Deus como Verdade, bem e beleza absolutos. Portanto, todo relativismo vai contra o Absoluto.
E porque Ele é Verdade, devemos respeitar a palavra verdadeira que lhe demos e que damos aos homens. Daí, o segundo mandamento: não tomar seu santo nme em vão. E o oitavo mandamento: não prestar falso testemunho. Não caluniar. Não murmurar. Sobretudo, não admitir verdade na faslsidade, isto é, não falsear nosso testemunho sobre Deus, defendendo as falsas religiões, que enganam as almas com meias verdades, que são mentiras inteiras. Portanto, fora da Verdade não há salvação. Fora da única Igreja de Cristo, não há salvação. Só na Igreja Católica Apsotólica Romana está toda a verdade que devemos testemunhar até com o sangue.
Finalmente, para reconhecer Deus como Nosso Senhor, como nosso dono a quem tudo devemos, somos obrigados a obedecer seu terceiro mandamento, oferecendo-lhe um tempo — o domingo — do tempo todo que Ele nos deu para bem usar. Devemos no domingo assistir a missa inteira.
 
E porque Deus é o nosso Criador que nos deu a vida, pois que Ele é A Vida, somos obrigados a amar e honrar, em primero lugar, a quem nos transmitiu a vida: nossos pais (40 Mandamento).
Quando amamos Deus, que nos deu a vida, devemos respeitar as leis que regem a transmissão da vida física: não pecar contra  castidade (60 mandamento); não cometer adultério (90 mandamento); não cobiçar o conjuge alheio (100 mandamento).
E o respeito à vida física exige que não matemos nem a nós, nem a outrem, especialmente aos que não se podem defender, como, por exemplo, os que estão para nascer (aborto é crime) (50 mandamento).
Para manter a vida fisica, não podemos roubar, nem sequer cobiçar injustamente o que é dos outros.
Portanto, todos os dez mandamentos são necessários para a salvação.
 
Toda a lei de Deus exige, então:
1-- a defesa da vida espiritual e intelectiva: a defesa da Verdade, a defesa da Fé;
20 –  a defesa da vida da espécie humana;
30 --  a defesa da vida física.
 
Portanto, normalmente não é possivel se salvar em religiões falsas, a menos que haja ignorância invencível da verdade e respeito pleno da lei natural. E assim respondo tua segunda dúvida.
 
Tua terceira pergunta por que pedir, se Deus sabe o precisamos. Já te respondi: Deus, que nos ama, quer ser rogado, como Pai que ama que seu filho lhe peça o que ele lhe quer dar. O amante ama ser rogado pelo amado.
 
A quarta questão é: “por que devemos seguir cegamente tudo o que a Igreja diz, se ela é feita por homens que já cometeram erros horrendos no passado e que estão sujeitos a fazer coisas más ainda hoje?”
 
Deus poderia ter nos salvado diretamente sem a intermediação de uma Igreja. Mas, se fizesse assim, não teria sido possível que nós cooperássemos na salvaçao dos outros. E, como Ele quer que amemos os outros, fez sua Igreja, divina e humana, para que pecadores e membros da igreja ajudemos a salvar outras almas com a graça de Deus. Deus nos quer como seus auxilires no fazer o bem e na salvação das almas.
Sendo divina, a Igreja é santa e santificadora. Sendo divina, a Igreja não pode errar.
Sendo humana, a Ela pertencemos com nossas poucas virtudes e com nosso muitos pecados e misérias. Mas nossos pecados não afetam a santidade infinita da Igreja, pois que os méritos e santidade de Cristo Deus são infinitos, e o finito não atinge o infinito.
Se pudéssemos ser salvos apenas pelo perdão de padres que fossem santos, como a santidade não é visivel, não teríamos jamais certeza de estarmos recebendo os sacramentos. Deus fez então os sacramentos independentes da virtude do padre, e assim até um padre pedófilo pode salvar uma pecador, dando-lhe a absolvição devidamente. E Cristo fica realmente presente em toda hóstia consagrada, mesmo por um padre criminoso.
O Filho de Deus, no céu, está entre o Pai e o Espírito Santo, e, no presépio, Ele se colocou entre um boi e um burro, lembra o Padre Manuel Bernardes. E, na hóstia, por vezes, Cristo está entre um padre pecador que consagra e nós pecadores que O recebemos em nossa miséria.
 
Finalmente me perguntas:
“Negar-me a chance de ser feliz?”
Não. Esta possibilidade é aquela para a qual sempre Ele nos convida. Somos nós que fugimos da plenitude da felicidade buscando-a no vazio de um prazer, no vazio de um outro, que fazemos nosso ídolo no lugar de Deus, nosso Pai.
A oportunidade de sermos felizes neste mundo existe apenas na aceitação de nossoa cruz.
Lembra-te disto, o minha irmã em Cristo, tu que buscas a felicidade nos tormentos terrenos e nas tuas ilusões, fugindo da felicidade real, que só obtemos no amor à nossa cruz.
Somos nós que corremos atrás da falsa felicidade temporal que jamais sacia, deixando de beber a água da felicidade que está na acietação de toda dor e de toda renúncia.
Um dia, Nosso Senhor caminhou horas e horas, para chegar à hora sexta — ao meio dia - hora de sol escaldante da Samaria, ao poço de Jacó. E lá sentou à beira do poço, ficando à espera de uma pobre mulher samaritana e pecadora, que não sabia que era esperada. A samaritana do poço, mulher que tinha tido seis maridos foi ao poço de Jacó buscar água para seu cântaro vazio. Para o seu coração vazio, ela ainda não procurava água…
Ele estava sedento e cansado de tanto caminhar para procurá-la, a ela que só vinha lá com seu cântaro vazio à procura de água para beber.
E o hino da igreja faz essa samaritana cantar sobre Cristo, sentado à beira do poço:
 
Quaerens me, sedisti lassus,
Redemisti Crucem passus.
Tantus labor non sit cassus”.
 
[ “Procurando por mim, Te sentaste cansado,
Tu me redemiste, sofrendo na Cruz.
Tanto trabalho não Te seja perdido”].
 
O minha irmã em Cristo, que me dizes:
 
Se estou aqui, escrevendo todas essas coisas, é porque, de alguma forma, ainda acredito que posso sair dessa escuridão…
todo esse breu, toda essa secura… Eu tento rezar e não consigo. Eu não sinto a oração! Eu não sinto nada! Eu sinto só um vazio imenso…”.
 
Não vê você nessa treva a promessa do sol que vai renascer? Quando tudo fica em trevas, quando Deus permite que em meio dos prazeres, até em Roma, se sente o nada e o vazio, e a treva e a solidão, em Roma, é que Ele está bem perto “et nox illuminatio mea in deliciis meis”. ( E nessa noite acharei a minha iluminação em minhas delícias).
 “O vere beata nox” [ O verdadeiramente noite feliz] que nos trouxe a luz de nosso Redentor. Porque quando Deus nos permite ver que tudo o que parece bom no mundo é treva, estamos perto de ver a luz.
Ele que nasceu na noite, só nEle está o Sol da Verdade.
“Et in lumine suo videbimus lumen”. Porque na sua luz , veremos a luz da verdade, da qual decorre todo o bem e toda a beleza.
Rogo a Deus que minhas pobres palavras não tenham o sabor oco dos livros de auto-ajuda, que seriam palavras de idolatria. Porque, se algo é falso e mentira, é que podemos nos ajudar a nós mesmos, já que nosso maior inimigo mora dentro de nós: ab homo iniquo et doloso erue me, Domine. Senhor, livra-me do homem iníquo e doloso que mora dentro de mim. Livra-nos Deus de todo humanismo.
Por isso, permita-me concluir com versos feitos por minha esposa e que ofereço à tua meditação.
 
Offrande à Notre Dame
      
Je ne puis vous offrir mon innocence,
Car j´ai, vous le savez, beaucoup péché.
Comment offrir ma pauvre pénitence,
si pleine de paresse et de lâcheté?
Non plus je ne vous offre pas ma force,
Car je ne trouve en moi que faiblesse.
De ma dureté, comment briser l´écorce,
Et comment vous offrir tant de mollesse?
Pourrais-je vous offrir mon grand orgueil,
Ou présenter ma fausse humilité?
Oh plus je cherche et plus j´ai l´âme en deuil,
Car je ne trouve rien pour vous donner.
 
Ma pauvreté est telle, elle est si grande,
Elle est si absolue et si entière,
Qu´en désirant de moi vous faire offrande,
Je ne puis vous offrir que ma misére.
Et tout mon rien, alors, je vous le donne .
C´est le vide, oh Ma Mére qu´il faut combler,
C´est toujours le pécheur que l´on pardonne
C´est le malade qu´il faut bien soigner.
Votre bonté, voilà mon seul appui,
Et voilà mon trésor inépuisable,
Car la miséricorde se réjouit
De faire miséricorde aux misérables.
 
Ivone Fedeli
 
 
Será preciso dizer-te que rezarei à nossa Mãe por ti?
Pois não pode haver dor de alguém que me escreva a que fique eu alheio, e não há angústia de irmão que eu não queira consolar. Por isso, já aguardo com ansiedade tua resposta. E enquanto espero outra carta tua, por ora, vinda da noite, à espera da aurora – que a aurora virá! – me subscrevo como teu irmão em Cristo e na tua dor,
in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli
 
PS.: Pemita atrever-me dar a tradução dessa poesia, caso não conheças o francês, embora desconfie que o sabes muito bem.
 
Oferecimento a Nossa Senhora
 
Não posso vos oferecer a minha inocência,
Porque, vós o sabeis, muito pequei.
Como vos oferecer minha pobre penitência,
tão cheia de preguiça e de covardia?
Também não posso vos oferecer minha força,
Porque encontro em mim apenas fraqueza.
De minha dureza, como quebrar a casca,
E como vos oferecer a minha moleza?
Poderia eu vos oferecer meu grande orgulho,
Ou vos apresentar minha falsa humildade?
Oh quanto mais busco, mais fico com a alma em luto,
Porque nada encontro para vos dar.
 
Minha pobreza é tal, ela é tão grande,
Ela é tão absoluta e tão inteira,
Que desejando de mim mesma vos fazer oferta,
 Só posso vos oferecer a minha miséria.
E todo o meu nada, então, eu vô-lo dou.
É o vazio, oh minha Mãe, que é preciso cumular,
É sempre o pecador que se perdoa,
É do doente que é preciso bem cuidar.
Vossa bondade, eis meu único apoio,
E eis aí meu tesouro inexgotável,
Porque a Misericórdia se rejubila
Em conceder misericórdia aos miseráveis.
 
Ivone Fedeli.

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